Confess

Colleen Hoover · Capítulo 8 de 25

Páginas do PDF

Confess

Capítulo 6 · Owen

Se eu fosse esperto, estaria agora m esm o em casa, m e vestindo. Se eu fosse m ais esperto, eu j á estaria m e preparando m entalm ente para aparecer no apartam ento de Auburn, j á que prom eti que faria isso hoj e à noite. Se eu fosse m ais esperto não estaria sentado aqui. Esperando m eu pai passar pela porta e ver m inhas m ãos algem adas atrás das costas. Não sei realm ente com o m e sentir agora, m as ficar aqui dorm ente não é provavelm ente a resposta certa. Só sei que ele está prestes a travessar aquela porta e a últim a coisa que quero fazer é olhar nos seus olhos. A porta abre.

Desvio o olhar.

Ouço seus passos quando entra lentam ente na sala. Tento m udar m inha posição, m as não consigo m e m exer graças ao m etal cavando nos m eus pulsos. Mordo m eu lábio inferior para m e im pedir de falar algo que m e arrependa. Mordo tão forte que sinto o gosto do sangue. E eu continuo evitando olhar para ele, escolho m e focar num cartaz pendurado na parede. A foto é um a linha de tem po, descrevendo a progressão do uso de m etanfetam ina num período de dez anos. Fico olhando para isso, ciente que todas as dez im agens são do m esm o hom em , e todas as fotos são de quando foi preso. Isso significa que esse cara foi para a cadeia pelo m enos dez vezes.

Ele tem nove detenções a m ais do que eu.

Meu pai suspira de onde está sentado, diretam ente na m inha frente. Ele suspira tão forte que sua respiração m e atinge do outro lado da m esa. Me afasto um pouco m ais para trás.

Não quero nem saber o que está passando pela sua cabeça agora. Eu só sei o que está passando pela m inha, e isso não é nada no m eio de um m ar de decepções. Não tanto pela m inha prisão, m as m ais pelo fato de ter decepcionado Auburn. Ela parece viver num a vida onde um m onte de gente a decepciona, e eu odeio estar a ponto de m e tornar um deles.

Odeio isso.

— Owen. - m eu pai diz, cham ando m inha atenção. Não quero dar m inha atenção a ele. Espero ele term inar, m as ele não fala m ais nada além do m eu nom e. Não gosto de tudo o que ele tem para falar, disse m eu nom e, porque sei que tem um inferno de coisas para m e dizer agora m esm o. É certo tam bém que tenho um m onte de coisas que quero dizer para ele, m as Callahan Gentry e seu filho não são os m elhores conversadores. Não desde aquela noite que Owen Gentry se tornou o único filho de Callahan Gentry. Esse é provavelm ente o único dia da m inha vida que eu não trocaria nada. Esse dia é a razão de eu continuar fazendo essas m erdas. Esse dia é a razão de eu estar sentado aqui, prestes a falar para m eu pai sobre as m inhas opções. Às vezes m e pergunto se Carey ainda pode nos ver. Gostaria de saber o que ele pensaria do que nós nos tornam os.

Desvio o olhar do cartaz de m etanfetam ina e olho para m eu pai. Nós dois aperfeiçoam os a arte do silêncio durante os últim os anos. — Acha que Carey pode nos ver agora?

Meu pai perm anece inexpressivo. A única coisa que vej o em seus olhos é decepção, e não sei se essa decepção é porque ele falhou em ser um

pai ou se a decepção é de eu estar nessa situação, ou só por trazer Carey à tona. Eu nunca falo do m eu irm ão. Meu pai nunca fala do m eu irm ão. Não sei porque estou trazendo isso à tona agora.

Me inclino para frente e m antenho m eus olhos fechados nele. — O que você acha que ele pensa de m im , pai? - digo calm am ente. Muito calm am ente. Se m inha voz fosse um a cor seria branco. A m andíbula do m eu pai aperta e eu continuo. — Você acha que ele está decepcionado com m inha capacidade de dizer não? Meu pai respira fundo e olha para longe, quebrando o contato visual com igo. Estou deixando ele desconfortável. Nem consigo m e inclinar m ais do que j á estou, então em purro m inha cadeira na direção dele, até m eu peito encontrar a m esa entre nós. Estou o m ais perto que consigo agora. — O que você acha que Carey pensa de você, pai? Essa frase poderia ser pintada de preta.

O punho do m eu pai bate na m esa e seu corpo vai para trás quando ele se levanta abruptam ente. Anda pela sala, duas vezes, e chuta a cadeira, fazendo com que ela bata contra a parede. Ele continua de um lado para o outro na sala, que é uns sete passos de distância de m im , ou algo assim . Ele está furioso, e m e sinto m al por estarm os num a sala tão m inúscula. O hom em precisa de espaço para liberar toda sua agressividade. Deviam levar isso em consideração quando prendem as pessoas e as colocam em salas tão pequenas e quadradas para se reunir com seus advogados. Porque você nunca sabe quando um advogado é seu pai e pais precisam de espaço para caber toda sua ira.

Ele tom a várias respirações profundas, para dentro e para fora, dentro e fora. Exatam ente com o ele costum ava ensinar Carey e a m im quando éram os pequenos. Sendo irm ãos, nós costum ávam os brigar m uito. Não tanto com o m uitos irm ãos, m as naquela época, quando Callahan Gentry era um pai, ele fazia de tudo que podia para nos ensinar a lidar com a raiva, internam ente, ao invés de fisicam ente. “Só você pode controlar suas reações”. Ele dizia para nós.

“Ninguém m ais. Você controla sua raiva e você controla sua felicidade. As m antenha sob controle, rapazes.”

Gostaria de saber se devo repetir essas palavras para ele agora. Fique no controle, pai.

Provavelm ente não. Ele não m e quer o interrom pendo com o silenciosam ente ele tenta convencer a si m esm o que eu não quis dizer o que disse. Ele tenta dizer para si m esm o que fiz isso só porque estou sob m uita pressão. Callahan Gentry é bom em m entir para si m esm o. Se eu tivesse que pintá-lo agora, eu o pintaria com todos os tons de azul que pudesse encontrar. Calm am ente ele coloca a palm a das m ãos na m esa entre nós. Ele fica olhando para baixo, para suas m ãos, evitando fazer contato visual com igo. Inala um a respiração longa e lenta e depois a libera, ainda m ais devagar.

— Estou pagando sua fiança assim que puder.

Quero que ele pense que sou indiferente. Não sou indiferente, porém . Não quero estar aqui, m as não a nada que eu possa fazer sobre isso. — Não que eu tenha algum outro lugar para ir. - digo a ele. Quero dizer, não tenho, tenho? Já é tarde para aparecer, ainda m ais que não há nenhum a m aneira que eu possa dizer a Auburn onde estive. Ou por quê. Além do m ais, fui avisado para ficar longe dela ontem à noite, ainda tem isso tam bém .

Então, sim . Quem precisa de fiança? Não eu.

— Não é com o se eu tivesse outro lugar para ir. - repito. Os olhos do m eu pai encontram os m eus... e essa é a prim eira vez que vej o lágrim as vindo. E espero que elas venham . Espero que ele atinj a seu ponto de ruptura. Espero que esta sej a a últim a gota. Espero para que ele finalm ente diga “Com o posso aj udar você, Owen? Com o posso fazer isso um pouco m elhor para você?”

Nenhum a dessas coisas acontecem , no entanto, e m inha esperança desaparece j unto com as lágrim as nos seus olhos. Ele se vira e cam inha para a porta. — Vam os conversar hoj e à noite. Em casa.

E ele se foi.

— O que diabos aconteceu com você? - Harrison pergunta. — Você parece um a m erda.

Sento no bar. Não durm o há m ais de vinte e quatro horas. Tão logo m inha fiança foi paga, horas atrás, fui direto para o estúdio. Nem sequer fui para a casa do m eu pai para discutir a situação, preciso de m ais tem po antes de enfrentá-lo. É quase m eia-noite, provavelm ente Auburn j á deve estar dorm indo, ou talvez irritada dem ais para dorm ir, afinal não apareci esta noite com o prom eti. Provavelm ente assim é m elhor. Eu preciso endireitar m inha vida o suficiente para então ela querer fazer parte disso.

— Fui preso ontem à noite.

Harrison para im ediatam ente e derram a cervej a do copo que estava prestes a m e entregar. Ele se endireita e m e encara.

— Me desculpa... você disse preso?

Concordo e atravesso o bar, pegando o copo m eio cheio de cervej a dele. — Esperando para saber o que você fez. - ele diz, m e observando tom ar um longo gole de cervej a. Coloco o copo na m esa e lim po m inha boca. — Preso por posse de drogas.

A expressão de Harrison fica um a m istura de raiva e nervosism o. — Espera um segundo. - diz, se inclinado para m im e falando baixo. — Você não disse que eu...

Estou ofendido dele perguntar isso, então cortei ele antes m esm o de term inar a frase.

— Claro que não. - disse. — Me recusei a falar qualquer coisa de onde veio os com prim idos. Infelizm ente, isso não vai aj udar m uito na hora do tribunal. Aparentem ente eles curtem quando deduram pessoas. - ri balançando a cabeça. — Isso é fodido, né? Ensinam os as crianças a não fazerem isso, m as quando adultos som os recom pensados.

Harrison não responde. Posso ver todas as palavras que ele quer dizer, m as ficar calado é o m elhor.

— Harrison. - digo, m e inclinado para frente. — Está bem . Tudo vai ficar bem . Essa é m inha prim eira infração, então duvido que vou pegar m uito... Ele balança a cabeça.

— Nada está bem , Owen! Vivo dizendo para parar com essa m erda há m ais de um ano. Sabia que iam te pegar e odeio ser o único a dizer que te avisei, m as eu avisei um m ilhão de m alditas vezes.

Respiro fundo. Estou tão cansado de ouvir isso. Me levanto e deixo um a nota de dez dólares na m esa, viro e vou em bora.

Ele tem razão, apesar de tudo. Ele m e disse. E não foi o único, porque tenho dito, para m im m esm o, que eu ia ser pego e pagaria um inferno, antes m esm o de Harrison.