É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 36 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Trinta e Cinco

 

Sinto cheiro de torrada.

Eu me espreguiço na cama e sorrio porque Ryle sabe que torrada é minha comida preferida. Fico deitada mais um tempo antes de tentar me levantar. Sinto como se precisasse da força de três homens para conseguir rolar para fora da cama. Respiro fundo, jogando os pés para o lado e me erguendo do colchão.

Primeiro vou fazer xixi. É praticamente só isso que ando fazendo. Daqui a dois dias é a data prevista para o parto, mas meu médico disse que talvez leve mais uma semana. Minha licença-maternidade começou na semana passada, então minha vida se resume a isso no momento: fazer xixi e ver televisão.

Quando chego à cozinha, Ryle está preparando ovos mexidos. Ele se vira quando me ouve entrar.

— Bom dia — diz ele. — Nada de bebê ainda?

Nego com a cabeça e ponho a mão na barriga.

— Não, mas fiz xixi nove vezes ontem à noite.

Ryle ri.

— Bateu o recorde. — Ele põe os ovos em um prato e joga bacon e torrada em cima. Ele se vira e me entrega o prato, dando um beijinho em minha têmpora. — Preciso ir. Já estou atrasado. Vou deixar o celular ligado o dia inteiro.

Sorrio ao olhar para meu café da manhã. Tá, também ando comendo. Faço xixi, como e vejo TV.

— Obrigada — agradeço, alegre.

Levo o prato até o sofá e ligo a TV. Ryle cata depressa suas coisas pela sala.

— Passo aqui na hora do almoço para ver como você está. Vou trabalhar até tarde hoje, mas Allysa disse que pode trazer seu jantar.

Reviro os olhos.

— Eu estou bem, Ryle. O médico disse para eu pegar leve, não ficar completamente parada.

Ele começa a abrir a porta, mas para, como se tivesse esquecido algo. Volta correndo até mim e se inclina para beijar minha barriga.

— Vou dobrar sua mesada se você decidir sair daí hoje — diz ele ao bebê.

Ryle conversa muito com o bebê. Finalmente fiquei à vontade para deixá-lo sentir o bebê chutar umas duas semanas atrás, e desde então ele passa aqui de vez em quando só para conversar com minha barriga. Nem fala muito comigo. Mas eu gosto. Gosto de ver sua animação em ser pai.

Pego o cobertor que Ryle usou para dormir no sofá ontem à noite e me enrolo nele. Já faz uma semana que Ryle tem dormido aqui, me esperando entrar em trabalho de parto. No início fiquei meio desconfiada do plano, mas, na verdade, tem ajudado muito. Continuo dormindo no quarto de hóspedes. O terceiro quarto virou o do bebê, o que significa que a suíte principal está livre para Ryle. Mas, por algum motivo, ele prefere dormir no sofá. Acho que as lembranças daquele quarto lhe causam tanto tormento quanto causam a mim, então nenhum de nós sequer põe os pés ali.

As últimas semanas têm sido muito boas. Tirando o fato de que não existe absolutamente nenhum relacionamento físico entre nós, parece que tudo voltou a ser como antes. Ele continua trabalhando muito, mas passei a jantar com todo mundo lá em cima quando ele tem uma noite de folga. Mas nunca jantamos sozinhos como um casal. Evito tudo que pareça um encontro romântico ou programas de casal. Ainda estou tentando focar em uma coisa importante de cada vez, e até o bebê nascer e meus hormônios se normalizarem, eu me recuso a tomar uma decisão sobre meu casamento. Sei muito bem que a gravidez é uma desculpa para adiar o inevitável, mas meu estado me permite um pouco de egoísmo.

Meu celular começa a tocar, abaixo a cabeça no sofá e resmungo. O aparelho está lá na cozinha. Tipo a uns 5 metros daqui.

Saco.

Eu me levanto do sofá, mas nada acontece.

Tento de novo. Continuo sentada.

Seguro o braço da poltrona e ergo o corpo. Três é o número da sorte.

Quando me levanto, derrubo o copo d’água. Resmungo de novo... e depois suspiro.

Eu não estava segurando um copo d’água.

Puta merda.

Olho para baixo e vejo a água escorrer pela perna. Meu celular continua tocando no balcão da cozinha. Vou andando — ou cambaleando — até lá e o atendo.

— Alô.

— Oi, é Lucy! Uma pergunta rápida. Nosso pedido de rosas vermelhas foi danificado no transporte, mas o funeral da família Levenberg é hoje, e eles pediram especificamente rosas vermelhas para o buquê do caixão. Temos algum plano B?

— Temos, ligue para a floricultura da Broadway. Eles me devem um favor.

— Ok, obrigada!

Começo a desligar a fim de chamar Ryle e dizer que minha bolsa estourou, mas escuto Lucy pedir:

— Espere!

Coloco o celular de novo no ouvido.

— E as faturas? Você quer que eu pague hoje ou espera...

— Pode esperar, não tem problema.

Mais uma vez, estou prestes a desligar, mas ela grita meu nome e começa a disparar outra pergunta.

— Lucy — digo com calma, interrompendo-a. — Eu te ligo amanhã. Acho que minha bolsa acabou de estourar.

Ela faz uma pausa.

— Ah. AH! ANDE LOGO!

Desligo bem na hora que sinto a primeira dor na barriga. Eu me contraio e começo a ligar para Ryle, que atende ao primeiro toque.

— Precisa de mim?

— Preciso.

— Ai, meu Deus. Sério? Está acontecendo?

— Está.

— Lily! — exclama ele, empolgado.

E, então, o celular fica silencioso.

Passo os próximos minutos juntando tudo de que vou precisar. Já tenho uma bolsa pronta para o hospital, mas estou me sentindo meio nojenta, então resolvo tomar uma ducha para me limpar. Sinto a segunda dor repentina uns dez minutos depois da primeira. Eu me curvo para a frente e seguro a barriga, deixando a água escorrer pelas costas. Bem no fim da contração, escuto a porta do banheiro ser escancarada.

— Você está tomando banho? — pergunta Ryle. — Lily, saia daí, vamos!

— Me dê uma toalha.

A mão de Ryle surge ao redor da cortina do chuveiro alguns segundos depois. Tento me enrolar na toalha antes de puxar a cortina. É estranho esconder o corpo do próprio marido.

A toalha não cabe. Cobre meus seios, mas depois se abre, formando um V de cabeça para baixo na barriga.

Sinto mais uma contração enquanto saio do chuveiro. Ryle agarra minha mão e me ajuda a respirar, depois me acompanha até o quarto. Escolho com calma as roupas limpas para usar no caminho até o hospital, então o observo.

Ryle está fitando minha barriga. Não consigo decifrar seu olhar.

Seus olhos encontram os meus, e eu paro o que estou fazendo.

Durante um momento, não sei se ele vai franzir a testa ou sorrir. De alguma maneira, seu rosto consegue fazer as duas coisas, e ele solta o ar pela boca, baixando os olhos até minha barriga.

— Você está linda — sussurra ele.

Sinto uma pontada no peito que não tem nada a ver com as contrações. Eu me dou conta de que é a primeira vez que ele viu minha barriga nua. É a primeira vez que ele viu minha aparência com seu bebê crescendo dentro de mim.

Eu me aproximo e seguro sua mão. Coloco-a em minha barriga e a seguro ali. Ele sorri para mim, roçando o polegar para a frente e para trás. É um momento bonito. Um de nossos momentos bons.

— Obrigado, Lily.

Está na cara pela maneira como ele toca minha barriga, pela maneira como seus olhos olham os meus. Ele não está me agradecendo por este momento, nem por nenhum momento antes. Está me agradecendo por todos os momentos que o tenho deixado passar com o bebê.

Até que eu resmungo e me inclino para a frente.

— Puta que pariu.

E o momento acabou.

Ryle pega minhas roupas e me ajuda a me vestir. Junta todas as coisas que peço para que carregue, e depois vamos para o elevador. Devagar. Tenho uma contração no meio do caminho.

— Você devia ligar para Allysa — digo, quando saímos da garagem.

— Estou dirigindo. Ligo para ela quando chegarmos ao hospital. E para sua mãe também.

Assinto. Sei que eu poderia ligar para elas agora, mas meio que quero chegar ao hospital primeiro, porque sinto que o bebê está muito impaciente e quer fazer sua estreia bem aqui no carro.

Chegamos ao hospital, mas o tempo entre as contrações é menor que um minuto. Depois que o médico está preparado e que já me colocaram na cama, estou com 9 cm de dilatação. E apenas cinco minutos mais tarde, estão me dizendo para fazer força. Ryle nem tem tempo de ligar para ninguém, porque tudo acontece muito rápido.

Aperto sua mão cada vez que faço força. Em determinando momento, penso em como a mão é importante para sua carreira, mas ele não diz nada. Simplesmente me deixa apertá-la o máximo possível, e é exatamente o que faço.

— A cabeça está quase saindo — diz o médico. — Só precisa fazer mais um pouco de força.

Não consigo descrever os próximos minutos. É um borrão de dor, respiração ofegante, ansiedade e pura alegria. E pressão. Uma pressão imensa, como se eu estivesse prestes a implodir. Até que Ryle diz:

— É uma menina! Lily, nós temos uma filha!

Abro os olhos, e o médico está segurando a bebê. Consigo ver apenas o contorno de seu corpo, porque meus olhos estão cheios de lágrimas. Quando a colocam em meu colo, é o melhor momento de toda a minha vida. Toco imediatamente em seus lábios vermelhos, em suas bochechas, em seus dedos. Ryle corta o cordão umbilical, e, quando a tiram de mim para limpá-la, eu me sinto vazia.

Alguns minutos depois, ela está novamente em meu colo, enrolada em um cobertor.

Não consigo fazer nada além de encará-la.

Ryle se senta na cama a meu lado e puxa o cobertor para baixo, até a altura de seu queixo, para vermos melhor seu rosto. Contamos os dedos das mãos e dos pés. Ela tenta abrir os olhos, e achamos a coisa mais engraçada do mundo. Ela boceja, e sorrimos e nos apaixonamos ainda mais por ela.

Depois que a última enfermeira sai do quarto e finalmente ficamos sozinhos, Ryle me pede para segurá-la. Ele ergue a parte superior da cama para que seja mais fácil para nos acomodarmos ali. Depois que entrego nossa filha a ele, encosto a cabeça em seu ombro. Não conseguimos parar de olhá-la.

— Lily — sussurra ele. — Verdade nua e crua?

Faço que sim.

— Ela é tão mais bonita que a bebê de Allysa e Marshall!

Eu rio e lhe dou uma cotovelada.

— Estou brincando.

Mas entendo exatamente o que ele quer dizer. Rylee é uma bebê linda, mas ninguém nunca vai se comparar a nossa filha.

— Que nome vamos escolher? — pergunta ele.

Não tivemos um relacionamento típico durante a gravidez, então ainda não discutimos o nome.

— Eu queria dar o nome de sua irmã — digo, olhando para ele. — Ou de seu irmão?

Não sei o que ele acha disso. Acho que colocar o nome do irmão em nossa filha seria muito bom para seu processo de cura, mas talvez ele tenha outra opinião.

Ele me encara, como se não esperasse a resposta que dei.

— Emerson? — diz ele. — É um nome bonito para uma menina. Podemos chamá-la de Emma. Ou Emmy. — Ele sorri com orgulho e olha para ela. — Na verdade, é perfeito.

Ele se inclina e beija a testa de Emerson.

Depois de um tempo, me afasto de seu ombro para poder observá-lo com ela no colo. É lindo vê-lo interagir com ela assim. Já percebo como a ama só depois desse tempinho. Sei que ele faria de tudo para protegê-la. De tudo no mundo.

E só neste momento finalmente tomo uma decisão sobre ele.

Sobre nós.

Sobre o que é melhor para nossa família.

Ryle é incrível de muitas maneiras. Ele é bondoso. É prestativo. É inteligente. É carismático. É motivado.

Meu pai também tinha algumas dessas características. Não era muito bondoso com os outros, mas, durante alguns momentos que passamos juntos, eu sabia que ele me amava. Ele era inteligente. Era carismático. Era motivado. Mas eu o odiava muito mais que o amava. Eu não conseguia enxergar suas qualidades por causa do que via durante seus piores momentos. Nem mesmo cinco anos de seu lado bom compensariam cinco minutos testemunhando seu lado ruim.

Olho para Emerson e depois para Ryle. E sei o que preciso fazer por ela. Pelo relacionamento que espero que ela tenha com o pai. Não decido por mim nem por Ryle.

Decido por ela.

— Ryle?

Ele está sorrindo ao se virar para mim. Mas para ao se deparar com meu olhar.

— Quero o divórcio.

Ele pisca duas vezes. Minhas palavras o atingem como uma corrente elétrica de alta voltagem. Ele estremece e olha para nossa filha, os ombros encurvados para a frente.

— Lily — diz, balançando a cabeça para trás e para a frente. — Por favor, não faça isso.

Seu tom de voz é suplicante, e fico com raiva porque ele estava esperançoso achando que eu ia acabar voltando para ele. Sei que em parte é culpa minha, mas acho que só entendi qual era minha decisão na hora que segurei minha filha pela primeira vez.

— Só mais uma chance, Lily. Por favor.

Sua voz falha por causa das lágrimas.

Sei que o estou magoando no pior momento possível. Estou partindo seu coração no que deveria ser o melhor dia de sua vida. Mas sei que, se não fizer isso agora, jamais vou convencê-lo de que não posso correr o risco de reatar com ele.

Começo a chorar, porque estou sofrendo tanto quanto Ryle.

— Ryle — digo, com delicadeza. — O que você faria? Se um dia essa garotinha te olhasse e dissesse: Pai, meu namorado bateu em mim. O que você diria a ela, Ryle?

Ele puxa Emerson para o peito e apoia o rosto no cobertor.

— Pare, Lily — implora ele.

Endireito a postura na cama. Ponho a mão nas costas de Emerson e tento fazer Ryle me olhar nos olhos.

— E se ela chegasse e te dissesse: Pai, meu marido me empurrou pela escada. Ele disse que foi um acidente. O que devo fazer?

Seus ombros começam a tremer, e pela primeira vez desde o dia em que o conheci, ele está chorando. Lágrimas de verdade escorrem por seu rosto enquanto ele abraça a filha com força. Também estou chorando, mas continuo, pelo bem dela.

— E se... — Minha voz falha. — E se ela chegasse para você e dissesse: Meu marido tentou me estuprar, pai. Ficou me segurando enquanto eu implorava para ele parar. Mas ele jura que isso nunca mais vai se repetir. O que devo fazer, pai?

Ele beija a testa da filha sem parar, deixando as lágrimas caírem de seu rosto.

— O que você diria a ela, Ryle? Me diga. Preciso saber o que você diria para nossa filha se o homem que a amasse de todo o coração a machucasse.

Um soluço irrompe de seu peito. Ele se inclina em minha direção e me envolve em um abraço.

— Eu imploraria para que ela o largasse — confessa, em meio às lágrimas. Seus lábios tocam desesperadamente minha testa, e sinto algumas de suas lágrimas nas minhas bochechas. Ele leva a boca a meu ouvido e nina nós duas com seu corpo. — Eu diria que ela merece muito mais que isso. E imploraria para que ela não voltasse para ele, por mais que a amasse. Ela merece muito mais.

Nós nos transformamos em uma confusão de lágrimas, corações partidos e sonhos destruídos. Nos abraçamos. Abraçamos nossa filha. E, por mais que seja uma escolha difícil, nós destruímos o padrão antes que o padrão nos destrua.

Ele a devolve para mim e enxuga os olhos. Levanta-se ainda chorando. Ainda tentando recuperar o fôlego. Nos últimos quinze minutos, perdeu o amor de sua vida. Nos últimos quinze minutos, se tornou pai de uma linda menininha.

É isso que quinze minutos podem fazer com uma pessoa. Podem destruí-la.

Podem salvá-la.

Ele aponta para o corredor, me avisando que precisa se recompor. Enquanto ele sai do quarto, percebo que nunca o vi tão triste. Mas sei que um dia vai me agradecer por isso. Sei que um dia vai entender que tomei a decisão certa para sua filha.

Quando a porta se fecha, olho para ela. Sei que não vou lhe dar a vida que sonhei que ela tivesse. Um lar para morar com os pais que a amam e que a criam juntos. Mas não quero que ela tenha a mesma vida que eu. Não quero que ela veja o pior lado do pai. Não quero que o veja perder a cabeça comigo e que deixe de reconhecê-lo como seu pai. Porque, por mais que ela tenha bons momentos com Ryle ao longo da vida, sei por experiência própria que só os piores momentos ficariam na memória.

Ciclos existem porque é doloroso acabar com eles. Interromper um padrão familiar é algo que requer uma quantidade astronômica de sofrimento e de coragem. Às vezes, parece mais fácil simplesmente continuar nos mesmos círculos familiares em vez de enfrentar o medo de saltar e talvez não fazer uma boa aterrissagem.

Minha mãe passou por isso.

Eu passei por isso.

Mas nem morta vou deixar minha filha passar por isso.

Beijo sua testa e lhe faço uma promessa.

— É assim que acaba. Nós vamos colocar um ponto final nisso.