É Assim que Acaba
Capítulo Vinte e Dois
A data prevista para o parto de Allysa passou faz três dias.
Estamos morando no novo apartamento há uma semana. Conseguimos trazer todas as nossas coisas no dia de folga de Ryle, e Allysa e eu fomos comprar móveis já em nosso segundo dia no apartamento. No terceiro, estávamos praticamente acomodados. Recebemos a primeira correspondência ontem. Era a conta de um serviço público, então agora sim parece oficial.
Estou casada. Tenho um marido ótimo. Uma casa incrível. Minha melhor amiga por acaso é minha cunhada, e estou prestes a ser tia.
Será que me atrevo a perguntar se a vida poderia melhorar?
Fecho o laptop e me arrumo para sair. Tenho saído mais cedo que o normal de tão animada que estou com o novo apartamento. Quando começo a fechar o escritório, Ryle usa sua chave para abrir a porta da loja. Ele deixa a porta bater enquanto entra com as mãos cheias.
Traz um jornal debaixo do braço, e dois cafés nas mãos. Apesar do olhar frenético e dos passos urgentes, ele está sorrindo.
— Lily — diz, ao se aproximar. Ryle me passa um café e depois pega o jornal debaixo do braço. — Três coisas. Um: viu o jornal? — Ele o entrega para mim. O jornal está dobrado de dentro para fora. Ele aponta para a matéria. — Você conseguiu, Lily. Conseguiu!
Tento frear a expectativa enquanto dou uma olhada. Pode ser algo totalmente diferente do que estou pensando. Depois que leio a manchete, percebo que Ryle se referia a exatamente o que eu pensava.
— Consegui?
Fui avisada de que a loja tinha sido indicada ao prêmio do Melhores de Boston. É um prêmio anual de votação popular organizado pelo jornal, e a Lily Bloom’s foi indicada na categoria “Melhores novos estabelecimentos de Boston”. O critério engloba empresas abertas há menos de dois anos. Suspeitei de que podia ter sido escolhida quando um repórter do jornal me ligou na semana passada e me fez várias perguntas.
A manchete diz: “Melhores novos estabelecimentos de Boston. Aqui estão os dez mais votados!”.
Sorrio e quase derrubo o café quando Ryle me puxa para perto, me levanta e gira comigo.
Ele disse que eram três notícias, e, se começou com essa, não faço ideia de quais são as outras.
— Qual a segunda coisa?
— Comecei com a melhor — responde ele, me colocando no chão. — Eu estava muito empolgado. — Toma um gole de café. — Fui selecionado para o curso de Cambrige.
Abro o maior sorriso.
— Foi mesmo? — Ele confirma com a cabeça, me abraça e me rodopia de novo. — Estou muito orgulhosa de você! — exclamo, beijando Ryle. — Estamos fazendo sucesso, que ótimo!
Ele ri.
— Número três? — pergunto.
Ele se afasta.
— Ah, é. Número três. — Ele se encosta casualmente no balcão e, bem devagar, toma um gole do café. Com delicadeza, coloca o copo de volta no balcão. — Allysa entrou em trabalho de parto.
— O quê?! — grito.
— Pois é. — Ele indica os cafés com a cabeça. — Por isso trouxe cafeína para você. A gente não vai dormir esta noite.
Começo a bater palmas, a pular e, depois, entro em pânico enquanto procuro minha bolsa, minha jaqueta, minhas chaves, meu celular, o interruptor. Logo antes de chegarmos à porta, Ryle corre até o balcão, pega o jornal e o coloca debaixo do braço. Minhas mãos tremem de empolgação enquanto tranco a porta.
— Vamos ser tias! — digo, enquanto me apresso até o carro.
— Tios, Lily. Nós vamos ser tios — corrige Ryle, rindo de minha piada.
• • •
Marshall surge calmamente no corredor. Ryle e eu nos animamos e ficamos esperando a notícia. Faz meia hora que está o maior silêncio lá dentro. Ficamos esperando Allysa gritar de dor — um sinal de que tinha dado à luz —, mas não ouvimos nada. Nem o choro de um recém-nascido. Levo as mãos à boca, e o olhar de Marshall me faz temer pelo pior.
Seus ombros começam a tremer, e suas lágrimas escorrem.
— Sou pai. — Ele soca o ar. — Eu sou PAI! — Abraça Ryle, depois me abraça e diz: — Daqui a uns quinze minutos vocês podem entrar para conhecê-la.
Quando ele fecha a porta, Ryle e eu suspiramos aliviados. Depois nos olhamos e sorrimos.
— Você também estava pensando o pior? — pergunta ele.
Faço que sim e o abraço.
— Agora você é tio — constato, sorrindo.
— Você também — diz ele, ao beijar minha testa.
Meia hora depois, Ryle e eu estamos parados ao lado da cama, observando Allysa com a bebê no colo. Ela é perfeita. É nova demais para que a gente saiba com quem se parece, mas é linda mesmo assim.
— Quer segurar sua sobrinha? — pergunta Allysa para Ryle.
Ele se enrijece, como se estivesse nervoso, mas depois confirma com a cabeça. Ela se inclina para a frente e põe o bebê nos braços de Ryle, mostrando como deve segurá-la. Ele fica nervoso ao encará-la, depois vai até o sofá e se senta.
— Já escolheram o nome? — pergunta ele.
— Já — responde Allysa
Ryle e eu olhamos para ela, que sorri, com os olhos marejados.
— Queríamos que ela tivesse o nome de alguém que tanto eu quanto Marshall admiramos muito. Então acrescentamos um E a seu nome. O nome é Rylee.
No mesmo instante olho para Ryle, que solta rapidamente o ar pela boca, como se estivesse um pouco chocado. Ele olha para Rylee de novo e abre um sorriso.
— Caramba! — exclama ele. — Não sei o que dizer.
Aperto a mão de Allysa, me aproximo de Ryle e me sento a seu lado. Em vários momentos achei que seria impossível amá-lo mais do que já amo, mas descobri que estava errada. A maneira como ele olha para a sobrinha recém-nascida enche meu coração de felicidade.
Marshall se senta na cama ao lado de Allysa.
— Vocês ouviram como Allysa ficou quieta durante o parto? Não deu um pio. Ela nem tomou medicamento algum. — Ele põe o braço ao redor da mulher e se deita a seu lado na cama. — Eu me sinto naquele filme Hancock, com Will Smith, prestes a descobrir que me casei com uma super-heroína.
Ryle ri.
— Ela me encheu de porrada umas duas vezes quando éramos crianças. Então eu não me surpreenderia.
— Nada de palavras feias perto de Rylee — diz Marshall.
— Porrada — sussurra Ryle para a bebê.
Nós dois rimos, e depois ele pergunta se quero segurá-la. Já posiciono as mãos para pegá-la, porque eu estava enlouquecendo enquanto esperava minha vez. Puxo a criança para meus braços e fico chocada com o tamanho do amor que já sinto por ela.
— Quando nossos pais chegam? — pergunta Ryle para Allysa.
— Amanhã na hora do almoço.
— Então é melhor eu dormir um pouco. Acabei de terminar um longo turno. — Ele olha para mim. — Você vem comigo?
Nego com a cabeça.
— Quero ficar aqui mais um pouquinho. Pode levar meu carro, eu pego um táxi.
Ele beija minha têmpora e apoia a cabeça na minha enquanto observamos Rylee.
— Acho que a gente devia fazer um desses — diz ele.
Olho para ele, sem saber se entendi direito.
Ele pisca.
— Se eu estiver dormindo quando você chegar, pode me acordar. A gente começa a tentar hoje mesmo.
Ele se despede de Marshall e Allysa, e o amigo o acompanha até lá fora.
Olho para Allysa, que está sorrindo.
— Eu disse que ele ia querer ter filhos com você.
Sorrio e me aproximo da cama. Ela chega para o lado, abrindo espaço para mim. Devolvo Rylee para seu colo, e nós duas ficamos aconchegadas na cama, vendo Rylee dormir, como se fosse a coisa mais magnífica que já testemunhamos.