É Assim que Acaba
Capítulo Vinte e Um
— Estou indo. Precisa de mais alguma coisa?
Ergo os olhos dos papéis e nego com a cabeça.
— Obrigada, Serena. Até amanhã.
Ela assente e vai embora, deixando a porta de meu escritório aberta.
O último dia de Allysa foi há duas semanas. O bebê pode nascer a qualquer momento. Tenho mais duas funcionárias em tempo integral, Serena e Lucy.
Sim. Aquela Lucy.
Ela casou faz alguns meses, e duas semanas atrás passou aqui procurando emprego. Na verdade, até que deu tudo certo. Ela se mantém ocupada, e, se estamos juntas aqui, é só fechar a porta do escritório para não escutar sua cantoria.
Já se passou quase um mês desde o incidente na escada. Mesmo depois de tudo o que Ryle me contou sobre sua infância, ainda assim foi difícil perdoá-lo.
Sei que ele é esquentado. Percebi isso na noite em que nos conhecemos, antes mesmo de nos falarmos. Percebi isso naquela noite terrível em minha cozinha. Percebi isso quando ele encontrou um número de telefone dentro da capa de meu celular.
Mas também sei a diferença entre Ryle e meu pai.
Ryle é compassivo. Faz coisas que meu pai nunca teria feito. Ele doa para caridade, se importa com os outros, me coloca em primeiro lugar. Ryle nunca na vida me faria estacionar na frente de casa e ficaria com a vaga da garagem.
Preciso me lembrar dessas coisas. Às vezes, a garota dentro de mim — a filha de meu pai — tem opiniões muito fortes. Ela me diz que eu não devia ter perdoado Ryle. Ela me diz que eu devia ter ido embora logo na primeira vez que aconteceu. E, às vezes, acredito nessa voz. Mas depois o lado que conhece Ryle entende que casamentos não são perfeitos. Em determinados momentos acontecem coisas das quais os dois se arrependem. E eu me pergunto como eu me sentiria comigo mesma se tivesse partido depois do primeiro incidente. Ele nunca deveria ter me empurrado, mas também fiz coisas das quais não me orgulho. Se eu tivesse simplesmente ido embora, teria contrariado nossos votos de casamento? Na alegria e na tristeza. Eu me recuso a desistir de meu casamento com tanta facilidade.
Sou uma mulher forte. Convivi com situações de violência a vida inteira. Jamais vou me tornar minha mãe. Acredito cem por cento nisso. E Ryle nunca vai se tornar meu pai. O incidente da escada foi necessário para que eu descobrisse seu passado e para que pudéssemos trabalhar a questão juntos.
Na semana passada, brigamos de novo.
Fiquei com medo. Nossas outras duas brigas não acabaram bem, e eu sabia que a próxima poria em teste minha decisão de ajudá-lo com a raiva.
Estávamos discutindo sobre sua carreira. Ele já terminou a residência e se inscreveu em um curso de especialização de três meses em Cambridge, na Inglaterra. Em breve vai descobrir se foi aprovado, mas não foi isso que me deixou chateada. É uma grande oportunidade, e eu nunca o impediria de ir. Três meses não são nada com nossa rotina atribulada, então não foi isso que me chateou. Foi quando ele comentou o que faria depois da viagem.
Ryle recebeu uma oferta de trabalho em Minnesota, no Mayo Clinic, e quer que nos mudemos para lá. Disse que o Mass General é considerado o segundo melhor hospital neurológico do mundo. E o Mayo Clinic é o primeiro.
Ele disse que jamais quis ficar em Boston para sempre. Argumentei que deveríamos ter conversado sobre isso quando discutimos nosso futuro a caminho de Las Vegas. Não posso sair de Boston. Minha mãe mora aqui. Allysa mora aqui. Ele disse que Minnesota fica a cinco horas de voo, e que poderíamos visitar sempre que quiséssemos. Falei que seria muito difícil cuidar de uma floricultura morando a vários estados de distância.
A briga ficou ainda mais intensa, e nossa raiva aumentava a cada segundo. Em determinado momento, ele derrubou o vaso de flores de cima da mesa. Eu me assustei, duvidando de minha decisão de ficar com ele. De acreditar que poderíamos lidar juntos com sua raiva.
— Vou sair por uma ou duas horas — disse Ryle, respirando fundo. — Acho que preciso me afastar. Quando eu voltar, a gente continua.
Ele saiu do apartamento e, mantendo sua palavra, voltou uma hora depois, bem mais calmo. Ele largou as chaves na mesa e se aproximou de mim. Segurou meu rosto nas mãos e disse:
— Eu avisei que queria ser o melhor de minha área, Lily. Eu te disse isso na noite em que nos conhecemos. Foi uma de minhas verdades nuas e cruas. Mas, se eu precisar escolher entre trabalhar no melhor hospital do mundo e deixar minha esposa contente... eu escolho você. Você é meu sucesso. Enquanto você estiver feliz, não importa onde eu trabalhe. Vamos ficar em Boston.
Então percebi que tinha tomado a decisão certa. Todo mundo merece uma segunda chance. Especialmente as pessoas mais importantes em nossa vida.
A briga completou uma semana, e ele não falou mais sobre a mudança. Eu me sinto mal, como se eu tivesse frustrado seus planos, mas no casamento é preciso chegar a um meio termo, fazer o melhor para o casal como um todo, não individualmente. E ficar em Boston é melhor para todos os lados da família.
Por falar em família, olho meu celular bem na hora que chega uma mensagem de Allysa.
Allysa: Já terminou de trabalhar? Preciso de sua opinião sobre móveis. Eu: Chego em quinze minutos.
Não sei se é a proximidade do parto ou o fato de não estar trabalhando, mas tenho certeza de que esta semana passei mais tempo na casa de Allysa que na minha. Fecho a loja e vou para seu apartamento.
• • •
Quando saio do elevador, tem um bilhete colado na porta da frente. Vejo meu nome escrito, então o arranco.
Lily,
Estou no sétimo andar. Apartamento 749.
A
Ela tem um apartamento só para guardar móveis extra? Sei que eles são ricos, mas mesmo assim parece exagero. Entro no elevador e aperto o botão do sétimo andar. Quando as portas se abrem, sigo pelo corredor em direção ao apartamento 749. Ao chegar lá, não faço ideia se devo bater ou simplesmente entrar. Pode ter alguém morando ali, vai saber. Provavelmente uma das pessoas de Allysa.
Bato à porta e escuto passos lá dentro.
Fico chocada quando a porta se abre e Ryle aparece a minha frente.
— Oi — digo, confusa. — O que você está fazendo aqui?
Ele sorri e se encosta no batente.
— Eu moro aqui. O que você está fazendo aqui?
Olho para o número de estanho do lado da porta e depois para ele.
— Como assim mora aqui? Achei que morasse comigo. Durante todo esse tempo você tinha um apartamento só seu?
Acho que um apartamento deveria ser algo a se revelar a uma esposa em dado momento. Isso é um pouco irritante.
Na verdade, é um absurdo, é enganador. Estou ficando furiosa com ele.
Ryle ri e se afasta da porta. Agora ele está ocupando todo o vão enquanto leva as mãos à trave acima da cabeça e a segura.
— Ainda não tive tempo de te contar sobre o apartamento porque assinei os documentos esta manhã.
Dou um passo para trás.
— Oi? Como assim?
Ele estende o braço para segurar minha mão e me puxa para dentro.
— Bem-vinda a sua casa, Lily.
Paro no hall de entrada.
Sim. Eu disse hall de entrada. Tem um hall de entrada.
— Você comprou um apartamento?
Ele faz que sim lentamente, avaliando minha reação.
— Você comprou um apartamento — repito.
Ele continua balançando a cabeça.
— Comprei. Tudo bem? Imaginei que seria bom ter mais espaço agora que moramos juntos.
Eu me viro lentamente. Quando vejo a cozinha, eu paro. Não é tão grande quanto a de Allysa, mas é igualmente branca e quase tão bonita. Tem uma adega climatizada e um lava-louça, duas coisas que não existem em meu apartamento. Entro na cozinha e olho ao redor, com medo de tocar nas coisas. É mesmo minha cozinha? Não pode ser...
Olho para o teto arqueado da sala de estar e para as enormes janelas com vista para o Porto de Boston.
— Lily? — chama ele atrás de mim. — Não está zangada, está?
Eu me viro para ele, percebendo que aguarda minha reação há vários minutos. Mas estou totalmente sem palavras.
Balanço a cabeça e tapo a boca com a mão.
— Acho que não — sussurro.
Ele se aproxima de mim e ergue minhas mãos.
— Você acha que não? — Ele parece preocupado e confuso. — Por favor, me diga uma verdade nua e crua, porque começo a duvidar de que esta é uma boa surpresa.
Observo o piso de madeira. É madeira de verdade. Não é laminado.
— Tudo bem — concedo, olhando para ele. — Acho uma loucura você simplesmente comprar um apartamento sem mim. Acho que é uma coisa que devíamos ter feito juntos.
Ele assente e parece prestes a se desculpar, mas ainda não terminei.
— Minha verdade nua e crua é que... é perfeito. Nem sei o que dizer, Ryle. Está tudo tão impecável... Tenho medo de me mudar, porque vou acabar sujando alguma coisa.
Ele solta o ar pela boca e me puxa para perto.
— Pode sujar as coisas, linda. É tudo seu. Pode sujar o quanto quiser.
Ele beija minha têmpora, mas nem agradeço ainda. Parece uma reação pequena demais para um gesto tão grandioso.
— Quando a gente se muda?
Ele dá de ombros.
— Amanhã? Estou de folga. E a gente tem pouca coisa. Podemos passar as próximas semanas comprando móveis novos.
Faço que sim, tentando lembrar qual é a programação de amanhã. Eu já sabia que Ryle estaria de folga, então não planejei nada.
De repente, sinto que preciso me sentar. Não tem nenhuma cadeira por perto, mas pelo menos o chão está limpo.
— Preciso me sentar.
Ryle me ajuda e depois se abaixa a minha frente, ainda segurando minhas mãos.
— Allysa sabe? — pergunto.
Ele sorri e assente.
— Ela está tão animada, Lily! Já faz um tempo que tenho pensado em comprar um apartamento no prédio. Então, quando decidimos ficar em Boston, simplesmente resolvi te surpreender. Ela ajudou, mas comecei a achar que ia te contar antes que eu o fizesse.
A ficha ainda não caiu. Eu moro aqui? Agora eu e Allysa somos vizinhas? Não sei por que me sinto no dever de ficar incomodada com isso, afinal estou muito animada.
— Sei que você precisa de um minuto para assimilar tudo — diz ele, e sorri. — Mas ainda não viu a melhor parte, e estou ficando louco com isso!
— Me mostre!
Ryle sorri e me ajuda a levantar. Atravessamos a sala de estar e seguimos pelo corredor. Ele abre as portas e me apresenta a cada cômodo, mas nem consigo entrar. Quando chegamos ao quarto principal, me dou conta de que moramos em um apartamento de três quartos e dois banheiros. Com um escritório.
Nem tenho tempo de assimilar a beleza do quarto enquanto ele me puxa para dentro. Ryle se aproxima de uma parede coberta por uma cortina e se vira para mim.
— Não dá para plantar um jardim, mas com alguns vasos, dá para chegar perto.
Ele abre a cortina e destranca a porta, revelando uma varanda enorme. Eu o sigo até lá fora, já sonhando com todos os vasos de plantas que caberiam ali.
— Tem a mesma vista que a área de lazer do telhado — diz ele. — Sempre teremos a vista da noite em que nos conhecemos.
Demorou um pouco para a ficha cair, o que acontece neste momento, então começo a chorar. Ryle me puxa para o peito e me abraça com firmeza.
— Lily — sussurra ele, passando a mão em meu cabelo. — Eu não queria fazê-la chorar.
Rio em meio às lágrimas.
— Não acredito que moro aqui.
Eu me afasto e olho para ele.
— Nós somos ricos? Como você tem dinheiro para isso?
Ele ri.
— Você se casou com um neurocirurgião, Lily. Não é nenhuma pobretona.
O comentário me faz rir, e depois choro mais um pouco. Por fim, recebemos nossa primeira visita quando alguém bate à porta.
— É Allysa — diz ele. — Ela está esperando no corredor.
Corro até a porta e a escancaro, nós duas nos abraçamos e damos gritinhos. Acho até que vou chorar mais um pouco.
Passamos o resto da noite no apartamento. Ryle pede comida chinesa, e Marshall desce para comer conosco. Não temos mesas nem cadeiras, então nós quatro nos sentamos no meio da sala de estar e comemos direto das caixas. Comentamos sobre como vamos decorar, falamos de todas as coisas que faremos pela vizinhança, conversamos sobre o parto iminente de Allysa...
É tudo e ainda mais.
Mal posso esperar para contar a minha mãe.