Com amor, Simon
Capítulo 32
Simon
<ENVIADO 25 JAN 9:27>
CLICO EM ENVIAR e tento não pensar no assunto, mas fico inquieto e nervoso durante todo o caminho até a escola. E colocar Sufjan Stevens no volume máximo não resolve nada, e deve ser por isso que as pessoas não ouvem Sufjan Stevens no volume máximo. Meu estômago parece estar numa centrífuga.
Primeiro, coloco o figurino do avesso, depois passo dez minutos procurando as lentes, até lembrar que já estou com elas. Atingi o nível de espasmos nervosos de Martin; Brianna demora muito para passar o lápis em mim. E, durante toda a confusão e os discursos de incentivo e o som da abertura, só penso em Blue.
Não sei como consigo passar ileso pela apresentação.
Sinceramente, não me lembro de metade dela.
Depois, tem uma cena melosa no palco, com as pessoas se abraçando e agradecendo à plateia e agradecendo à equipe e agradecendo à orquestra. Todos os formandos ganham rosas, e Cal ganha um buquê, e o buquê da sra. Albright é impressionante. Meu pai chama isso de Festival das Lágrimas da Matinê de Domingo, o que rapidamente inspirou o Inevitável Conflito do Golfe nas Tardes de Domingo. Quem pode culpá-lo?
Mas então penso na sra. Albright esculachando as turmas inteiras de primeiro e segundo anos. E de como parecia furiosa e determinada, jogando o manual do colégio na cadeira.
Eu queria ter levado para ela outro buquê ou um cartão ou uma tiara. Sei lá. Qualquer presente vindo especialmente de mim.
Depois, nos vestimos de novo. E temos que desmontar o cenário.
Tudo demora séculos. Nunca uso relógio, mas fico o tempo todo
olhando a hora no celular. 17h24. 17h31. 17h40. Cada parte de mim se contorce, gira e grita de expectativa.
Às seis, eu saio. Simplesmente passo pela porta. Está quente demais lá fora, e com isso quero dizer que está quente demais para janeiro. Quero ficar menos empolgado, porque quem sabe o que Blue está pensando, e quem sabe em que estou me metendo? Mas não consigo evitar. Estou com uma sensação boa e insistente.
Fico pensando no que meu pai falou: Foi muito corajoso, garoto.
Talvez eu seja corajoso mesmo.
O parque de diversões vira a festa do nosso elenco, e todo mundo vai direto da escola para o shopping. Menos eu. Eu viro à esquerda no sinal e vou para casa. Porque não ligo de ser inverno. Eu quero a camiseta.
Está debaixo do meu travesseiro, macia e branca e bem dobrada, com o muro de espirais vermelhas e pretas e uma foto de Elliott na frente. Em preto e branco, exceto pela mão dele. Eu a visto rapidamente e pego um casaco. Considerando a hora, tenho que ir correndo para o shopping, se quiser chegar às seis e meia.
Só que tem uma coisa dura cutucando meu ombro, naquele ponto que não dá para coçar. Enfio o braço por dentro da camisa. Tem um pedaço de papel preso no tecido. Eu o pego e puxo.
É outro bilhete em papel azul-esverdeado, e começa com um P.S.
Meus dedos tremem enquanto leio.
P.S.: Adoro o jeito como você sorri, sem perceber que está sorrindo. Adoro seu cabelo de quem acabou de acordar. Adoro o jeito como você faz contato visual por mais tempo do que o necessário. E adoro seus olhos cinza-lua. Então, se você acha que não sinto atração por você, Simon, você está maluco.
E, embaixo disso, ele escreveu seu número de celular.
Um formigamento se irradia a partir de algum ponto abaixo da minha barriga. É sufocante, maravilhoso e quase insuportável.
Nunca estive tão consciente dos meus batimentos cardíacos. Blue e sua caligrafia vertical e a palavra adoro repetida várias vezes.
Sem falar que eu poderia ligar agora mesmo e descobrir quem ele é.
Mas acho que não vou fazer isso. Ainda não. Porque, até onde sei, ele pode estar me esperando neste exato minuto. De verdade.
Em pessoa. O que quer dizer que tenho que ir para o shopping AGORA.
* * *
São quase sete horas quando chego lá, e sinto raiva de mim mesmo por estar tão atrasado. Já escureceu, mas o parque está barulhento e iluminado. Adoro esses parques itinerantes. Adoro saber que um estacionamento em janeiro pode ser transformado em Coney Island no verão. Vejo Cal e Brianna e alguns formandos na fila para comprar bilhetes e sigo na direção deles.
Estou com medo de estar escuro demais. E é claro que estou com medo de Blue já ter vindo e ido embora. Mas é impossível ter certeza se não sei quem estou procurando.
Compramos vários bilhetes e vamos em todos os brinquedos.
Tem uma roda-gigante, um carrossel, carrinhos bate-bate e balanços voadores. Encolhemos as pernas no trenzinho e também andamos nele. Depois, compramos chocolate quente e bebemos sentados no meio-fio perto da lanchonete.
Olho para todo mundo que passa, e cada vez que alguém olha para mim e faz contato visual, meu coração dá um nó.
Vejo Abby e Nick sentados na frente dos jogos, de mãos dadas e comendo pipoca. Nick está com um monte de bichos de pelúcia enfileirados ao redor dos pés.
— Não acredito que ele tenha ganhado tudo isso para você —
digo para Abby.
Fico nervoso quando saio andando na direção dela. Não sei como as coisas estão entre a gente.
Mas então ela sorri para mim.
— Nem pensar. Eu é que ganhei para ele.
— É aquele joguinho da grua — diz Nick. — Ela manda muito bem. Acho que está roubando.
Ele a cutuca de lado.
— Vai achando isso mesmo — diz Abby.
Eu dou uma gargalhada tímida.
— Senta aqui com a gente — diz ela.
— Tem certeza?
— Tenho — diz ela, e chega mais perto de Nick para abrir espaço para mim. Em seguida, encosta a cabeça no meu ombro por um momento e sussurra: — Me desculpe, Simon.
— Está brincando comigo, não é? Eu é que peço desculpas. Sinto muito.
— Ah, eu pensei no assunto, e você ganha um crédito quando está sendo chantageado.
— É mesmo?
— É — diz ela. — E porque não consigo ficar com raiva quando estou tão loucamente feliz.
Não consigo ver o rosto de Nick, mas ele bate a ponta do tênis na sapatilha dela. E eles se aproximam ainda mais.
— Vocês vão ser um casal bem meloso, não vão?
— Provavelmente — diz Nick.
Abby olha para mim e pergunta:
— Então essa é a camiseta?
— O quê? — pergunto, corando.
— A camiseta que o Bêbado Alcoolizado me fez atravessar a cidade para buscar.
— Ah. É.
— Imagino que haja uma história por trás dela.
Eu dou de ombros.
— Tem a ver com o cara que você está procurando? — pergunta ela. — Tem um cara na história, não tem?
Eu quase engasgo.
— O cara que estou procurando?
— Simon — diz ela, colocando a mão no meu braço. — É óbvio que você está procurando alguém. Você não para de olhar para os lados.
— Humpf — resmungo, escondendo o rosto.
— Você sabe que não tem problema ser um pouquinho romântico, né? — diz ela.
— Não sou romântico.
— Então tá. — Abby ri. — Esqueci que você é tão cínico quanto Nick.
— Ei, o que foi que eu fiz? — pergunta Nick.
Abby chega perto dele, mas olha para mim.
— Espero que você o encontre, tá?
Tá.
* * *
Mas são oito e meia e eu ainda não o encontrei. Ou ele não me encontrou. É difícil saber o que pensar.
Ele gosta de mim. O bilhete dizia basicamente isso. Mas foi escrito duas semanas atrás. Isso quase me mata. Duas semanas com a camiseta debaixo do meu travesseiro, e não fazia ideia do que havia preso dentro dela. Sei que já foi dito, mas sou um idiota colossal.
Em duas semanas, ele pode ter mudado de opinião a meu respeito. O parque fecha dali a meia hora, e todos os meus amigos já foram para casa. Eu também devia ir. Mas tenho mais alguns bilhetes, e gasto a maioria em jogos. Guardo o último para a Xícara Maluca. Acho que é o último lugar onde eu encontraria Blue, e o evitei a noite inteira.
Não tem fila nenhuma, e eu entro direto no brinquedo. A Xícara Maluca tem cabines de metal com telhados em forma de domo, além de um volante de metal no meio que faz a cabine girar. E o brinquedo em si também gira depressa, com o objetivo de deixar as pessoas tontas. Ou talvez o objetivo seja esvaziar sua cabeça.
Estou sozinho na xícara. Duas garotas se espremem na cabine ao lado da minha, e o controlador vai fechar o portão. Quase todas as outras cabines estão vazias. Eu me recosto e fecho os olhos.
De repente, uma pessoa aparece ao meu lado.
— Posso sentar aqui? — pergunta ele, e eu abro os olhos de repente.
É o fofo do Bram Greenfeld, de olhos delicados e panturrilhas de jogador de futebol.
Eu solto a corrente da cabine para ele entrar. E dou um sorriso para ele. É impossível não sorrir.
— Gostei da camiseta — diz ele, e parece nervoso.
— Obrigado — digo. — É do Elliott Smith.
— Eu sei — diz Bram.
Tem alguma coisa na voz dele. Eu me viro para ele devagar, e seus olhos são grandes e castanhos, e estão totalmente abertos.
Há uma pausa. Ainda estamos olhando um para o outro. Estou com uma sensação diferente na barriga, algo como um fio sendo esticado.
— É você — digo.
— Sei que estou atrasado — responde ele.
De repente, há um som de metal arrastado, um sacolejo e uma música alta. Alguém grita e ri, e o brinquedo ganha vida.
* * *
Os olhos de Bram estão bem fechados, e o queixo está tenso. Ele está num silêncio completo. Tampa o nariz e a boca com as mãos.
Eu seguro o volante de metal com as duas mãos, mas ele fica fazendo uma rotação no sentido horário, por conta própria. Parece que o brinquedo quer girar. E gira e gira.
— Me desculpe — diz ele quando o brinquedo para, e a voz está fraca, os olhos ainda fechados.
— Tudo bem. Você está bem?
Ele assente, expira e diz:
— Estou. Vou ficar.
Saímos do brinquedo e chegamos ao meio-fio, e ele se inclina para a frente e coloca a cabeça entre os joelhos. Eu me sento ao lado dele, sentindo-me constrangido, nervoso e quase bêbado.
— Tinha acabado de ver seu e-mail — diz ele. — Eu tinha certeza de que não encontraria mais você.
— Não consigo acreditar que é você.
— Sou eu. — Ele abre os olhos. — Você não sabia mesmo?
— Nem desconfiava.
Eu observo. Os lábios se encostam de leve, como se o mais suave dos toques fosse capaz de abri-los. As orelhas são um pouco grandes, e ele tem duas sardas na maçã do rosto. E os cílios são mais dramáticos do que eu já tinha reparado.
Bram se vira para mim, e eu desvio o olhar.
— Achei que tinha sido bem óbvio — diz ele.
Balanço a cabeça.
Ele olha para a frente.
— Eu meio que queria que você descobrisse.
— Então por que não me contou?
— Porque… — diz ele, e a voz falha um pouco.
Estou doido para tocar nele. Sinceramente, eu nunca quis tanto uma coisa na vida.
— Porque, se você quisesse que fosse eu, acho que teria descoberto sozinho.
Não sei como reagir a isso. Não sei se é verdade ou não.
— Mas você não me deu pistas — digo, por fim.
— Dei, sim — diz ele, sorrindo. — Meu endereço de e-mail.
— Bluegreen181.
— Bram Louis Greenfeld. Meu aniversário.
— Meu Deus. Sou um idiota.
— Não é, não — diz ele, com delicadeza.
Mas sou. Sou um idiota. Eu estava querendo que ele fosse Cal. E
acho que imaginei que Blue seria branco. Quase quis dar um soco em mim mesmo por causa disso. Branco não devia ser o padrão, assim como hétero não devia ser o padrão. Não devia existir nenhum padrão.
— Desculpe — digo.
— Por quê?
— Por não ter descoberto.
— Mas seria totalmente injusto da minha parte esperar isso — diz ele.
— Você adivinhou quem eu era.
— Ah, é — diz ele. E olha para baixo. — Acho que já suspeitava havia algum tempo. Mas, na verdade, eu só enxerguei aquilo que queria.
Enxergar aquilo que queria.
Acho que isso significa que Bram queria que fosse eu.
Meu estômago se revira, e minha cabeça fica confusa. Limpo a garganta.
— Acho que eu não devia ter falado nada sobre o meu professor de literatura.
— Não teria adiantado.
— Não?
Ele abre um sorrisinho e se vira.
— O seu jeito de falar é quase igual ao seu jeito de escrever.
— Não é possível.
Estou muito sorridente agora.
Ao longe, eles começam a fechar os brinquedos e a desligar as luzes. Há certa beleza e um pouco de horror em uma roda-gigante parada e apagada. Depois do parque, as luzes se apagam nas vitrines das lojas. Sei que meus pais estão em casa me esperando.
Mas chego mais perto de Bram, até nossos braços estarem quase se tocando, e sinto que ele está tremendo um pouco. Nossos dedos mindinhos estão a uns dois centímetros de distância, e é como se uma corrente elétrica invisível passasse entre eles.
— Mas como você é um presidente? — pergunto.
— O quê?
— O primeiro nome igual ao de um antigo presidente.
— Ah — diz ele. — Abraham.
— Ahhh.
Ficamos em silêncio por um momento.
— E não consigo acreditar que você foi na Xícara Maluca por minha causa.
— Devo gostar mesmo de você.
Eu me inclino na direção dele e sinto o coração na garganta.
— Quero segurar sua mão — digo, baixinho.
Porque estamos em público. Porque não sei se ele saiu do armário.
— Então segure — diz ele.