É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 20 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Dezenove

 

— Já se passaram seis semanas, mãe. Você precisa superar.

Minha mãe suspira ao telefone.

— Você é minha única filha. Desde que nasceu, venho sonhando com seu casamento.

Ela ainda não me perdoou, mesmo estando presente na hora. Ligamos para ela logo antes de Allysa reservar nossos voos. Nós a obrigamos, e os pais de Ryle, a sair da cama, e depois convencemos todo mundo a voar para Las Vegas à meia-noite. Ela não tentou me dissuadir da ideia porque tenho certeza de que percebeu nosso estado de espírito quando chegou ao aeroporto. Mas ela não me deixou esquecer o assunto. Tem sonhado com uma festa enorme de casamento, com provas de vestido e de bolo desde o dia em que nasci.

Chuto os pés para cima no sofá.

— E se eu te recompensar? — sugiro. — E se, quando decidirmos ter um bebê, eu prometer seguir o método tradicional, não comprar um em Las Vegas?

Minha mãe ri, depois suspira.

— Desde que você me dê netos um dia, acho que posso esquecer do assunto.

Ryle e eu conversamos sobre ter filhos no voo para Vegas. Eu queria discutir a possibilidade antes de me comprometer a passar o resto da vida com ele. Ryle disse que isso certamente poderia ser discutido. Depois esclarecemos várias outras causas prováveis de problemas futuros. Faço questão de contas bancárias separadas, mas, como ele ganha muito mais, deve me comprar vários presentes e me deixar feliz. Ele concordou. E ainda me fez prometer jamais me tornar vegana. O que foi fácil. Eu amo queijo. Falei que a gente teria de abrir alguma instituição de caridade, ou pelo menos doar para as instituições que Marshall e Allysa indicassem. Ele disse que já faz isso, o que me deixou com vontade de me casar com ele ainda mais rápido. Ele me fez prometer que eu votaria nas eleições. Disse que eu poderia votar nos democratas, republicanos ou independentes, contanto que votasse. Entramos em acordo.

Quando chegamos a Vegas, estávamos completamente em sintonia.

Escuto a porta da frente destrancar, então me deito.

— Preciso desligar — aviso a minha mãe. — Ryle acabou de chegar. — Ele fecha a porta, então eu sorrio e digo: — Espere. Vou reformular a frase, mãe. Meu marido acabou de chegar.

Minha mãe ri e se despede de mim. Desligo e deixo o telefone de lado. Ergo o braço acima da cabeça e o apoio preguiçosamente no braço do sofá. Em seguida, coloco a perna no encosto, deixando minha saia escorregar pelas coxas e se aglomerar na cintura. Os olhos de Ryle devoram meu corpo, e ele sorri enquanto se aproxima. Depois se ajoelha no sofá e lentamente deita em mim.

— Como está minha esposa? — sussurra ele, dando beijos ao redor de minha boca.

Ele pressiona o corpo entre minhas pernas, e eu deixo minha cabeça tombar para trás enquanto ele beija meu pescoço.

Isso é que é vida.

Nós trabalhamos quase diariamente. Ryle trabalha o dobro de horas que eu, e só duas ou três vezes por semana estou acordada quando ele chega. Porém, nesse caso, costumo exigir que passe tais noites dentro de mim.

Ele não reclama.

Ryle escolhe um ponto em meu pescoço e o domina, beijando-o com tanta força que chega a doer.

— Ai.

Ele se abaixa, ainda em cima de mim, e murmura contra meu pescoço:

— Vou deixar um chupão em você. Não se mexa.

Eu rio, mas concordo. Meu cabelo é comprido o suficiente para esconder, e jamais ganhei um chupão.

Seus lábios continuam no mesmo lugar, chupando e beijando até eu parar de sentir dor. Ele pressiona o corpo no meu, se avolumando dentro do uniforme. Mexo as mãos e puxo sua calça o suficiente para que ele possa entrar em mim. Ryle continua beijando meu pescoço enquanto me possui no sofá.

 

• • •

 

Ele tomou uma ducha primeiro, e, assim que terminou, eu entrei. Achei melhor nos livrarmos do cheiro de sexo antes de jantar com Allysa e Marshall.

A bebê chega em algumas semanas, então Allysa está requisitando nossa companhia sempre que possível. Ela está preocupada, com medo do impacto em nossa vida social quando a bebê nascer, mas sei que isso é ridículo. Vamos passar a visitá-los mais. Já amo minha sobrinha mais que eles dois.

Ok, talvez não. Mas quase.

Tento não molhar o cabelo enquanto me enxaguo porque já estamos atrasados. Pego a gilete e a encosto na axila quando escuto um estrondo. Paro.

— Ryle?

Nada.

Termino de me depilar e depois tiro o sabão. Mais um estrondo.

Mas o que ele está fazendo?

Fecho a torneira, pego uma toalha e a enrolo no corpo.

— Ryle!

Ele continua sem responder. Visto depressa a calça jeans e abro a porta enquanto enfio a camisa por cima da cabeça.

— Ryle?

O criado-mudo ao lado de nossa cama está virado. Vou até a sala de estar e o encontro ao lado do sofá, a cabeça apoiada na mão. Está olhando para alguma coisa na outra mão.

— O que está fazendo?

Ele me encara, e não reconheço a expressão. Fico confusa sem entender o que está acontecendo. Não sei se ele recebeu alguma notícia ruim ou... Meu Deus, Allysa.

— Ryle, você está me assustando. O que aconteceu?

Ele ergue meu celular e olha para mim, como se eu devesse saber o que está acontecendo. Quando balanço a cabeça, confusa, ele mostra um pedaço de papel.

— Engraçado — diz ele, colocando meu celular na mesa de centro à frente. — Derrubei seu celular sem querer. A capa saiu. E encontrei esse número escondido atrás.

Meu Deus.

Não, não, não.

Ele amassa o papel.

— Aí pensei: Hum, que estranho, Lily não esconde coisas de mim. — Ele se levanta e pega meu celular. — Então liguei para o número. — Cerra o punho ao redor do celular. — Ele deu sorte porque caiu na porra da caixa postal.

Ryle joga meu celular do outro lado da sala. O aparelho bate na parede, se despedaçando no chão.

Há uma pausa de três segundos, e penso que duas coisas podem acontecer.

Ele vai me deixar.

Ou ele vai bater em mim.

Ryle passa a mão no cabelo e vai direto para a porta.

Ele me deixa.

— Ryle! — grito.

Por que nunca joguei aquele número fora?!

Abro a porta e saio correndo atrás dele. Ryle está descendo dois degraus de cada vez, e finalmente o alcanço no patamar do segundo andar. Eu me jogo a sua frente e lhe agarro a camisa com os punhos cerrados.

— Ryle, por favor, me deixe explicar.

Ele agarra meus pulsos e me empurra para longe.

 

• • •

 

— Fique parada.

Sinto suas mãos em mim. Delicadas. Firmes.

Lágrimas escorrem e, por algum motivo, doem.

— Lily, fique parada. Por favor.

Seu tom de voz é tranquilizador. Mas minha cabeça dói.

— Ryle?

Tento abrir os olhos, mas a luz está forte demais. Sinto uma ardência no canto do olho e me contraio. Tento me sentar, mas sinto sua mão empurrar meu ombro para baixo.

— Precisa ficar parada até eu terminar, Lily.

Abro os olhos de novo e encaro o teto. É o teto de nosso quarto.

— Terminar o quê?

Minha boca dói quando falo, então toco meus lábios com a mão.

— Você caiu da escada — diz ele. — Está machucada.

Meus olhos encontram os seus. Há preocupação em seu olhar, mas também mágoa. Raiva. Ele está sentindo tudo, enquanto só consigo ficar confusa.

Fecho os olhos de novo e tento lembrar por que ele está zangado, magoado.

Meu celular.

O número de Atlas.

A escada.

Agarrei sua camisa.

Ele me empurrou.

— Você caiu da escada.

Mas eu não caí.

Ele me empurrou. De novo.

É a segunda vez.

Você me empurrou, Ryle.

Sinto o corpo inteiro começar a tremer com meus soluços. Não faço ideia da gravidade de meus ferimentos, mas nem me importo. Nenhuma dor física se compara à do meu coração. Dou tapinhas na mão de Ryle para que se afaste. Sinto ele se levantar da cama enquanto fico em posição fetal.

Espero que ele tente amenizar a situação como fez da última vez que me machucou, mas isso não acontece. Escuto Ryle andar pelo quarto. Não sei o que está fazendo. Ainda estou chorando quando ele se ajoelha a minha frente.

— Talvez você esteja com uma concussão — explica ele, inexpressivo. — Está com um pequeno corte na boca. Só tratei do curativo no olho. Não vai precisar levar pontos.

Seu tom de voz é frio.

— Tem mais algum lugar doendo? Os braços? Suas pernas?

Ele fala como um médico, não parece em nada um marido.

— Você me empurrou — acuso, em meio às lágrimas.

É só nisso que consigo pensar. Só isso que consigo dizer ou ver.

— Você caiu — comunica ele, calmamente. — Cerca de cinco minutos atrás. Logo depois de eu ter descoberto que me casei com a porra de uma mentirosa. — Ele deixa algo no travesseiro a meu lado. — Se precisar de alguma coisa, tenho certeza de que pode ligar para este número.

Olho para o pedaço de papel amassado perto de minha cabeça, com o número de Atlas.

— Ryle — chamo, soluçando.

O que está acontecendo?

Escuto a porta do apartamento bater.

Meu mundo inteiro desmorona ao redor.

— Ryle — sussurro para ninguém.

Tapo o rosto com as mãos e choro, como nunca fiz na vida. Estou destruída.

Cinco minutos.

É o necessário para destruir completamente uma pessoa.

 

• • •

 

Alguns minutos se passam.

Dez, talvez?

Não consigo parar de chorar. Ainda não saí da cama. Estou com medo de me olhar no espelho. Estou apenas... com medo.

Escuto a porta da frente se abrir e bater de novo. Ryle aparece na porta, e não faço ideia se devo sentir raiva.

Ou morrer de medo.

Ou me sentir mal.

Como posso estar sentindo as três coisas ao mesmo tempo?

Ele encosta a testa na porta de nosso quarto, e eu fico observando ele bater a cabeça ali. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.

Ele se vira, se aproxima depressa de mim e se ajoelha ao lado da cama. Então segura minhas mãos e as aperta.

— Lily — diz ele, o rosto inteiro contorcido em aflição. — Por favor, me diga que não é nada. — Ele leva a mão até a têmpora, e sinto suas mãos tremerem. — Não aguento isso, não aguento. — Ele se inclina para a frente e encosta com força os lábios em minha testa, depois encosta a testa na minha. — Por favor, me diga que não está se encontrando com ele. Por favor.

Nem sei o que dizer porque não estou com vontade de falar.

Ele continua se encostando em mim, segurando firmemente meu cabelo com a mão.

— Está doendo tanto, Lily. Eu te amo tanto.

Balanço a cabeça, querendo que a verdade saia de mim para que ele perceba o grande erro que cometeu.

— Até esqueci que o número estava lá — sussurro. — No dia seguinte à briga no restaurante... ele passou na loja. Pode perguntar a Allysa. Ele só ficou cinco minutos. Pegou meu celular e colocou o número de seu telefone dentro da capa porque não acreditava que eu estava segura com você. Esqueci que o tinha, Ryle. Nunca sequer olhei para esse papel.

Ele solta o ar, trêmulo, e começa a balançar a cabeça, aliviado.

— Jura, Lily? Jura por nosso casamento, por nossas vidas e por tudo o que é... não fala com ele desde aquele dia?

Ele se afasta para poder me olhar nos olhos.

— Juro, Ryle. Você teve uma reação exagerada antes de me dar a chance de explicar — digo a ele. — Agora dê o fora de meu apartamento, porra!

Minhas palavras o deixam sem ar. Percebo claramente. Ele se encosta na parede e me encara em silêncio. Chocado.

— Lily — sussurra ele. — Você caiu da escada.

Não sei se ele está tentando me convencer ou se convencer.

— Dê o fora de meu apartamento — repito, com calma.

Ele continua paralisado. Eu me sento na cama. Levo a mão imediatamente ao olho que está latejando. Ele se levanta do chão. Quando dá um passo à frente, eu recuo na cama.

— Você está machucada, Lily. Não vou te deixar sozinha.

Pego um dos travesseiros e o jogo em Ryle, como se pudesse machucá-lo.

— Sai daqui! — grito. Ele pega o travesseiro que joguei. Agarro o outro, fico em pé na cama e começo a lhe bater enquanto grito: — Sai daqui! Sai! Sai!

Jogo o travesseiro no chão depois que a porta do apartamento bate.

Vou correndo até a porta e passo o ferrolho.

Volto correndo para a cama e me jogo ali. A mesma cama que divido com meu marido. A mesma cama onde ele faz amor comigo.

A mesma cama onde ele me deita na hora de arrumar a bagunça.