É Assim que Acaba
Capítulo Vinte e Oito
Depois que Ryle me entregou as chaves à tarde, fiquei na dúvida se deveria voltar para nosso novo apartamento. Até parei na frente do prédio, mas não consegui sair do táxi. Sei que se voltasse para lá hoje, provavelmente encontraria Allysa em algum momento. E não estou pronta para explicar os pontos na testa. Não estou pronta para ver a cozinha onde as palavras terríveis de Ryle me dilaceraram. Não estou pronta para entrar no quarto onde fui completamente destruída.
Então, em vez de voltar, pedi ao taxista que me levasse até a casa de Atlas. Parece ser meu único porto seguro no momento. Não preciso confrontar nada enquanto estou escondida ali.
Atlas já havia me mandado duas mensagens hoje para saber como eu estava, então, quando recebo outra mensagem alguns minutos antes das 19h, presumo que é dele. Mas não, é de Allysa.
Allysa: Já chegou do trabalho? Suba aqui para nos visitar, estou entediada.
Sinto um aperto no peito ao ler a mensagem. Ela não faz ideia do que aconteceu entre mim e Ryle. Fico na dúvida se Ryle ao menos contou a ela que viajou hoje para a Inglaterra. Meu polegar digita algo e apaga, depois digita mais um pouco enquanto tento encontrar uma boa desculpa para não passar lá.
Eu: Não posso. Estou na emergência. Bati a cabeça na prateleira do depósito da loja. Estou levando pontos.
Odeio mentir para ela, mas assim não terei de explicar o corte, nem por que não estou em casa.
Allysa: Ah, puxa! Está sozinha? Marshall pode ficar com você já que Ryle viajou.
Então ela sabe que Ryle foi para a Inglaterra. O que é bom. E ela acha que estamos bem. Isso também é bom. Significa que tenho pelo menos três meses antes de contar a verdade.
Olha só quem está varrendo merda para debaixo do tapete, assim como a mãe.
Eu: Não, estou bem. Já está terminando, não daria tempo de Marshall chegar. Passo aí amanhã depois do trabalho. Dê um beijo em Rylee por mim.
Bloqueio a tela do celular e o largo na cama. Está escuro lá fora, então vejo imediatamente os faróis de um carro pararem na frente da casa. Sei que não é Atlas, porque ele usa a entrada da lateral e estaciona na garagem. Meu coração começa a disparar enquanto sou dominada pelo medo. Será que é Ryle? Ele descobriu onde Atlas mora?
Momentos depois, escuto alguém bater ruidosamente à porta. Ou melhor, golpear a porta. A campainha também toca.
Vou nas pontas dos pés até a janela e puxo as cortinas apenas o suficiente para dar uma olhada lá fora. Não dá para ver quem está na porta, mas tem uma caminhonete na entrada. Não é de Ryle.
Será que é a namorada de Atlas? Cassie?
Pego o celular e sigo pelo corredor na direção da sala de estar. Os golpes na porta e o som da campainha persistem. Quem quer que esteja ali não tem nenhuma paciência. Se for Cassie, já a estou achando extremamente irritante.
— Atlas! — grita um cara. — Abre a porta, pô!
— Meu saco está congelando! Já virou uma uva-passa, cara, abre logo! — grita outra voz masculina.
Antes de abrir a porta e avisar que Atlas não está, mando uma mensagem para ele na esperança de que esteja chegando em casa e resolva isso sozinho.
Eu: Cadê você? Tem dois homens na porta de sua casa, e não faço ideia se devo deixar eles
entrarem.
Espero escutando mais batidas e mais campainha, mas Atlas não me responde. Por fim, vou até a porta e deixo o ferrolho no lugar, mas destranco a fechadura e abro só alguns centímetros.
Um dos caras é alto, com mais ou menos 1,80m. Apesar do rosto jovem, seu cabelo é um pouco grisalho. É preto com alguns fios cinzentos salpicados. O outro é alguns centímetros mais baixo, tem cabelo castanho e rosto de bebê. Os dois parecem ter 20 e tantos anos, talvez 30 e poucos. O mais alto exibe uma expressão confusa.
— Quem é você? — pergunta ele, espiando pela porta.
— Lily. Quem é você?
O mais baixo se inclina para a frente do mais alto.
— Atlas está aí?
Não quero dizer a verdade, pois assim saberão que estou sozinha. Nessa semana, não estou confiando nem um pouco na população masculina.
O telefone em minha mão toca, e nós três nos sobressaltamos com o barulho inesperado. É Atlas. Deslizo o botão de atender e levo o aparelho ao ouvido.
— Alô?
— Está tudo bem, Lily, são meus amigos. Esqueci que era sexta, e a gente sempre joga pôquer nas sextas. Vou ligar para eles agora e dizer para irem embora.
Olho para os dois, que estão parados me observando. Estou me sentindo mal por Atlas achar que precisa cancelar seus planos só porque estou ficando em sua casa. Fecho a porta, solto o ferrolho e a abro novamente, gesticulando para que entrem.
— Está tudo bem, Atlas. Não precisa cancelar seus planos. Eu já ia dormir mesmo.
— Não, já estou chegando. Vou pedir para irem embora.
Ainda estou com o celular no ouvido quando os dois homens entram na sala de estar.
— Até daqui a pouco — digo para Atlas, e desligo.
Os próximos segundos são constrangedores, porque os rapazes me analisam e eu os analiso de volta.
— Como vocês se chamam?
— Eu sou Darin — diz o mais alto.
— Brad — fala o mais baixo.
— Lily — me apresento, apesar de já ter falado meu nome. — Atlas já está chegando.
Eu me aproximo da porta para fechá-la, e eles parecem relaxar um pouco. Darin vai até a cozinha e abre a geladeira de Atlas.
Brad tira a jaqueta e a pendura.
— Você sabe jogar pôquer, Lily?
Dou de ombros.
— Faz alguns anos, mas eu jogava com os amigos na faculdade.
Os dois se aproximam da mesa de jantar.
— O que aconteceu com sua cabeça? — pergunta Darin, enquanto se senta.
Ele pergunta muito casualmente, como se nem considerasse que pode ser um assunto delicado.
Não sei por que me dá vontade de contar uma verdade nua e crua a ele. Talvez eu só queira ver como alguém vai reagir ao descobrir que meu marido fez isso comigo.
— Meu marido aconteceu. Nós brigamos duas noites atrás, e ele me deu uma cabeçada. Atlas me levou para a emergência. Tomei seis pontos e descobri que estou grávida. Agora estou me escondendo aqui até descobrir o que fazer.
O coitado do Darin fica paralisado, meio sentado, meio em pé. Não faz ideia de como reagir. A julgar pela expressão, deve estar pensando que sou louca.
Brad puxa a cadeira e se senta, apontando para mim.
— Você devia passar Rodan and Fields. O rolo esfoliante é ótimo para cicatrizes.
Não sei como, mas caio na gargalhada com a resposta inesperada.
— Meu Deus, Brad! — diz Darin, finalmente se sentando. — Você é pior que sua esposa com essa merda de venda direta. Parece um infomercial ambulante.
Brad ergue a mão para se defender.
— Qual o problema? — pergunta ele, com inocência. — Não estou tentando vender nada a ela, só estou sendo sincero. O negócio funciona. Você saberia se usasse nessa acne ridícula.
— Vá se ferrar — retruca Darin.
— Fica parecendo que você quer ser adolescente para sempre — murmura Brad. — Acne não é legal em uma pessoa de 30 anos.
Brad puxa a cadeira a seu lado enquanto Darin começa a embaralhar as cartas.
— Sente-se, Lily. Um de nossos amigos decidiu ser um idiota e se casar na semana passada, agora a esposa não deixa mais ele participar da noite do pôquer. Você pode substitui-lo até ele se divorciar.
Eu tinha toda a intenção de passar a noite escondida no quarto, mas é difícil ficar longe desses dois. Eu me sento ao lado de Brad e estendo o braço por cima da mesa.
— Me dê isso aqui — peço a Darin.
Ele está embaralhando as cartas feito uma criança de um braço só.
O rapaz ergue a sobrancelha e empurra as cartas na mesa. Não entendo muito de jogos de baralho, mas sei embaralhar como se minha vida dependesse disso.
Separo as cartas em duas pilhas e as junto, pressionando os polegares nas extremidades, observando elas se misturarem lindamente. Darin e Brad encaram o baralho, e, de repente, escutamos outra pessoa bater à porta. Dessa vez, a porta se escancara sem hesitação, e um sujeito com uma sofisticada jaqueta de tweed entra. Ele está de cachecol e começa a desenrolá-lo assim que fecha a porta. Aponta a cabeça em minha direção enquanto se aproxima da cozinha.
— Quem é você?
Ele é mais velho que os outros dois, deve estar na casa dos 40 anos.
Os amigos de Atlas são mesmo uma mistura curiosa.
— Esta é Lily — responde Brad. — Ela é casada com um babaca e acabou de descobrir que está grávida desse babaca. Lily, este é Jimmy. Ele é metido e arrogante.
— Metido e arrogante significam a mesma coisa, seu idiota — retruca Jimmy. Ele puxa a cadeira ao lado de Darin e aponta a cabeça para o baralho em minhas mãos. — Atlas trouxe você para enganar a gente? Nenhuma pessoa normal sabe embaralhar desse jeito.
Sorrio e começo a distribuir as cartas.
— Acho que vamos ter de jogar uma rodada para descobrir.
• • •
Estamos na terceira rodada de apostas quando Atlas finalmente chega. Ele fecha a porta e nos observa. Brad disse alguma coisa engraçada logo antes de Atlas aparecer, então estou no meio de uma crise de riso quando ele me olha. Aponta para a direção da cozinha e anda naquela direção.
— Passo — aviso, colocando as cartas na mesa enquanto me levanto para segui-lo.
Quando chego à cozinha, eu o encontro parado em um canto abrigado dos olhares da mesa de jogo.
— Quer que eu peça para irem embora?
Nego com a cabeça.
— Não, não faça isso. Estou me divertindo de verdade. E me distraindo.
Ele assente e percebo que cheira a ervas. Mais especificamente, alecrim. Fico com vontade de vê-lo em ação no restaurante.
— Está com fome? — pergunta ele.
Balanço a cabeça.
— Na verdade, não. Comi algumas horas atrás um pouco do macarrão que sobrou.
Encosto as mãos no balcão, uma em cada lado do corpo. Ele se aproxima e põe a mão em cima da minha, roçando o polegar ali. Sei que não passa de um gesto reconfortante, mas, quando ele me toca, sinto muito mais que isso. Uma onda de calor me sobe o peito, e eu imediatamente olho para nossas mãos. Atlas para de mexer o dedo por um instante, como se também estivesse sentindo. Ele afasta a mão e dá um passo para trás.
— Desculpe — murmura.
Ele se vira para a geladeira, fingindo procurar alguma coisa. Obviamente está tentando me poupar do momento constrangedor que acabou de acontecer.
Volto para a mesa e pego minhas cartas da próxima rodada. Alguns minutos depois, Atlas chega e se senta a meu lado. Jimmy distribui uma nova leva de cartas para todo mundo.
— E então, Atlas, como você e Lily se conheceram?
Atlas pega uma carta de cada vez.
— Lily salvou minha vida quando éramos adolescentes — revela, inexpressivamente.
Ele olha para mim e dá uma piscadela, e sou tomada pela culpa ao perceber o que o gesto causa em mim. Especialmente em um momento como aquele. Por que meu coração está fazendo isso comigo?
— Ah, que meigo! — diz Brad. — Lily salvou sua vida, agora você está salvando a dela.
Atlas abaixa as cartas e lança um olhar fulminante para Brad.
— Como é?
— Relaxe — diz Brad. — Eu e Lily somos amigos, então ela sabe que estou brincando. — Brad olha para mim. — Sua vida deve estar a maior merda, Lily, mas vai melhorar. Confie em mim, já passei por isso.
— Você já levou uma surra enquanto estava grávido e se escondeu na casa de outro homem? — pergunta Darin, rindo.
Atlas coloca com força as cartas na mesa e empurra a cadeira para trás.
— Qual é seu problema, hein? — grita ele com Darin.
Estendo o braço e aperto o dele para tranquilizá-lo.
— Relaxe — peço. — A gente ficou amigo antes de você chegar. Não me incomodo se fizerem piada com minha situação. Na verdade, deixa tudo um pouco menos pesado.
Ele passa a mão no cabelo, balançando a cabeça, frustrado.
— Estou tão confuso — confessa ele. — Você só passou dez minutos sozinha com eles.
Eu rio.
— Dá para conhecer bastante sobre alguém em dez minutos. — Tento mudar de assunto. — E como todos vocês se conhecem?
Darin se inclina para a frente e aponta para si mesmo.
— Sou sous-chef no Bib’s. — Ele aponta para Brad. — Ele lava a louça.
— Por enquanto — retruca Brad. — Estou subindo aos poucos na carreira.
— E você? — pergunto a Jimmy.
— Adivinhe — instiga, com um sorriso sarcástico.
A julgar pela roupa e por ter sido chamado de arrogante e metido, eu diria que ele é...
— Mâitre?
Atlas ri.
— Na verdade, Jimmy é o manobrista.
Olho para Jimmy e ergo a sobrancelha. Ele joga três fichas na mesa e diz:
— É verdade. Eu estaciono carros em troca de gorjetas.
— Não caia na dele — avisa Atlas. — Ele trabalha como manobrista porque é tão rico que fica entediado.
Sorrio e me lembro de Allysa.
— Tenho uma funcionária assim. Ela só trabalha porque está entediada. E, na verdade, é minha melhor funcionária.
— Isso aí — murmura Jimmy.
Dou uma olhada em minhas cartas e jogo as três fichas. O celular de Atlas toca, e ele o tira do bolso. Estou aumentando a aposta com mais uma ficha quando ele pede licença para atender a ligação.
— Passo — diz Brad, jogando as cartas na mesa.
Fico observando o corredor por onde Atlas saiu apressado. Será que está falando com Cassie? Ou tem alguma outra pessoa em sua vida? Sei com o que ele trabalha. Sei que ele tem pelo menos três amigos. Mas não sei nada sobre sua vida amorosa.
Darin coloca as cartas na mesa. Quadra. Baixo meu straight flush e estendo o braço para pegar todas as fichas enquanto Darin resmunga.
— Cassie nunca participa da noite do pôquer? — pergunto, tentando descobrir mais informações sobre Atlas.
Informações que tenho medo de perguntar diretamente a ele.
— Cassie? — pergunta Brad.
Empilho as fichas a minha frente e assinto.
— Não é esse o nome da namorada de Atlas?
Darin ri.
— Atlas não tem namorada. Nós nos conhecemos há dois anos, e ele jamais mencionou uma garota chamada Cassie.
Ele começa a distribuir as cartas, mas estou tentando absorver essa nova informação. Pego minhas duas primeiras cartas, e Atlas reaparece.
— Oi, Atlas — diz Jimmy. — Quem diabo é Cassie? E por que a gente nunca ouviu falar dela?
Ai, merda.
Estou completamente mortificada. Seguro as cartas com mais força e tento não olhar para Atlas, mas todos ficam em um silêncio absoluto e eu chamaria ainda mais atenção se não olhasse para ele.
Ele está encarando Jimmy. Jimmy o encara de volta. Brad e Darin olham para mim.
— Não existe nenhuma Cassie — responde Atlas, comprimindo os lábios.
Seus olhos encontram os meus, apenas por um breve segundo. Mas nesse breve segundo, noto o que está estampado em seu rosto.
Cassie nunca existiu.
Ele mentiu para mim.
— Olhe... Eu devia ter cancelado hoje. A semana foi meio... — diz Atlas, e pigarreia.
Ele esfrega a boca com a mão, e Jimmy se levanta.
— Semana que vem vai ser lá em casa, então — diz, ao apertar os ombros de Atlas.
Atlas concorda com a cabeça, como se agradecesse. Os três começam a juntar as cartas e as fichas de pôquer. Brad puxa com dificuldade as cartas de minha mão porque não consigo me mexer, portanto as estou segurando com firmeza.
— Foi um prazer conhecê-la, Lily — diz Brad.
De algum modo, encontro forças para sorrir e me levantar. Abraço todos eles, e, depois que a porta se fecha, só resta Atlas e eu.
E nenhuma Cassie.
Cassie sequer esteve aqui porque Cassie não existe.
Como assim?
Atlas não saiu de perto da mesa. Nem eu. Ele está parado, de braços cruzados. Sua cabeça está levemente inclinada para baixo, mas seus olhos me fulminam do outro lado da mesa.
Por que ele mentiria para mim?
Ryle e eu nem estávamos oficialmente juntos na primeira vez que encontrei Atlas no restaurante. Caramba, se Atlas tivesse me dado qualquer motivo para acreditar que poderia acontecer alguma coisa entre nós dois naquela noite, eu o teria escolhido, sem nenhuma dúvida. Eu mal conhecia Ryle naquela época.
Mas Atlas não disse nada. Ele mentiu para mim e disse que namorava há um ano. Por quê? Por que ele faria isso, a menos que quisesse me convencer de que não teria chance com ele...
Talvez eu tenha me equivocado durante todo esse tempo. Talvez ele nem me amasse, para início de conversa, e ele sabia que, se inventasse essa tal de Cassie, me afastaria de vez.
No entanto, aqui estou eu. Dormindo em sua casa. Interagindo com seus amigos. Comendo sua comida. Usando seu chuveiro.
Sinto lágrimas nos olhos, e a última coisa que quero é chorar na sua frente. Dou a volta na mesa e passo por ele. Mas não vou muito longe porque ele agarra minha mão.
— Espere.
Paro, ainda virada para o outro lado.
— Converse comigo, Lily.
Ele está bem atrás de mim, ainda segurando minha mão. Puxo o braço e vou para o outro lado da sala.
Eu me viro no mesmo instante que a primeira lágrima escorre por minha bochecha.
— Por que você nunca me procurou?
Ele parecia pronto para ouvir qualquer coisa que eu tivesse a dizer, menos minhas últimas palavras. Ele passa a mão pelo cabelo, vai até o sofá e senta. Depois de expirar pela boca para se acalmar, ele olha para mim com cautela.
— Eu te procurei, Lily.
Não permito que o ar entre ou saia de meus pulmões.
Fico imóvel, processando sua resposta.
Ele me procurou?
Ele une as mãos diante do corpo.
— Na primeira vez que saí da Marinha, voltei ao Maine atrás de você. Fiz algumas perguntas e descobri qual faculdade você estava cursando. Eu não sabia o que esperar quando chegasse lá, porque nós já éramos duas pessoas diferentes. Não nos víamos há quatro anos. Eu sabia que provavelmente tínhamos mudado muito nesse tempo.
Sinto uma fraqueza nos joelhos, então me aproximo da cadeira ao lado e me abaixo. Ele realmente me procurou?
— Passei o dia inteiro andando pelo campus tentando te encontrar. Finalmente, no fim da tarde, eu te vi. Estava sentada no pátio com um grupo de amigos. Fiquei te olhando por muito tempo, tentando juntar coragem para me aproximar. Você estava rindo. Estava feliz. Nunca a vi tão animada. E nunca senti tanta felicidade por outra pessoa quanto senti ao vê-la naquele dia. Só de saber que estava bem...
Ele hesita. Estou com as mãos na barriga, porque está doendo. Dói saber que ficamos tão perto e eu nem sabia.
— Comecei a me aproximar quando apareceu alguém atrás de você. Um cara. Ele se ajoelhou a seu lado, e, quando você olhou para ele, sorriu e o abraçou. E depois o beijou.
Fecho os olhos. Era só um garoto que namorei por seis meses. Não senti por ele nem uma migalha do que eu sentia por Atlas.
Ele expira pela boca com força.
— Fui embora depois daquilo. Ver que você estava feliz foi a melhor e a pior coisa que senti. Mas naquela época eu achava que minha vida ainda não era suficientemente boa para você. Eu não tinha nada a oferecer além de amor, e para mim você merecia mais. No dia seguinte, me alistei para mais um período na Marinha. E agora...
Ele ergue lentamente as mãos, como se nada em sua vida fosse impressionante.
Apoio a cabeça nas mãos em busca de uma pausa. Sofro em silêncio ao pensar em como as coisas poderiam ter sido. Em como são. Em como não foram. Toco a tatuagem em meu ombro. Será que algum dia vou conseguir preencher esse buraco? Será que, às vezes, Atlas sente o mesmo que eu quando fiz essa tatuagem? Como se todo o ar estivesse saindo desse coração...
Ainda não entendo por que ele mentiu para mim quando me encontrou no restaurante. Se realmente sentia o mesmo que eu, por que inventou algo desse tipo?
— Por que você mentiu que tinha namorada?
Ele passa a mão no rosto, e noto seu arrependimento antes mesmo de escutá-lo em sua voz.
— Eu disse aquilo porque... você parecia feliz naquela noite. Quando a vi se despedir de Ryle, sofri demais, mas também fiquei aliviado porque parecia muito bem. Eu não queria que se preocupasse comigo. E não sei... talvez eu tenha ficado com um pouco de ciúme. Não sei, Lily. Na mesma hora me arrependi de ter mentido para você.
Levo a mão à boca. Minha mente começa a disparar quase na mesma velocidade do coração. Fico considerando as possibilidades. E se ele tivesse sido sincero comigo? E se tivesse me contado o que sentia? Onde estaríamos?
Quero perguntar por que ele fez aquilo. Por que não lutou por mim. Mas não é preciso porque já sei a resposta. Ele julgou que me dava o que eu queria, porque o tempo todo só queria minha felicidade. E, por algum motivo idiota, achou que eu jamais conseguiria isso a seu lado.
Atlas atencioso.
Quanto mais eu penso, mais tenho dificuldade em respirar. Penso em Atlas. Em Ryle. Na noite de hoje. Em duas noites atrás. É demais.
Eu me levanto e vou para o quarto de hóspedes. Pego o celular e minha bolsa, depois volto para a sala de estar. Atlas não se mexeu.
— Ryle foi para a Inglaterra hoje — digo. — Acho que é melhor eu voltar para casa. Pode me levar?
Seu olhar emana tristeza, e, quando percebo, sinto que ir embora é a decisão certa. Nenhum de nós colocou um ponto final em nossa história. Talvez isso nunca aconteça. Começo a achar que ponto final é só um mito, e ficar com ele enquanto ainda processo tudo o que está acontecendo em minha vida só vai piorar tudo. Preciso eliminar o máximo de confusão possível e, no momento, meus sentimentos por Atlas estão no topo da lista das confusões de minha vida.
Ele comprime os lábios, depois assente e pega as chaves.
• • •
Nenhum de nós diz nada no caminho até minha casa. Ele não para na frente do prédio. Entra no estacionamento e sai do carro.
— Vou me sentir melhor se te acompanhar até lá em cima — explica ele.
Concordo com a cabeça, e continuamos em silêncio enquanto subimos no elevador até o sétimo andar. Ele me acompanha até meu apartamento. Procuro as chaves na bolsa e só percebo o tremor em minhas mãos na terceira tentativa de abrir o ferrolho. Atlas pega as chaves com calma, e me afasto enquanto ele abre a porta para mim.
— Quer que eu confira se não tem ninguém aqui? — pergunta ele.
Assinto. Sei que Ryle não está aqui porque viajou para a Inglaterra, mas, sinceramente, tenho um pouco de medo de entrar sozinha no apartamento.
Atlas entra antes de mim e acende a luz. Ele continua andando pelo apartamento, acendendo todas as luzes e entrando em todos os cômodos. Ao voltar para a sala de estar, enfia as mãos nos bolsos da jaqueta. Respira fundo e diz:
— Não sei o que acontece agora, Lily.
Ele sabe. Sabe, sim. Só não quer que aconteça, porque nós dois sabemos como dói nos despedir.
Desvio o olhar, porque ver sua expressão me causa um aperto no peito. Cruzo os braços e encaro o chão.
— Tenho muita coisa para resolver, Atlas. Muita. E tenho medo de não conseguir fazer isso com você em minha vida. — Ergo os olhos até os seus. — Espero que não fique ofendido, porque na verdade é um elogio.
Ele me encara em silêncio, nada surpreso com o que eu disse. Mas percebo que tem muita coisa que ele gostaria de dizer. Eu também queria lhe dizer mais coisas, mas sabemos que discutir nosso relacionamento não é adequado agora. Sou casada. Estou grávida de outro homem. E ele está parado na sala do apartamento que outro homem comprou para mim. Acho que esse não é o melhor cenário para discutir tudo o que deveríamos ter dito um para o outro tanto tempo atrás.
Ele olha para a porta, como se estivesse tentando decidir se fala ou se vai embora. Vejo seu maxilar se contrair logo antes de me encarar.
— Se precisar de mim, quero que me ligue — diz ele. — Mas só se for uma emergência. Não consigo lidar casualmente com você, Lily.
Fico surpresa com suas palavras, mas só por um instante. Por mais inesperada que fosse a confissão, ele está certo. Desde que nos conhecemos, nosso relacionamento não teve nada de casual. É tudo ou nada. Por isso nos afastamos quando ele se alistou. Ele sabia que uma amizade casual nunca daria certo entre nós. Teria sido doloroso demais.
Pelo jeito, isso não mudou.
— Adeus, Atlas.
Repetir essas palavras me deixa quase tão chorosa quanto da primeira vez que lhe disse isso. Atlas estremece, se vira e se aproxima da porta, como se estivesse louco para ir embora. Quando a porta se fecha, vou até ela e a tranco. Em seguida, encosto a cabeça ali.
Dois dias atrás, eu me perguntava como minha vida poderia melhorar. Hoje, me pergunto o oposto.
Dou um pulo para trás quando alguém bate à porta. Só se passaram dez segundos desde que ele saiu, então sei que é Atlas. Destranco e a abro, e, de repente, estou pressionada em algo macio. Os braços de Atlas me apertam com firmeza, desesperados, e seus lábios roçam minha têmpora.
Fecho os olhos e finalmente deixo as lágrimas escorrerem. Já chorei tanto por Ryle nos últimos dois dias que nem sei como ainda sobrou alguma lágrima para Atlas. Mas sobrou, porque lágrimas molham minhas bochechas, como chuva.
— Lily — sussurra ele, ainda me abraçando com firmeza. — Sei que é a última coisa de que precisa agora. Mas tenho de falar, porque já fiquei longe tempo demais sem dizer o que eu realmente queria.
Ele se afasta para me olhar, e, ao ver minhas lágrimas, leva as mãos até meu rosto.
— No futuro... se por algum milagre você achar que é capaz de se apaixonar de novo... se apaixone por mim. — Ele encosta os lábios em minha testa. — Você ainda é minha pessoa preferida, Lily. E sempre será.
Ele me solta e sai, sem precisar de uma resposta.
Quando fecho a porta de novo, deslizo até o chão. Meu coração parece querer desistir. Eu entendo. Ele foi partido duas vezes de formas diferentes em apenas dois dias.
E sinto que vou precisar de um bom tempo para que ele comece a sarar dessas mágoas.