É Assim que Acaba
Capítulo Sete
— Pare de se mexer — reclama Devin.
— Não estou me mexendo.
Ele entrelaça o braço no meu enquanto me acompanha até o elevador.
— Está, sim. E se tentar cobrir o decote mais uma vez, vai acabar com o propósito desse vestidinho preto.
Ele agarra meu vestido e o puxa para baixo, depois enfia a mão dentro do decote para ajeitar meu sutiã.
— Devin!
Dou um tapa em sua mão, e ele ri.
— Relaxe, Lily. Já toquei em peitos bem melhores que os seus e continuo sendo gay.
— Pois é, mas aposto que os outros peitos estão grudados em pessoas que você vê com mais frequência.
Devin ri.
— É verdade, mas parte disso é culpa sua. Foi você que nos abandonou para brincar com suas flores.
Devin era um dos colegas de quem eu mais gostava na empresa de marketing onde eu trabalhava, mas não ficamos tão próximos a ponto de nos tornarmos amigos. Ele passou na floricultura hoje à tarde; Allysa gostou dele no mesmo instante e implorou para que me acompanhasse à festa. Como eu não estava muito a fim de chegar sozinha, implorei também.
Passo as mãos pelo cabelo e tento olhar meu reflexo nas paredes do elevador.
— Por que está tão nervosa? — pergunta ele.
— Não estou. É que odeio lugares onde não conheço ninguém.
Devin dá um sorriso sarcástico, como se tivesse entendido tudo, e pergunta:
— Qual é o nome dele?
Solto o ar que estava prendendo. Sou tão óbvia assim?
— Ryle. Ele é neurocirurgião. E quer muito, muito transar comigo.
— Como sabe que ele quer transar com você?
— Porque ele literalmente se ajoelhou e disse: por favor, Lily, por favor transe comigo.
Devin ergue a sobrancelha.
— Ele implorou?
Confirmo com a cabeça.
— Não foi tão ridículo quanto parece. Ele costuma ser mais controlado.
O elevador faz um barulho, e as portas começam a se abrir. Escuto a música vindo do corredor. Devin segura minhas mãos e pergunta:
— Então, qual é o plano? Preciso deixar esse cara com ciúme?
— Não — respondo, balançando a cabeça. — Não seria certo. — Mas... toda vez que nos vemos, Ryle faz questão de me dizer que nunca mais queria me ver. — Talvez um pouco? — arrisco, enrugando o nariz. — Um pouquinho só?
— Pode deixar — responde Devin, estalando o maxilar.
Ele põe a mão em minha lombar ao sair comigo do elevador. Só vemos uma porta no corredor, então vamos até ela e tocamos a campainha.
— Por que só tem uma porta? — pergunta ele.
— O último andar é todo dela.
Ele ri.
— E ela trabalha para você? Caramba, sua vida está cada vez mais interessante.
A porta começa a se abrir, e fico extremamente aliviada ao ver Allysa. Escuto música e risadas vindo do apartamento. Ela está com uma taça de champanhe na mão, e um chicote na outra. Percebe que estou encarando o chicote com um olhar confuso, então o joga por cima do ombro e agarra minha mão.
— Longa história — diz ela, rindo. — Entrem, entrem!
Ela me puxa para dentro, eu aperto a mão de Devin e o arrasto atrás de mim. Ela continua nos puxando pela multidão até chegarmos ao outro lado da sala.
— Ei! — exclama, puxando o braço de Marshall.
Ele se vira, sorri para mim e me puxa para um abraço. Olho para trás dele e depois ao redor, mas não vejo sinal de Ryle. Talvez eu tenha dado sorte, e ele esteja trabalhando hoje.
Marshall estende a mão para Devin e a aperta.
— E aí, cara? Prazer!
Devin põe o braço ao redor de minha cintura.
— Eu me chamo Devin! — grita ele mais alto que a música. — Sou o parceiro sexual de Lily!
Rio e lhe dou uma cotovelada, depois me inclino para perto de seu ouvido.
— Este é Marshall. O cara errado, mas bela tentativa.
Allysa agarra meu braço e me afasta de Devin. Marshall começa a conversar com ele, e estico a mão para trás enquanto sou puxada na direção oposta.
— Você vai ficar bem! — grita Devin.
Sigo Allysa até a cozinha, onde ela coloca uma taça de champanhe em minha mão.
— Tome — manda. — Você merece!
Bebo um gole do champanhe, mas nem consigo curtir agora que estou reparando o tamanho da cozinha; é de tamanho industrial com dois fogões completos e uma geladeira maior que meu apartamento.
— Puta merda — sussurro. — Você mora mesmo aqui?
Ela dá uma risadinha
— Pois é. — diz Allysa. — E quando penso que nem me casei com ele por dinheiro... Marshall tinha sete dólares e dirigia um Mercury Bobcat quando me apaixonei por ele.
— Ele não continua dirigindo um Mercury Bobcat?
Ela suspira.
— Ahã, mas temos muitas memórias boas naquele carro.
— Que nojo.
Ela mexe as sobrancelhas.
— Então... Devin é bonito.
— E deve estar mais a fim de Marshall que de mim.
— Ah, cara — diz ela. — Que droga. Achei que estava dando uma de cupido quando convidei ele para a festa.
A porta da cozinha se abre, e Devin entra.
— Seu marido está atrás de você — avisa ele para Allysa, que sai rodopiando da cozinha, sem parar de rir. — Adoro ela.
— É ótima, né?
— Então... acho que acabei de conhecer O Implorador — comenta ele, se apoiando na ilha da cozinha.
Meu coração palpita. Acho que O Neurocirurgião soa melhor. Tomo outro gole de champanhe.
— Como sabe que era o cara certo? Ele se apresentou?
Devin balança a cabeça.
— Não, mas ele escutou Marshall dizer que vim com você. Achei que ia me fuzilar com o olhar. Por isso a fuga para a cozinha. Gosto de você, mas não topo morrer por isso.
Eu rio.
— Não se preocupe, tenho certeza de que o olhar mortal foi na verdade um sorriso. Essas duas coisas costumam se confundir em Ryle.
A porta se abre novamente, e eu fico rígida na mesma hora, mas é só um garçom. Suspiro aliviada.
— Lily — diz Devin.
Ele pronuncia meu nome como um lamento.
— O que foi?
— Você está com cara de quem vai vomitar — acusa ele. — Você gosta do cara de verdade.
Reviro os olhos. Mas depois relaxo os ombros e finjo que estou chorando.
— Gosto, sim, Devin. Gosto, mas não quero gostar.
Ele pega minha taça de champanhe e bebe o resto, depois entrelaça o braço no meu.
— Vamos nos enturmar — convida, me tirando da cozinha contra minha vontade.
A sala está ainda mais cheia. Deve ter mais de cem pessoas aqui. Acho que nem conheço tanta gente assim.
Damos uma volta pela sala. Fico mais atrás enquanto Devin puxa assunto com os outros. Ele tem algum conhecido em comum com todas as pessoas com quem conversamos até o momento, e depois de cerca de meia hora o seguindo, estou convencida de que, para ele, é um desafio pessoal encontrar uma ligação com todos os presentes. Enquanto me enturmo, minha atenção fica metade com ele e metade com o resto da sala, procurando algum sinal de Ryle. Não o vejo em lugar algum, e começo a me perguntar se Devin o viu mesmo.
— Bem, que estranho — diz uma mulher. — O que você acha que é?
Ergo o olhar e percebo que ela está observando uma obra de arte na parede. Parece uma fotografia ampliada em uma tela. Inclino a cabeça para analisar.
— Não sei por que uma pessoa transformaria esta foto em obra de arte — diz a mulher, ao erguer o nariz. — É horrível. Está tão desfocada que nem dá para ver o que é.
Ela se afasta, irritada, e fico aliviada. Quero dizer... é um pouco estranho, mas quem sou eu para julgar o gosto de Allysa?
— O que você acha?
A voz, baixa e grave, soa bem atrás de mim. Fecho os olhos por um instante e respiro fundo para me acalmar antes de soltar o ar silenciosamente, esperando que ele não perceba como sua voz me afeta.
— Eu gosto. Não sei direito o que é, mas é interessante. Sua irmã tem bom gosto.
Ele passa por mim para ficar a meu lado. Dá um passo até ficar tão perto que roça meu braço.
— Você veio com alguém?
Ryle pergunta isso como se fosse uma curiosidade casual, mas sei que não é. Quando não respondo, ele se inclina até sussurrar em meu ouvido. Ele repete a frase, mas dessa vez não é uma pergunta.
— Você veio com alguém.
Encontro coragem para encará-lo, e me arrependo imediatamente. Ele está com um terno preto que faz o uniforme hospitalar parecer coisa de criança. Primeiro, engulo o nó inesperado em minha garganta e depois digo:
— Seria um problema? — Desvio o olhar e foco na fotografia na parede. — Apenas quero facilitar as coisas para você, sabe? Tentando fazer isso parar.
Ele dá um sorriso sarcástico e bebe o resto do vinho.
— Como você é prestativa, Lily.
Ele joga a taça vazia em uma lixeira no canto da sala. Acerta, mas o vidro estilhaça ao bater no fundo do lixo vazio. Olho ao redor, mas ninguém reparou no que aconteceu. Quando olho de novo para Ryle, ele está no meio do corredor. Some dentro de um quarto, e eu fico parada, observando a foto outra vez.
Então me dou conta.
A foto está desfocada, então foi difícil distinguir de imediato o que era. Mas eu reconheceria aquele cabelo em qualquer lugar. É meu cabelo. Difícil não perceber, assim como a espreguiçadeira de polímero resistente à maresia na qual estou deitada. Foi a foto que ele tirou no telhado, na noite em que nos conhecemos. Deve ter mandando ampliar e distorcer para que ninguém percebesse o que era. Levo a mão ao pescoço, porque sinto como se meu sangue estivesse borbulhando. Está muito quente aqui.
Allysa aparece a meu lado.
— É estranho, não é? — pergunta ela, olhando a foto.
Coço meu peito.
— Está muito quente aqui — digo. — Não acha?
Ela olha ao redor.
— Está? Não percebi, mas estou um pouco bêbada. Vou pedir para Marshall ligar o ar-condicionado.
Ela desaparece de novo, e, quanto mais encaro o quadro, mais zangada fico. Aquele homem tem uma foto minha pendurada na parede do apartamento. Ele comprou flores para mim. Está irritado comigo porque apareci acompanhada na festa de sua irmã. Está se comportando como se tivéssemos alguma coisa, mas sequer nos beijamos!
Então tudo me invade a mente de uma vez. A raiva... a irritação... a meia taça de champanhe que bebi na cozinha. Estou com tanta raiva que nem consigo pensar direito. Se ele quer tanto transar comigo... não devia ter dormido! Se não quer que eu fique encantada por ele, não devia me dar flores! E, acima de tudo, não devia pendurar imagens misteriosas onde mora!
Preciso de ar fresco. Ainda bem que sei exatamente onde encontrar.
Um tempo depois, disparo pela porta do telhado. Alguns convidados escaparam da festa e estão ali em cima. Três pessoas, sentadas nos móveis de varanda. Eu as ignoro, vou até o parapeito com a vista bonita e me inclino sobre ele. Respiro fundo várias vezes e tento me acalmar. Quero descer e exigir de Ryle uma maldita decisão, mas sei que preciso estar de cabeça fria para isso.
O ar está gelado, e, por algum motivo, coloco a culpa em Ryle. Tudo é sua culpa esta noite. Tudo. As guerras, a fome, a violência armada... tudo está de alguma maneira relacionado a Ryle.
— Podemos ficar a sós um minuto?
Eu me viro, e ele está parado perto dos outros convidados. Imediatamente, os três assentem e se levantam para nos dar privacidade.
— Esperem — peço, erguendo as mãos. Nenhum deles olha para mim. — Não precisa. Sério, vocês não têm de ir embora.
Ryle está parado estoicamente, mãos nos bolsos, e um dos convidados murmura:
— Não tem problema, a gente não se incomoda.
Eles começam a descer a escada. Reviro os olhos e me volto para o parapeito quando me vejo sozinha com Ryle.
— Todo mundo sempre faz o que você pede? — pergunto, irritada.
Ele não responde. Seus passos são lentos e cautelosos enquanto se aproxima. Meu coração começa a bater como se eu estivesse em um speed dating, e coço o peito novamente.
— Lily — chama ele, atrás de mim.
Eu me viro e seguro o parapeito com ambas as mãos. Seus olhos baixam até meu decote. Assim que fazem isso, puxo a parte de cima do vestido para que ele não consiga ver nada, depois seguro o parapeito novamente. Ele ri e dá outro passo à frente. Estamos quase nos tocando, e sinto que meu cérebro derreteu. Isso é ridículo. Sou ridícula.
— Tenho a impressão de que você tem muito a dizer — diz ele. — Então queria te dar a oportunidade de contar sua verdade nua e crua.
— Rá! — digo, rindo. — Tem certeza?
Ele faz que sim com a cabeça, e eu me preparo para atacá-lo. Empurro seu peito e inverto nossas posições, deixando-o encostado no parapeito.
— Não dá para saber o que você quer, Ryle! E toda vez que passo a não dar a mínima, você reaparece do nada! Surge em meu trabalho, na porta de meu apartamento, nas festas... você...
— Eu moro aqui — diz ele, achando uma desculpa para a última coisa.
Fico ainda mais irritada e cerro os punhos.
— Sério! Está me deixando louca! Você me quer ou não?
Ele se empertiga e dá um passo em minha direção.
— Ah, eu quero você, Lily. Não duvide disso. Mas eu não quero querer você.
Meu corpo inteiro suspira com esse comentário. Parte em frustração, parte porque tudo o que ele diz me faz estremecer, e odeio perceber que lhe dou esse poder.
Balanço a cabeça.
— Você não entende, não é? — digo, baixando a voz. Estou me sentindo derrotada demais para continuar gritando. — Gosto de você, Ryle. E saber que você só me quer por uma noite me deixa muito, muito triste. Se fosse quando nos conhecemos, a gente poderia ter transado e ficaria tudo bem. Você teria ido embora, e eu teria seguido com minha vida. Mas já se passaram meses. Você esperou tempo demais, e agora já investi muito de mim em você, então, por favor, pare de dar em cima de mim. Pare de pendurar minhas fotos em seu apartamento. E pare de me mandar flores. Porque, quando você faz essas coisas, eu não me sinto bem, Ryle. Na verdade, chega a doer um pouco.
Eu me sinto vazia, exausta e pronta para sumir. Ele me observa em silêncio, e respeitosamente dou um tempo para ele se defender. Mas não faz isso. Ele apenas se vira, se inclina por cima do parapeito e olha a rua, como se não tivesse escutado uma palavra do que eu disse.
Atravesso o telhado e abro a porta, meio que esperando que ele me chame ou me peça para não ir embora. Só perco a esperança de que isso aconteça quando volto ao apartamento. Abro caminho pela multidão e entro em três cômodos diferentes antes de encontrar Devin. Ao ver minha expressão, ele simplesmente balança a cabeça e se aproxima de mim.
— Está pronta para ir? — pergunta ele, entrelaçando o braço no meu.
Faço que sim.
— Sim. Muito pronta.
Encontramos Allysa na sala principal. Desejo boa noite para ela e Marshall, usando a desculpa de que estou exausta por causa da semana de inauguração e de que quero dormir um pouco antes do trabalho amanhã. Allysa me abraça e nos acompanha até a porta.
— Volto na segunda — avisa ela, me dando um beijo na bochecha.
— Feliz aniversário — digo.
Devin abre a porta, mas, antes de sairmos para o corredor, escuto alguém gritar meu nome. Eu viro e me deparo com Ryle abrindo caminho pela multidão, vindo do outro lado da sala.
— Lily, espere! — grita ele, ainda tentando me alcançar.
As batidas de meu coração estão irregulares. Ele se aproxima depressa, contornando os outros, ficando cada vez mais frustrado com as pessoas no meio do caminho. Finalmente chega a uma clareira no meio da multidão e faz contato visual de novo. Fica me encarando enquanto chega mais perto. Não desacelera. Allysa precisa sair da frente enquanto ele vem direto em minha direção. A princípio, acho que vai me beijar, ou pelo menos se defender depois de tudo que eu disse lá em cima. Mas estou completamente despreparada para o que ele faz. Ele me pega nos braços.
— Ryle! — grito, agarrando seu pescoço, com medo de que me solte. — Me coloque no chão!
Ele está com um braço embaixo de minhas pernas, o outro em minhas costas.
— Preciso pegar Lily emprestada pelo resto da noite — diz ele a Devin. — Tudo bem?
Encaro Devin e balanço a cabeça, os olhos arregalados.
— Claro — responde Devin, dando um sorrisinho.
Traidor!
Ryle começa a se virar e a voltar para a sala. Olho para Allysa ao passar por ela. Seus olhos estão arregalados, confusos.
— Vou matar seu irmão! — grito para ela.
Todos na sala ficam nos encarando. Estou com tanta vergonha que afundo o rosto no peito de Ryle enquanto ele segue pelo corredor até o quarto. Depois que a porta se fecha, ele coloca lentamente meus pés de volta ao chão. Começo a gritar na mesma hora, e tento empurrá-lo para que saia da frente, mas ele me gira e me empurra contra a porta, agarrando meus pulsos. Ele os pressiona acima de minha cabeça e diz:
— Lily?
Está me olhando com tanta intensidade que paro de me debater e prendo a respiração. Seu peito pressiona o meu, minhas costas pressionam a porta. E, então, sua boca encosta na minha. Sinto uma pressão quente nos lábios.
Apesar da força, seus lábios parecem seda. Fico chocada com o gemido que reverbera em meu corpo, e ainda mais chocada quando abro os lábios e quero mais. Sua língua desliza pela minha, e ele solta meus pulsos para segurar meu rosto. O beijo fica mais intenso, e eu agarro seu cabelo, puxando-o para perto, sentindo seu beijo no corpo inteiro.
Nós dois nos tornamos uma mistura de gemidos e arfadas à medida que o beijo nos faz passar do limite, nossos corpos querendo mais que nossas bocas são capazes de dar. Sinto suas mãos quando ele as abaixa, agarra minhas pernas, me erguendo, e as coloca ao redor de sua cintura.
Meu Deus, como ele beija bem! Parece até que ele leva o beijo tão a sério quanto a profissão. Começo a me afastar da porta quando percebo que, sim, sua boca é capaz de muita coisa. Mas sua boca não conseguiu responder a tudo que falei lá em cima.
Pelo que sei, acabei de ceder. Estou dando o que ele quer: uma noite comigo. E é a última coisa que Ryle merece no momento.
Afasto a boca da sua e empurro seus ombros.
— Me coloque no chão.
Ele continua me levando para a cama, então repito:
— Ryle, me coloque no chão agora.
Ele para de andar e me obedece. Preciso me afastar e me virar de costas para poder pensar. Não consigo encará-lo enquanto ainda sinto seus lábios nos meus.
Seus braços envolvem minha cintura, e ele apoia a cabeça em meu ombro.
— Desculpe — sussurra ele. Depois se vira, leva a mão a meu rosto e roça o polegar em minha bochecha. — Minha vez agora, ok?
Não reajo ao toque. Mantenho os braços cruzados, esperando para descobrir o que ele tem a dizer antes de me permitir reagir a seu toque.
— Mandei fazer aquela foto no dia em que a tirei — explica ele. — Está no apartamento há meses, porque você era a coisa mais linda que eu já tinha visto e eu queria olhar para aquilo todos os dias.
Ah.
— E aquela noite em seu apartamento... fui atrás de você porque, em toda a minha vida, ninguém jamais mexeu tanto comigo. Eu não sabia lidar com isso. E mandei as flores esta semana porque estou muito, muito orgulhoso por você ter ido atrás de seu sonho. Mas, se eu mandasse flores toda vez que tenho vontade de te mandar flores, você nem conseguiria entrar em seu apartamento. Porque eu penso muito em você. E, sim, Lily, tem razão. Estou fazendo você sofrer, mas eu também estou sofrendo. E até esta noite... eu não sabia o motivo.
Não faço ideia de como encontrar forças para falar alguma coisa depois disso, mas pergunto:
— Por que você está sofrendo?
— Porque sim — responde ele, e encosta a testa na minha. — Não tenho ideia do que estou fazendo. Você me dá vontade de ser uma pessoa diferente, mas e se eu não souber ser o que você precisa? É tudo novidade para mim, e quero provar que a desejo por muito mais que uma noite.
Ryle parece tão vulnerável... Quero acreditar em seu olhar genuíno, mas ele tem sido tão inflexível desde o dia em que o conheci, dizendo que quer exatamente o oposto do que eu quero. Tenho muito medo de ceder e ele ir embora.
— Como posso provar a você, Lily? Apenas me diga, e eu faço.
Não sei. Eu mal o conheço, mas também já o conheço para saber que transar com ele não será o bastante. Mas como posso saber se ele só está atrás de sexo?
Meus olhos se fixam imediatamente nos de Ryle.
— Não transe comigo.
Ele me encara por um instante, inexpressivo. Porém, em seguida, começa a concordar com a cabeça, como se finalmente entendesse.
— Tá certo — diz, balançando a cabeça. — Certo. Não vou transar com você, Lily Bloom.
Ele passa por mim, vai até a porta e a tranca. Apaga a luz, deixando apenas um abajur aceso, tira a camisa e se aproxima.
— O que você está fazendo?
Ele joga a camisa na cadeira e tira os sapatos.
— A gente vai dormir.
Olho para a cama. Depois de volta para ele.
— Agora?
Ele faz que sim e se aproxima. Com um movimento rápido, tira meu vestido pela cabeça, e eu fico parada no meio do quarto, de calcinha e sutiã. Eu me cubro, mas ele nem me olha direito. Apenas me puxa na direção da cama e ergue as cobertas para que eu deite. Enquanto vai para o outro lado da cama, ele diz:
— Até parece que a gente já não dormiu juntos sem transar. Vai ser moleza.
Eu rio. Ele estende o braço e coloca o celular no carregador. Passo um tempo examinando o lugar. Certamente não é o tipo de quarto a que estou acostumada. Este é o triplo do meu. Tem um sofá encostado na outra parede, uma poltrona de frente para a televisão e um escritório que parece completo em uma área separada; tem até uma estante de livros do chão ao teto. Ainda estou tentando reparar em tudo quando o abajur é apagado.
— Sua irmã é muito rica — digo, enquanto ele cobre nós dois. — O que diabo faz com os dez dólares por hora que eu lhe pago? Limpa a bunda com o dinheiro?
Ele ri e segura minha mão, entrelaçando seus dedos nos meus.
— Provavelmente ela nem desconta os cheques — diz ele. — Já conferiu alguma vez?
Nunca conferi. Agora fiquei curiosa.
— Boa noite, Lily — diz ele.
Não consigo parar de sorrir, porque isso é meio ridículo. E muito bom.
— Boa noite, Ryle.
• • •
Acho que estou perdida.
Tudo é tão branco e claro que chega a ofuscar. Eu me arrasto por uma das salas e tento encontrar a cozinha. Não faço ideia de onde meu vestido foi parar ontem à noite, então vesti uma das camisas de Ryle, que me bate nos joelhos. Eu me pergunto se ele compra camisas grandes demais só por causa dos braços.
São janelas demais e sol em excesso, então me vejo obrigada a proteger os olhos enquanto entro e procuro café.
Abro as portas da cozinha e encontro uma cafeteira.
Obrigada, meu Deus.
Eu a ligo e procuro uma caneca quando as portas se abrem atrás de mim. Eu me viro e fico aliviada ao ver que Allysa nem sempre é uma combinação perfeita de maquiagem e joias. Seu cabelo está preso num coque bagunçado, e há manchas de rímel em suas bochechas. Ela aponta para a cafeteira.
— Vou precisar de um pouco — avisa ela, e se senta na ilha, curvada para a frente.
— Posso fazer uma pergunta?
Ela mal tem energia para responder que sim.
Gesticulo para a cozinha.
— Como isso aconteceu? Como sua casa ficou impecável entre a festa de ontem e a hora em que eu acordei? Você passou a noite limpando?
— Temos pessoas para isso — responde, rindo.
— Pessoas?
— Sim — assente. — Temos gente para fazer qualquer coisa — diz ela. — Você ficaria surpresa. Pense em algo. Qualquer coisa. Há alguém que faz isso.
— Compras para a casa?
— Sim — responde ela.
— Decoração de Natal?
Ela faz que sim.
— Também.
— E presentes de aniversário? Tipo, para familiares?
Ela sorri.
— Sim. Também. Todo mundo de minha família recebe um presente, com cartão, em todas as datas especiais, e nunca mexo um dedo.
Balanço a cabeça.
— Caramba. Há quanto tempo você é rica assim?
— Três anos — diz ela. — Marshall vendeu muito bem alguns aplicativos que desenvolveu para a Apple. A cada seis meses, ele cria as atualizações e as vende também.
O café começa a pingar lentamente, então pego uma caneca e a encho.
— Quer que eu coloque alguma coisa no seu? — pergunto. — Ou tem gente para isso também?
Ela ri.
— Sim, você, e eu quero açúcar, por favor.
Coloco um pouco de açúcar na caneca, mexo, e a entrego para ela, depois me sirvo. Ficamos em silêncio enquanto misturo o creme, esperando que ela faça algum comentário sobre mim e Ryle. Esse assunto é inevitável.
— A gente pode acabar logo com o constrangimento? — pede ela.
Suspiro, aliviada.
— Por favor. Odeio isso.
Eu me viro para ela e tomo um gole do café. Ela deixa a caneca de lado e se apoia no balcão.
— Como foi que isso aconteceu?
Balanço a cabeça, me esforçando ao máximo para não sorrir como se estivesse apaixonada. Não quero que ela me ache fraca ou tola por ter cedido.
— Nós dois nos conhecemos antes que eu conhecesse você.
— Espere aí — diz ela, inclinando a cabeça. — Antes de a gente se conhecer melhor ou antes de a gente se conhecer mesmo?
— Mesmo — respondo. — Tivemos algo em uma noite, tipo, uns seis meses antes de eu te conhecer.
— Algo? — pergunta ela. — Tipo... passaram a noite juntos?
— Não — retruco. — Não, a gente jamais havia se beijado antes de ontem à noite. Não sei, não consigo explicar. A gente meio que flertou por bastante tempo, e finalmente fizemos algo concreto ontem à noite. Só isso.
Ela pega o café de novo e dá um gole, lentamente. Fica encarando o chão por um tempo, e percebo que parece um pouco triste.
— Allysa, você não está com raiva de mim, está?
Ela balança a cabeça imediatamente.
— Não, Lily. É que... — Ela põe o café de volta no balcão. — É que conheço meu irmão. E o amo. De verdade. Mas...
— Mas o quê?
Allysa e eu olhamos na direção da voz. Ryle está parado na porta, com os braços cruzados. Está vestindo uma calça de corrida cinza quase caindo dos quadris. Sem camisa.
Vou adicionar este look a todos os outros que cataloguei em minha mente.
Ryle se afasta da porta e entra na cozinha. Vem até mim e tira o café de minhas mãos. Ele se inclina e me beija na testa, depois toma um gole enquanto se encosta no balcão.
— Eu não queria interromper — diz ele a Allysa. — Por favor, podem continuar a conversa.
— Pare com isso! — reclama Allysa, revirando os olhos.
Ele me devolve o café e se vira para pegar a própria caneca. Começa a se servir.
— Parecia que você ia alertar Lily sobre alguma coisa. Eu só queria saber o que você ia dizer.
Allysa sai do balcão e leva a caneca até a pia.
— Ela é minha amiga, Ryle. Você não tem um histórico de relacionamentos muito bom. — Ela lava a caneca e depois encosta o quadril na pia, de frente para nós. — Como amiga, acho que tenho o direito de opinar sobre os caras com quem ela fica. É isso que amigas fazem.
De repente, fico constrangida à medida que a tensão entre os dois aumenta. Ryle nem sequer bebe o café. Ele se aproxima de Allysa e joga a bebida na pia. Ele está bem na frente da irmã, mas ela nem o encara.
— Bem, como seu irmão, eu esperava que você tivesse um pouco mais de fé em mim. É o que os irmãos fazem.
Ele sai da cozinha, empurrando a porta. Depois que ele vai embora, Allysa respira fundo. Balança a cabeça e leva as mãos ao rosto.
— Desculpe — pede ela, forçando um sorriso. — Preciso tomar uma ducha.
— Não tem gente para fazer isso por você?
Ela ri enquanto sai da cozinha. Lavo a caneca na pia e volto para o quarto de Ryle. Assim que abro a porta, eu o encontro sentado no sofá, mexendo no celular. Ele nem me olha quando passo, e por um segundo acho que também deve estar com raiva de mim. Mas então deixa o telefone de lado e se recosta no sofá.
— Vem cá — chama Ryle.
Agarra minha mão e me puxa para seu colo, para que eu o monte. Depois, aproxima minha boca da sua e me beija tão intensamente que me pergunto se ele não está tentando provar que a irmã está errada.
Ryle se afasta da minha boca, e seus olhos devoram meu corpo.
— Gosto de te ver com uma roupa minha.
Sorrio.
— Bem, preciso trabalhar, então infelizmente não posso ficar com ela.
— Tenho uma cirurgia muito importante em breve, e preciso me preparar — diz, e afasta o cabelo de meu rosto. — O que significa que devo ficar alguns dias sem te ver.
Tento disfarçar meu desapontamento, mas acho que preciso me acostumar, se ele realmente quer fazer as coisas darem certo entre nós. Já me avisou que trabalha demais.
— Também estou ocupada. A grande inauguração é na sexta.
— Ah, te encontro antes de sexta. Prometo.
Não contenho o sorriso.
— Tá bom.
Ele me beija de novo, dessa vez por um minuto inteiro. Começa a me colocar no sofá, mas depois se afasta de mim e diz:
— Não. Gosto demais de você para te agarrar assim.
Eu me deito no sofá e fico o observando se vestir para o trabalho.
Para minha alegria, ele coloca o uniforme hospitalar.