É Assim que Acaba
Capítulo Vinte e Nove
Allysa se joga no sofá, ao lado de Rylee e de mim.
— Estou com tanta saudade de você, Lily — confessa. — Estou pensando em voltar a trabalhar um ou dois dias por semana.
Eu rio, um pouco chocada com a sugestão.
— Eu moro no mesmo prédio e te visito quase todo dia. Como pode sentir minha falta?
Allysa faz um bico enquanto puxa as pernas para o sofá, sentando-se em cima delas.
— Tá! Não é de você que sinto saudade. É do trabalho. E, às vezes, só quero sair um pouco de casa.
Rylee já completou seis semanas, então tenho certeza de que ela pode voltar a trabalhar. Mas, na verdade, não achei que fosse querer, agora que tem uma filha. Eu me inclino para a frente e dou um beijo no nariz de Rylee.
— Você levaria a neném para o trabalho?
Allysa nega com a cabeça.
— Não, você me ocupa demais. Marshall pode ficar cuidando de Rylee enquanto eu trabalho.
— Quer dizer que você não tem pessoas para isso?
Marshall passa pela sala nesse instante e me ouve.
— Shh, Lily. Não fale como uma garota rica na frente de minha filha. Que blasfêmia!
Eu rio. Por isso os visito algumas noites na semana, porque é o único momento que eu consigo rir. Já se passaram seis semanas desde que Ryle viajou para a Inglaterra, e ninguém sabe o que aconteceu entre nós. Ryle não contou para ninguém, e eu também não. Todo mundo, inclusive minha mãe, acredita que ele só foi estudar em Cambridge e nada mudou.
Também não contei para ninguém sobre a gravidez.
Fui ao médico duas vezes. Na verdade, eu já estava com doze semanas de gravidez na noite em que descobri, então agora estou com dezoito semanas. Ainda estou tentando entender tudo. Tomo pílula desde os 18 anos. Pelo jeito, esquecer algumas vezes acabou fazendo efeito.
Minha barriga está começando a aparecer, mas está frio, então tem sido fácil esconder. É fácil disfarçar com um suéter largo e uma jaqueta.
Sei que logo preciso contar a alguém, mas sinto que Ryle precisa ser a primeira pessoa a saber. E não quero fazer isso por telefone. Ele volta em seis semanas. Se eu conseguir manter o segredo até lá, depois decido o que fazer.
Olho para Rylee, que sorri para mim. Faço caretas para que ela sorria ainda mais. Em vários momentos, eu quis contar sobre a gravidez para Allysa, mas é complicado porque nem o irmão conhece meu segredo. Não quero colocá-la nesse tipo situação, por mais que eu sofra por não poder contar a ela.
— Como você está sem Ryle? — pergunta Allysa. — Já está querendo que ele volte?
Assinto, mas não digo nada. Sempre tento mudar de assunto quando ela fala sobre ele.
— Ele ainda está gostando de Cambridge? — pergunta Allysa, se encostando no sofá.
— Está — respondo, mostrando a língua para Rylee.
Ela sorri. Será que meu bebê vai ser parecido com ela? Espero que sim. Ela é muito fofa, mas talvez eu seja um pouco suspeita para falar.
— Ele já entendeu como funciona o metrô? — Allysa ri. — Juro que toda vez que nos falamos, ele está perdido. Não sabe se é para pegar a linha A ou B.
— Pois é — digo. — Ele entendeu, sim.
Allysa se afasta do sofá.
— Marshall!
Ele entra na sala, e Allysa tira Rylee de minhas mãos. Ela a entrega para o marido.
— Pode trocar a fralda dela? — pergunta.
Não sei por que ela está perguntando isso, afinal ele acabou de trocar a fralda da bebê.
Marshall enruga o nariz e pega Rylee dos braços de Allysa.
— Quem é a porquinha do papai?
Eles estão usando o mesmo macacão.
Allysa agarra minhas mãos e me puxa do sofá tão depressa que grito.
— Aonde a gente está indo?
Ela não me responde. Vai até o quarto e bate a porta depois de entrarmos. Ela anda de um lado para outro algumas vezes, depois me encara.
— Acho bom você me contar o que está acontecendo, Lily!
Eu me afasto, chocada. Do que ela está falando?
No mesmo instante levo as mãos à barriga, porque acho que talvez Allysa tenha percebido, mas ela não olha para minha barriga. Dá um passo para a frente e cutuca meu peito com o dedo.
— Cambridge não tem metrô, sua idiota!
— Como assim?
Estou totalmente confusa.
— Eu inventei! — diz ela. — Faz muito tempo que você está estranha. E é minha melhor amiga, Lily. Além do mais, eu conheço meu irmão. Falo com ele toda semana, e ele está diferente. Aconteceu alguma coisa entre vocês, e quero saber o que foi!
Merda. Acho que isso vai acontecer antes do que eu esperava.
Levo as mãos à boca, sem saber o que dizer. Sem saber até que ponto contar. Só agora percebo que estava enlouquecendo por não poder conversar sobre isso. Quase fico aliviada por ela me conhecer tão bem.
Eu me aproximo da cama e me sento.
— Allysa — sussurro. — Sente-se.
Sei que ela vai ficar quase tão magoada quanto eu. Ela anda até a cama e se senta a meu lado, segurando minhas mãos.
— Nem sei por onde começar.
Ela aperta minhas mãos, mas não diz nada. Durante os próximos quinze minutos, conto tudo. Conto da briga. Conto que Atlas foi me buscar. Conto do hospital. Revelo a gravidez.
Conto que chorei até dormir nas últimas seis semanas, porque nunca me senti tão assustada e sozinha.
Quando termino de contar tudo, estamos chorando. Ela não respondeu nada, disse apenas “Ah, Lily” algumas vezes. Mas ela não precisa responder. Ryle é seu irmão. Sei que ela quer que eu leve em conta seu passado, assim como fez da última vez que isso aconteceu. Sei que ela quer que eu me resolva com ele, porque é seu irmão. A gente devia ser uma grande família feliz. Sei exatamente o que ela está pensando.
Allysa fica bastante tempo em silêncio, assimilando com dificuldade tudo o que contei. Por fim, ela me olha nos olhos e aperta minhas mãos.
— Meu irmão te ama, Lily. Ele te ama muito. Você mudou toda a vida dele, e o transformou numa pessoa que jamais o achei capaz de ser. Como irmã, o que eu mais queria era que você encontrasse uma maneira de perdoá-lo. Mas, como sua melhor amiga, preciso dizer que, se voltar para ele, nunca mais vou falar com você.
Demoro um instante para assimilar suas palavras, mas, quando faço isso, começo a chorar.
Ela começa a chorar.
Ela me abraça, e nós duas choramos por causa do amor mútuo que sentimos por Ryle. Choramos por causa da raiva que estamos sentindo no momento.
Depois de vários minutos chorando pateticamente na cama, ela me solta, se aproxima da cômoda e pega uma caixa de lenços de papel.
Nós enxugamos os olhos e fungamos.
— Você é a melhor amiga que já tive — digo.
Ela assente.
— Eu sei. E agora eu vou ser a melhor tia. — Ela enxuga o nariz e funga de novo, mas está sorrindo. — Lily. Você vai ter um bebê — diz, com animação, e é a primeira vez que sinto alguma alegria com a gravidez. — Odeio dizer isso, mas percebi que você tinha engordado. Achei que estava deprimida e comendo muito depois que Ryle viajou.
Ela vai até o closet e começa a pegar várias coisas para mim.
— Tenho tanta roupa de grávida para te dar!
Começamos a dar uma olhada nas roupas, e ela puxa uma mala e a abre. Joga várias coisas ali dentro, até transbordar.
— Jamais conseguiria usar isso — digo a ela, erguendo uma camisa que ainda está com etiqueta. — É tudo de grife. Vou acabar sujando.
Ela ri e mesmo assim enfia as roupas na mala.
— Não precisa me devolver. Se eu engravidar de novo, é só pedir para minhas pessoas comprarem mais. — Ela tira uma camisa do cabide e me entrega. — Tome, prove essa aqui.
Tiro a camisa e enfio a camisa de grávida pela cabeça. Depois de vesti-la, me olho no espelho.
Eu pareço... grávida. Grávida do tipo não-dá-pra-disfarçar-essa-porcaria.
Ela põe a mão em minha barriga e olha para o espelho comigo.
— Já sabe se é menino ou menina?
Balanço a cabeça.
— Não quero saber.
— Espero que seja uma menina — diz ela. — Nossas filhas seriam melhores amigas.
— Lily?
Nos viramos e vemos Marshall parado na porta. Ele está com os olhos fixos em minha barriga. E na mão de Allysa que está em minha barriga. Ele inclina a cabeça e aponta para mim.
— Você... — diz ele, confuso. — Lily, tem um... Você sabe que está grávida?
Allysa se aproxima calmamente da porta e põe a mão na maçaneta.
— Tem algumas coisas que você nunca, jamais, pode repetir se quiser que eu continue sendo sua esposa. Essa é uma delas. Entendeu?
Marshall ergue as sobrancelhas e dá um passo para trás.
— Ok. Entendi. Lily não está grávida. — Ele dá um beijo na testa de Allysa e olha para mim. — Não estou te parabenizando, Lily. Por nada.
Allysa o expulsa do quarto e fecha a porta, depois se vira para mim.
— Precisamos planejar o chá de bebê — diz ela.
— Não. Antes preciso contar a Ryle.
Ela acena com a mão em um gesto de desdém.
— Não precisamos dele para planejar o chá de bebê. É só mantermos isso em segredo até lá.
Ela pega o laptop, e, pela primeira vez desde que descobri a gravidez, fico feliz.