Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 8 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 8

 

— Não podemos colocar Rita ao lado de Danny. Ele é um chato — protestou Jeanie.

George fez uma careta.

— Isso não é muito gentil. — Ele bateu a caneta no diagrama dividido em compartimentos que passara horas preparando e que ambos examinavam sobre a mesa da cozinha. Finalmente, desenhou um círculo em torno do nome de Rita e uma seta apontando para o outro lado da mesa um. — É só para o jantar. Depois do prato principal, todos poderão perambular pelo ambiente. Está bem. Vamos colocá-la entre mim e Alistair.

Jeanie examinou detalhadamente a nova ordem.

— Não, isso não vai dar certo. Sylvie ficou ao lado de Alistair, e não podemos deixar maridos e mulheres juntos.

— Isso está uma bagunça! Estamos aqui há horas e ainda não conseguimos organizar nenhuma mesa. — George largou a caneta sobre a mesa.

O rosto de Jeanie iluminou-se.

— Por que precisamos nos prender a esse arranjo idiota de homem-mulher-homem? Por que não colocamos os nomes em um chapéu e escolhemos dez para a mesa um, dez para a mesa dois etc.? Vai ser original e todos vão se divertir. Vamos viver perigosamente, dar uma agitada nas coisas.

George parecia angustiado. Jeanie notou que ele procurava se controlar.

— Hum... Está bem. Sim, isso pode dar certo. Mas e se eu ficar ao lado da Marlene?

Ambos começaram a rir.

— Bem, paciência.

— E se você ficar ao lado de Danny ou de Simon D.? Vai ter paciência também?

Jeanie franziu a testa.

— Claro que não. Nada disso se aplica a mim. Afinal, é meu aniversário. Se eu ficar com um chato, vou mudar de lugar, mas vocês terão de se defender sozinhos. Eu já me livrei dessas convenções cansativas de classe média.

George sorriu.

— Está bem, mas pode ser explosivo.

— É o que eu espero.

George levantou-se e foi buscar a tigela de salada. Eles passaram os dez minutos seguintes recortando os nomes para preencher as quatro mesas.

— Quem você tirou? — Jeanie usou a mão para esconder suas duas escolhas.

— Sua tia não muito interessante e o namorado de Jola. Isso não é justo. Ele sequer fala inglês. E você?

Jeanie sorriu.

— Bill e John Carver. Não tive sorte?

— Você trapaceou. — George arrebatou os papéis da mão de Jeanie e procurou alguma marca de identificação.

Eles começaram a rir.

— Ficar com tia M. é ótimo. Ela é da geração que sabe conseguir o que quer.

— Mas não tem necessariamente um papo interessante. — George demonstrou indiferença e sorriu. — A festa é sua e esta é uma boa ideia. Vamos terminar o que ainda falta.

— Está bem, mas antes, o chá. — Jeanie levantou-se para encher o bule. — Eu queria muito que tia Norma pudesse vir. Vou sentir falta dela. Não posso acreditar que ela vai participar de uma dessas excursões feitas a pé na idade dela. — Ao se ouvir murmurar a expressão que tanto temia, Jeanie se repreendeu severamente.

Ao andar pela cozinha, pegar as xícaras na cômoda e os saquinhos de chá e examinar a data de vencimento do leite, sentia-se muito confusa. Concordara em encontrar Ray mais tarde, embora tivesse dito a si mesma que isso não aconteceria, que jamais faria algo escondido de George. Mas, na noite seguinte ao encontro com Ray no parquinho, George a chamara de “minha velha” muitas vezes, pontuando seus incansáveis elogios ao campo com esse apelido insultuoso. E, num impulso, pensando “Que diabos estou fazendo?”, ela enviara uma mensagem para Ray.

Jeanie tentou se convencer de que não era algo definitivo, de que poderia desistir a qualquer momento, mas a decisão de encontrá-lo a perseguia até na simples tarefa de preparar o chá para o marido. George parecia fora de alcance, distante por sua traição. Como resultado, ela tinha um desejo instintivo de tratá-lo melhor, com mais cuidado, sabendo, enquanto o fazia, que esse comportamento induzido pela culpa era covarde e desprezível.

Eles se encontraram no parquinho às seis da tarde, no deque em frente ao lago onde ficam os patos. Ao vê-lo, Jeanie percebeu que, mesmo tendo passado a semana inteira convencendo-se de que não deveria encontrá-lo, na verdade nunca tivera dúvidas de que o faria.

E aquele drinque? J., escrevera ela.

Oba! Quando?, respondera ele.

Nada aconteceu ainda, Jeanie afirmava para si mesma com firmeza, e nada vai acontecer. Tratava-se de um flerte inofensivo. Tinha gostado de um homem que conhecera no parquinho. Qual é o problema? Era velha e tola, e, segundo sua família, não sabia mais o que queria. Mesmo assim, a culpa e a mentira já estavam instaladas.

— Tenho um encontro com Rita amanhã — avisara a George.

O marido desviara os olhos das palavras cruzadas.

— O que pretendem assistir?

Jeanie estava ocupada enchendo a lava-louças, tirando a sujeira dos talheres e colocando-os, com os cabos virados para baixo, na cesta da máquina.

— Não vamos ao cinema. Vai ser só um encontro de mulheres. Talvez Lily também vá.

— Como ela está? É uma pena que não possa vir à festa. — George tinha mostrado um sorriso secreto e ajeitado os óculos no rosto. — Falta pouco — acrescentara ele com alegria.

Jeanie pouco pensava em seu aniversário iminente. Era a última coisa em sua cabeça. Na verdade, ela só pensava na mentira que estava contando. E em Ray. Parecia que ambos decoravam sua testa com luzes néon. Curiosamente, porém, George não parecia perceber.

— Café? — Jeanie aproximara-se da cafeteira, sabendo qual seria a resposta do marido. Conhecia todas como se fossem suas. Poucas semanas antes, esse conhecimento era algo confortável, mas nos últimos tempos isso a irritava. Queria que, apenas uma vez, George dissesse: “Não. Sabe, hoje vou tomar um pouco de chá de urtiga, querida.”

Agora, ali estava ela, gélida e quase enjoada, tamanha sua ansiedade, dirigindo-se ao portão oeste do parquinho, que levava à entrada principal do Cemitério de Highgate.

— Aonde vamos? — perguntou ela a Ray.

— Pensei no novo restaurante grego ao pé da colina.

Ray parecia tão tenso quanto ela. A calma calculada e o sorriso travesso foram substituídos por uma timidez que ela não vira antes.

— Voltem, netos! Vocês estão perdoados — disse Ray com uma risada.

— Acho que preciso de um drinque — disse Jeanie.

— Tenho certeza de que eu preciso.

Ambos começaram a rir.

— Não pode ser um bom sinal precisar de alguma droga para estarmos juntos — disse ela.

— É que estou imaginando este encontro na minha cabeça desde que recebi sua mensagem — confessou Ray, para surpresa de Jeanie.

Eles caminhavam sem se olhar. Após ouvir as palavras de Ray, Jeanie respirou fundo e começou a relaxar. Um lado seu simplesmente tinha aceitado que ela era uma tola com suas fantasias e que, apesar do flerte evidente, Ray só agia assim porque ela o estimulava. Jeanie não se importava, era exatamente o que estava esperando, mas agora percebia que ele talvez compartilhasse de suas sensações perturbadoras.

O restaurante estava vazio, exceto por uma mesa ao lado da janela, onde um jovem casal tomava cerveja de uma garrafa e dividia um prato de petiscos. Jeanie se sentiu aliviada. Desde o instante em que se encontraram, examinava cada passante, temendo que um de seus muitos conhecidos a visse com Ray e levasse a informação até George, sem dúvida de forma acidental e inocente. O restaurante parecia muito novo. Os garçons eram solícitos, e a decoração, ainda incipiente, não tinha um clima definido. Eles foram conduzidos a uma mesa próxima à do outro casal — Jeanie supôs que a maioria das pessoas gosta da ilusão de companhia quando come fora —, mas Ray preferiu outra, no fundo da sala.

— O que acha desta? — perguntou ele, olhando ao redor.

— Na verdade, não importa... Está boa — respondeu Jeanie com sinceridade.

Já acomodados um em frente ao outro, aguardando a essencial garrafa de vinho, Jeanie sentiu o coração bater acelerado, descontrolado. Queria sentir o olhar de Ray, aquela intensidade surpreendente da primeira vez, mas mal ousava fitá-lo, então se ocupou em arrumar os talheres e desdobrar o guardanapo, colocando-o cuidadosamente sobre o colo.

— Tim-tim! — Eles elevaram os copos para brindar e tomaram um gole do vinho. Jeanie esperava que a bebida a acalmasse.

— Então, conte — pediu Ray. — Conte-me tudo.

Jeanie riu.

— Tudo sobre o quê?

— Você, sua vida, onde nasceu, quem era sua melhor amiga, sua música preferida, se gosta de cenouras, essas coisas normais.

— Quanto tempo você tem? — Ambos riram; a conexão milagrosa entre eles tornava o que diziam quase irrelevante. Bastava estar ali enquanto anoitecia. O garçom acendeu a vela sobre a mesa, permitindo que eles se olhassem sem censura. — Quer mesmo saber tudo?

Ray confirmou com um aceno de cabeça.

— Nasci em Norfolk, perto de Holt. Meu pai era vigário da Igreja Anglicana. Zeloso, respeitável e amedrontador. Ele poderia ter sido feliz se acreditasse que essa era a vontade de Deus, mas enxergava a vida como um sacrifício amargo. Era tão envolvido na sua profissão que não sei ao certo se sequer percebia nossa existência. Minha mãe era funcionária da igreja. Tinha um bom coração, mas era irritantemente neurótica. Meu irmão, dois anos mais velho que eu, morreu aos 15 anos, deixando minha mãe muito perturbada. Faz muito tempo que meus pais morreram. Minha melhor amiga de infância, Michelle, tinha origem canadense e foi morar em Toronto. — Jeanie fez uma pausa por um instante e se perguntou o que Michelle pensaria sobre tudo isso. — Quais eram as outras coisas? — perguntou, tentando se lembrar, e viu que Ray estava pronto para dizê-las. — Não, me lembrei. Não gosto muito de cenouras. Talvez elas sejam indiferentes para mim. Prefiro cruas. E minha música preferida é... É impossível escolher.

— Do que seu irmão morreu?

— Câncer. Hoje em dia, é provável que ele sobrevivesse; as taxas de cura em crianças aumentaram. — Jeanie falou sem parar sobre as maravilhas da ciência e os avanços fantásticos da quimioterapia, evitando abordar o que de fato sentia sobre a morte de seu amado Will. Era um assunto sobre o qual mal falava desde a manhã em que seu pai entrara em seu quarto e anunciara que o irmão “estava com Deus”. Seus pais não puderam ajudá-la, e não havia ninguém que pudesse fazer esse papel.

— Que horrível — comentou Ray.

Jeanie ainda tinha a sensação de ouvir os gritos de Will. No final, ele fora transferido para casa, sendo cuidado pela mãe e por uma mulher da vila, mas, toda vez que o mudavam de posição, fosse dia ou noite, ela ouvia o grito exausto e agoniado, e seu coração se despedaçava no peito.

— Ele está se recuperando — assegurava-lhe a mãe, animada. Jeanie concordava, mesmo vendo a verdade em seu olhar torturado. Embora soubesse que era impossível que aquela figura emaciada e amarela que um dia fora seu irmão se recuperasse e ficasse bem como antes, ela era incapaz de contemplar a outra alternativa.

— Você deve ter ficado arrasada — disse Ray com uma expressão que parecia entender o sofrimento pelo qual ela passara.

— Já faz muito tempo.

— Isso não faz diferença.

— Sim e não — concluiu Jeanie. Sentiu um nó na garganta por décadas de lágrimas não derramadas. Ray segurou sua mão. Quando o garçom chegou trazendo a comida, eles se separaram em um pulo, como se fossem adolescentes pegos na porta de casa.

— Desculpe, esse assunto ainda me pega desprevenida. — Jeanie serviu-se de um pão árabe quente em um gesto automático, sem ter vontade de comer. — Sua vez agora — disse ela, engolindo o pão. — Conte o que aconteceu com sua namorada, que foi o motivo da sua separação.

Ray desviou o olhar.

— Ficamos juntos por 11 anos. Depois, ela morreu por causa de um tumor na glândula suprarrenal. Ela se sentia cansada e tinha uma aparente indigestão. Quando foi ao médico, explicaram a ela que o tumor era do tamanho de uma laranja. De qualquer modo, não havia nada que se pudesse fazer. Ela morreu em seis semanas. — Ele fez uma pausa. A sensação do choque inicial ainda transparecia em seus olhos. — Em janeiro fez dez anos que ela morreu.

— Sinto muito.

— Ela fumava demais — acrescentou Ray, como se ainda procurasse uma explicação.

Não falaram por alguns minutos, como se quisessem dar tempo para os fantasmas do passado se acalmarem. A comida estava quase intocada.

— E onde seu marido pensa que você está?

— Num encontro com minha amiga Rita e a amiga dela, Lily.

— Ele vai perguntar como foi?

Jeanie demonstrou indiferença.

— Depende. Se estiver em um de seus dias compulsivos, é possível que a gente discuta sem parar sobre os motivos da minha saída. — Jeanie estremeceu diante da perspectiva, perguntando-se como ousara concordar com este encontro com Ray.

Fez-se um silêncio estranho quando George foi mencionado.

— Desculpe, não é um bom assunto — murmurou Ray, oferecendo a Jeanie o prato com homus.

Ela passou uma pequena quantidade no pão árabe enquanto falava.

— Eu poderia dizer que tenho um casamento horrível, que meu marido é péssimo ou que me causa tédio, ou ambos, que não o amo, mas não seria verdade. — Jeanie fitou Ray. Ele aguardou. — Temos sido felizes. — Ela fez uma pausa, com a sensação de que a palavra era inapropriada. Pensando bem, havia muito tempo que não se sentia “feliz” com o marido. O que aconteceu no passado, e que ele se recusou a discutir, de algum modo mudou sua perspectiva. George não queria mais socializar, comer fora, ir ao teatro ou ao cinema, mesmo quando Jeanie se oferecia para planejar tudo. Por isso ela começou a sair com Rita. — Não tem sido um casamento ruim.

— Não precisa me convencer. Viver trinta e tantos anos com alguém é impressionante.

Jeanie suspirou.

— Mas não é a você que estou querendo convencer, é?

Ela viu Ray erguer as sobrancelhas como quem estava prestes a fazer uma pergunta.

Desta vez, ele tomou a mão de Jeanie com firmeza.

— Jeanie, não quero ser a causa da sua aflição. Não posso dizer que não estou atraído por você, mas ainda é um começo. Ainda podemos desistir antes de causar algum dano.

“Dano, uma palavra poderosa”, pensou Jeanie. Sua mente recusava-se a enfrentar essa palavra. “Nada aconteceu, nada acontecerá”, repetia a si mesma como um mantra. Porém sua afirmação parecia cada vez mais fraca e menos convincente.

— Será que não podemos simplesmente ficar aqui... agora... e não pensar...

Ray fitou-a. Desta vez, Jeanie não tentou fugir daquele olhar.

— O parque vai estar fechado. Já passa das onze.

Eles mudaram o rumo e começaram a caminhar ao longo da rua que margeava a parte sul do cemitério.

— Como já passa das onze? — Jeanie examinou o relógio, sem acreditar que eles estavam juntos havia mais de cinco horas. Horas que passaram num piscar de olhos.

Ela estava um pouco embriagada, e a escuridão era fresca e anônima.

— Me dá um beijo — pediu, virando-se para Ray, que caminhava a seu lado.

Sem dizer nada, ele a guiou para o abrigo de uma árvore que se projetava sobre a cerca do cemitério.

Nada a preparara para isso. Ao sentir os lábios dele, foi tomada por uma sensação pura e maravilhosa, que parecia apaziguar um desejo que ela desconhecia.

— Nossa — disse Ray, mais como um suspiro do que uma palavra —, você está tremendo. — E a aninhou em seus braços.

— Você não estaria? — Sua risada soou suave e frágil no ar da noite. — Não posso ir para casa... George vai perceber...

— Perceber o quê? Ele vai estar na cama, não vai?

Jeanie concordou, aliviada.

— Tem razão, já é tarde. Espero que sim, mas é melhor eu ir. Quero evitar que ele telefone para Rita no meio da noite.

Eles começaram a caminhar de braços dados, subindo a colina. Jeanie ficou grata pelo apoio de Ray.

— O que Rita pensa sobre nosso encontro?

— Ah, Rita é minha amiga. Você ia gostar muito dela.

Quando ambos contemplaram a possibilidade de seus mundos se cruzarem, fez-se silêncio.

— Você quer me encontrar de novo, Jeanie? — perguntou Ray, baixinho.