É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 11 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Dez

 

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

Allysa assente enquanto aperfeiçoa um buquê de flores a ser entregue. Faltam três dias para a grande inauguração, e o movimento só aumenta.

— O quê? — pergunta ela, virando para mim.

Ela se encosta no balcão e começa a cutucar as unhas.

— Não precisa responder se não quiser — aviso.

— Bem, só posso responder se você perguntar.

Bem lembrado.

— Você e Marshall fazem doações para caridade?

— Sim. Por quê? — responde, confusa.

Dou de ombros.

— Só estava curiosa. Eu não os julgaria nem nada do tipo. É que ando pensando que eu gostaria de abrir uma instituição de caridade.

— Para prestar que tipo de caridade? — pergunta ela. — A gente doa para instituições diferentes agora que temos dinheiro, mas minha preferida é uma com a qual nos envolvemos no ano passado. Eles constroem escolas em outros países. A gente financiou três construções só no ano passado.

Eu sabia que gostava de Allysa por algum motivo.

— Claro que não tenho tanto dinheiro assim, mas queria fazer algo. Só não sei o que.

— Vamos deixar essa inauguração passar, daí você começa a pensar em filantropia. Um sonho de cada vez, Lily.

Ela dá a volta no balcão e pega a lixeira. Eu a observo tirar o saco cheio e dar um nó. Eu me pergunto por que — se ela tem empregados para tudo — ela tem vontade de ter um trabalho onde precisa tirar o lixo e sujar as mãos.

— Por que você trabalha aqui? — pergunto.

Ela olha para mim e sorri.

— Porque gosto de você — responde.

Porém, percebo que o brilho desaparece completamente de seus olhos antes de ela se virar e ir para os fundos jogar o lixo fora. Quando volta, ainda estou olhando para ela com curiosidade.

— Allysa? Por que você trabalha aqui? — insisto.

Ela para o que está fazendo e respira fundo, como se estivesse em dúvida sobre ser sincera comigo. Ela volta para o balcão e se encosta ali, cruzando os tornozelos.

— Porque... — diz ela, olhando para os próprios pés. — Não consigo engravidar. Estamos tentando há dois anos, mas nada deu certo. Eu estava cansada de chorar em casa o tempo inteiro, então decidi ocupar o tempo de alguma forma. — Ela se empertiga e limpa a mão na calça jeans. — E você, Lily Bloom, está me deixando bem ocupada. — Ela se vira e volta a mexer no mesmo buquê. Faz meia hora que ela o está aperfeiçoando. Por fim, pega um cartão e o coloca nas flores, depois se vira e me entrega o vaso. — Aliás, isso é para você.

Está na cara que Allysa quer mudar de assunto, então pego as flores.

— Como assim?

Ela revira os olhos e gesticula para que eu vá até o escritório.

— Está escrito no cartão. Leia.

Pela reação irritada, percebo que é de Ryle. Sorrio e vou correndo até o escritório. Eu me sento à escrivaninha e pego o cartão.

 

Lily,

Estou com a maior crise de abstinência.

Ryle

 

Ainda sorrindo, coloco o cartão de volta no envelope. Pego o celular e tiro uma foto com a língua para fora, segurando as flores. Mando para Ryle.

Eu: Eu avisei.

Ele começa a digitar uma resposta no mesmo instante. Fico observando ansiosamente os pontinhos no celular se moverem para a frente e para trás.

Ryle: Preciso da próxima dose. Vou terminar aqui em trinta minutos. Posso te levar para jantar? Eu: Não dá. Minha mãe quer que eu vá a um restaurante novo com ela. Ela é toda gourmet. :( Ryle: Eu gosto de comida. Eu como. Aonde vai com ela? Eu: Um lugar chamado Bib’s, na Marketson.

Ryle: Tem lugar para mais um?

Fico encarando a mensagem por um instante. Ele quer conhecer minha mãe? A gente nem está namorando oficialmente. Quero dizer... não me importo se ele conhecer minha mãe. Ela vai adorar Ryle. Ele não queria saber de namoro, depois aceitou um teste e agora vai conhecer minha mãe, tudo em cinco dias? Meu Deus. Sou mesmo uma droga.

Eu: Claro. Encontre a gente lá em meia hora.

Saio do escritório e vou direto até Allysa. Seguro o celular na frente de seu rosto.

— Ele quer conhecer minha mãe.

— Quem?

— Ryle.

— Meu irmão? — pergunta ela, parecendo tão chocada quanto eu.

Confirmo com a cabeça.

— Seu irmão. Minha mãe.

Ela pega meu celular e vê as mensagens.

— Hum. Que coisa mais estranha.

Pego o celular de volta.

— Valeu pela confiança.

— Você sabe o que eu quis dizer — diz ela, rindo. — Estamos falando de Ryle. Nunca, em toda a vida, Ryle Kincaid conheceu os pais de uma garota.

Claro que rio quando ela diz isso, mas depois me pergunto se ele não está agindo assim só para me agradar. Se ele não está fazendo coisas que na verdade não quer fazer só porque sabe que quero um namorado.

Então sorrio ainda mais, porque não é exatamente essa a questão? Sacrificar-se pela pessoa que você gosta só para vê-la feliz?

— Seu irmão deve gostar mesmo de mim — digo, brincando.

Olho para Allysa, esperando que ria, mas ela exibe uma expressão séria.

— Pois é, pelo visto sim. — Ela pega a bolsa embaixo do balcão. — Vou sair agora. Depois me conte como foi, tá?

Ela passa por mim, eu a observo sair e depois fico encarando a porta por bastante tempo.

Fico incomodada por ela não parecer animada com a possibilidade de Ryle e eu namorarmos. Fico me perguntando se tem mais a ver com o que ela sente por mim ou com o que sente pelo irmão.

 

• • •

 

Vinte minutos depois, viro a placa para “Fechado”. Só mais alguns dias. Tranco a porta e vou até o carro, mas vejo alguém encostado ali. Demoro um instante para reconhecê-lo. Ryle está virado para o outro lado, falando ao celular.

Achei que a gente ia se encontrar no restaurante, mas tudo bem.

O alarme de meu carro soa quando aperto o botão de destrancar, e Ryle se vira. Ele sorri ao me ver.

— Sim, concordo — diz ele ao celular. Depois põe o braço ao redor de meu ombro e me puxa para perto, beijando o topo de minha cabeça. — Amanhã nós conversamos. Acabou de acontecer uma coisa muito importante aqui.

Ele desliga, guarda o celular no bolso e me beija. Não é um beijo de oi. É um beijo de “não consigo parar de pensar em você”. Ele me envolve com os braços e me gira até eu encostar no carro, e continua me beijando até eu começar a me sentir tonta outra vez. Quando se afasta, está me olhando, contente.

— Sabe qual parte sua me enlouquece mais? — Ele leva os dedos até minha boca e percorre meu sorriso. — Isso. Seus lábios. Amo que eles são tão vermelhos quanto seu cabelo, e você nem usa batom.

Sorrio e beijo seus dedos.

— Então é melhor eu tomar cuidado quando você estiver com minha mãe, porque todo mundo diz que a gente tem a mesma boca.

Ele para de correr os dedos por meus lábios, e o sorriso some.

— Lily... não.

Eu rio e abro a porta.

— Vamos em carros separados?

Ele termina de abrir a porta para mim e diz:

— Peguei um Uber do trabalho até aqui. Vamos juntos.

 

• • •

 

Minha mãe já está na mesa quando chegamos. Está de costas para a porta, e eu vou na frente.

Fico impressionada com o restaurante. Meus olhos são atraídos pelas cores neutras e quentes das paredes, e pela árvore quase de tamanho real no meio do salão. Parece ter crescido ali no chão, e é quase como se o restaurante inteiro tivesse sido projetado ao redor do tronco. Ryle vem logo atrás de mim, a mão em minhas costas. Quando chegamos à mesa, começo a tirar a jaqueta.

— Oi, mãe.

— Ah, oi, querida — cumprimenta ela, desviando os olhos do celular. Guarda o aparelho na bolsa e gesticula para o restaurante. — Já estou adorando. Olhe só essa iluminação — diz ela, apontando para cima. — As instalações parecem algo que você cultivaria em um de seus jardins. — Então ela percebe Ryle, que está parado pacientemente a meu lado enquanto me sento. Minha mãe sorri para ele. — Vamos querer duas águas, por favor.

Olho para Ryle e depois para minha mãe.

— Mãe. Ele está comigo. Não é o garçom.

Ela olha de novo para Ryle, confusa. Ele apenas sorri e estende a mão.

— Um simples engano, senhora. Sou Ryle Kincaid.

Minha mãe retribui o aperto de mão, olhando nós dois. Ryle solta sua mão e senta. Ela parece um pouco desorientada, mas enfim diz:

— Jenny Bloom. Prazer em conhecê-lo. — Ela volta a atenção para mim e ergue a sobrancelha. — É seu amigo, Lily?

Não acredito que não me preparei melhor para este momento. Vou dizer que ele é o quê? Meu teste? Não posso dizer namorado, mas também não posso dizer amigo. Pretendente parece um pouco antiquado.

Ryle percebe minha hesitação, então põe a mão em meu joelho e o aperta para me tranquilizar.

— Minha irmã trabalha para Lily — diz ele. — Você a conhece? Allysa?

Minha mãe se inclina para a frente e diz:

— Ah! Sim! Claro. Vocês dois são muito parecidos, agora que você falou percebi isso — diz ela. — São os olhos, acho. E a boca.

— Nós dois puxamos a nossa mãe.

Minha mãe sorri para mim.

— As pessoas sempre dizem que Lily puxou a mim.

— Puxou mesmo — concorda ele. — Bocas idênticas. Impressionante. — Ryle aperta meu joelho de novo embaixo da mesa enquanto tento conter a risada. — Senhoras, se me dão licença, preciso ir ao toalete. — Ele se inclina e beija minha têmpora antes de se levantar. — Se o garçom aparecer, quero só uma água.

Os olhos de minha mãe o seguem enquanto ele se afasta, e depois ela se vira lentamente em minha direção. Ela aponta para mim e para o lugar vazio de Ryle.

— Por que eu não tinha ouvido falar dele?

Dou um sorriso discreto.

— As coisas estão meio... Na verdade, não é... — Não faço ideia de como explicar nossa situação para ela. — Ele trabalha muito, então não passamos tanto tempo juntos. Quase nada. Na realidade, hoje é a primeira vez que jantamos juntos.

Minha mãe ergue a sobrancelha.

— É mesmo? — pergunta ela, recostando-se. — Pelo jeito do rapaz, não parece. Quero dizer, ele está muito à vontade com demonstrações de carinho. Não é um comportamento normal para quem acabou de se conhecer.

— A gente não se conheceu agora — digo. — Faz mais de um ano que nos conhecemos. E já passamos tempo juntos, mas não em um encontro. Ele trabalha muito.

— Onde?

— No Massachusetts General Hospital.

Minha mãe se inclina para a frente, e seus olhos praticamente saltam para fora.

— Lily! — sussurra ela. — Ele é médico?

Confirmo com a cabeça, contendo o sorriso.

— Neurocirurgião.

— Desejam beber alguma coisa? — oferece um garçom.

— Sim — digo. — Vamos querer três...

Então fecho a boca na hora.

Fico encarando o garçom, e ele me encara de volta. Meu coração foi parar na garganta. Não lembro mais como se fala.

— Lily? — chama minha mãe. Ela vira a mão para o garçom. — Ele está esperando você pedir a bebida.

Balanço a cabeça e começo a gaguejar.

— Eu... hum...

— Três águas — corta minha mãe, interrompendo minhas palavras atrapalhadas.

O garçom sai do transe a tempo de bater o lápis no bloco de papel.

— Três águas — diz ele. — Ok.

Ele se vira e vai embora, mas vejo quando ele me olha de novo antes de empurrar as portas da cozinha.

— O que você tem, hein? — pergunta minha mãe, se inclinando para mim.

Aponto por cima do ombro.

— O garçom — digo, balançando a cabeça. — Ele era igualzinho a...

Estou prestes a dizer Atlas Corrigan quando Ryle se aproxima e se senta novamente.

Ele olha para nós duas.

— O que foi que eu perdi?

Engulo em seco, balançando a cabeça. Claro que não era Atlas. Mas aqueles olhos... aquela boca. Sei que faz anos que não nos vemos, mas nunca vou me esquecer de sua aparência. Só pode ser ele. Sei que era, e sei que ele também me reconheceu, porque no instante que nossos olhares se encontraram... parecia que ele tinha visto um fantasma.

— Lily? — chama Ryle, apertando minha mão. — Você está bem?

Faço que sim e forço um sorriso, depois pigarreio.

— Estou. A gente só estava falando de você — digo, olhando de novo para minha mãe. — Ryle participou de uma cirurgia de 18 horas esta semana.

Minha mãe se inclina para a frente, interessada. Ryle começa a contar sobre a cirurgia. Nossa água chega, mas é trazida por um garçom diferente. Ele pergunta se já demos uma olhada nos cardápios e nos informa os pratos especiais do chef. Nós pedimos a comida, e estou fazendo de tudo para me concentrar, mas minha atenção está dispersa pelo restaurante, procurando Atlas. Preciso me recompor. Depois de alguns instantes, eu me aproximo de Ryle e aviso:

— Preciso ir ao banheiro.

Ele se levanta para que eu saia, e meus olhos analisam os rostos de todos os garçons enquanto atravesso o restaurante. Empurro a porta do corredor que leva aos banheiros. Sozinha, me encosto na parede. Eu me inclino para a frente e expiro com força. Decido parar por um instante e me recompor antes de voltar. Levo as mãos à testa e fecho os olhos.

Fazia nove anos que eu me perguntava o que acontecera com ele. Anos.

— Lily?

Olho para cima e inspiro pela boca. Ele está parado no fim do corredor, parecendo mais um fantasma direto do passado. Meus olhos vão até seus pés para checar se não está pairando no ar.

Não está. Ele é real e está parado bem na minha frente.

Continuo encostada na parede, sem saber o que dizer.

— Atlas?

Assim que digo seu nome, ele solta o ar depressa, aliviado, e depois avança três passos largos. Percebo que faço a mesma coisa. Nós nos encontramos no meio e nos abraçamos.

— Puta merda! — exclama ele, me abraçando com força.

Balanço a cabeça.

— Pois é. Puta merda.

Ele põe as mãos em meus ombros e recua para me olhar.

— Você não mudou nada.

Tapo a boca com a mão, ainda chocada, e o examino. Seu rosto parece o mesmo, mas ele não é mais o adolescente magrelo de que me lembro.

— Já eu não posso dizer o mesmo.

Ele olha para si mesmo e ri.

— Pois é — diz. — Oito anos como militar faz isso com a pessoa.

Estamos chocados, então não dizemos mais nada. Ficamos apenas balançando as cabeças, sem acreditar. Ele ri, e depois eu rio. Por fim, ele solta meus ombros e cruza os braços.

— Por que você está em Boston? — pergunta ele.

Ele fala de maneira muito casual, o que acho bom. Talvez não se lembre de nossa conversa de muitos anos antes sobre Boston, o que me pouparia da vergonha.

— Eu moro aqui — respondo, forçando uma réplica tão casual quanto a sua. — Tenho uma floricultura em Park Plaza.

Ele sorri, como se não estivesse nem um pouco surpreso. Olho a porta, sabendo que devia voltar. Ele percebe e dá outro passo para trás. Olha em meus olhos por um instante, e entre nós paira um silêncio absoluto. Um silêncio excessivo. Temos muito a dizer, mas nenhum de nós sabe por onde começar. O brilho desaparece de seus olhos por um instante, e ele aponta para a porta.

— É melhor você voltar para a mesa — diz ele. — Qualquer dia desses, procuro você. Park Plaza, né?

Faço que sim.

Ele também balança a cabeça.

A porta se abre, e uma mulher segurando uma criança entra. Ela passa por nós, o que nos distancia ainda mais. Dou um passo em direção à porta, mas ele continua no mesmo lugar. Antes de sair, me viro para ele e sorrio.

— Adorei te ver, Atlas.

Ele sorri um pouco, mas o sorriso não alcança seus olhos.

— Sim. Igualmente, Lily.

 

• • •

 

Passo o resto da refeição mais quieta. Mas não sei se Ryle e minha mãe percebem, porque ela não está encontrando nenhuma dificuldade em fazer uma pergunta atrás da outra. Ryle lida muito bem com tudo. Está sendo encantador da maneira perfeita.

Esbarrar em Atlas inesperadamente abalou muito meus sentimentos, mas no fim do jantar Ryle já tinha colocado tudo no lugar de novo.

Minha mãe pega o guardanapo, limpa a boca e aponta para mim.

— Este é meu novo restaurante preferido — diz ela. — Incrível.

Ryle balança a cabeça.

— Concordo. Preciso trazer Allysa aqui. Ela adora conhecer restaurantes novos.

A comida é boa mesmo, mas não quero que eles tenham vontade de voltar aqui.

— Achei normal — digo.

Ele paga a conta, claro, e depois insiste que a gente acompanhe minha mãe até o carro. A julgar pelo olhar orgulhoso, ela vai me ligar mais tarde para falar sobre ele.

Depois que minha mãe vai embora, Ryle me acompanha até meu carro.

— Pedi um Uber para que você não tivesse de dar uma volta para me deixar. A gente tem aproximadamente... — Ele confere o celular. — Um minuto e meio para se agarrar.

Eu rio. Ele me abraça e beija primeiro meu pescoço, depois minha bochecha.

— Eu me convidaria para ir até sua casa, mas tenho uma cirurgia amanhã cedo, e com certeza meu paciente ficaria feliz em saber que não passei boa parte da noite dentro de você.

Retribuo o beijo, ao mesmo tempo desapontada e aliviada por ele não me acompanhar.

— Minha inauguração é daqui a alguns dias. É melhor eu dormir também.

— Quando é sua próxima folga? — pergunta ele.

— Nunca. Quando é a sua?

— Nunca.

Balanço a cabeça.

— Estamos ferrados. Tem sucesso e determinação demais entre nós.

— Assim vamos ficar na fase da lua de mel até chegarmos aos 80 anos — diz ele. — Vou à inauguração, e depois nós quatro podemos sair para comemorar. — Um carro para a nosso lado, ele passa a mão em meu cabelo e se despede com um beijo. — Aliás, sua mãe é maravilhosa. Obrigado por ter me deixado jantar com vocês.

Ele se afasta e entra no carro. Eu o observo sair do estacionamento.

Estou com uma sensação muito boa em relação a esse homem.

Sorrio e me viro para meu carro, mas coloco a mão no peito e arfo quando o vejo.

Atlas está parado bem atrás de meu carro.

— Desculpe. Não quis te assustar.

Solto o ar pela boca.

— Bem, mas assustou.

Eu me encosto no carro, e Atlas fica onde está, a 1 metro de distância. Ele olha para a rua.

— E então? Quem é o sortudo?

— Ele é... — Minha voz falha. É tudo tão estranho... Ainda estou com um aperto no peito e um frio na barriga, e não sei se é consequência do beijo de Ryle ou da presença de Atlas. — O nome é Ryle. A gente se conheceu há cerca de um ano.

Na mesma hora me arrependo de dizer que nos conhecemos há tanto tempo. Ficou parecendo que Ryle e eu estamos juntos há um ano, e na verdade nem estamos namorando oficialmente.

— E você? Casou? Tem namorada?

Não sei se pergunto para continuar a conversa ou se estou genuinamente curiosa.

— Na verdade, tenho, sim. O nome é Cassie. Estamos juntos há quase um ano.

Azia. Estou com azia. Um ano? Coloco a mão no peito e balanço a cabeça.

— Que bom. Você parece feliz.

Ele parece feliz? Não faço ideia.

— Pois é. Bem... adorei te ver, Lily. — Ele se vira para partir, mas depois se volta para mim com as mãos nos bolsos de trás. — Mas vou dizer uma coisa... eu meio que queria ter te reencontrado um ano atrás.

Estremeço com as palavras, tentando me impedir de assimilá-las. Ele volta para o restaurante.

Eu me atrapalho com as chaves e aperto o botão de destrancar o carro. Entro e fecho a porta, agarrando o volante. Por algum motivo, uma lágrima enorme escorre por minha bochecha. Uma lágrima enorme, ridícula, do tipo “O que diabo é essa coisa molhada”?

Eu a seco e aperto o botão para ligar o carro. Eu não esperava ficar tão magoada depois de vê-lo. Mas é bom. Isso aconteceu por um motivo. Meu coração precisava desse ponto final para que eu pudesse entregá-lo a Ryle, e talvez só fosse possível depois que isso acontecesse.

Isso é bom.

Sim, estou chorando.

Mas vai passar. É a natureza humana: curar uma ferida antiga e preparar uma nova pele.

Só isso.