É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 13 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Doze

 

— O que você está fazendo com essas pobres flores? — pergunta Allysa atrás de mim.

Fecho mais uma junta prateada e a deslizo pelo caule.

— Steampunk.

Ficamos paradas admirando o buquê. Quero dizer, pelo menos... eu espero que ela esteja admirando. Ficou melhor que imaginei. Usei anilina para tingir algumas rosas brancas de roxo. Depois, decorei os caules com diferentes elementos steampunk, como minúsculas juntas metálicas, e até colei um pequeno relógio na faixa de couro marrom usada para amarrar o buquê.

— Steampunk?

— É tendência. É um subgênero da ficção, mas está influenciando outras áreas. Arte. Música. — Eu me viro e sorrio, erguendo o buquê. — E agora... flores.

Allysa tira as flores de minha mão e as segura a sua frente.

— Elas são tão... estranhas. Amei demais. — Então as abraça. — Posso ficar com elas?

Eu as afasto de Allysa.

— Não, são para a vitrine da inauguração. Não estão à venda.

Pego as flores e o vaso feito na véspera. Na semana passada, encontrei um par de botas velhas com botões em um mercado de pulgas. Elas me lembraram do estilo steampunk, e, na verdade, foram as botas que me deram a ideia para as flores. Lavei as botas, sequei-as e colei peças de metal no couro. Depois de pincelá-las com cola, coloquei dentro de cada uma o vaso para a água.

— Allysa? — Coloco as flores na mesa central. — Tenho certeza de que é exatamente isso que eu devo fazer da vida.

— Steampunk? — pergunta ela.

Eu rio e me viro.

— Criar! — exclamo.

Depois viro a placa para o lado “aberto”, quinze minutos antes.

Nós passamos o dia mais ocupadas que imaginamos. Entre os pedidos por telefone, pedidos pela internet e clientes na loja, nenhuma de nós tem tempo de parar e almoçar.

— Você precisa de mais funcionários — avisa Allysa ao passar por mim às 13h, segurando dois buquês — Você precisa de mais funcionários — diz ela às 14h, segurando o celular no ouvido e anotando um pedido enquanto registra a compra de alguém no caixa.

Marshall passa na loja depois das 15h e pergunta como estão as coisas.

— Ela precisa de mais funcionários — responde Allysa.

Às 16h, ajudo uma mulher a levar um buquê até o carro, e, quando volto à loja, Allysa está saindo, segurando outro buquê.

— Você precisa de mais funcionários — repete ela, exasperada.

Às 18h, ela tranca a porta e vira a placa. Depois se encosta na porta e desliza até o chão, olhando para mim.

— Eu sei — digo. — Preciso de mais funcionários.

Ela apenas concorda com a cabeça.

E depois nós duas rimos. Eu me aproximo e me sento a seu lado. Encostamos nossas cabeças e observamos a loja. As flores steampunk estão em grande destaque, e apesar de eu ter me recusado a vender aquele buquê em particular, tivemos oito pedidos do tipo.

— Estou orgulhosa de você, Lily — diz ela.

Sorrio.

— Eu não teria conseguido sem você, Issa.

Ficamos sentadas por vários minutos, curtindo o descanso que nossos pés finalmente desfrutavam. Para ser sincera, esse foi um dos melhores dias de minha vida, mas não consigo deixar de sentir uma tristeza chata por Ryle não ter aparecido. Nem ao menos mandou uma mensagem.

— Teve notícias de seu irmão hoje? — pergunto.

Ela nega com a cabeça.

— Não, ele deve estar ocupado, só isso.

Assinto. Sei que ele está ocupado.

Olhamos para cima quando alguém bate à porta. Sorrio quando o vejo com as mãos em concha ao redor dos olhos, encostando o rosto na vitrine. Ele finalmente olha para baixo e nos encontra sentadas no chão.

— Falando no diabo... — diz Allysa.

Eu me levanto em um pulo e destranco a porta. Assim que faço isso, ele já vai entrando.

— Eu perdi, não foi? Perdi. — Ele me abraça. — Desculpe, tentei chegar o mais rápido que pude.

— Tudo bem — digo, retribuindo o abraço. — Você veio. Foi perfeito.

Estou muito animada porque ele conseguiu vir, no fim das contas.

— Você que é perfeita — diz ele, me beijando.

Allysa passa por nós.

— Você que é perfeita — imita ela. — Ei, Ryle, adivinhe só?

Ryle me solta.

— O quê?

Allysa pega a lixeira e a coloca no balcão.

— Lily precisa contratar mais funcionários.

Rio de sua repetição sem fim.

— Pelo jeito os negócios foram bem — diz Ryle, e aperta minha mão.

Dou de ombros.

— Não dá para reclamar. Quero dizer... não sou uma neurocirurgiã, mas sou muito boa no que faço.

Ryle ri.

— Vocês precisam de ajuda para limpar?

Allysa e eu o colocamos para trabalhar, nos ajudando a arrumar depois do grande dia. Terminamos tudo e deixamos a loja pronta para o dia seguinte, e então Marshall chega assim que acabamos. Ele traz uma sacola e a coloca no balcão. Começa a tirar grandes pedaços amontoados de tecido e joga um para cada um de nós. Pego o meu e o desdobro.

É um kigurumi.

Com estampa de gatinhos.

— Jogo do Bruins. Cerveja de graça. Vamos nos vestir, time!

— Marshall — diz Allysa, gemendo. — Você ganhou seis milhões de dólares este ano. A gente realmente precisa de cerveja de graça?

Ele coloca o dedo nos lábios da mulher, empurrando-os em direções opostas.

— Shh! Não fale como uma garota rica, Issa. Que blasfêmia.

Ela ri, e Marshall pega o macacão de suas mãos. Ele abre o zíper e a ajuda a se vestir. Depois que estamos todos prontos, trancamos a porta e vamos para o bar.

Nunca na vida vi tantos homens de macacão pijama. Allysa e eu somos as únicas mulheres vestidas assim, mas meio que gosto disso. Está o maior barulho. Tanto que toda vez que o Bruins acerta uma jogada, eu e Allysa tapamos os ouvidos por causa dos gritos. Depois de meia hora, uma mesa fica vaga no primeiro andar e nós corremos para pegá-la.

— Bem melhor — comenta Allysa enquanto nos sentamos.

Aqui em cima é bem mais silencioso, apesar de ser barulhento se comparado aos padrões normais.

Uma garçonete aparece para anotar o que queremos beber. Peço vinho tinto, e, assim que faço isso, Marshall praticamente pula da cadeira.

— Vinho? — grita ele. — Você está à caráter! Vinho não é grátis com o pijama!

Ele pede à garçonete uma cerveja para mim. Ryle fala para ela trazer vinho. Allysa quer água, o que deixa Marshall ainda mais chateado. Ele insiste para a garçonete trazer quatro garrafas de cerveja, mas depois Ryle diz:

— Duas cervejas, um vinho tinto e uma água.

A garçonete se afasta bem confusa de nossa mesa.

Marshall joga os braços ao redor de Allysa e a beija.

— Como vou tentar te engravidar hoje se você não estiver nem um pouco bêbada?

A expressão de Allysa muda, e imediatamente me sinto mal por ela. Sei que Marshall está brincando, mas ela deve se chatear com essas coisas. Uns dias antes, ela me contou como se sentia deprimida por não conseguir engravidar.

— Não posso beber cerveja, Marshall.

— Então pelo menos tome vinho. Você gosta mais de mim quando está altinha.

Ele ri de si mesmo, mas Allysa não o acompanha.

— Também não posso beber vinho. Não posso tomar nenhuma bebida alcoólica.

Marshall para de rir.

Meu coração dá uma cambalhota.

Marshall se vira e lhe agarra os ombros, forçando-a a encará-lo.

— Allysa?

Ela começa a balançar a cabeça, e não sei quem começa a chorar primeiro. Eu, Marshall ou Allysa.

— Vou ser pai? — grita ele.

Ela continua balançando a cabeça, e estou aos prantos feito uma idiota. Marshall se levanta em um pulo da mesa e grita:

— Vou ser pai!

Nem sei descrever em palavras o momento. Um adulto de kigurumi, ficando em pé em uma mesa de bar, gritando que vai ser pai para quem quiser ouvir. Ele levanta Allysa e a puxa para cima da mesa. Ele a beija, e é a coisa mais meiga que já vi.

Até eu olhar para Ryle e perceber que ele está mordendo o lábio inferior, como se tentasse conter uma possível lágrima. Ele olha para mim e nota que o estou encarando, então desvia o olhar.

— Cale a boca — diz ele. — Ela é minha irmã.

Sorrio, me aproximo e beijo sua bochecha.

— Parabéns, tio Ryle.

Depois que os futuros pais param de se agarrar, eu e Ryle nos levantamos e desejamos parabéns. Allysa explica que tem se sentido enjoada há um tempo, mas só fez o teste hoje de manhã antes da inauguração. Ela ia esperar e contar para Marshall quando chegassem em casa, mas não conseguiu se segurar por nem mais um segundo.

Nossas bebidas chegam, e pedimos a comida. Quando a garçonete se afasta, olho para Marshall.

— Como vocês se conheceram?

— Allysa conta a história melhor que eu — responde ele.

Allysa se anima e se inclina para a frente.

— Eu o odiava — confessa ela. — Era o melhor amigo de Ryle e estava sempre lá em casa. Eu o achava tão irritante... Havia acabado de se mudar para Ohio, e tinha sotaque de Boston. Ele se achava o máximo por causa disso, mas eu queria dar um tapa em sua cara toda vez que falava alguma coisa.

— Ela é um amor — ironiza Marshall.

— Você era um idiota — retruca Allysa, revirando os olhos. — Enfim, um dia Ryle e eu convidamos alguns amigos lá para casa. Nada de mais. Nossos pais estavam viajando, então claro que fizemos uma festinha.

— Eram trinta pessoas — corrige Ryle. — Era uma festa de verdade.

— Tá, uma festa de verdade — cede Allysa. — Entrei na cozinha, e Marshall estava lá com uma baranga.

— Ela não era baranga — esclarece ele. — Era uma garota legal. Tinha gosto de Cheetos, mas...

Allysa o fulmina com o olhar, então ele cala a boca. Então ela se volta para mim.

— Eu surtei — confessa ela. — Comecei a gritar que ele devia levar as piriguetes para a própria casa. A garota ficou com tanto medo de mim que literalmente saiu correndo da casa e não voltou mais.

— Empata-foda — comenta Marshall.

Allysa lhe dá um soco no ombro.

— Enfim, depois que dei uma de empata-foda, fui correndo para meu quarto com vergonha do que tinha feito. Foi puro ciúme, e eu só percebi que gostava de Marshall quando vi suas mãos na bunda de outra. Eu me joguei na cama e comecei a chorar. Alguns minutos depois, ele entrou no quarto e perguntou se eu estava bem. Rolei na cama e gritei: “Eu gosto de você, seu cara de merda ridículo!”.

— E o resto é história... — diz Marshall.

Eu rio.

— Ohn. Cara de merda ridículo. Que meigo.

— Está esquecendo a melhor parte — diz Ryle, erguendo o dedo.

Allysa dá de ombros.

— Ah, é! Então Marshall se aproximou de mim, me puxou da cama, me beijou com a mesma boca que estava beijando a piriguete, e a gente ficou se agarrando por meia hora. Até que Ryle entrou em meu quarto e começou a gritar com Marshall. E depois Marshall empurrou meu irmão para fora, trancou a porta e ficou me agarrando por mais uma hora.

Ryle balança a cabeça.

— Fui traído pelo melhor amigo!

Marshall puxa Allysa para perto.

— Eu gosto de sua irmã, seu cara de merda ridículo.

Eu rio, mas Ryle se vira para mim, sério.

— Fiquei sem falar com ele por um mês de tanta raiva. Com o tempo, superei. A gente tinha 18 anos, ela, 17. Eu não podia impedir os dois.

— Nossa! — exclamo. — Às vezes esqueço que vocês têm quase a mesma idade.

— Três filhos em três anos — diz Allysa e sorri. — Tenho muita pena de meus pais.

Todo mundo na mesa fica quieto. Vejo um olhar pesaroso passar de Allysa para Ryle.

— Três? — pergunto. — Vocês têm outro irmão?

Ryle se empertiga e toma um gole da cerveja. Ele a coloca de volta na mesa e diz:

— A gente tinha um irmão mais velho. Ele faleceu quando éramos crianças.

Uma noite tão boa estragada por uma única pergunta. Felizmente, Marshall muda de assunto de forma muito eficaz.

Passo o resto da noite escutando histórias sobre a infância dos três. Acho que nunca ri tanto quanto hoje.

Quando o jogo acaba, todos voltamos para a loja para pegar nossos carros. Ryle disse que veio de Uber mais cedo, então me acompanha. Antes que Allysa e Marshall se despeçam, digo para ela esperar. Entro na loja correndo, pego as flores steampunk e volto para o carro dos dois. Seu rosto se alegra quando as entrego a ela.

— Estou feliz pela gravidez, mas não é por isso que estou te dando as flores. Simplesmente quero que fique com elas. Porque você é minha melhor amiga.

Allysa me aperta e sussurra em meu ouvido:

— Espero que ele se case com você um dia. Seremos irmãs ainda melhores.

Ela entra no carro, e eles partem. Fico parada, observando, porque acho que nunca tive uma amiga como ela. Talvez seja o vinho. Não sei, mas estou amando o dia. Tudo o que aconteceu. Amo especialmente ver Ryle com essa aparência, encostado em meu carro, me observando.

— Você fica muito bonita quando está feliz.

Ohn! Que dia! Perfeito!

 

• • •

 

Enquanto subimos os degraus de meu prédio, Ryle agarra minha cintura e me joga na parede. E simplesmente começa a me beijar ali, bem no meio da escada.

— Impaciente — murmuro.

Ele ri e aperta minha bunda.

— Não. É o kigurumi. Você devia mesmo considerar usar isso no trabalho.

Ele me beija novamente, e só para quando alguém passa por nós, descendo a escada.

— Belos pijamas — murmura um cara ao passar por nós. — Os Bruins ganharam?

Ryle confirma com a cabeça.

— Três a um — responde ele, sem olhar para o rapaz.

— Legal.

Depois que ele vai embora, eu me afasto de Ryle.

— E essa história do pijama, todo homem de Boston conhece, é?

— Cerveja grátis, Lily — responde, rindo. — É cerveja grátis.

Ele me puxa pela escada, e, quando entramos no apartamento, encontramos Lucy na cozinha, fechando com fita uma caixa com suas coisas. Ainda há outra caixa, que ela não fechou, e juro que vi uma tigela que comprei na loja HomeGoods bem em cima. Ela disse que levaria todas as suas coisas na próxima semana, mas tenho a impressão de que vai levar convenientemente alguns objetos meus também.

— Quem é você? — pergunta ela, olhando Ryle da cabeça aos pés.

— Ryle Kincaid. Namorado de Lily.

Namorado de Lily.

Escutou isso?

Namorado.

É a primeira vez que ele confirma, e falou cheio de convicção.

— Meu namorado, é?

Entro na cozinha, pego uma garrafa de vinho e duas taças.

Ryle se aproxima por trás enquanto sirvo a bebida, e seus braços envolvem minha cintura.

— Isso mesmo. Seu namorado.

— Então quer dizer que sou sua namorada? — pergunto ao lhe entregar o cálice.

Ele ergue a taça e a encosta na minha.

— Ao fim dos testes e ao começo de coisas definidas.

Estamos sorrindo enquanto tomamos um gole do vinho.

Lucy empilha as caixas e surge na porta.

— Pelo jeito, saí daqui na hora certa — diz ela.

A porta se fecha, e Ryle ergue a sobrancelha.

— Acho que sua companheira de apartamento não gosta muito de mim.

— Você nem imagina. Eu também pensei que ela não gostava de mim, mas ontem me convidou para ser madrinha de seu casamento. Mas acho que só está fazendo isso para ganhar as flores. É muito oportunista.

Ryle ri e se encosta na geladeira. Os olhos se fixam em um ímã que diz Boston. Ele o tira da geladeira e ergue a sobrancelha.

— Você nunca vai sair do purgatório de Boston se tiver uma lembrancinha da cidade na geladeira como uma turista.

Rio e pego o ímã, devolvendo-a à geladeira. Fico feliz por ele se lembrar de tanta coisa da noite em que nos conhecemos.

— Foi um presente. Só conta como lembrancinha de turista se eu mesma comprar.

Ele se aproxima mim e tira a taça de minha mão. Coloca as duas taças no balcão, chega mais perto e me dá um beijo apaixonado e bêbado. Sinto o gosto frutado e ácido do vinho em sua língua dele e acho gostoso. Suas mãos vão até o zíper de meu pijama.

— Vamos tirar essa roupa.

Ele me puxa até o quarto, me beijando enquanto nós, atrapalhados, tiramos nossas roupas. Quando chegamos ao quarto, estou só de calcinha e sutiã.

Ele me encosta na porta, e eu arfo com esse movimento inesperado.

— Não se mexa — diz.

Ele pressiona os lábios em meu peito e começa a me beijar lentamente enquanto desce por meu corpo.

Meu Deus. Impossível este dia ficar ainda melhor.

Passo as mãos em seu cabelo, mas Ryle agarra meus pulsos e os encosta na porta. Ele sobe de volta por meu corpo, apertando meus pulsos com firmeza. Então ergue a sobrancelha, me avisando:

— Eu disse... não se mexa.

Tento não sorrir, mas é difícil disfarçar. Sua boca se arrasta de novo, descendo meu corpo. Ele abaixa minha calcinha lentamente até os tornozelos, mas ele disse para eu não me mexer, então não a tiro do lugar.

Sua boca sobe por minha coxa, deslizando até...

Pois é.

Melhor.

Dia.

De.

Todos.