É Assim que Acaba

Colleen Hoover · Capítulo 9 de 38

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É Assim que Acaba

Capítulo Oito

 

— A gente precisa conversar — diz Lucy.

Ela está sentada no sofá, com manchas de rímel nas bochechas.

Ai, merda.

Largo a bolsa e me aproximo depressa. Assim que me sento a seu lado, ela começa a chorar.

— O que aconteceu? Alex terminou com você?

Ela balança a cabeça, então fico prestes a surtar de verdade. Por favor, não diga câncer. Seguro sua mão e, então, percebo.

— Lucy! Você ficou noiva?

Ela assente.

— Desculpe. Sei que ainda temos seis meses de aluguel, mas Alex quer que eu more com ele.

Eu a encaro por um instante. Por isso ela está chorando? Por que quer se livrar do aluguel? Ela pega um lenço e começa a dar batidinhas nos olhos.

— Eu me sinto péssima, Lily. Você vai ficar totalmente sozinha. Vou me mudar, e você não vai ter ninguém.

O quê...

— Lucy? Hum... eu vou ficar bem. Prometo.

Ela olha para mim com uma expressão esperançosa.

— Jura?

Por que diabo ela tem essa impressão de mim? Balanço a cabeça de novo.

— Claro. Não estou zangada, mas feliz por você.

Ela me abraça.

— Ah, obrigada, Lily! — Ela começa a rir em meio às lágrimas. Ao me soltar, ela levanta do sofá. — Preciso contar a Alex! Ele estava tão preocupado que você não me aliviasse o aluguel!

Ela pega a bolsa e os sapatos, e desaparece pela porta do apartamento.

Eu me deito no sofá e fico encarando o teto. Será que ela acabou de me enganar?

Começo a rir, porque até então não tinha percebido como eu queria que isso acontecesse. O apartamento inteiro só para mim!

Melhor ainda é que, quando eu decidir transar com Ryle, a gente vai poder fazer isso aqui o tempo inteiro, sem se preocupar com barulho.

A última vez que falei com Ryle foi sábado, ao sair de seu apartamento. Concordamos em fazer um teste. Nada de compromisso ainda. Apenas sentir o relacionamento para ver se é algo que nós dois queremos. É segunda à noite, e estou um pouco desapontada por ele não ter me procurado. Dei meu número de telefone antes de nos despedirmos, mas realmente não sei nada sobre o protocolo para mensagens de texto, ainda mais no caso de testes.

De qualquer jeito, não vou mandar mensagem primeiro.

Em vez disso, decido me ocupar com minha angústia juvenil e Ellen DeGeneres. Não vou ficar esperando um cara com quem nem transei. Mas não sei por que presumi que ler sobre o primeiro cara com quem transei me faria parar de pensar no cara com quem não estou transando.

Querida Ellen,

O nome de meu bisavô é Ellis. Passei a vida inteira achando que era um nome ótimo para um velho. Depois que ele morreu, li o obituário. Acredita que seu nome verdadeiro nem era Ellis? Era Levi Sampson, e eu não fazia ideia.

Perguntei a minha avó de onde veio esse nome. Ela disse que suas iniciais eram L.S., e como todo mundo o chamava pelas iniciais, com o passar dos anos acabou virando Ellis. Por isso o chamavam assim.

Eu estava olhando seu nome agora mesmo, e fiquei pensando nisso. Ellen. Será que esse é seu nome de verdade? Você poderia ser igual a meu avô e usar as iniciais como disfarce.

L.N.

Estou de olho, “Ellen”.

Por falar em nomes, você acha Atlas um nome estranho? É, não é?

Ontem, enquanto assistíamos a seu programa juntos, perguntei qual era a origem do nome dele. Atlas disse que não sabia. Sem pensar, eu disse que ele devia perguntar à mãe por que ela escolheu esse nome. Ele apenas olhou para mim por um instante e comentou:

— É tarde demais para isso.

Não sei o que ele quis dizer. Não sei se sua mãe faleceu, ou se ela o colocou para adoção. Já somos amigos há semanas, e ainda não sei nada sobre ele, nem por que não tem onde morar. Eu poderia perguntar, mas não sei se ele já confia em mim. Parece ter dificuldades em confiar nos outros, e acho que não posso culpá-lo.

Estou preocupada com ele. Começou a fazer muito frio muito esta semana, e na próxima deve piorar. Se ele não tem eletricidade, não tem aquecedor. Espero que pelo menos tenha cobertores. Imagina como eu ficaria mal se ele morresse congelado? Muito, muito mal, Ellen.

Vou procurar uns cobertores essa semana e entregar a ele.

Lily

 

Querida Ellen,

Vai começar a nevar em breve, então decidi fazer a colheita hoje mesmo na horta. Eu já tinha tirado os rabanetes, então queria apenas colocar húmus e adubo, o que não devia demorar, mas Atlas insistiu em me ajudar.

Ele me fez várias perguntas sobre cuidados com a horta, e gostei de ver que parecia interessado em meus interesses. Mostrei como cobrir o solo com adubo e húmus para que a neve não causasse muitos danos. Minha horta é pequena em comparação à maioria das hortas. Talvez 3 metros por 4. Mas meu pai só me deixou usar esse pedaço do quintal.

Atlas cobriu tudo enquanto fiquei sentada na grama, de pernas cruzadas, só observando. Eu não estava sendo preguiçosa, mas ele assumiu e quis fazer, então deixei. Dá para notar que é um trabalhador dedicado. Será que ele esquece os problemas quando está ocupado e por isso sempre quer me ajudar tanto?

Ao terminar, ele veio até mim e se sentou a meu lado na grama.

— O que te deu vontade de cultivar? — perguntou ele.

Olhei para ele, que estava sentado de pernas cruzadas, me encarando. Naquele momento, percebi que provavelmente ele é o melhor amigo que já tive, e não sabemos quase nada do outro. Tenho amigos no colégio, mas por motivos óbvios eles nunca podem me visitar. Minha mãe vive com medo de que algo aconteça com meu pai, e que acabem descobrindo seu temperamento. Também nunca vou à casa dos outros, mas não sei direito por quê. Talvez meu pai não queira que eu durma na casa de minhas amigas porque eu veria como um bom marido trata a esposa. Talvez ele queira que eu acredite que a maneira como trata minha mãe é normal.

Atlas é meu primeiro amigo que já entrou em casa. Ele também é meu primeiro amigo que sabe que eu gosto de jardinar. E agora ele é meu primeiro amigo que me perguntou por que gosto de jardinar.

Abaixo o braço e puxo uma erva daninha. Começo a picotá-la em pedacinhos enquanto penso na resposta.

— Quando eu tinha 10 anos, minha mãe fez uma assinatura para mim num site chamado Sementes Anônimas — respondi. — Todo mês, eu recebia um pacote de sementes sem identificação pelos correios, com instruções de como plantar e cuidar delas. Eu só descobriria o que estava plantando quando brotava do solo. Todo dia, depois das aulas, eu vinha correndo para o quintal, querendo ver o progresso. Eu ficava ansiosa por aquilo. Cultivar coisas parecia uma recompensa.

Senti o olhar de Atlas fixo em mim quando ele perguntou:

— Uma recompensa pelo quê?

Dei de ombros.

— Por ter amado minhas plantas da maneira certa. Plantas recompensam a pessoa com base na quantidade de amor que recebem. Se for cruel ou negligenciá-las, elas não te dão nada. Mas, se cuidar delas, se amá-las do jeito certo, vão te recompensar com presentes na forma de verduras, frutas ou flores.

Olhei para a erva daninha que eu estava picotando, e só sobrou 1 centímetro. Enrolei-a e dei um peteleco.

Eu não queria olhar para Atlas porque dava para perceber que ele ainda estava me encarando, então só olhei para minha horta coberta de húmus.

— Somos tão parecidos... — disse ele.

Meus olhos se fixaram nos seus.

— Eu e você?

Ele balançou a cabeça.

— Não. Plantas e humanos. As plantas precisam ser amadas do jeito certo para sobreviver. Os humanos também. Desde que nascemos, dependemos do amor de nossos pais para continuarmos vivos. E, se eles demonstrarem o tipo certo de amor, nos tornamos pessoas melhores. Mas, se formos negligenciados...

A voz ficou mais baixa, quase triste. Ele limpou as mãos nos joelhos, tentando se livrar um pouco da terra.

— Se formos negligenciados, acabamos sem ter onde morar e incapazes de fazer qualquer coisa importante.

Suas palavras me deixaram tão murcha quanto o húmus que ele acabara de espalhar. Eu não sabia o que responder. Ele realmente acha isso de si mesmo?

Ele parecia prestes a se levantar. Mas, antes que fizesse isso, eu disse seu nome.

Ele se sentou de novo na grama. Apontei para a fileira de árvores alinhadas na cerca à esquerda do quintal.

— Está vendo aquela árvore ali?

No meio da fileira de árvores, tinha um carvalho mais alto que todos os outros.

Atlas o observou e depois fixou o olhar no topo da árvore.

— Ele cresceu sozinho — falei. — A maioria das plantas precisa de muito cuidado para sobreviver. Mas algumas coisas, como as árvores, são fortes o bastante para sobreviver dependendo somente de si mesmas e de mais ninguém.

Não fazia ideia se ele sabia o que eu estava tentando dizer sem que eu dissesse explicitamente. Só queria que ele soubesse que eu o achava forte o suficiente para sobreviver ao que quer que estivesse acontecendo em sua vida. Eu não o conhecia bem, mas dava para perceber que ele era resistente. Bem mais do que eu jamais seria se estivesse no lugar dele.

Seus olhos estavam fixos na árvore. Demorou muito para ele piscar. Quando finalmente piscou, balançou a cabeça e olhou para a grama. Pela maneira como sua boca se contorceu, achei que ele ia franzir a testa, mas, em vez disso, ele deu um sorrisinho.

Ver aquele sorriso fez meu coração achar que eu tinha acabado de acordar de um sono profundo.

— Somos parecidos — disse ele, repetindo o que tinha dito antes.

— Plantas e humanos? — perguntei.

Ele balançou a cabeça.

— Não. Eu e você.

Fiquei boquiaberta, Ellen. Espero que ele não tenha percebido, mas, verdade, cheguei a arfar. O que diabo eu responderia àquilo?

Fiquei apenas sentada, quieta e constrangida até ele se levantar. Depois se virou como se estivesse prestes a ir para casa.

— Atlas, espere.

Ele olhou para mim. Apontei para suas mãos e disse:

— Por acaso você quer tomar uma ducha rápida antes de ir? O adubo é feito de estrume de vaca.

Ele ergueu as mãos, olhou para elas e depois observou as roupas cobertas de adubo.

— Estrume de vaca? Sério?

Sorri e confirmei com a cabeça. Ele riu um pouco e, antes que eu percebesse, estava no chão a meu lado, limpando as mãos em mim. Nós dois rimos quando ele estendeu o braço para o saco ao lado, enfiou a mão ali dentro e espalhou adubo em meus braços.

Ellen, tenho certeza de que a próxima frase que estou prestes a escrever jamais foi escrita ou dita em voz alta.

Enquanto ele limpava a merda de vaca em mim, eu provavelmente nunca fiquei tão excitada.

Depois de alguns minutos, nós estávamos deitados no chão, ofegantes e ainda rindo. Ele se levantou, por fim, e me ajudou a ficar de pé, sabendo que não podia desperdiçar qualquer minuto se queria tomar uma ducha antes de meus pais chegarem.

Quando ele entrou no banho, fui lavar as mãos na pia e depois fiquei parada, me perguntando o que ele quis dizer quando falou que éramos parecidos.

Será que foi um elogio? Pelo menos, pareceu. Será que ele estava dizendo que também me acha forte? Porque, na maior parte do tempo, eu certamente não me acho forte. Naquela hora, só de pensar nele me senti fraca. Fiquei pensando no que iria fazer em relação ao que estava começando a sentir perto dele.

Também me perguntei por quanto tempo mais eu conseguiria escondê-lo de meus pais. E eu queria saber por quanto tempo ele ficaria naquela casa. Os invernos do Maine são insuportavelmente frios, e ele não vai sobreviver sem aquecedor.

Ou cobertores.

Eu me recompus e fui atrás de todos os cobertores sobrando. Queria entregar a ele quando saísse do banho, mas já eram 17h e ele saiu apressado.

Amanhã eu dou.

Lily

 

Querida Ellen,

Harry Connick Jr. é engraçado demais. Não sei se ele já foi alguma vez a seu programa, mas odeio admitir que devo ter perdido um ou dois episódios desde que você está no ar, mas, se nunca o tiver recebido, devia fazer isso. Na verdade, você já assistiu a Late Night with Conan O’Brien? Tem um cara chamado Andy que sempre fica sentado no sofá. Eu queria que Harry ficasse em seu sofá em todos os episódios. Ele tem as melhores respostas, e ver vocês dois juntos seria épico.

Queria te agradecer. Sei que você não tem um programa na TV só para me fazer rir, mas, às vezes, é o que parece. Às vezes, minha vida me faz sentir como se tivesse perdido a capacidade de rir, mas então sintonizo seu programa e, seja qual for meu humor quando ligo a TV, sempre me sinto melhor depois do show.

Então é isso. Obrigada.

Sei que provavelmente você quer saber sobre Atlas, e vou contar logo mais, porque primeiro preciso contar o que aconteceu ontem.

Minha mãe é professora auxiliar na Escola Primária Brimer. Demora um pouco para chegar de carro, por isso ela só volta umas 17h. Meu pai trabalha a 3 quilômetros de casa, então ele sempre chega logo depois das 17h.

Temos uma garagem, mas só cabe um carro por causa de todas as coisas de meu pai. Ele guarda o carro na garagem, e minha mãe deixa o dela na frente de casa.

Bem, ontem minha mãe chegou um pouco mais cedo. Atlas ainda estava aqui em casa, e a gente estava quase terminando de ver seu programa quando escutei o portão da garagem se abrindo. Ele saiu correndo pela porta dos fundos, e eu me apressei para limpar as latas de refrigerante e os lanches na sala.

Tinha começado a nevar muito forte mais ou menos na hora do almoço de ontem, e minha mãe estava com muita coisa para carregar, então parou na garagem para poder entrar com tudo pela porta da cozinha. Era material de trabalho e algumas compras. Enquanto eu a ajudava a trazer tudo para dentro, meu pai parou na frente de casa. Começou a buzinar porque ficou bravo por minha mãe ter estacionado na garagem. Acho que ele não queria ter de sair do carro na neve. Só consigo pensar nesse motivo para ele querer que ela tirasse o carro bem naquele instante, em vez de simplesmente esperar que ela descarregasse tudo. Pensando bem, por que meu pai sempre fica na garagem? Um homem não deveria deixar a mulher que ama na pior vaga.

Enfim, minha mãe ficou com aquele olhar bem assustado quando ele começou a buzinar, e me disse para colocar tudo na mesa enquanto ela tirava o carro.

Não sei o que aconteceu quando ela voltou lá para fora. Escutei um estrondo, depois o grito, então saí da garagem achando que talvez ela tivesse escorregado no gelo.

Ellen... nem quero descrever o que aconteceu em seguida. Ainda estou um pouco chocada com tudo.

Abri o portão da garagem e não vi minha mãe. Só vi meu pai atrás do carro fazendo alguma coisa. Dei um passo para perto e percebi porque não estava conseguindo ver minha mãe. Ele a tinha empurrado sobre o capô e estava com as mãos em seu pescoço.

Ele a estava estrangulando, Ellen!

Só de pensar, dá vontade de chorar. Ele estava gritando com ela, encarando-a com muito ódio. Dizendo que ela não respeitava seu trabalho árduo. Não sei por que estava zangado, afinal eu só conseguia ouvir o silêncio de mamãe enquanto se esforçava para respirar. Os próximos minutos são um borrão, mas sei que comecei a gritar com ele. Pulei nas costas de meu pai e comecei a bater em sua têmpora.

E depois não estava mais.

Não sei mesmo o que aconteceu, mas acho que ele me jogou para longe. Só lembro que uma hora eu estava nas costas dele, e depois estava no chão, com a testa muito dolorida. Minha mãe estava sentada a meu lado, segurando minha cabeça e pedindo desculpas. Olhei ao redor em busca de meu pai, mas não o encontrei. Ele tinha saído de carro depois que bati a cabeça.

Minha mãe me deu um pano e me disse para colocar na cabeça, porque estava sangrando. Ela me ajudou a entrar no carro e me levou para o hospital. No caminho, só me disse uma coisa:

— Quando perguntarem o que aconteceu, diga que escorregou no gelo.

Quando ela disse isso, eu só olhei pela janela e comecei a chorar. Porque tinha certeza de que havia sido a gota d’água, que ela o deixaria depois de ele ter me machucado. Foi naquele momento que percebi que ela nunca o largaria. Eu me senti muito derrotada, mas fiquei com medo demais para dizer algo a ela.

Precisei levar nove pontos na testa. Ainda não sei onde bati a cabeça, mas não importa. O fato é que foi por causa de meu pai que me machuquei, e ele nem ficou para conferir como eu estava. Simplesmente deixou nós duas no chão da garagem e foi embora.

Cheguei em casa muito tarde ontem à noite, e logo peguei no sono porque eles me deram algum analgésico.

Hoje de manhã, enquanto andava até o ônibus, tentei não olhar diretamente para Atlas, para que ele não reparasse em minha testa. Eu tinha ajeitado o cabelo para que não desse para ver, e ele nem percebeu na hora. Quando nos sentamos um ao lado do outro, nossas mãos se encostaram enquanto colocávamos as coisas no chão.

As mãos dele pareciam gelo, Ellen. Gelo.

Então percebi que tinha me esquecido de dar os cobertores que havia separado para ele ontem porque minha mãe chegou antes do esperado. O incidente na garagem meio que dominou meus pensamentos, e me esqueci completamente. Tinha nevado e geado a noite inteira, e ele havia ficado naquela casa no escuro, sozinho. E agora ele estava tão frio que nem sei como estava vivo.

Segurei suas mãos e disse:

— Atlas, você está congelando.

Ele não disse nada. Começou a esfregar as mãos nas minhas para aquecê-las. Encostei a cabeça em seu ombro e fiz a coisa mais vergonhosa de todas: comecei a chorar. Não choro com frequência, mas eu ainda estava muito chateada com o que tinha acontecido ontem, e me senti muito culpada por não ter lembrado de levar os cobertores, e tudo isso me atingiu de uma só vez, no caminho para o colégio. Ele não disse nada. Apenas afastou as mãos para que eu parasse de esfregá-las, e as colocou em cima das minhas. Ficamos sentados assim até chegar ao colégio, com as cabeças encostadas uma na outra e as mãos dele em cima das minhas.

Eu teria achado meigo se não fosse tão triste.

Na volta do colégio ele reparou em minha testa.

Sinceramente, eu já tinha esquecido. Ninguém no colégio me perguntou nada, e quando ele se sentou a meu lado no ônibus, eu nem estava tentando esconder com o cabelo. Ele olhou diretamente para mim e questionou:

— O que aconteceu com sua cabeça?

Eu não sabia o que dizer. Só consegui tocar no local com os dedos e olhar pela janela. Tenho tentado fazer com que ele confie mais em mim, na esperança de que me conte por que não tem onde morar, então não quis mentir. Mas eu também não queria contar a verdade.

Quando o ônibus começou a se mover, ele disse:

— Ontem, depois que saí de sua casa, escutei alguma coisa acontecendo lá. Ouvi gritos. Seu grito. Depois vi seu pai indo embora. Eu ia lá conferir se estava tudo bem com você, mas enquanto me aproximava, vi você saindo de carro com sua mãe.

Ele deve ter escutado a briga na garagem e visto minha mãe saindo comigo para que eu levasse os pontos. Eu não conseguia acreditar que ele tinha ido até minha casa. Sabe o que meu pai faria com ele se o visse com suas roupas? Fiquei muito preocupada, porque acho que ele não sabe do que meu pai é capaz.

Olhei para ele e disse:

— Atlas, você não pode fazer isso! Não pode passar lá em casa quando meus pais estão.

Atlas ficou em silêncio e depois argumentou:

— Ouvi você gritar, Lily.

O tom deu a entender que minha segurança era mais importante que tudo.

Eu me senti mal porque sei que ele só estava tentando ajudar, mas no fim teria piorado muito as coisas.

— Eu caí — falei.

Assim que disse isso, me senti mal por mentir. E, para ser sincera, ele pareceu um pouco desapontado, porque acho que nós dois sabíamos que não foi uma simples queda.

Então ele arregaçou a manga da camisa e estendeu o braço.

Ellen, senti o maior frio na barriga. Era muito feio. Ele tinha pequenas cicatrizes no braço inteiro. Algumas pareciam queimaduras de cigarro, como se alguém tivesse pressionado a guimba em seu braço e segurado.

Ele virou o braço para que eu visse o que tinha do outro lado.

— Eu também caía muito, Lily.

Em seguida, ele abaixou a manga e não disse mais nada.

Por um segundo, quis dizer que não era nada disso, que meu pai nunca me machuca e que só queria que eu saísse de cima dele. Mas então percebi que, se fizesse isso, estaria usando as mesmas desculpas que minha mãe.

Fiquei um pouco envergonhada por ele saber o que acontece em minha casa. Passei o resto do caminho olhando pela janela, porque não sabia o que dizer a ele.

Quando chegamos em casa, o carro de minha mãe estava lá. Na frente da casa, claro. Não na garagem.

O que significava que Atlas não podia assistir ao programa comigo. Eu ia dizer que mais tarde levaria cobertores, mas ao sair do ônibus ele nem se despediu. Saiu andando pela rua, como se estivesse zangado.

Já escureceu e estou esperando meus pais dormirem. Mas daqui a pouco vou levar alguns cobertores para ele.

Lily

 

Querida Ellen,

A situação está ficando complicada demais para mim.

Às vezes você faz coisas que sabe que são erradas, mas que, de alguma maneira, também são certas? Não sei como explicar de forma mais simples.

Quero dizer, só tenho 15 anos e certamente não deveria deixar garotos dormirem em meu quarto. Mas, se a pessoa sabe que alguém precisa de um lugar para dormir, não é responsabilidade dela, como ser humano, ajudá-lo?

Ontem à noite, depois que meus pais dormiram, saí escondida pela porta dos fundos para entregar os cobertores a Atlas. Levei uma lanterna porque estava escuro. Ainda estava nevando muito, então, quando cheguei à casa, estava congelando. Bati na porta dos fundos e, assim que ele abriu, passei por ele para me livrar do frio.

Mas... eu não saí do frio. De algum modo, a casa estava ainda mais fria. Mantive a lanterna ligada e iluminei a sala e a cozinha. Não tinha nada lá, Ellen!

Nenhum sofá, nenhuma cadeira, nenhum colchão. Entreguei os cobertores a ele e continuei olhando ao redor. Tinha um buraco enorme no teto da cozinha, e o vento e a neve simplesmente entravam com força. Quando iluminei a sala, vi as coisas dele num dos cantos. Sua mochila e a mochila que eu dei. Havia mais uma pequena pilha de outras coisas que eu tinha dado, como algumas roupas de meu pai. E duas toalhas no chão. Imagino que ele se deitava numa e se cobria com a outra.

Pus a mão na boca porque fiquei horrorizada. Ele estava morando daquele jeito há semanas!

Atlas colocou a mão em minhas costas e tentou me levar até a porta.

— Você não devia estar aqui, Lily — disse ele. — Vai acabar se encrencando.

Então agarrei sua mão e disse:

— Você também não devia estar aqui. — Comecei a carregá-lo até a porta, mas ele puxou a mão de volta. — Pode dormir no chão de meu quarto hoje. Eu tranco a porta. Não pode dormir aqui, Atlas. Está frio demais, você vai pegar uma pneumonia e morrer.

Ele parecia não saber o que fazer. Tenho certeza de que a possibilidade de ser flagrado em meu quarto era tão assustadora quanto pegar pneumonia e morrer. Ele olhou para seu cafofo na sala, balançou a cabeça uma vez e disse:

— Tá bom.

Então me diga, Ellen, foi um erro deixar ele dormir em meu quarto? Não me parece que foi. Sinto que fiz a coisa certa. Mas eu certamente estaria muito encrencada se tivessem nos flagrado. Ele dormiu no chão, então não foi nada de mais, eu estava apenas oferecendo um lugar quente para ele dormir.

Mas aprendi um pouco mais sobre ele ontem à noite. Depois que entrou escondido pela porta dos fundos e foi até o quarto comigo, tranquei a porta e montei uma cama para ele no chão, ao lado da minha. Coloquei o alarme para as 6h e disse que a gente precisaria se levantar antes de meus pais, pois às vezes minha mãe me acorda de manhã.

Eu me deitei na cama e fui para a beirada, a fim de olhar para ele enquanto a gente conversava um pouco. Perguntei por quanto tempo ele achava que ia ficar naquela casa, e ele disse que não sabia. Então perguntei como ele foi parar lá. O abajur ainda estava aceso, e estávamos sussurrando, mas ele ficou em silêncio absoluto quando eu disse isso. Ficou um tempo olhando para cima, com as mãos atrás da cabeça. E então disse:

— Não conheço meu pai verdadeiro. Ele nunca teve nenhuma relação comigo. Sempre fomos eu e minha mãe, mas ela se casou de novo uns cinco anos atrás com um cara que jamais gostou muito de mim. A gente brigava muito. Quando fiz 18 anos, há alguns meses, brigamos feio e ele me expulsou de casa.

Atlas respirou fundo, como se não quisesse me contar mais nada. Depois recomeçou a falar:

— Então fiquei na casa de um amigo, mas o pai foi transferido para o Colorado e eles se mudaram. Claro que não podiam me levar junto. Os pais só estavam fazendo a gentileza de me deixar ficar lá, e eu sabia disso, então falei que tinha conversado com minha mãe e que ia voltar para casa. No dia em que eles foram embora, eu não tinha para onde ir. Por isso voltei para casa e disse para minha mãe que queria morar lá até me formar. Ela não deixou. Disse que isso incomodaria meu padrasto. — Ele virou a cabeça e encarou a parede. — Então fiquei perambulando por uns dias até ver aquela casa. Imaginei que poderia ficar lá até aparecer algo melhor ou até me formar. Eu me alistei para ingressar na Marinha a partir de maio, então estou tentando me virar até lá.

Faltam seis meses para maio, Ellen. Seis.

Eu estava com lágrimas nos olhos quando ele terminou de contar tudo isso. Perguntei por que simplesmente não pedia ajuda a alguém. Ele disse que tentou, contudo é mais difícil para um adulto que para um adolescente, e ele já tem 18 anos. Ele falou que uma pessoa deu os telefones de alguns abrigos que poderiam ajudá-lo. Existiam três abrigos a um raio de 37 quilômetros de nossa cidade, mas dois eram para mulheres vítimas de agressão. O outro era para mendigos, mas só tinha algumas camas disponíveis e era longe demais para ele ir andando até o colégio todo dia. Além disso, a fila para conseguir uma cama é enorme. Ele disse que tentou uma vez, mas se sente mais seguro na casa velha que no abrigo.

Como sou ingênua sobre essas situações, perguntei:

— Mas não existem outras opções? Não pode contar para a orientadora da escola o que sua mãe fez?

Ele negou com a cabeça e explicou que é velho demais para acolhimento familiar. Como tem 18 anos, não podem fazer nada se sua mãe não o deixa voltar para casa. Ele disse que ligou para arranjar cupons de alimentos na semana passada, mas não tinha carona nem dinheiro para ir até lá buscar as coisas na hora marcada. Sem falar que ele não tem carro, então não pode arranjar um emprego. Mas ele disse que tem procurado. Quando sai da minha casa à tarde, ele pede emprego em alguns lugares, mas não tem endereço nem telefone para colocar no cadastro, então fica difícil.

Eu juro, Ellen, ele tinha resposta para todas as minhas perguntas. É como se ele tivesse tentado de tudo para sair dessa situação, mas não existe ajuda suficiente para pessoas como ele. Fiquei com tanta raiva da situação toda que falei que era loucura ele se alistar. Eu não estava sussurrando nem um pouco quando disse:

— Por que diabo você quer servir a um país que te deixou nessa situação?

Sabe o que ele respondeu, Ellen? Seus olhos se entristeceram, e ele disse:

— Não é culpa do país se minha mãe não dá a mínima para mim. — Em seguida, estendeu o braço e apagou o abajur. — Boa noite, Lily.

Não dormi muito depois disso. Eu estava zangada demais. Nem sei com quem eu estava zangada. Fiquei pensando em nosso país e no mundo inteiro e em como é uma loucura as pessoas não se ajudarem mais. Não sei quando foi que os humanos passaram a cuidar somente deles próprios. Talvez sempre tenha sido assim. E isso me fez pensar em quantas pessoas existem por aí na mesma situação de Atlas. Será que não tem outro aluno em nosso colégio também sem casa? Vou para o colégio todo dia, e reclamo internamente disso a maior parte do tempo, mas jamais pensei que talvez o colégio seja o único lar de algumas pessoas. É o único lugar onde Atlas sabe que vai ter comida.

Nunca mais vou conseguir respeitar os ricos, sabendo que eles preferem gastar dinheiro com coisas materiais em vez de ajudar os outros.

Sem ofensas, Ellen. Sei que você é rica, mas acho que não estou me referindo a pessoas como você. Vi tudo o que você fez pelos outros em seu programa, e todas as entidades que você apoia. Mas sei que tem muitos ricos egoístas por aí. Caramba, existem até pessoas pobres egoístas. E pessoas de classe média egoístas. Meus pais, por exemplo. Não somos ricos, mas certamente não somos pobres demais para não ajudar os outros. No entanto, acho que meu pai nunca fez nenhuma caridade.

Lembro que uma vez entramos num mercado e havia um homem tocando um sino para o Exército da Salvação. Perguntei a meu pai se a gente podia dar algum dinheiro, e ele disse que não, que trabalha muito para ter seu dinheiro e não ia deixar que eu doasse. Disse que não é culpa dele se os outros não querem trabalhar. Enquanto estávamos no mercado, ele passou o tempo inteiro me dizendo que as pessoas se aproveitam do governo, e que até o governo parar de ajudar essas pessoas com donativos, o problema nunca vai ter solução.

Ellen, eu acreditei nele. Isso foi há três anos, e passei todo esse tempo achando que mendigos não têm onde morar porque são preguiçosos, viciados ou simplesmente porque não querem trabalhar. Sendo que agora sei que não é verdade. Claro que o que ele disse era parcialmente verdade, mas estava falando da pior das hipóteses. Nem todo mundo é mendigo por escolha. Os mendigos estão na rua porque não tem ajuda suficiente para todos.

E pessoas como meu pai são o problema. Em vez de ajudar, usam os piores casos como uma desculpa para o próprio egoísmo, para a própria ganância.

Nunca vou ser assim. Juro! Quando crescer, vou fazer o que puder para ajudar os outros. Vou ser como você, Ellen. Mas provavelmente não tão rica.

Lily