É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 17 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Dezesseis

 

 

— Quero dizer... não estou tentando ser egoísta, mas você não provou a sobremesa, Lily. — resmunga Allysa. — Ah, estava tããão boa.

— A gente nunca mais vai voltar — digo.

Ela bate o pé no chão feito uma criança.

— Mas...

— Não. Precisamos respeitar os sentimentos de seu irmão.

Ela cruza os braços.

— Eu sei, eu sei. Por que você foi uma adolescente cheia de hormônios e se apaixonou pelo melhor chef de Boston?

— Ele não era um chef quando nos conhecemos.

— Que seja... — rebate ela, saindo do escritório e fechando a porta.

Meu celular vibra com uma nova mensagem.

Ryle: Cinco horas já se passaram. Faltam mais cinco. Até agora tudo bem. Mão ótima.

Suspiro, aliviada. Eu não sabia se ele conseguiria operar hoje, mas fico feliz porque sabia como ele estava ansioso por essa cirurgia.

Eu: As mãos mais firmes de Boston.

Abro o laptop e checo o e-mail. A primeira coisa que vejo é uma mensagem do Boston Globe. Abro e descubro que é de um jornalista interessado em fazer um artigo sobre a loja. Sorrio feito uma idiota e estou começando a responder quando Allysa bate à porta. Ela abre e enfia a cabeça no vão.

— Oi — cumprimenta ela.

— Oi — respondo.

Ela tamborila os dedos na porta.

— Lembra que, há alguns minutos, me disse que eu nunca mais poderia voltar ao Bib’s, que é injusto com Ryle, porque o dono é o garoto que você amava na adolescência?

Encosto na cadeira.

— O que você quer, Allysa?

— Se não é justo a gente voltar lá por causa do dono, por que é justo o dono poder vir aqui? — argumenta, enrugando o nariz.

O quê?

Fecho o laptop e me levanto.

— Por que está dizendo isso? Ele está aqui?

Ela assente e entra no escritório, fechando a porta.

— Sim. E perguntou por você. Sei que você está com meu irmão e que estou grávida, mas podemos só parar um instante e admirar em silêncio a perfeição que é aquele homem?

Ela sorri de um jeito sonhador, e eu reviro os olhos.

— Allysa.

— Mas aqueles olhos. — Ela abre a porta e sai. Eu a sigo e me deparo com Atlas. — Ela está bem aqui. Gostaria que eu guardasse seu casaco?

A gente não guarda os casacos das pessoas.

Atlas ergue o olhar quando saio do escritório. Seus olhos se voltam para Allysa, e ele balança a cabeça.

— Não, obrigado. Não vou demorar.

Allysa se inclina para a frente por cima do balcão, apoiando o queixo nas mãos.

— Fique o tempo quiser. Na verdade, está procurando um trabalho extra? Lily precisa contratar mais gente, e estamos procurando alguém capaz de levantar coisas bem pesadas. Requer muita flexibilidade.

Semicerro os olhos para Allysa e articulo com os lábios:

— Chega.

Ela dá de ombros inocentemente. Mantenho a porta aberta para Atlas, mas evito encará-lo quando passa por mim. Estou sentindo uma culpa imensa pelo que aconteceu ontem à noite, mas também uma raiva imensa.

Dou a volta na escrivaninha e me sento na cadeira, preparada para discutir. Porém, quando o olho, fecho a boca.

Ele está sorrindo. Gesticula ao redor enquanto se senta na minha frente.

— Isso é incrível, Lily.

Faço uma pausa.

— Obrigada.

Ele continua sorrindo para mim, como se estivesse orgulhoso. Depois coloca uma sacola em cima da mesa e a empurra em minha direção.

— Um presente — explica. — Pode abrir mais tarde.

Por que ele está comprando presentes para mim? Tem namorada. E eu tenho namorado. Nosso passado já causou problemas demais a meu presente. Certamente não preciso de lembrancinhas para piorar as coisas.

— Por que está comprando presentes para mim, Atlas?

Ele se encosta na cadeira e cruza os braços.

— Comprei faz três anos. Estava guardando caso a gente se reencontrasse algum dia.

Atlas atencioso. Ele não mudou. Droga.

Pego o presente e o coloco no chão atrás da mesa. Tento liberar um pouco da tensão que estou sentindo, mas é muito difícil quando sua presença me deixa tão tensa.

— Vim pedir desculpas — esclarece.

Aceno para que ele deixe isso para lá, indicando que não é necessário.

— Não tem problema. Foi um mal-entendido. Ryle está bem.

Ele ri baixinho.

— Não é por causa disso que estou me desculpando — diz ele. — Nunca me desculparia por te defender.

— Você não estava me defendendo — digo. — Não tinha do que me defender.

Ele inclina a cabeça, com o mesmo olhar de ontem à noite. O olhar que indica como está desapontado comigo. Sinto uma pontada na barriga.

Pigarreio.

— Então por que está se desculpando?

Ele fica quieto por um instante. Contemplativo.

— Queria me desculpar por ter dito que você parecia sua mãe. Isso foi ofensivo. Peço desculpas.

Não sei por que sempre sinto vontade de chorar quando estou com ele. Quando penso nele. Quando leio sobre ele. É como se minhas emoções ainda estivessem conectadas a ele de alguma maneira, e não sei como me desprender.

Seu olhar se fixa em minha mesa. Ele estende o braço e pega três coisas. Uma caneta. Um post-it.

Meu celular.

Ele anota alguma coisa no post-it e depois começa a desmontar meu celular. Tira a capa e coloca o post-it entre a capa e o celular, depois põe a capa de volta. Ele desliza meu celular pela mesa. Olho para o telefone e depois para ele. Atlas se levanta e joga a caneta na mesa.

— É o número de meu celular. Deixe aí escondido caso precise algum dia.

Eu me contraio com seu gesto. Seu gesto desnecessário.

— Não vou precisar.

— Espero que não.

Ele vai até a porta e toca a maçaneta. E sei que é minha única chance de dizer o que preciso dizer antes que ele suma de minha vida para sempre.

— Atlas, espere.

Eu me levanto tão depressa que minha cadeira sai deslizando pelo escritório e esbarra na parede. Ele vira metade do corpo e me encara.

— Sobre o que Ryle te disse ontem. Eu nunca... — Levo a mão trêmula ao pescoço. Sinto meu coração batendo na garganta. — Eu nunca disse aquilo a ele. Ryle estava magoado e chateado, então adulterou o sentido de minhas palavras de muito tempo atrás.

O canto da boca de Atlas se contrai, e não sei se ele tentava não sorrir ou não franzir o rosto. Ele se vira completamente para mim.

— Pode acreditar em mim, Lily. Sei que não foi uma trepada por pena. Eu estava lá.

Ele sai pela porta, e suas palavras me derrubam na cadeira.

Mas... minha cadeira não está mais no lugar. Está do outro lado da sala, e agora estou no chão.

Allysa entra correndo, e estou deitada atrás da mesa.

— Lily? — Ela dá a volta na escrivaninha e para a meu lado. — Você está bem?

Ergo o polegar.

— Estou. Só não acertei a cadeira.

Ela estende a mão e me ajuda a ficar de pé.

— O que foi que aconteceu?

Olho para a porta enquanto pego a cadeira. Eu me sento e olho meu celular.

— Nada. Ele só queria se desculpar.

Allysa suspira cheia de desejo e olha para a porta.

— Isso quer dizer que ele não quer o emprego?

Uma coisa preciso admitir: mesmo no meio de um turbilhão de emoções, ela me faz rir.

— Volte para o trabalho antes que eu diminua seu salário.

Ela ri e começa a se afastar. Bato a caneta na mesa e digo:

— Allysa. Espere.

— Eu sei — diz ela, me interrompendo. — Ryle não deve saber sobre essa visita. Não precisa me pedir.

Sorrio.

— Obrigada.

Ela fecha a porta.

Estendo o braço e pego a sacola com o presente comprado três anos atrás. Percebo facilmente que é um livro, embrulhado em papel delicado. Rasgo a embalagem e caio para trás na cadeira.

Tem uma foto de Ellen DeGeneres na capa, com o título É Sério... Estou Brincando. Rio e depois abro o livro, suspirando baixinho quando vejo o autógrafo. Passo os dedos pelas palavras da dedicatória.

 

Lily,

Atlas pede que continue a nadar.

Ellen DeGeneres

 

Passo o dedo pela assinatura. Depois deixo o livro em minha mesa, encostando a testa na capa, e finjo chorar.