É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 16 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Quinze

 

 

Chego ao restaurante com quinze minutos de atraso. Bem na hora que eu estava fechando a loja, chegou um cliente com um pedido de flores para um funeral. Não tive como recusar porque... infelizmente... funerais são as melhores oportunidades para floriculturas.

Ryle acena para mim, e vou até a mesa, fazendo o possível para não olhar ao redor. Não quero ver Atlas. Tentei fazer com que mudassem o restaurante duas vezes, mas Allysa insistiu em jantar aqui depois dos elogios de Ryle.

Eu me sento, e Ryle se inclina para me beijar.

— Oi, namorada.

Allysa resmunga.

— Meu Deus, vocês são tão fofos que enjoa. — Sorrio para ela, que fixa imediatamente o olhar em meu rosto. Não está tão ruim quanto achei que estaria hoje, deve ter sido porque Ryle insistiu para que eu colocasse gelo. — Meu Deus! Ryle me contou o que aconteceu, mas não achei que estivesse tão ruim.

Olho para ele, querendo saber o que disse a ela. A verdade? Ele sorri e diz:

— O azeite se espalhou por todo canto. Quando ela escorregou, foi tão fofo que parecia uma bailarina.

Uma mentira.

Tudo bem. Eu teria feito a mesma coisa.

— Foi bem ridículo — digo, rindo.

De algum modo, o jantar segue sem nenhum incidente. Nenhum sinal de Atlas, nenhum pensamento sobre ontem à noite, e Ryle e eu evitamos beber vinho. Depois de comermos, o garçom se aproxima da mesa.

— Gostariam de sobremesa? — pergunta ele.

Nego com a cabeça, mas Allysa se anima.

— O que vocês têm?

Marshall também parece interessado.

— Estamos comendo por dois, então pode trazer qualquer coisa com chocolate — diz ele.

O garçom assente, e, depois que ele vai embora, Allysa olha para Marshall.

— O bebê ainda está do tamanho de um percevejo. Acho bom você não incentivar maus hábitos pelos próximos meses.

O garçom volta com o carrinho de sobremesas.

— Para as futuras mamães, o chef falou que a sobremesa é por conta da casa — diz ele. — Parabéns.

— É mesmo? — pergunta Allysa, empolgada.

— Por isso o nome do lugar é Bib’s, babador em inglês — explica Marshall. — O chef gosta de bebês.

Todos observamos o carrinho de sobremesas.

— Meu Deus! — exclamo, avaliando as opções.

— Este é meu novo restaurante preferido — comenta Allysa.

Escolhemos três sobremesas para a mesa. Enquanto esperamos serem servidas, discutimos nomes de bebês.

— Não — diz Allysa para Marshall. — O bebê não vai ter nome de um estado.

— Mas eu adoro Nebraska — reclama ele. — Idaho?

Allysa apoia a cabeça nas mãos.

— Isso vai causar o divórcio.

— Divórcio — diz Marshall. — Belo nome.

O assassinato de Marshall é interrompido pela chegada das sobremesas. Nosso garçom põe uma fatia de bolo de chocolate na frente de Allysa e se afasta para que o rapaz atrás dele, que está segurando as outras duas sobremesas, se aproxime. O garçom gesticula para o cara que está servindo nossas sobremesas e diz:

— O chef gostaria de parabenizá-la.

— O que acharam da comida? — pergunta ele, olhando para Allysa e Marshall.

Quando seus olhos encontram os meus, minha ansiedade já está passando. Atlas me encara, e, sem nem pensar, pergunto, bruscamente:

— Você é o chef?

O garçom se inclina ao redor de Atlas e diz:

— O chef. O dono. Às vezes garçom, outras vezes lavador de pratos. Ele dá um novo significado ao termo “mão na massa”.

Ninguém de nossa mesa percebe os próximos cinco segundos, mas para mim passam em câmera lenta.

Os olhos de Atlas focam no corte em meu olho.

Na atadura na mão de Ryle.

Em meu olho de novo.

— Adoramos seu restaurante. É incrível — elogia Allysa.

Atlas não olha para ela. Percebo o movimento em sua garganta enquanto ele engole em seco. Seu maxilar se enrijece, e ele não diz nada ao se afastar.

Merda.

Para tentar disfarçar a saída repentina de Atlas, o garçom sorri e mostra demais os dentes.

— Aproveitem a sobremesa — diz ele, indo para a cozinha.

— Que pena — comenta Allysa. — A gente descobre um novo restaurante preferido, mas o chef é um babaca.

Ryle ri.

— Pois é, mas os babacas são os melhores chefs. Gordon Ramsay?

— Bem lembrado — diz Marshall.

Ponho a mão no braço de Ryle.

— Banheiro — digo a ele.

Ryle assente enquanto saio da mesa, e Marshall diz:

— E Wolfgang Puck? Acha ele um babaca?

Atravesso depressa o restaurante de cabeça baixa. Assim que entro no corredor que já me é familiar, sigo em frente. Abro a porta do banheiro feminino, me viro e o tranco.

Merda. Merda, merda, merda.

O olhar. A raiva em seu maxilar.

Fico aliviada por ele ter ido embora, mas tenho quase certeza de que ele vai estar nos esperando lá fora quando sairmos, pronto para sair no braço com Ryle.

Inspiro pelo nariz, expiro pela boca, lavo as mãos, repito a respiração. Um pouco mais calma, seco as mãos na toalha.

Vou voltar lá e dizer a Ryle que não estou me sentindo muito bem. A gente pode ir embora e nunca mais voltar aqui. Todos eles acham o chef um babaca, então posso usar isso como desculpa.

Destranco a porta, mas não a abro. Ela começa a ser aberta pelo lado de fora, então recuo. Atlas entra no banheiro e fecha a porta. Ele se encosta na madeira enquanto me encara, focando no corte perto de meu olho.

— O que aconteceu? — pergunta.

Balanço a cabeça.

— Nada.

Ele semicerra os olhos, que ainda são azuis como gelo, mas de algum modo estão pegando fogo.

— Você está mentindo, Lily.

Dou um sorrisinho para me safar.

Atlas ri, mas depois fica sério.

— Largue esse cara.

Largar esse cara?

Meu Deus, ele está entendendo tudo errado. Dou um passo à frente e balanço a cabeça.

— Ele não é assim, Atlas. Não foi nada disso. Ryle é uma boa pessoa.

Ele inclina a cabeça e a aproxima um pouco de mim.

— Engraçado. Parece sua mãe falando.

Suas palavras magoam. No mesmo instante, tento alcançar a maçaneta atrás de Atlas, mas ele agarra meu pulso.

— Largue ele, Lily.

Afasto minha mão. Fico de costas para ele e respiro fundo. Expiro devagar enquanto me viro de novo em sua direção.

— Só para comparar, eu nunca senti tanto medo dele quanto estou sentindo agora de você.

Minhas palavras fazem Atlas parar. Ele começa a balançar lentamente a cabeça, depois com mais determinação, enquanto sai pela porta.

— Eu realmente não queria te incomodar. — Ele gesticula para a porta. — Só estava tentando retribuir a preocupação que você sempre demonstrou ter por mim.

Fico o encarando por um instante, sem assimilar suas palavras. Ele ainda está furioso por dentro, dá para perceber. Mas por fora está calmo... centrado. Está me deixando sair. Estico o braço, destranco a porta e a abro.

Suspiro quando meus olhos encontram os de Ryle. Dou uma rápida olhada por cima do ombro e observo Atlas deixando o banheiro comigo.

Os olhos de Ryle ficam muito confusos enquanto ele olha de mim para Atlas.

— Que porra é essa, Lily?

— Ryle.

Minha voz sai trêmula. Meu Deus, isso parece muito pior do que é.

Atlas passa por mim e segue em direção às portas da cozinha, como se Ryle nem existisse. Os olhos de Ryle estão fixos nas costas de Atlas. Continue andando, Atlas.

Ele para bem no instante que chega às portas da cozinha.

Não, não, não. Continue andando.

No que se torna um dos momentos mais terríveis que consigo imaginar, ele se vira e avança na direção de Ryle, agarrando-o pela gola da camisa. Assim que isso acontece, Ryle joga Atlas para trás e o imprensa na parede oposta. Atlas se lança para cima de Ryle de novo, agora empurrando o antebraço no pescoço deste, prendendo-o na parede.

— Se a tocar de novo, vou cortar a porra de sua mão e enfiá-la em sua garganta, seu merda imprestável!

— Atlas, pare! — grito.

Ele solta Ryle com força, dando um grande passo para trás. Ryle está ofegante, encarando Atlas intensamente. Até que volta a atenção para mim.

— Atlas? — diz ele, com familiaridade.

Por que Ryle está dizendo o nome de Atlas desse jeito? Como se já tivesse me escutado falar sobre ele? Jamais lhe contei sobre Atlas.

Espere.

Contei, sim.

Naquela primeira noite no telhado. Foi uma de minhas verdades nuas e cruas.

Ryle ri de incredulidade e aponta para Atlas, mas continua olhando para mim.

— Este é Atlas? O garoto sem casa com quem você trepou por pena?

Ai, meu Deus!

Imediatamente, o corredor se transforma em um borrão de punhos, cotovelos e gritos de “parem”. Dois garçons empurram a porta logo atrás de onde estou, e passam por mim, separando os dois com a mesma rapidez com que a briga começou.

Eles são empurrados contra paredes opostas e ficam se encarando, ofegantes. Não consigo olhar para nenhum dos dois.

Não consigo olhar para Atlas. Não depois do que Ryle acabou de dizer. Também não consigo olhar para Ryle, porque ele deve estar imaginando as piores coisas neste instante.

— Fora! — grita Atlas, apontando para a porta, mas olhando para Ryle. — Saia de meu restaurante, cacete!

Meus olhos encontram os de Ryle enquanto ele passa por mim. Tenho medo do que vou encontrar ali. Mas não vejo nenhuma raiva.

Somente mágoa.

Muita mágoa.

Ele hesita, como se estivesse prestes a me dizer alguma coisa. Porém, me olha desapontado e volta ao restaurante.

Finalmente encaro Atlas e noto sua expressão de decepção. Antes que eu possa explicar o que Ryle disse, ele se vira e vai embora, empurrando as portas da cozinha.

Imediatamente me viro e corro atrás de Ryle. Ele pega a jaqueta na mesa e segue para a saída, sem nem ao menos olhar para Allysa e Marshall.

Allysa olha para mim e ergue as mãos, sem entender. Balanço a cabeça, pego minha bolsa e digo:

— É uma longa história. Amanhã a gente conversa.

Vou atrás de Ryle até lá fora. Ele está andando na direção do estacionamento. Corro para alcançá-lo, e ele simplesmente para e soca o ar.

— Não vim de carro, porra! — grita ele, frustrado.

Tiro as chaves da bolsa, e ele se aproxima de mim e as tira de minha mão. Mais uma vez, eu o sigo até meu carro.

Não sei o que fazer. Nem sei se ele quer falar comigo agora. Acabou de me ver trancada no banheiro com o cara por quem eu era apaixonada. Depois, do nada, o sujeito o atacou.

Meu Deus, a situação é feia.

Quando chegamos ao carro, ele vai direto para o lado do motorista. Aponta para o banco do carona e diz:

— Entre, Lily.

Ele não fala nada durante todo o trajeto. Digo seu nome uma vez, mas ele apenas balança a cabeça, como se ainda não estivesse pronto para escutar minha explicação. Quando chegamos à garagem, ele sai do carro assim que o desliga, de tão desesperado para se afastar de mim.

Ele anda de um lado para outro quando eu salto do veículo.

— Não era o que parecia, Ryle. Juro.

Ele para de andar, e, ao olhar para mim, meu coração se aperta. Há tanto sofrimento desnecessário em seu olhar. Tudo não passou de um mal-entendido ridículo.

— Eu não queria isso, Lily — diz ele. — Eu não queria namorar! Não queria esse tipo de estresse em minha vida!

Por mais que ele esteja magoado por causa do que acha que viu, suas palavras me enfurecem.

— Ué, então vá embora!

— O quê?

Ergo as mãos.

— Não quero ser um fardo, Ryle! Sinto muito se minha presença em sua vida é tão insuportável!

Ele dá um passo à frente.

— Lily, não é nada disso que estou dizendo.

Ele também ergue as mãos, frustrado, e passa por mim. Depois se encosta no carro e cruza os braços. Passamos bastante tempo em silêncio enquanto espero para ouvir o que ele tem a dizer. Ele está de cabeça baixa, mas a levanta um pouco e olha para mim.

— Verdades nuas e cruas, Lily. É tudo o que eu quero de você agora. Pode me dar isso?

Assinto.

— Você sabia que ele trabalhava lá?

Comprimo os lábios e ponho o braço no peito, agarrando meu cotovelo.

— Sabia. Por isso eu não queria voltar lá, Ryle. Não queria encontrá-lo.

Minha resposta parece aliviar um pouco a tensão. Ryle passa a mão no rosto.

— Você contou a ele sobre ontem? Contou a ele sobre nossa briga?

Dou um passo à frente e balanço com firmeza a cabeça.

— Não. Ele presumiu. Viu meu olho e sua mão, e simplesmente presumiu.

Ele exala com força e inclina a cabeça para trás, observando o teto. Quase parece incapaz de fazer a próxima pergunta tamanho seu sofrimento.

— Por que você estava sozinha com ele no banheiro?

Dou outro passo à frente.

— Ele me seguiu até lá. Não sei mais nada sobre ele, Ryle. Nem sabia que ele era o dono do restaurante, achei que era só um garçom. Ele não faz mais parte de minha vida, juro. É que ele... — Cruzo os braços e abaixo o tom de voz. — Nós crescemos em casas violentas. Ele viu meu rosto e sua mão e... ficou preocupado comigo, só isso. Nada além disso.

Ryle tapa a boca com a mão. Escuto o ar passando por seus dedos enquanto ele exala. Endireita a postura, parando um momento para assimilar tudo o que acabei de dizer.

— Minha vez — avisa.

Ele se afasta do carro e atravessa os três passos nos separando. Põe as mãos em meu rosto e me olha bem nos olhos.

— Se não quer ficar comigo... por favor, me diga agora, Lily. Porque, quando o vi com ele... isso doeu. Não quero sentir aquilo de novo. E, se está doendo tanto agora, morro de medo quando penso em como seria daqui a um ano.

Sinto as lágrimas começarem a escorrer por minhas bochechas. Ponho as mãos em cima das dele e balanço a cabeça.

— Não quero mais ninguém, Ryle. Só você.

Ele força o sorriso mais triste que já vi em alguém. Ele me puxa para perto e me abraça. Ponho os braços a seu redor com o máximo de firmeza, e ele encosta os lábios em minha têmpora.

— Eu te amo, Lily. Meu Deus, como eu te amo.

Eu o aperto com força, beijando seu ombro.

— Também te amo.

Fecho os olhos. Queria poder apagar os dois últimos dias inteiros.

Atlas está errado a respeito de Ryle.

Eu só queria que Atlas soubesse que está errado.