É Assim que Acaba
Nota da Autora
Recomenda-se ler esta parte somente depois de terminar o livro, porque contém spoilers.
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A lembrança mais antiga de minha vida é de quando eu tinha 2 anos e meio. Não havia porta em meu quarto, mas um lençol pregado em cima do batente. Eu me lembro de escutar meu pai gritando, então espiei de trás do lençol bem no instante que ele pegou nossa televisão e a jogou em minha mãe, derrubando-a no chão.
Ela se divorciou antes de eu completar 3 anos. Depois disso, toda lembrança que tenho de meu pai é boa. Ele nunca perdeu a cabeça comigo ou com minhas irmãs, apesar de ter feito isso tantas vezes com minha mãe.
Eu sabia que seu casamento era violento, mas minha mãe jamais falou sobre esse assunto. Conversar sobre isso seria o mesmo que falar mal de meu pai, algo que ela nunca fez. Queria que meu relacionamento com ele fosse livre de qualquer tensão que existisse entre os dois. Por causa disso, tenho o máximo respeito por pais que não envolvem os filhos na dissolução de seus relacionamentos.
Certa vez, perguntei a meu pai sobre as agressões. Ele era muito sincero sobre o relacionamento com minha mãe. Ele bebia muito nos anos que foi casado com ela, e era o primeiro a admitir que não a tratava bem. Até me contou que precisou substituir duas articulações na mão porque bateu em minha mãe com tanta força que se machucou ao lhe atingir a cabeça.
Meu pai passou a vida inteira arrependido da maneira como tratou minha mãe. Maltratá-la foi o pior erro que cometeu na vida, e ele disse que envelheceria e morreria loucamente apaixonado por ela.
Sinto que foi um castigo muito leve considerando o que ela suportou.
Quando decidi escrever esta história, primeiro pedi permissão a minha mãe. Falei que queria escrevê-la para mulheres como ela. Também queria escrevê-la para as pessoas que não compreendem muito bem mulheres como ela.
Eu era uma dessas pessoas.
A mãe que eu conheço não é fraca. Não é alguém que consideraria perdoar um homem que a tratou mal em diversas ocasiões. Porém, enquanto eu escrevia este livro e entrava na mente de Lily, logo percebi que as coisas não são tão simples quanto parecem.
Em mais de uma ocasião, quis mudar o enredo enquanto escrevia o livro. Eu não queria que Ryle fosse quem ele seria, porque me apaixonei por ele nos primeiros capítulos, assim como Lily. Assim como minha mãe se apaixonou por meu pai.
O primeiro incidente entre Ryle e Lily na cozinha foi o que aconteceu na primeira vez que meu pai bateu em minha mãe. Ela estava preparando um ensopado, e ele tinha bebido. Então tirou o ensopado do forno sem usar uma luva. Ela achou engraçado e riu. De repente, ele a atingiu com tanta força que ela voou para o outro lado da cozinha.
Minha mãe decidiu perdoá-lo por esse único incidente, porque seu arrependimento e seu pedido de desculpas pareceram convincentes. Ou, pelo menos, suficientemente convincentes a ponto de que lhe dar uma segunda chance doesse menos que abandoná-lo de coração partido.
Com o tempo, os incidentes que se seguiram foram semelhantes ao primeiro. Meu pai sempre demonstrava remorso e prometia nunca mais fazer aquilo. Finalmente chegou ao ponto em que ela sabia que as promessas não valiam nada, mas àquela altura já era mãe de duas filhas e não tinha dinheiro para abandoná-lo. E, diferentemente de Lily, minha mãe não teve muito apoio. Não havia nenhum abrigo para mulheres. Naquela época, a ajuda do governo era quase nula. Deixá-lo significaria que não teríamos onde morar, mas, para ela, isso era uma alternativa melhor.
Meu pai faleceu há vários anos, quando eu tinha 25 anos. Ele não foi o melhor pai. Certamente não foi o melhor marido. Mas, graças a minha mãe, pude ter um relacionamento muito próximo com ele, porque ela deu os passos necessários para destruir o padrão antes que o padrão nos destruísse. E não foi fácil. Ela o largou pouco antes de eu completar 3 anos e de minha irmã mais velha fazer 5. Passamos dois anos inteiros vivendo à base de feijão e macarrão com queijo. Ela era uma mãe solteira sem formação universitária, criando duas filhas sozinha, sem praticamente nenhuma ajuda. Mas seu amor por nós duas a fortaleceu a ponto de que conseguisse dar esse passo aterrorizante.
De forma alguma minha intenção é usar a situação de Ryle e Lily para definir violência doméstica. Nem usar o personagem de Ryle para definir as características da maioria dos agressores. Cada situação é diferente. Cada resultado é diferente. Escolhi moldar a história de Lily e Ryle baseada na história de meu pai e de minha mãe. Pensei em Ryle com base em vários aspectos de meu pai. Eles são bonitos, gentis, engraçados e inteligentes... mas têm momentos em que se comportam de forma imperdoável.
Moldei Lily com base em vários aspectos de minha mãe. Ambas são mulheres afetuosas, inteligentes e fortes que simplesmente se apaixonaram por homens que não mereciam seu amor de jeito algum.
Dois anos após se divorciar de meu pai, minha mãe conheceu meu padrasto. Ele era o exemplo de um bom marido. As lembranças que tenho dos dois durante minha infância determinaram o casamento que eu queria para mim mesma.
Quando finalmente chegou minha hora de casar, a coisa mais difícil que já fiz na vida foi contar a meu pai biológico que ele não entraria na igreja comigo, pois eu pediria para meu padrasto fazer isso.
Senti que precisava fazer isso por vários motivos. Meu padrasto assumiu responsabilidades como marido que meu pai nunca assumiu. Meu padrasto assumiu responsabilidades financeiras que meu pai nunca assumiu. E meu padrasto nos criou como se fôssemos suas próprias filhas, sem nunca nos proibir de ter um relacionamento com nosso pai biológico.
Eu me lembro de me sentar na sala de meu pai um mês antes de meu casamento. Falei que o amava, mas que ia pedir para meu padrasto entrar na igreja comigo. Estava preparada para me defender de sua reação de toda maneira possível. Mas não esperava de jeito algum a resposta que ele me deu.
Ele concordou com a cabeça e disse: “Colleen, ele criou você. Merece levá-la para o altar no dia de seu casamento. E você não deve se sentir culpada por isso, porque é a coisa certa a se fazer”.
Eu sabia que minha decisão tinha deixado meu pai completamente arrasado. Mas ele era altruísta o suficiente como pai não só para respeitar minha decisão, como para querer que eu a respeitasse também.
Meu pai ficou sentado na igreja enquanto outro homem me levava ao altar. Eu sabia que as pessoas não entendiam por que não pedi para os dois me acompanharem. Mas, quando penso nisso hoje em dia, percebo que tomei essa decisão em respeito a minha mãe.
A escolha da pessoa que ia entrar comigo na igreja não teve a ver com meu pai, e na verdade também não teve a ver com meu padrasto. Teve a ver com ela. Eu queria que o homem que a tratava como ela merecia tivesse a honra de entrar com sua filha na igreja.
No passado, eu dizia sempre que escrevia só para entreter. Não escrevo para educar, persuadir ou informar.
Mas este livro é diferente. Para mim, não foi entretenimento. Foi a coisa mais difícil que já escrevi.
Às vezes, eu queria apertar a tecla Delete e desfazer a maneira como Ryle tratou Lily. Quis reescrever as cenas em que ela o perdoava, e quis substituí-las por uma mulher mais resistente, uma personagem que tomava todas as decisões certas em todos os momentos certos. Mas não era sobre esses personagens que eu estava escrevendo.
Não era essa a história que eu estava contando.
Eu queria escrever algo realista relacionado à situação de minha mãe, que é uma situação enfrentada por muitas mulheres. Eu queria explorar o amor entre Lily e Ryle para sentir o que minha mãe sentiu quando teve de decidir se ia abandonar meu pai, um homem que ela amava do fundo do coração.
Às vezes, me pergunto como minha vida teria sido diferente se minha mãe não houvesse tomado essa decisão. Ela abandonou alguém que amava para que suas filhas nunca achassem aceitável aquele tipo de relacionamento. Ela não foi resgatada por outro homem, por um príncipe de conto de fadas. Tomou sozinha a iniciativa de abandonar meu pai, sabendo que enfrentaria uma luta completamente diferente com o estresse adicional de ser mãe solteira. Para mim, foi importante que o personagem de Lily incorporasse esse mesmo empoderamento. Lily tomou a decisão final de deixar Ryle pelo bem da filha. Apesar de haver uma pequena possibilidade de Ryle acabar mudando para melhor, certos riscos nunca valem a pena. Ainda mais quando esses riscos já desapontaram a pessoa no passado.
Antes de escrever este livro, eu tinha muito respeito por minha mãe. Agora que o terminei e consegui explorar uma fração minúscula da dor e da luta que ela enfrentou para chegar onde está hoje, só tenho uma coisa a dizer a ela:
Quero ser você quando crescer.
Você terminou É Assim que Acaba
Colleen Hoover