Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 21 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 21

E… acho que vou calar a boca agora.

Com amor,

Blue

<ENVIADO 26 DEZ 22:42>

 

É O SÁBADO pós-natal, e a Waffle House está lotada de gente velha, crianças e pessoas aleatórias sentadas no balcão lendo jornais impressos de verdade. As pessoas gostam mesmo de ir lá tomar café da manhã. Acho que, tecnicamente, é um restaurante de café da manhã. Nossos pais vão dormir até mais tarde, então estamos só eu e minhas irmãs, e estamos encostados em uma parede esperando uma mesa.

Passamos uns vinte minutos lendo coisas aleatórias no celular.

Mas aí, Alice diz:

— Ah, oi.

Ela está olhando para um cara sentado a uma mesa do outro lado do salão. Ele levanta a cabeça e sorri e acena para ela. É estranhamente familiar, magro e com cabelo castanho encaracolado.

— Aquele é…?

— É Carter Addison. Ele se formou um ano antes de mim. É um cara muito legal. Na verdade, Bub, acho que talvez você devesse conversar com ele, porque…

— É. Vou embora — digo.

Acabei de perceber por que Carter Addison é tão familiar.

— O quê? Por quê?

— Porque sim.

Estico a mão, pronto para pegar a chave do carro. Assim que ela me entrega, saio do restaurante.

Estou no banco do motorista com o iPod ligado e o aquecedor no máximo, tentando escolher entre Tegan and Sara e Fleet Foxes. De repente, a porta do passageiro se abre e Nora entra.

— O que deu em você? — pergunta ela.

— Nada.

— Você conhece aquele cara?

— Que cara?

— Aquele com quem Alice está conversando.

— Não.

Nora me encara.

— Então por que fugiu assim que o viu?

Eu me recosto no banco e fecho os olhos.

— Eu conheço o irmão dele — explico.

— Quem é o irmão dele?

— Sabe aquela postagem do creeksecrets?

Nora arregala os olhos.

— Aquela sobre…

— É.

— Por que ele escreveria uma coisa daquelas? — pergunta Nora.

Eu dou de ombros.

— Porque ele gosta da Abby, mas é um imbecil e acha que ela gosta de mim. Sei lá. É uma história complicada.

— Que escroto — diz Nora.

— É — retruco, surpreso.

Nora nunca se referiu a ninguém dessa forma.

Levo um susto com alguém batendo na janela; me viro e vejo o rosto furioso de Alice.

— Saia — ordena ela. — Eu dirijo.

Eu vou para o banco de trás. Não ligo.

— O que foi aquilo tudo? — pergunta ela, olhando pelo retrovisor enquanto sai da vaga de ré.

— Não quero falar sobre isso.

— Ah, é só que foi meio estranho tentar explicar para o Carter por que meu irmão e minha irmã saíram correndo assim que o viram. —

Ela entra na Roswell Road. — O irmão dele estava lá, Bub. É do seu ano na escola. Marty. Ele me pareceu legal.

Eu não digo nada.

— E eu queria muito comer waffle hoje — diz ela, de mau humor.

— Deixa pra lá, Allie — diz Nora.

A frase fica no ar. Outra coisa que Nora nunca faz é contrariar Alice.

Seguimos em silêncio pelo resto do caminho.

* * *

— Simon, a geladeira do porão. Não depois. Não em um minuto.

Agora — diz minha mãe —, senão a festa está cancelada.

— Mãe. Para. Eu vou fazer. — Sério. Não tenho noção de onde ela tirou que isso é uma festa. — Você sabe que Nick, Leah e Abby já vieram aqui umas cinco zilhões de vezes.

— Tudo bem, mas dessa vez você vai deixar o porão apresentável, senão vai passar o ano-novo no sofá, espremido entre mim e seu pai.

— Ou a gente vai para a casa do Nick — murmuro.

Minha mãe está subindo a escada, mas se vira para olhar para mim.

— Não vai, não. E, por falar em Nick... Seu pai e eu discutimos isso, e queremos sentar com você e conversar sobre ele dormir aqui. Não estou preocupada com hoje, pois as garotas vão estar, mas estamos pensando nas próximas…

— Ai, meu Deus, mãe, para. Não quero falar disso agora.

Nossa. Como se Nick e eu não conseguíssemos ficar no mesmo quarto sem começarmos a fazer sexo selvagem freneticamente.

Todo mundo chega às seis, e acabamos acomodados no sofá velho do porão comendo pizza e vendo reprises de The Soup.

Nosso porão é uma espécie de cápsula do tempo, com um carpete cor de caramelo e prateleiras com Barbies, Power Rangers e Pokémons. Também tem um banheiro e uma pequena lavanderia com geladeira. É aconchegante e incrível.

Leah está sentada na ponta do sofá, depois estamos eu e Abby.

Nick está na outra ponta, mexendo nas cordas do violão velho de Nora. Bieber choraminga do alto da escada, e ouço passos acima de nós. Abby está contando uma história sobre Taylor; aparentemente, Taylor disse alguma coisa irritante. Estou tentando

rir nas horas certas. Acho que estou meio pilhado. Leah só presta atenção na televisão.

Quando acabamos de comer, corro para abrir a porta para Bieber, que quase tropeça na escada, entrando na sala feito uma bala de canhão.

Nick coloca a TV no mudo e toca uma versão lenta e acústica de

“Brown Eyed Girl”. Os passos no andar de cima param, e ouço alguém dizer: “Nossa. Que lindo.” É uma das amigas de Nora. A voz de Nick tem um efeito sobrenatural em garotas do nono ano.

Nick está sentado bem perto de Abby no sofá, e acho que sinto ondas de pânico irradiando de Leah. Ela e eu estamos no chão, fazendo carinho na barriga de Bieber. Ela não falou nada até agora.

— Olha esse cachorro — comento. — Zero vergonha. Está praticamente dizendo: “Passem as mãos em mim.”

Estou sentindo uma pressão estranha para ser mais alegre e falante do que o normal.

Leah passa os dedos pelos cachos da barriga de Bieber e não responde.

— Ele tem boca de garrafa de Coca-Cola — observo.

Ela me olha.

— Acho que isso não existe.

— Não?

Às vezes esqueço o que é invenção da família Spier e o que é real.

E então, do nada e sem mudar de entonação, ela diz:

— Tiraram aquela postagem.

— Eu sei — respondo, e sinto um tremor nervoso nas entranhas.

Ainda não tinha falado sobre a postagem do Tumblr com Nick e Leah, mas sei que eles viram.

— Mas não precisamos falar sobre ela — diz Leah.

— Tudo bem.

Olho para o sofá. Abby está encostada nas almofadas com os olhos fechados e um sorriso nos lábios. A cabeça está inclinada na direção de Nick.

— Você sabe quem escreveu? — pergunta Leah.

— Sei.

Ela me olha, esperando que eu conte.

— Não importa — acrescento.

Ficamos em silêncio por um momento. Nick para de tocar, mas cantarola e batuca na madeira do violão. Leah enrola o cabelo e o deixa cair de novo. Olho para ela, mas sem encará-la.

— Sei o que você quer me perguntar — digo.

Ela dá de ombros e sorri de leve.

— Eu sou gay. Essa parte é verdade.

— Tudo bem — diz ela.

Percebo de repente que Nick parou de cantarolar.

— Mas vou deixar para falar disso num outro dia. Enfim. Vocês querem sorvete?

Eu me levanto.

— Você acabou de contar pra gente que é gay? — pergunta Nick.

— Foi.

— Tudo bem — diz ele.

Abby lhe dá um tapa.

— O quê?

— Isso é tudo que você vai dizer? “Tudo bem”? — pergunta ela.

— Ele falou que não queria falar sobre isso — afirma Nick. — O

que devo dizer?

— Alguma palavra de apoio. Sei lá. Ou segure a mão dele meio sem jeito, como eu fiz. Qualquer coisa.

Nick e eu nos olhamos.

— Eu não vou segurar sua mão — digo para ele, abrindo um sorrisinho.

— Tudo bem — retruca ele, assentindo —, mas saiba que eu seguraria a sua.

— Ahhh, assim é melhor — diz Abby.

Leah se vira de repente para Abby.

— Simon já tinha contado para você?

— Ele, hã, contou — responde Abby, olhando para mim rapidamente.

— Ah — diz Leah.

E ficamos em silêncio.

— Eu vou pegar o sorvete — digo, e vou para a escada; Bieber vem logo atrás, quase me atropelando.

* * *

Horas depois, o sorvete foi comido, a contagem regressiva foi feita e meus vizinhos gastaram todos os fogos de artifício. Eu olho para o teto do porão. É feito de estuque, e, no escuro, a textura forma imagens e rostos imaginários. Todo mundo levou um saco de dormir, mas, em vez de usá-los, empilhamos cobertores, lençóis e travesseiros no tapete.

Abby, ao meu lado, está dormindo, e ouço Nick roncando. Os olhos de Leah estão fechados, mas ela respira como se estivesse acordada. Acho que seria errado cutucá-la para descobrir. Mas, de repente, ela rola para o lado, suspira e abre os olhos.

— Ei — sussurro, rolando o corpo na direção dela.

— Ei.

— Você está com raiva?

— Do quê?

— De eu ter contado para a Abby primeiro.

Ela fica em silêncio por vários segundos e diz:

— Não tenho o direito de ficar com raiva.

— Como assim?

— Isso é um problema seu, Simon.

— Mas você tem direito a ter emoções.

Se tem uma coisa que aprendi com uma mãe psicóloga, foi isso.

— Mas a questão aqui não sou eu.

Ela rola e fica de costas, colocando um dos braços embaixo da cabeça.

Não sei o que dizer. Ficamos em silêncio por um minuto.

— Não fique com raiva — digo.

— Você achou que eu reagiria mal ou que não aceitaria?

— Claro que não. Meu Deus, Leah, não. Isso nem passou pela minha cabeça. Você é a mais… Foi você quem me apresentou a Harry e Draco. Isso nunca foi uma preocupação.

— Tudo bem, então. — A outra mão dela está em cima da barriga, subindo e descendo a cada respiração. — E para quem mais você contou?