É Assim que Acaba
Epílogo
Abro caminho pela multidão da Boston Street até chegar à rua transversal. Empurro o carrinho mais devagar e, então, paro diante do meio-fio. Empurro a parte de cima para trás e olho para Emmy. Ela está chutando para cima e sorrindo como sempre. É uma bebê muito feliz. E tem uma energia calma viciante.
— Qual é a idade? — pergunta uma mulher, parada na calçada, olhando para Emerson com interesse.
— Onze meses.
— Ela é linda — elogia. — É igual a você. Bocas idênticas.
Sorrio.
— Obrigada. Mas você devia ver o pai. Os olhos dos dois são iguais.
O sinal abre para os pedestres, e tento ser mais rápida que a multidão ao atravessar. Já estou meia hora atrasada, e Ryle me mandou duas mensagens. Mas ele ainda não sentiu a alegria das cenouras. Hoje vai descobrir a bagunça que elas fazem, porque coloquei várias na bolsa da bebê.
Quando Emerson tinha três meses, saí do apartamento que Ryle comprou. Arranjei um apartamento próprio mais perto do trabalho, então posso ir a pé, o que é ótimo. Ryle voltou para o apartamento que comprou, mas com minhas visitas a Allysa e os dias que Ryle passa com Emerson, parece que fico quase tanto tempo naquele prédio quanto no meu.
— Quase chegando, Emmy. — Viramos a esquina, e estou com tanta pressa que um homem precisa desviar e se encostar ao muro para não ser atropelado por mim. — Desculpe — murmuro para ele.
Abaixo a cabeça e passo pelo homem.
— Lily?
Paro.
Eu me viro lentamente, porque essa voz repercutiu até nos dedos de meus pés. Só duas vozes já causaram esse efeito em meu corpo, sendo que a de Ryle não me afeta mais tanto assim.
Quando me viro para ele, seus olhos azuis estão semicerrados por causa do sol. Ele ergue a mão para protegê-los e sorri.
— Oi.
— Oi — cumprimento.
Meu cérebro frenético tenta desacelerar para que eu acompanhe o que está acontecendo.
Ele observa o carrinho e aponta para Emmy.
— É... é seu bebê?
Assinto, e ele vai para a frente do carrinho. Então se ajoelha e abre um grande sorriso para ela.
— Nossa. Ela é linda, Lily — elogia ele. — Como se chama?
— Emerson. Às vezes, chamamos ela de Emmy.
Ele põe o dedo na mão da bebê, que começa a chutar, balançando o dedo de Atlas para a frente e para trás. Ele a observa com interesse por um instante, depois se levanta.
— Você está ótima — diz ele.
Tento não lhe dar uma olhadela tão óbvia, mas é difícil. Está lindo como sempre, mas é a primeira vez que o vejo e não tento negar como ficou bonito. Totalmente diferente do garoto sem-teto em meu quarto. Mas, ao mesmo tempo... ele continua exatamente igual.
Meu celular vibra no bolso de novo ao receber uma mensagem. Ryle.
Aponto para a rua.
— Estamos muito atrasadas — digo. — Ryle está nos esperando há meia hora.
Quando digo aquele nome, os olhos de Atlas se enchem de tristeza, mas ele tenta disfarçar. Apenas balança a cabeça e dá um passo lento para o lado, nos deixando passar.
— Hoje é seu dia de ficar com ela — esclareço.
Com essas palavras, digo mais do que conseguiria em conversas inteiras.
Vejo o alívio brilhar em seus olhos. Ele faz que sim e aponta para trás.
— Pois é, também estou atrasado. Abri um restaurante novo em Boylston no mês passado.
— Uau! Parabéns. Então vou ter de levar minha mãe até lá em breve para conhecê-lo.
Ele sorri.
— Devia mesmo. Me avise antes, e eu mesmo cozinho para vocês.
Depois de uma pausa constrangedora, aponto para a rua.
— A gente precisa...
— Ir — completa ele, sorrindo.
Concordo com a cabeça, depois olho para baixo e continuo andando. Não faço ideia de por que estou reagindo assim. Como se eu não conseguisse ter uma conversa normal. Quando estou a vários metros de distância, olho para trás. Ele não se mexeu. Continua me observando enquanto me afasto.
Viramos a esquina, e vejo Ryle esperando ao lado do carro, na frente da floricultura. Ele se alegra quando nos vê.
— Recebeu meu e-mail?
Ele se ajoelha e começa a soltar Emerson do carrinho.
— Sim, sobre o recall do chiqueirinho?
Ele assente e pega a filha.
— A gente já não comprou um para ela?
Aperto os botões para dobrar o carrinho, e depois o levo para a mala do carro de Ryle.
— Compramos, mas quebrou um mês atrás. Joguei no lixo.
Ele abre o porta-malas e toca no queixo de Emerson com os dedos.
— Ouviu isso, Emmy? Sua mãe salvou sua vida.
Ela sorri para ele e dá um tapinha em sua mão com um jeito brincalhão. Ele beija sua testa, depois pega o carrinho e o guarda. Fecho o porta-malas e me inclino para dar um rápido beijo em minha filha.
— Te amo, Emmy. Até de noite.
Ryle abre a porta de trás para colocá-la na cadeirinha. Eu me despeço e começo a seguir depressa pela rua.
— Lily! — grita ele. — Aonde você vai?
Tenho certeza de que ele imaginava que eu fosse entrar na loja, afinal já passou da hora de abrir. E é o que eu deveria fazer mesmo, mas estou com um frio irritante na barriga que não me deixa em paz. Preciso fazer algo a respeito disso. Eu me viro e ando para trás.
— Esqueci uma coisa! Nos vemos quando eu for buscar Emmy à noite!
Ryle ergue a mão de Emerson, e os dois acenam para se despedir de mim. Assim que viro a esquina, começo a correr. Desvio das pessoas, esbarro em algumas, uma mulher inclusive me xinga, mas o instante que vejo aquela nuca faz tudo valer a pena.
— Atlas! — grito. Ele está indo para o outro lado, então continuo abrindo caminho à força pela multidão. — Atlas!
Ele para de andar, mas não se vira. Inclina a cabeça, como se não quisesse confiar totalmente no que ouviu.
— Atlas! — grito de novo.
Desta vez, quando ele se vira, o faz com determinação. Seus olhos encontram os meus, e, durante uma pausa de três segundos, nós dois nos entreolhamos. Mas pouco depois começamos a nos aproximar, com passos decididos. Vinte passos nos separam.
Dez.
Cinco.
Um.
Nenhum de nós dá o último passo.
Estou sem ar, ofegante e nervosa.
— Eu me esqueci de te contar o nome do meio de Emerson. — Apoio as mãos nos quadris e expiro. — É Dory.
Ele não reage imediatamente, mas depois de um tempo seus olhos se enrugam um pouco nos cantos. Sua boca se contrai, como se ele tentasse não sorrir.
— Que nome perfeito para ela.
Faço que sim e sorrio, depois paro.
Não sei o que fazer agora. Só queria que ele soubesse disso, mas já contei, e não pensei no que faria ou diria em seguida.
Balanço a cabeça de novo e olho ao redor, apontando o polegar por cima do ombro.
— Bem... acho que eu vou...
Atlas dá um passo à frente, me agarra e me puxa com força para seu peito. Fecho os olhos imediatamente quando ele faz isso. Sua mão sobe minha nuca, e ele me abraça enquanto ficamos parados, cercados de ruas movimentadas, buzinas, pessoas esbarrando em nós ao passar apressadas. Ele dá um beijo delicado em meu cabelo, e tudo o mais some.
— Lily — diz ele baixinho. — Acho que agora tenho uma vida boa o suficiente para você. Então, quando você estiver pronta...
Agarro sua jaqueta sem tirar o rosto de seu peito. De repente, sinto como se tivesse 15 anos de novo. Meu pescoço e minhas bochechas coram com suas palavras.
Mas eu não tenho 15 anos.
Sou uma adulta com responsabilidades e uma filha. Não posso simplesmente deixar meus sentimentos de adolescente falarem mais alto. Não sem alguma garantia, pelo menos.
Eu me afasto e olho para ele.
— Você faz doações para instituições de caridade?
Atlas ri, confuso.
— Várias. Por quê?
— Quer ter filhos um dia?
Ele confirma com a cabeça.
— Claro que sim.
— Acha que vai querer se mudar de Boston algum dia?
Ele nega com a cabeça.
— Não. Nunca. Tudo é melhor aqui, lembra?
Era dessa garantia que estava precisando. Sorrio para ele.
— Ok. Estou pronta.
Ele me puxa para perto com firmeza, e eu rio. Depois de tudo que aconteceu comigo desde o dia em que ele apareceu em minha vida, eu nunca imaginaria esse fim. Torci muito para que isso acontecesse, mas até então eu não tinha certeza de que se tornaria realidade.
Fecho os olhos quando sinto seus lábios encostarem em minha clavícula. Ele dá um beijo delicado ali, e parece exatamente a primeira vez que ele me beijou no mesmo lugar tantos anos atrás. Ele leva a boca a meu ouvido e sussurra:
— Pode parar de nadar agora, Lily. Finalmente chegamos à costa.