É Assim que Acaba
Capítulo Vinte e Seis
Estou deitada na cama do quarto de hóspedes de Atlas, encarando o teto. É uma cama normal. Bem confortável, na verdade. Mas sinto como se estivesse sobre um colchão d’água. Ou talvez em um bote, à deriva no mar. E eu enfrento as ondas gigantes, cada uma carregando uma coisa. Algumas são ondas de tristeza. Outras são ondas de raiva. Algumas são ondas de lágrimas. Outras são ondas de sono.
De vez em quando, ponho as mãos na barriga e surge uma pequena onda de amor. Não faço ideia de como já posso amar tanto algo, mas amo. Penso se vai ser menino ou menina, e no nome. Imagino se vai se parecer comigo ou com Ryle. E então surge outra onda de raiva que destrói a pequena onda de amor.
Sinto que me roubaram a alegria que uma mãe deve sentir quando se descobre grávida. Sinto que Ryle roubou isso de mim ontem à noite, e é só mais um motivo para alimentar o ódio.
O ódio é exaustivo.
Eu me obrigo a sair da cama e a tomar uma ducha. Passei boa parte do dia no quarto. Atlas voltou para casa há várias horas, e o escutei abrir a porta em determinado momento para ver como eu estava, mas fingi dormir.
É estranho estar aqui. Foi por causa de Atlas que Ryle ficou zangado comigo ontem à noite, mas foi ele quem eu chamei quando precisei de ajuda. Estar aqui me enche de culpa. Talvez eu até esteja com um pouco de vergonha, como se ter ligado para Atlas viabilizasse a raiva de Ryle. Mas eu não tenho mais para onde ir. Preciso de alguns dias para processar tudo, e, se eu for para um hotel, Ryle pode rastrear a cobrança no cartão de crédito e me encontrar.
Ele me acharia na casa de minha mãe. Na de Allysa. Na de Lucy. Até Devin ele encontrou algumas vezes, então provavelmente passaria lá também.
Mas não o consigo imaginar procurando Atlas. Ainda não. Tenho certeza de que, se eu passar uma semana evitando suas ligações e mensagens, ele vai procurar em todo lugar possível. Mas, por enquanto, acho que ele não apareceria aqui.
Talvez por isso ainda não parti. Eu me sinto mais segura ali que em qualquer outro lugar que consigo imaginar. E Atlas tem um sistema de alarme, então isso também conta.
Olho para o criado-mudo a fim de conferir meu celular. Ignoro todas as mensagens perdidas de Ryle e abro a de Allysa.
Allysa: Oi, tia Lily! Vamos para casa hoje à noite. Venha nos visitar amanhã quando chegar do trabalho.
Ela me mandou uma foto com Rylee, o que me faz sorrir. E chorar. Malditas emoções.
Espero meus olhos secarem antes de ir até a sala. Atlas está sentado à mesa da cozinha, trabalhando no laptop. Ao me ver, ele sorri e fecha o computador.
— Oi.
Forço um sorriso e olho para a cozinha.
— Tem alguma coisa para comer?
Atlas se levanta depressa.
— Tem, sim — diz ele. — Tem, sim, pode se sentar que eu te preparo algo.
Eu me acomodo no sofá enquanto ele se movimenta pela cozinha. A televisão está ligada, mas no mudo. Coloco o som de volta e clico no DVR. Ele tem alguns programas gravados, mas o que chama minha atenção é o Ellen DeGeneres Show. Sorrio e clico no episódio mais recente.
Atlas traz para mim uma tigela de macarrão e um copo de água gelada. Ele olha para a TV e se senta a meu lado no sofá.
Nas próximas três horas, vemos os programas de uma semana inteira. Rio umas seis vezes. É gostoso, mas quando faço uma pausa para ir ao banheiro e volto para a sala, o peso de tudo começa a me sufocar de novo.
Eu me sento no sofá com Atlas. Ele está apoiando os pés na mesa de centro. Eu me encosto a ele naturalmente, e, assim como fazia quando éramos adolescentes, ele me puxa para seu peito e nós ficamos em silêncio. Seu polegar roça a parte externa de meu ombro, e sei que é sua maneira silenciosa de dizer que está ali para o que eu precisar, que se sente mal por mim. E, pela primeira vez desde que ele me buscou ontem à noite, sinto vontade de tocar no assunto. Estou com a cabeça apoiada em seu ombro, as mãos no colo. Estou mexendo no cadarço da calça grande demais para mim.
— Atlas? — chamo, e minha voz não passa de um sussurro. — Desculpe ter ficado tão brava com você no restaurante. Você tinha razão. No fundo, eu sabia que você tinha razão, mas não queria acreditar. — Ergo a cabeça e o encaro, abrindo um sorriso digno de pena. — Pode dizer “Bem que eu avisei”.
Ele franze as sobrancelhas, como se tivesse ficado magoado com minhas palavras.
— Lily, eu não queria ter razão sobre isso. Rezei todo dia para estar errado sobre ele.
Estremeço. Não devia ter dito isso. Claro que sei que Atlas nunca diria algo do tipo Bem que eu avisei.
Ele aperta meu ombro e se inclina para a frente, beijando o topo de minha cabeça. Fecho os olhos enquanto absorvo sua familiaridade. Seu cheiro, seu toque, seu aconchego. Nunca entendi como alguém poderia ser resistente como uma pedra e, ao mesmo tempo, reconfortante. Porém, sempre o enxerguei assim. Como se ele pudesse suportar tudo e, ainda assim, sentisse o peso que todos os outros carregam.
Não gosto de jamais ter conseguido esquecê-lo completamente, por mais que tentasse. Penso na briga com Ryle por causa do telefone de Atlas. Nas brigas por causa do ímã, da matéria no jornal, do que ele leu em meu diário, da tatuagem. Nada disso teria acontecido se eu tivesse simplesmente deixado Atlas para trás e jogado tudo fora. Ryle não teria encontrado motivo algum para se chatear.
Levo as mãos ao rosto depois de pensar nisso, frustrada ao perceber que uma parte de mim ainda tenta se culpar, e à ligação com Atlas, pelo comportamento de Ryle.
Não tem desculpa. Nenhuma.
É só mais uma onda que sou obrigada a surfar. Uma onda de completa confusão.
Atlas sente a mudança em meu humor.
— Você está bem?
Não estou.
Não estou bem, porque até o momento eu não fazia ideia de como estava magoada por ele jamais ter me procurado. Se ele tivesse ido atrás de mim como prometeu, eu nunca teria conhecido Ryle. E nunca teria me metido nessa situação.
Pois é. Estou mesmo confusa. Como posso culpar Atlas por tudo isso?
— Acho que preciso dormir — digo baixinho, me afastando.
Eu me levanto, e Atlas também.
— Amanhã vou passar quase o dia todo fora — avisa ele. — Vai estar aqui quando eu voltar?
Eu me contraio com sua pergunta. Claro que ele quer que eu me recupere e encontre outro lugar para ficar. O que ainda estou fazendo ali?
— Não. Não, posso ir para um hotel, tudo bem.
Eu me viro para o corredor, mas ele põe a mão em meu ombro.
— Lily — diz, me virando. — Eu não estava te pedindo para partir. Só queria ter certeza de que ainda estaria aqui. Quero que fique o tempo que precisar.
Seus olhos estão sendo sinceros, e, se eu não achasse inapropriado, jogaria os braços a seu redor e o abraçaria. Ainda não estou pronta para ir embora. Preciso de mais alguns dias antes de ser obrigada a descobrir qual o próximo passo.
Balanço a cabeça.
— Preciso passar algumas horas no trabalho amanhã — digo. — Resolver algumas coisas. Mas, se não for incômodo, eu gostaria de ficar mais alguns dias aqui.
— Não é incômodo algum, Lily. Eu até prefiro.
Forço um sorriso e vou para o quarto de hóspedes. Pelo menos ele está amortecendo a situação antes que eu precise confrontá-la.
Ainda que sua presença em minha vida esteja me confundindo, jamais senti tanta gratidão.