É Assim que Acaba
Capítulo Vinte e Quatro
Atlas está parado do outro lado do cômodo. Ele não desgrudou os olhos de mim nem por um segundo enquanto a enfermeira me atende. Depois de colher meu sangue, ela voltou imediatamente e começou a tratar o corte. Ela não fez muitas perguntas, mas está na cara que meus ferimentos foram causados por violência doméstica. Noto seu olhar de pena enquanto limpa a mordida em meu ombro.
Ao terminar, ela olha para Atlas. Então, dá um passo para a direita, bloqueando a visão que ele tinha de mim. Ela se vira em minha direção de novo.
— Preciso fazer algumas perguntas pessoais. Vou ter de pedir que ele saia daqui, ok?
Nesse momento, percebo que julga Atlas culpado pelos machucados. Começo a balançar a cabeça e respondo:
— Não foi ele. Por favor, não o obrigue a sair daqui.
Seu alívio fica evidente. Ela concorda e puxa uma cadeira.
— Está ferida em mais algum lugar?
Balanço a cabeça, porque ela não conseguiria consertar tudo o que Ryle partiu em mim.
— Lily? — Seu tom de voz é suave. — Você foi estuprada?
Meus olhos se enchem de lágrimas, e vejo Atlas se virar para a parede e encostar a testa ali.
A enfermeira espera que eu olhe em seus olhos antes de continuar falando:
— Temos um exame para este tipo de situação. Chama-se SANE. É opcional, claro, mas em seu caso eu acho muito importante.
— Não fui estuprada — asseguro. — Ele não...
— Tem certeza, Lily? — pergunta a enfermeira.
Faço que sim.
— Não quero fazer.
Atlas se vira de novo para mim, e vejo o sofrimento em seu rosto enquanto ele se aproxima.
— Lily. Você precisa disso.
Seus olhos estão suplicantes.
Balanço a cabeça de novo.
— Atlas, eu juro... — Fecho os olhos e abaixo a cabeça. — Não o estou protegendo desta vez — sussurro. — Ele tentou, mas depois parou.
— Se decidir prestar queixa, vai precisar...
— Não quero o exame — repito, com um tom de voz firme.
Alguém bate à porta, e um médico entra, me poupando do olhar suplicante de Atlas. A enfermeira faz um rápido resumo de meus ferimentos. Em seguida se afasta, e o plantonista examina minha cabeça e meu ombro. Coloca uma luz em meus olhos. Olha de novo a papelada e diz:
— Eu queria descartar uma concussão, mas por causa de seu estado, não quero fazer uma ressonância. Em vez disso, acho melhor você ficar em observação.
— Por que não quer fazer ressonância? — pergunto.
O médico se levanta.
— Não gostamos de fazer radiografias em grávidas, a não ser que seja essencial. Vamos monitorá-la para acompanhar possíveis complicações, e, se não surgir nenhuma alteração, poderá ir embora.
Não escuto mais nada depois disso.
Nada.
A pressão aumenta em minha cabeça. No coração. Na barriga. Agarro as beiradas da mesa de exames em que estou sentada, e fico encarando o chão enquanto os dois deixam o quarto.
Quando a porta se fecha, eu me endireito, suspensa em um silêncio paralisante. Vejo Atlas se aproximar. Seus pés quase encostam nos meus. Seus dedos roçam de leve minhas costas.
— Você sabia?
Expiro depressa e, depois, inspiro mais ar. Começo a balançar a cabeça e, quando seus braços me envolvem, choro mais que imaginava ser capaz. Ele fica o tempo inteiro me abraçando. Ele me abraça durante todo o meu ódio.
Eu fiz isso comigo.
Eu permiti que isso acontecesse comigo.
Eu me tornei minha mãe.
— Quero ir embora — sussurro.
Atlas se afasta.
— Eles querem monitorá-la, Lily. Acho que devia ficar.
Olho para ele e balanço a cabeça.
— Preciso sair daqui. Por favor. Quero ir embora.
Ele assente e me ajuda a calçar os sapatos. Tira a jaqueta e a coloca em meus ombros. Em seguida, saímos do hospital sem ninguém perceber.
Ele não me diz nada enquanto estamos no carro. Fico olhando pela janela, exausta demais para chorar. Chocada demais para falar. Estou me sentindo submersa.
Continue a nadar.
• • •
Atlas não mora em apartamento. Ele mora em uma casa. Em um pequeno subúrbio de Boston chamado Wellesley, onde todas as casas são bonitas, grandes, bem-cuidadas e caras. Antes de pararmos na frente da casa de Atlas, eu me pergunto se ele se casou com aquela garota. Cassie. Me pergunto o que ela vai pensar ao ver o marido trazendo para casa uma garota que ele amava e que acabou de ser atacada pelo próprio marido.
Ela vai sentir pena de mim. Não vai entender por que nunca o abandonei. Vai questionar como deixei as coisas chegarem a tal ponto. Vai perguntar as mesmas coisas que eu me perguntava sobre minha mãe quando a via na mesma situação. As pessoas passam tanto tempo se perguntando por que as mulheres não vão embora... Onde estão as pessoas curiosas do porquê os homens serem violentos? Não é aí que deveria estar a culpa?
Atlas estaciona na garagem. Não tem mais nenhum veículo ali. Não espero que me ajude a sair do carro. Abro a porta, desço sozinha e depois o sigo até a casa. Ele coloca o código no alarme e acende algumas luzes. Meus olhos observam a cozinha, a sala de jantar, a sala de estar. Tudo é chique, feito de madeira e aço inoxidável, e a cozinha é de um verde-azulado calmante. Da cor do oceano. Se eu não estivesse sofrendo tanto, sorriria.
Atlas continuou nadando, e olhe só para ele agora: nadou até a porra do Caribe.
Ele vai até a geladeira, pega uma garrafa d’água e se aproxima de mim. Tira a tampa e me entrega a garrafa. Tomo um gole e fico observando enquanto acende a luz da sala e do corredor.
— Você mora sozinho? — pergunto.
Ele assente enquanto volta para a cozinha.
— Está com fome?
Balanço a cabeça. Mesmo se estivesse, não conseguiria comer.
— Vou te mostrar seu quarto — diz ele. — Tem banheiro se você precisar.
Preciso. Quero tirar o gosto de uísque da boca. Quero lavar o cheiro estéril de hospital. Quero lavar as últimas quatro horas de minha vida.
Eu o sigo pelo corredor até um quarto extra, onde ele acende a luz. Há duas caixas em uma cama sem lençol, e mais pilhas de caixas encostadas nas paredes. Vejo uma cadeira grande em uma das paredes, virada para a porta. Ele vai até a cama e tira as caixas, colocando-as na parede com as outras.
— Eu me mudei há alguns meses. Não consegui tempo livre para decorar ainda. — Ele vai até uma cômoda e abre uma gaveta. — Vou arrumar a cama para você.
Ele tira lençóis e uma fronha. Começa a fazer a cama enquanto entro no banheiro e fecho a porta.
Fico meia hora ali dentro. Passo alguns minutos encarando meu reflexo no espelho. Mais um tempo tomando uma ducha. Durante o resto do tempo, fico curvada na privada, vomitando ao me lembrar das últimas horas.
Saio do banheiro enrolada na toalha. Atlas não está mais no quarto, mas encontro roupas dobradas na cama recém-arrumada. Uma calça de pijama masculino que é grande demais para mim, e uma camiseta que bate na altura de meus joelhos. Amarro o cadarço da calça e me deito. Desligo o abajur, puxo as cobertas e me cubro.
Então choro tanto que nem faço barulho.