Com amor, Simon

Becky Albertalli · Capítulo 27 de 38

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Com amor, Simon

Capítulo 27

Podemos fingir que nada disso aconteceu e voltar ao normal?

Simon

<ENVIADO 12 JAN 00:18>

 

ISSO NÃO QUER dizer que vou parar de pensar no assunto.

Passo o domingo inteiro no quarto, alternando entre The Smiths e Kid Cudi no volume máximo, e nem ligo se meus pais vão achar que estou enlouquecendo. Por mim, eles podem se incomodar o quanto quiserem. Tento fazer com que Bieber fique comigo na cama, mas ele fica andando de um lado para o outro, então o levo para o corredor. Mas ele choraminga, pedindo para voltar.

— Nora, pega o Bieber — grito, mas ela não responde.

Mando uma mensagem de texto.

Ela responde: Pega você. Não estou em casa.

Onde você está? , escrevo. Odeio essa novidade de Nora nunca estar em casa.

Mas ela não responde. E estou me sentindo pesado e apático demais para me levantar e pedir a minha mãe.

Fico olhando para o ventilador de teto. Então Blue não vai me contar quem é, o que significa que vou ter que descobrir sozinho.

Estou repassando a lista de pistas já faz algumas horas.

O primeiro nome igual ao de um presidente e de um personagem desconhecido de uma história em quadrinhos. Metade judeu.

Escreve superbem. Fica nauseado com facilidade. Virgem. Não vai a festas. Gosta de super-heróis. Gosta de Reese’s e Oreo (ou seja, não é idiota). Pais divorciados. É o irmão mais velho de um feto. O

pai mora em Savannah. O pai é professor de literatura. A mãe é epidemiologista.

O problema é que estou começando a perceber que não sei quase nada sobre ninguém. Eu sei de um modo geral quem é virgem. Mas não faço ideia se os pais da maioria das pessoas são

divorciados, ou qual é a profissão deles. Os pais de Nick são médicos, mas não sei o que a mãe de Leah faz, e muito menos qual é o problema com o pai dela, porque Leah nunca fala sobre ele. E

não sei por que o pai de Abby ainda mora em Washington. E esses são meus melhores amigos. Sempre me achei fofoqueiro, mas acho que só com coisas idiotas.

Na verdade, é terrível, agora que parei para pensar.

Mas não adianta. Porque, mesmo que eu desvende o mistério, isso não muda o fato de que Blue não está interessado. Ele descobriu quem eu sou. E agora tudo está diferente, e não sei o que fazer. Falei para ele que entendo se ele não se sentir atraído por mim. Tentei fazer parecer que não me importo.

Mas eu não entendo. E, obviamente, me importo.

Isso é uma merda, mesmo.

* * *

Na segunda-feira, tem um saco plástico de supermercado preso na porta do meu armário, e a primeira coisa que me ocorre é que se trata de uma coquilha. Consigo imaginar um atleta idiota me dando uma coquilha suada como grande gesto de humilhação e babaquice. Sei lá. Talvez eu esteja paranoico.

Mas não é uma coquilha. É uma camiseta com o logotipo de Figure 8, um álbum do Elliott Smith. Em cima dela tem um bilhete:

“Suponho que Elliott saiba que você teria ido aos shows dele se pudesse.”

O bilhete está escrito em papel azul-esverdeado com caligrafia perfeitamente reta, sem nem sombra de inclinação. E é claro que ele se lembrou do segundo “t” em Elliott. Porque ele é Blue. Ele lembraria.

A camiseta é de tamanho médio, tem maciez de roupa usada e tudo nela é incrível e completamente perfeito. Por um momento louco, penso em procurar um banheiro e trocar de roupa na mesma hora.

Mas eu me obrigo a parar. Porque é estranho. Porque ainda não sei quem ele é. E a ideia de ele me ver com a camiseta me deixa

meio envergonhado, por algum motivo. Assim, deixo dobrada na sacola e coloco no armário. Em seguida, saio flutuando pelo corredor, em um torpor nervoso e feliz.

Quando vou para o ensaio, há um abalo sísmico. Não entendo direito. Mas tem alguma coisa a ver com Cal. Ele está saindo do auditório para ir ao banheiro na hora que eu chego, e para um minuto na porta. Nós sorrimos um para o outro e continuamos andando.

Não é nada. Não foi nem um momento. Mas uma explosão de raiva toma conta do meu peito. Meu corpo todo fica tenso. E tudo porque Blue é um covarde. Ele pendura a droga de uma camiseta na porta do meu armário, mas não tem coragem de se aproximar pessoalmente.

Ele estragou tudo. Agora, tem um cara adorável com uma franja incrível que talvez goste de mim, e não adianta de nada. Não vou sair com Cal. Provavelmente, nunca vou ter um namorado. Estou ocupado demais tentando não me apaixonar por alguém que não é real.

* * *

O resto da semana passa voando, e é cansativo. Os ensaios duram uma hora a mais por dia agora, o que quer dizer que estou jantando em pé na bancada da cozinha tentando não derrubar migalhas nos meus livros. Meu pai diz que sentiu minha falta esta semana, ou seja, está triste porque teve que gravar The Bachelor. Não tive notícias de Blue e também não mandei nenhum e-mail.

Sexta é um dia importante. Falta uma semana para a estreia, e vamos apresentar Oliver! duas vezes durante a semana: uma para os alunos do primeiro ano pela manhã, e outra para os do segundo e do terceiro, à tarde. Temos que chegar à escola uma hora antes para nos aprontarmos, o que significa que Nora vai ter que ficar esperando no auditório. Mas Cal a coloca para trabalhar, e ela parece satisfeita de prender fotos do elenco na parede do pátio, ao lado de algumas imagens do filme de Mark Lester e de uma lista superampliada do elenco e da equipe.

Os bastidores são o melhor tipo de caos. Adereços somem do nada, pessoas andam de um lado para o outro usando partes do figurino, e os vários prodígios musicais de Creekwood estão repassando a abertura. É nosso primeiro dia apresentando a peça com a orquestra, e, só de ouvi-los ensaiando, tudo parece bem mais real. Taylor já está vestida e maquiada, e fica nas coxias fazendo um aquecimento vocal esquisito que ela mesma inventou. Martin não consegue encontrar a barba.

Visto o primeiro de três figurinos, que consiste em uma camisa bege desgrenhada e grande demais com uma calça enorme de amarrar, e descalço. Duas garotas colocam coisas no meu cabelo para deixar bagunçado, que é o equivalente a colocar sapatos de salto em uma girafa. Depois, elas me dizem que tenho que passar lápis de olho, coisa que detesto. Já é ruim o bastante ter que usar lentes de contato.

A única pessoa em quem confio para fazer isso é Abby, que me coloca em uma cadeira perto da janela, no camarim das meninas.

Nenhuma delas se importa com a minha presença ali, e nem é porque sou gay. Os camarins costumam ser abertos para todos, e quem desejar mais privacidade pode trocar de roupa no banheiro.

— Fecha — diz ela.

Eu fecho os olhos, e as pontas macias dos dedos de Abby tocam levemente a minha pálpebra. Em seguida, tenho a sensação de que estão desenhando na minha pele, porque, sem brincadeira, pintar o olho não é nada mais do que um traço de lápis.

— Estou ridículo? — pergunto.

— Nem um pouco — diz ela.

Ela fica em silêncio por um minuto.

— Tenho uma pergunta para você — digo.

— O quê?

— Por que seu pai está em Washington?

— Ele ainda está procurando emprego aqui.

— Ah. Ele e seu irmão vão se mudar para cá?

Ela passa a ponta do dedo na beirada da minha pálpebra.

— Meu pai vai, em algum momento. Meu irmão é calouro na Howard.

Ela assente, estica a outra pálpebra e delicadamente começa a passar o lápis.

— Me sinto idiota por não saber disso — digo.

— Por que você se sentiria idiota? Acho que nunca comentei nada.

— Mas eu nunca perguntei.

A pior parte é quando ela faz a parte de baixo, porque tenho que ficar de olhos abertos, e odeio quando coisas encostam nos meus olhos.

— Não pisque — diz Abby.

— Estou tentando.

Ela coloca a ponta da língua um pouquinho para fora. Abby está cheirando a baunilha e talco.

— Pronto. Deixa eu ver.

— Estou pronto? — pergunto.

Ela para, me avalia e diz:

— Quase.

Em seguida, me ataca com pós e pincéis, praticamente uma ninja da maquiagem.

— Uau! — exclama Brianna ao passar.

— Né? — diz Abby. — Simon, não me leve a mal, mas você está meio que ridiculamente lindo.

O que me leva a quase ter um torcicolo de tão rápido que viro para me olhar no espelho.

— O que você acha? — pergunta ela, sorrindo.

— Estou estranho — respondo.

É meio surreal. Não estou acostumado com meu rosto sem óculos, e, com os olhos pintados, a impressão geral é: OLHOS.

— Espere só até Cal ver — comenta Abby, baixinho.

Eu balanço a cabeça.

— Ele não é…

Mas não consigo concluir o raciocínio. Não consigo parar de me observar.

* * *

A primeira apresentação do dia é um sucesso, embora a maior parte dos alunos use o tempo para dormir mais umas duas horinhas. No entanto, alguns alunos estão superempolgados por estarem perdendo o primeiro e o segundo tempos, o que os torna a plateia mais incrível de todas. A exaustão de semanas desaparece, e sou movido por adrenalina, gargalhadas e aplausos.

Tiramos os figurinos, e todo mundo fica feliz quando a sra.

Albright elogia nossa performance. Somos liberados para almoçar com as pessoas de fora da peça. Fico um pouco animado de ir almoçar com a maquiagem ainda intacta. E não só por estar, segundo Abby, ridiculamente lindo. Mas, de certa forma, é incrível ser identificado como parte do elenco.

Leah é obcecada por maquiagem de olho.

— Caramba, Simon.

— Você não adorou? — pergunta Abby.

De repente, me bate uma vergonha. Não ajuda em nada o fofo do Bram estar olhando para mim.

— Eu não tinha ideia de que seus olhos eram tão cinzentos —

observa Leah. Ela se vira para Nick, incrédula. — Você sabia?

— Não — responde ele.

— O contorno é meio cor de carvão — continua ela. — No meio é mais claro, e ao redor da pupila é quase prateado. Mas um prateado-escuro.

— Cinquenta tons de cinza — diz Abby.

— Que nojo — retruca Leah, e ela e Abby trocam sorrisos.

É praticamente um milagre.

Nós nos reunimos novamente no auditório depois do almoço, para que a sra. Albright nos lembre quanto somos incríveis, depois vamos para os bastidores vestir o figurino da primeira cena. É meio corrido dessa vez, mas acho que gosto dessa agitação. A orquestra se aquece de novo, e um falatório preenche o auditório conforme os alunos vão se acomodando.

Estou realmente animado com a próxima apresentação. Porque é para a minha turma. Porque Blue vai estar em algum lugar da plateia. E, por mais irritado que eu esteja com ele, ainda gosto de pensar que ele está assistindo.

Fico ao lado de Abby e espio a plateia por um vão entre as cortinas.

— Nick está ali — diz ela, apontando para o lado esquerdo do auditório. — E Leah. E Morgan e Anna estão atrás deles.

— Não está na hora de começar?

— Não sei — diz Abby.

Eu me viro para espiar o lugar onde Cal está, em frente a uma mesa na coxia. Ele está com fones de ouvido e um pequeno microfone curvado na frente da boca, e no momento está franzindo a testa e assentindo. De repente, se levanta e sai andando na direção do auditório.

Olho novamente para a plateia. As luzes ainda estão acesas, e as pessoas estão apoiadas nos encostos das cadeiras, gritando umas com as outras. Algumas fizeram bolinhas de papel com o programa e estão jogando-as para o alto.

— Os nativos estão inquietos — comenta Abby, sorrindo na penumbra.

Sinto um toque no meu ombro. É a sra. Albright.

— Simon, você pode vir comigo um minuto?

— Claro.

Abby e eu nos entreolhamos.

Sigo a sra. Albright até o camarim, onde Martin está esparramado em uma cadeira de plástico, enrolando a ponta da barba no dedo.

— Sente-se — diz ela, fechando a porta.

Martin me olha como se estivesse me perguntando o que está acontecendo.

Eu o ignoro.

— Aconteceu uma coisa bem chata — começa a sra. Albright lentamente —, e eu queria falar com vocês sobre isso primeiro.

Acho que vocês têm o direito de saber.

Estou com uma sensação ruim. A sra. Albright olha para um ponto atrás da gente por um segundo, depois pisca e nos encara. Ela parece exausta.

— Alguém alterou a lista do elenco no pátio e mudou o nome dos personagens de vocês dois para uma coisa imprópria.

— Para o quê? — pergunta Martin.

Mas na mesma hora eu entendo. Martin faz o papel de Fagin. Eu estou listado como “garoto de Fagin”. Algum gênio deve ter achado que seria hilário cortar os Is e os Ns, para nos chamar de “fag”, um termo pejorativo em inglês para gay.

— Ah — diz ele, decifrando um momento depois.

Trocamos olhares, e ele revira os olhos. Por um momento, quase parece que somos amigos de novo.

— É. E tinha um desenho. Enfim — diz a sra. Albright —, Cal está retirando a lista agora, e em um minuto vou lá fora ter uma conversinha com seus adoráveis colegas.

— Você vai cancelar a apresentação? — pergunta Martin, com as mãos nas bochechas.

— Você gostaria que eu fizesse isso?

Martin olha para mim.

— Não, está tudo bem. Não precisa — digo.

Meu coração está martelando no peito.

Não sei. Não quero pensar em nada disso. Mas tenho certeza de uma coisa: fico arrasado com a possibilidade de Blue não ver a peça.

Eu queria que isso não tivesse tanta importância para mim.

Martin afunda o rosto nas mãos.

— Eu sinto muito, muito, Spier.

— Pare, por favor. — Eu me levanto. — Tá bem? Pare.

* * *

Acho que estou ficando meio cansado de tudo. Estou tentando não deixar que me afete. Eu não devia ligar se pessoas idiotas me chamam de uma palavra idiota e não devia ligar para o que as pessoas pensam de mim. Mas sempre ligo. Abby passa o braço ao redor dos meus ombros, e observamos das coxias a sra. Albright subir no palco.

— Oi — diz ela no microfone. Ela está segurando um caderno, e não está sorrindo. Nem um pouco. — Alguns de vocês me conhecem. Sou a sra. Albright, professora de teatro.

Alguém da plateia faz um assobio sugestivo, e algumas pessoas riem.

— Sei que vocês estão aqui para ver uma apresentação exclusiva de uma peça incrível. Temos uma equipe e um elenco maravilhosos, e estamos loucos para começar. Mas, antes, quero tirar uns minutinhos para revisar com vocês a política antibullying da escola.

Algo nas palavras “revisar” e “política” faz as pessoas se calarem, restando apenas o som de conversas sussurradas e do farfalhar da roupa nas cadeiras. Alguém solta uma gargalhada, e outra pessoa grita “cala a boca”. Então, um monte de gente começa a dar risadinhas.

— Eu vou esperar — diz a sra. Albright. Quando as risadas cessam, ela levanta o caderno. — Alguém reconhece isto aqui?

— Seu diário? — pergunta algum idiota.

Ela ignora.

— Este é o Manual de Creekwood, que vocês deviam ter lido e assinado no começo do ano.

Todo mundo para de prestar atenção na mesma hora. Meu Deus.

Deve ser muito bizarro ser professor. Eu me sento de pernas cruzadas no chão da coxia. A sra. Albright continua falando e lendo trechos do manual e comentando alguns pontos. Quando ela toca no assunto tolerância zero, Abby aperta minha mão. Os minutos se arrastam.

Estou completamente inexpressivo.

Depois de um tempo, a sra. Albright se aproxima da coxia e joga o caderno numa cadeira.

— Vamos em frente — diz.

Ela estava com um brilho intenso e assustador nos olhos.

As luzes começam a diminuir, e a orquestra toca as primeiras notas da abertura. Eu saio da coxia e entro no palco. Sinto meus braços e pernas pesados. Acho que tudo o que eu queria agora era deitar na minha cama com meu iPod.

Mas a cortina se abre.

E eu sigo em frente.