É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 6 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Cinco

 

Ryle estava certo. Depois de alguns dias, meu tornozelo já havia melhorado o suficiente para que eu pudesse andar. Mas esperei uma semana inteira antes de tentar sair do apartamento. A última coisa que quero é me machucar de novo.

Claro que o primeiro lugar visitado foi minha floricultura. Allysa estava lá quando cheguei, e dizer que fiquei chocada quando entrei na loja é eufemismo. Parecia completamente diferente do estabelecimento que comprei. Ainda tem muito trabalho a ser feito, mas ela e Marshall se livraram de todo o lixo. Todo o resto foi organizado em pilhas. As janelas foram lavadas, passaram pano no chão. Ela até esvaziou a área onde pretendo montar o escritório.

Hoje eu a ajudei por algumas horas, mas no início Allysa não me deixou fazer muita coisa, então praticamente fiquei planejando a loja. Escolhemos as cores das tintas e definimos uma data para a inauguração, daqui a aproximadamente cinquenta e quatro dias. Depois que ela foi embora, passei as horas seguintes fazendo tudo o que minha funcionária não me deixou fazer. Eu me senti ótima por estar de volta. Mas, caramba, como estou cansada!

Por isso me pergunto se devo ou não levantar do sofá e abrir a porta para quem quer que tenha batido. Lucy está na casa de Alex de novo, e falei com minha mãe ao telefone cinco minutos atrás, então sei que não é nenhuma das duas.

Vou até a porta e confiro o olho mágico antes de abrir. Não o reconheço de imediato, porque está de cabeça baixa, mas então ele olha para cima e para a direita, e meu coração acelera!

O que ele está fazendo aqui?

Ryle bate outra vez, e tento afastar o cabelo do rosto, domando-o com a mão, mas é um caso perdido. Trabalhei feito louca hoje, e estou horrorosa, então, a não ser que eu tenha meia hora para tomar uma ducha, passar maquiagem e me vestir antes de abrir a porta, ele simplesmente vai ter de lidar comigo assim.

Abro a porta, e sua reação me confunde.

— Meu Deus! — exclama ele, baixando a cabeça e a encostando na moldura da porta. Ele está ofegante, como se estivesse malhando, e então percebo que ele parece tão cansado e sujo quanto eu. Não faz a barba há uns dois dias, nunca o vi assim, e seu cabelo não foi penteado como de costume. Está um pouco irregular, assim como seu olhar. — Sabe em quantas portas bati até te encontrar?

Balanço a cabeça, porque não faço ideia. Mas já que ele tocou no assunto... Como sabe onde moro?

— Vinte e nove — diz ele. Em seguida, ergue a mão e repete os números com os dedos enquanto sussurra: — Dois... nove.

Observo sua roupa. Ele está com o uniforme do hospital, e eu odeio que ele esteja vestindo aquilo. Caramba. Tão melhor que o macacão pijama e muito melhor que a camisa da Burberry.

— Por que bateu em vinte e nove portas? — pergunto, inclinando a cabeça.

— Você não me disse em que apartamento morava — justifica ele, inexpressivamente. — Disse que morava neste prédio, mas não consegui lembrar se falou o andar. E, só para constar, quase comecei no terceiro. Eu teria chegado aqui uma hora antes, se tivesse seguido meu instinto.

— Por que você está aqui?

Ele passa as mãos no rosto e depois aponta por cima de meu ombro.

— Posso entrar?

Olho por cima do ombro e abro a porta mais um pouco.

— Acho que sim. Se me disser o que quer.

Ryle entra e eu fecho a porta. Ele olha ao redor, com seu uniforme hospitalar ridículo e sensual, e põe a mão nos quadris enquanto me encara. Parece um pouco desapontado, mas não sei se comigo ou com ele mesmo.

— Lá vem uma grande verdade nua e crua, tá? — diz ele. — Prepare-se.

Cruzo os braços e o observo inspirar, preparando-se para falar.

— Os próximos dois meses são os mais importantes de toda minha carreira. Preciso me concentrar. Estou terminando a residência, e, depois, são as provas. — Ele está todo agitado, andando de um lado para outro na sala, falando e gesticulando com as mãos. — Mas, na última semana, não consegui parar de pensar em você. Não sei por quê. No trabalho, em casa. Só consigo pensar em como é louco estar a seu lado, e preciso que isso passe, Lily. — Ele para de andar e se vira para mim. — Por favor, faça isso parar. Só uma vez... É só disso que preciso. Juro.

Estou cravando os dedos nos braços enquanto o observo. Ele continua ofegante, e seus olhos parecem frenéticos, mas ele me olha de um jeito suplicante.

— Quando foi a última vez que você dormiu? — pergunto.

Ele revira os olhos, como se estivesse frustrado por eu não entender.

— Acabei de sair de um plantão de 48 horas — responde ele, fazendo pouco caso. — Concentre-se, Lily.

Balanço a cabeça e penso no que ele confessou. Se eu não tivesse uma cabeça boa... eu diria que ele...

Inspiro para me acalmar.

— Ryle — começo, com cautela. — É sério? Você bateu em vinte e nove portas só para me dizer que pensar em mim está infernizando sua vida, e que eu deveria transar com você e assim te ajudar a me esquecer? Está brincando, né?

Ele comprime os lábios e, depois de uns cinco minutos pensando, faz que sim lentamente.

— Bem... sim, mas... exposto desse jeito, parece bem pior.

Dou uma gargalhada exasperada.

— Porque é ridículo, Ryle!

Ele morde o lábio inferior e olha ao redor, como se de repente quisesse fugir. Abro a porta e faço um gesto para ele ir embora. Mas ele não vai. Apenas olha meu pé.

— Seu tornozelo parece bom — comenta. — Como ele está?

Reviro os olhos.

— Melhor. Consegui ajudar Allysa hoje na loja pela primeira vez.

Ele assente e faz menção de se aproximar da porta. Porém, assim que me alcança, ele se vira e bate as mãos na porta, cada uma de um lado de minha cabeça. Fico boquiaberta com sua proximidade e sua persistência.

— Por favor? — insiste.

Balanço a cabeça, por mais que meu corpo queira me trair, implorando para minha mente ceder.

— Sou muito bom nisso, Lily — avisa ele, sorrindo. — Você não vai ter de fazer quase nada.

Tento não rir, mas sua determinação é igualmente encantadora e irritante.

— Boa noite, Ryle.

Ele abaixa a cabeça e depois a balança para trás e para a frente. Afasta-se da porta e se empertiga. Ele se vira, seguindo na direção do corredor, mas de repente se ajoelha e põe os braços ao redor de minha cintura.

— Por favor, Lily — pede Ryle, com uma risada autodepreciativa. — Por favor, transe comigo. — Ele está me encarando com um olhar de cachorro pidão e um sorriso esperançoso e ridículo. — Quero tanto, tanto você, e juro que, se transar comigo, nunca mais nos falamos. Prometo.

Ver um neurocirurgião literalmente de joelhos, implorando para transar comigo me convence. É muito ridículo.

— Levante-se — peço, afastando seus braços. — Está fazendo um papelão.

Ele fica de pé lentamente, arrastando as mãos pela porta, uma em cada lado de meu corpo, até me prender entre os braços.

— Está dizendo sim?

Seu peito mal encosta no meu, e odeio gostar de me sentir desejada assim. Eu não devia achar isso nem um pouco atraente, mas mal consigo respirar quando o encaro. Ainda mais quando está exibindo esse sorriso sugestivo.

— Não estou me sentindo sexy, Ryle. Trabalhei o dia todo, estou exausta, cheirando a suor e devo estar com gosto de poeira. Se me der um tempinho para tomar uma ducha primeiro, talvez eu me sinta sexy o bastante para transar com você.

Ele balança a cabeça fervorosamente antes mesmo que eu termine de falar.

— Tome sua ducha. Demore o tempo que quiser. Eu espero.

Eu o afasto e fecho a porta do apartamento. Ele me acompanha até o quarto e digo que me espere na cama.

Por sorte, arrumei o quarto ontem à noite; normalmente, há roupas espalhadas por todo canto, livros empilhados na mesa de cabeceira, sapatos e sutiãs que eu jamais guardo no armário. Mas hoje está arrumado. Até minha cama foi feita, inclusive com as almofadas feias que minha avó repassou para toda a família.

Dou uma rápida conferida no cômodo, só para garantir que não há nada vergonhoso à vista. Ele se senta na cama, e eu o observo analisar o quarto. Paro na porta do banheiro e ofereço uma última saída a ele.

— Você disse que ia parar, Ryle, mas quero logo avisar uma coisa: sou como uma droga. Se transar comigo hoje, as coisas só tendem a piorar para seu lado. Mas você só vai conseguir isso uma única vez. Não vou ser uma das várias garotas que usa para... Como foi que você falou naquela noite? Satisfazer suas necessidades?

Ele se inclina para trás, se apoiando nos cotovelos.

— Você não é esse tipo de garota, Lily. E eu não sou o tipo de cara que procura alguém mais de uma vez. Não precisamos nos preocupar com nada.

Fecho a porta, me perguntando como esse cara me convenceu a fazer isso.

Foi o uniforme hospitalar. Esses uniformes são meu ponto fraco. Não teve nada a ver com ele.

Será que tem como ele não tirar o uniforme enquanto a gente transa?

 

• • •

 

Nunca demorei mais de meia hora para me arrumar, mas levo quase uma para terminar meu ritual. Raspei mais partes do corpo que provavelmente necessário, e depois passei uns bons vinte minutos surtando e tendo de me convencer a não abrir a porta e mandar Ryle embora. Porém, agora que meu cabelo está seco e estou mais limpa que nunca, acho que vou conseguir. Claro que consigo transar com um cara só uma vez. Tenho 23 anos.

Abro a porta, e ele ainda está na cama. Fico um pouco desapontada quando vejo sua camisa do uniforme no chão, mas não encontro a calça, então ainda deve estar com ela. Ele está debaixo da coberta, então não tenho como saber.

Fecho a porta do banheiro e fico esperando ele se virar e me olhar, mas isso não acontece. Dou alguns passos e, então, escuto seu ronco.

Não é um ronco leve, do tipo Ah, acabei de pegar no sono. É o ronco de quem está no meio do sono R.E.M.

— Ryle? — sussurro.

Ele nem se mexe quando balanço seu corpo.

Só pode ser brincadeira.

Eu me sento na cama, sem me importar se vou acordá-lo. Acabei de passar uma hora inteira me arrumando depois de trabalhar para caramba, e é assim que ele lida com a noite?

Mas não posso ficar zangada com ele, ainda mais ao ver como parece tranquilo. Nem consigo imaginar como deve ser um plantão de 48 horas. Além disso, minha cama é muito confortável. É tão confortável que faria uma pessoa cair no sono de novo mesmo depois de uma noite bem dormida. Eu devia ter avisado.

Confiro a hora no celular: são quase 22h30. Coloco o aparelho no silencioso e me deito ao lado de Ryle. Seu celular está ao lado da cabeça, no travesseiro, então eu o pego e rolo a tela para cima em busca da câmera. Ergo o celular e faço questão de ficar com um decote bonito, os seios unidos. Tiro uma foto só para que ele veja o que perdeu.

Apago a luz e rio sozinha, porque estou prestes a dormir ao lado de um homem seminu que sequer beijei.

 

• • •

 

Antes mesmo de abrir os olhos sinto seus dedos subindo por meus braços. Eu me contenho para não dar um sorriso cansado e finjo que ainda estou dormindo. Seus dedos percorrem meu ombro e param na clavícula, logo antes de alcançarem o pescoço. Tenho uma tatuagem pequena ali, fiz enquanto cursava a faculdade. É o contorno simples de um coração ligeiramente aberto em cima. Sinto seus dedos contornarem a tatuagem, depois ele se inclina para a frente e a beija. Fecho os olhos com ainda mais força.

— Lily — sussurra ele, colocando o braço ao redor de minha cintura.

Resmungo, tentando acordar, e depois me deito de costas para encará-lo. Quando abro os olhos, ele está me fitando. Pela luz do sol que entra pelas janelas e ilumina seu rosto, percebo que não são nem sete da manhã.

— Sou o homem mais desprezível que já conheceu. Não é?

Rio e confirmo ligeiramente com a cabeça.

— Quase isso.

Ele sorri e afasta meu cabelo do rosto. Inclina-se para a frente e pressiona os lábios em minha testa, e fico com raiva por ele ter feito isso. Agora eu é que vou acabar atormentada pelas noites insones, revivendo este momento.

— Preciso ir — diz ele. — Estou bastante atrasado. Mas, primeiro, peço desculpas. E, segundo, nunca mais farei isso. E nunca mais vou falar com você, prometo. E, terceiro, me desculpe mesmo. Você não faz ideia de como sinto muito.

Forço um sorriso, mas quero franzir a testa porque odiei completamente sua segunda declaração. Na verdade, não vou me incomodar se ele tentar isso de novo, mas depois me lembro: queremos coisas diferentes da vida. E acabou sendo bom ele ter dormido, e a gente nunca ter se beijado, porque, se eu tivesse transado com ele de uniforme hospitalar, eu é que ia aparecer na porta de sua casa de joelhos, implorando por mais.

Isso é bom. Arrancar o Band-Aid de uma só vez e deixá-lo partir.

— Tenha uma vida boa, Ryle. Desejo todo o sucesso do mundo para você.

Ele não responde a minha despedida. Fica me encarando em silêncio, meio que franzindo o rosto, depois diz:

— Tá bom. Igualmente, Lily.

Ele rola para longe de mim e se levanta. Não consigo encará-lo, então me viro de lado e fico de costas para Ryle. Escuto ele calçar os sapatos e pegar o celular. Há uma longa pausa antes que ele se mexa novamente, e sei que é porque estava me observando. Fecho os olhos até escutar a porta do apartamento bater.

Meu rosto esquenta de imediato, e eu me recuso a ficar triste por causa disso. Eu me obrigo a sair da cama. Preciso trabalhar. Não posso ficar chateada só porque não sou o suficiente para um rapaz reavaliar seus objetivos de vida por minha causa.

Além disso, tenho de me preocupar com meus próprios objetivos de vida. E estou muito animada com eles. Tanto que não tenho tempo para um cara em minha vida.

Nenhum tempo.

Não.

Sou uma garota ocupada.

Sou uma empreendedora corajosa e ousada, que está se lixando para homens com uniforme hospitalar.