É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 33 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Trinta e Dois

 

De todos os segredos dos últimos meses, o que me deixa mais triste é ter de esconder tudo de minha mãe. Não sei como ela vai reagir. Sei que vai ficar feliz com a gravidez, mas não faço ideia do que vai achar da separação. Ela ama Ryle. E, com base em seu histórico nessas situações, provavelmente vai achar fácil uma desculpa para o comportamento de meu marido e tentar me convencer a voltar para ele. E, para ser sincera, é também por causa disso que tenho adiado esse encontro, porque tenho medo de que haja alguma chance de ela conseguir fazer isso.

Na maior parte dos dias, sou forte. Na maior parte dos dias, estou tão zangada com ele que acho um absurdo até mesmo pensar em perdoá-lo. Porém, tem dias que sinto tanta saudade que não consigo respirar. Sinto saudade de como me divertia com ele. Sinto saudade de fazer amor com ele. Sinto saudade de sentir saudade dele. Ele trabalhava tantas horas que, quando chegava em casa à noite, eu saía correndo e pulava em seus braços. Sinto falta até de como ele adorava que eu fizesse isso.

É nos dias que não estou tão forte que eu queria que minha mãe soubesse de tudo o que está acontecendo. Às vezes, tudo o que eu queria era ir até sua casa e me deitar no sofá enquanto ela põe meu cabelo atrás da orelha e diz que vai ficar tudo bem. Às vezes, até mulheres adultas precisam do consolo da mãe, só para deixar um pouco de lado a obrigação de ser forte o tempo inteiro.

Estou sentada no carro, parado na frente de sua casa. Demoro uns cinco minutos para juntar forças e entrar. É um saco fazer isso porque sei que, de certa maneira, também vou partir seu coração. Odeio vê-la triste, e contar que me casei com um homem que talvez seja igual a meu pai vai deixá-la muito triste.

Quando entro em sua casa, eu a encontro na cozinha, colocando macarrão em uma panela. Não tiro o casaco ainda por razões óbvias. Não estou com camiseta de grávida, mas é quase impossível esconder minha barriga sem um casaco. Ainda mais de uma mãe.

— Oi, querida! — diz ela.

Entro na cozinha e a abraço de lado enquanto ela salpica queijo em cima da lasanha. Depois que a coloca no forno, vamos até a sala de jantar e nos sentamos à mesa. Ela se encosta na cadeira e toma um gole de chá.

Está sorrindo. Odeio ainda mais a situação ao ver que ela parece tão feliz.

— Lily — diz. — Preciso te contar uma coisa.

Não estou gostando disso. Eu que vim aqui para falar com ela. Não estou preparada para ela me dizer alguma coisa.

— O que foi? — pergunto, hesitante.

Ela pega o copo com ambas as mãos.

— Estou namorando.

Fico boquiaberta.

— Sério? — pergunto, balançando a cabeça. — Isso é...

Eu ia dizer bom, mas fico imediatamente preocupada; imagino se ela está se colocando na mesma situação que vivia com meu pai. Ela percebe minha preocupação, então segura minhas mãos.

— Ele é ótimo, Lily. É ótimo mesmo. Juro!

O alívio toma conta de mim, porque noto que ela está me contando a verdade. Vejo a felicidade em seus olhos.

— Nossa! — exclamo, completamente surpresa. — Fico feliz por você. Quando posso conhecê-lo?

— Hoje, se quiser — diz ela. — Posso convidá-lo para comer conosco.

Balanço a cabeça.

— Não — sussurro. — Não é um bom momento.

Ela aperta minhas mãos assim que percebe que vim lhe contar uma coisa importante. Começo pela novidade boa.

Eu me levanto e tiro o casaco. No início, ela não acha nada de mais. Pensa que estou só querendo ficar mais confortável. Mas então pego sua mão e a encosto em minha barriga.

— Você vai ser avó.

Ela arregala os olhos e, por vários segundos, fica chocada e sem palavras. Mas, então, as lágrimas começam a surgir. Ela se levanta de um pulo e me abraça.

— Lily! — diz ela. — Ai, meu Deus! — Ela se afasta, sorrindo. — Que rápido! Vocês estavam tentando? Faz tão pouco tempo que se casaram.

Balanço a cabeça.

— Não, foi uma surpresa. Acredite em mim.

Ela ri. Depois de outro abraço, nós duas nos sentamos. Tento continuar sorrindo, mas não é o sorriso de uma grávida eufórica. Ela percebe quase imediatamente e tapa a boca com a mão.

— Querida — sussurra. — O que foi?

Até este momento, me esforcei para me manter forte. Eu me esforcei para não sentir muita pena de mim mesmo na presença de outras pessoas. Mas sentada com minha mãe, me rendo à fraqueza. Só quero desistir por um tempo. Quero que ela assuma o controle, me abrace e me diga que vai ficar tudo bem. E, nos próximos quinze minutos, enquanto choro em seus braços, é exatamente o que acontece. Simplesmente paro de lutar por mim mesma, porque preciso que outra pessoa o faça por mim.

Eu a poupo da maior parte dos detalhes de nosso relacionamento, mas conto as coisas mais importantes. Que ele me bateu mais de uma vez, que não sei o que fazer. Que tenho medo de ter este bebê sozinha. Tenho medo de tomar a decisão errada. Tenho medo de estar sendo fraca demais, de que o certo seja mandá-lo para a cadeia. Tenho medo de estar sendo sensível demais, não sei se estou exagerando. Basicamente, conto tudo o que não tive coragem de admitir para mim mesma.

Ela pega alguns guardanapos na cozinha e volta para a mesa. Depois de secarmos nossas lágrimas, ela começa a embolar o guardanapo nas mãos, rolando-o e o mirando.

— Você quer voltar para ele? — pergunta ela.

Não digo que sim. Mas também não digo que não.

É a primeira vez desde que tudo aconteceu que estou sendo completamente sincera. Sou sincera com minha mãe e comigo. Talvez por ela ser a única pessoa que conheço que passou por isso. É a única pessoa que conheço que entenderia toda a minha confusão.

Balanço a cabeça, mas também dou de ombros.

— A maior parte de mim sente que nunca mais vou conseguir confiar em Ryle. Mas uma grande parte de mim sente falta do que eu tinha com ele. Éramos ótimos juntos, mãe. Passei com ele alguns dos melhores momentos de minha vida. E, de vez em quando, acho que não quero abrir mão disso.

Passo o guardanapo embaixo do olho, secando mais lágrimas.

— Às vezes... quando estou com muita saudade... digo a mim mesma que talvez as coisas não tenham sido tão ruins. Talvez eu pudesse suportar os piores momentos só para poder ficar com ele nos melhores momentos.

Ela põe a mão em cima da minha e a acaricia com o polegar.

— Entendo exatamente o que está dizendo, Lily. Mas não perca seu limite de vista. Por favor, não deixe isso acontecer.

Não faço ideia do que ela quis dizer. Quando percebe que estou confusa, aperta meu braço e explica com mais detalhes:

— Todos temos nossos limites, o que estamos dispostos a aguentar antes de arrebentarmos. Quando me casei com seu pai, eu sabia exatamente qual era meu limite. Mas aos poucos... a cada incidente... meu limite foi aumentando mais um pouco. E mais um pouco. Na primeira vez que seu pai me bateu, ele se arrependeu na mesma hora. Jurou que nunca mais aconteceria. Na segunda vez, ele ficou ainda mais arrependido. Na terceira, foi mais que um golpe. Foi uma surra. E eu sempre voltava para ele. Mas, na quarta vez, foi só um tapa. E, quando isso aconteceu, fiquei aliviada. Lembro que pensei “pelo menos ele não me bateu desta vez, não foi tão ruim”. — Ela leva o guardanapo aos olhos e continua: — Todo incidente abala um pouco seu limite. Toda vez que você decide ficar, torna muito mais difícil abandoná-lo da próxima vez. Com o passar do tempo, você perde completamente seu limite de vista porque começa a pensar: “Eu já aguentei cinco anos, então por que não mais cinco”?

Ela toca minhas mãos e as segura enquanto choro.

— Não seja como eu, Lily. Sei que você acredita que ele te ama, e tenho certeza de que isso é verdade. Mas ele não está te amando da maneira certa. Ele não te ama como você merece ser amada. Se Ryle te ama de verdade, não vai deixar vocês voltarem. Ele mesmo vai optar pela separação, para garantir que nunca mais te machuque. Esse é o tipo de amor que uma mulher merece, Lily.

Desejo do fundo do coração que ela não tivesse aprendido essas coisas por experiência própria. Eu a puxo para perto e a abraço.

Por algum motivo, achei que precisaria ficar na defensiva quando lhe contasse. Nunca pensei que aprenderia com ela. Já devia ter imaginado. Eu costumava achar minha mãe fraca, mas, na verdade, ela é uma das mulheres mais fortes que conheço.

— Mãe? — digo, me afastando. — Quero ser você quando crescer.

Ela ri e afasta meu cabelo do rosto. Pela maneira como está me olhando, percebo que ela trocaria de lugar comigo num piscar de olhos. Está sofrendo mais por mim que jamais sofreu por si mesma.

— Quero te contar uma coisa — confessa ela, pegando minhas mãos de novo. — Sabe o dia do discurso no funeral de seu pai? Sei que você não ficou paralisada, Lily. Ficou lá parada naquele púlpito e se recusou a dizer alguma coisa boa sobre aquele homem. Eu nunca senti tanto orgulho de você. Foi a única pessoa em minha vida que me defendia. Você foi forte quando eu estava com medo. — Uma lágrima cai de seu olho quando acrescenta: — Seja aquela garota, Lily. Corajosa e ousada.