Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 9 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 9

 

— E então? — perguntou Rita, curiosa.

— Hum...

— O que aconteceu? Desembuche, querida! Quero todos os detalhes, por favor. Não esconda nada.

— Estou na loja. — Jeanie dirigiu-se para a pequena cozinha, mas sabia que Jola poderia ouvi-la. — Podemos falar mais tarde?

Jeanie ouviu Rita resmungar, frustrada.

— Como você tem coragem de fazer isso comigo? Sabe que não sou paciente.

Jeanie caiu na gargalhada.

— Quer me encontrar no Nero’s daqui a meia hora?

— Fechado.

Quando elas se sentaram, já com cappuccinos nas mãos, Jeanie percebeu que a ansiedade transparecia no semblante de Rita. O pequeno café estava animado e cheio, como sempre, com um grande contingente de mães, ou talvez babás, carrinhos de bebê grandes demais e crianças pequenas perambulando pelo lugar, criando um agradável caos.

— Conta tudo agora — ordenou Rita, batendo com os dedos na mesa de madeira.

— Ah, não sei por onde começar. — Jeanie olhou para Rita, subitamente envergonhada. — Ele é maravilhoso. Nós simplesmente... Não sei explicar... Nós temos uma ligação incrível. Eu queria descrever o que ele me faz sentir sem parecer piegas. Ah, é muito fácil estar com ele. Nós conversamos durante horas.

— Não precisa falar sobre as conversas. Ele a beijou?

— Sim. — Jeanie percebeu que corava.

— E? — Rita já estava debruçada sobre a mesa, ansiosa.

Jeanie respirou fundo.

— Foi maravilhoso.

Rita bateu palmas.

— Oba! Ah, você merece isso, querida.

— É mesmo?

— É claro! Com um marido que se nega a fazer sexo há décadas.

— Só uma década.

— Não faz diferença, querida. Acredite, você merece isso. É só atração ou você está se apaixonando?

— Nem consigo pensar direito. Concordamos em não rotular isso e simplesmente deixar acontecer.

Rita pigarreou.

— Isso parece coisa de terapia de grupo! É comigo que você está falando, madame. Pode concordar com esse cara do parquinho em não rotular o quanto quiser, mas, para mim, você pode contar. Está apaixonada?

Por alguma razão inexplicável, Jeanie começou a chorar.

— Qual é o problema, querida? — Rita segurou-lhe a mão, obviamente arrependida. — Não era minha intenção forçá-la a falar.

— Não é você. É só que... Eu não sei. Rita, eu sou casada, e George é um homem decente. Mas Ray é... Ele é maravilhoso. Jamais senti algo tão intenso por ninguém, nem mesmo por George, não dessa forma. Não sei o que fazer.

Rita pegou um pacote de lenço de papel na bolsa e o passou à amiga.

— Ah, querida...

— E se Ray só estiver se divertindo comigo? E se ele não for um homem sério? Não sei nada a respeito dele e acho que nem me importo com isso... Suponhamos que, para ele, tudo não passe de uma brincadeira. Por outro lado, e se não for assim? Não posso abandonar George. Faço 60 anos amanhã.

Rita jogou os braços para o alto.

— Meu Deus, você está obcecada! Qual é a relação entre isso e ter 60 anos? O amor não tem idade. Você teve a impressão de que ele está brincando com você? — A expressão no rosto de Rita era de pura preocupação.

— Não, de modo algum, nem um pouco.

— Ah, que bom. Mas, Jeanie, isso está no começo, como você mesma disse. Vocês mal se conhecem. É preciso fazer alguma coisa a esta altura?

— Será que devo simplesmente ficar calada e curtir?

Rita deu de ombros.

— Talvez sim.

— E continuar mentindo para George? Quando cheguei em casa, ele estava acordado e quase enlouquecido de ansiedade. Agiu como sempre: examinou minha expressão, disse que eu parecia bêbada (o que eu não estava, pelo menos não por causa do vinho), fez todas as perguntas possíveis sobre em que bar eu estava, por que cheguei tão tarde, por que Lily não me deixara em casa. Foi horrível. Parece ciúme, mas não é. Na minha opinião, ele sequer imagina que estou sendo infiel, mas entra em pânico quando não consegue me controlar. E agora eu tenho algo a esconder.

— Mas contar a ele agora, quando quase não há o que contar, sabendo que pode ser que isso não chegue a lugar nenhum... Seria meio cruel, você não acha?

Jeanie concordou.

— Suponho que sim... Mas me sinto como se estivesse doente, Rita. Ah, eu quase preferia nunca tê-lo conhecido... Assim eu voltaria para a minha velha vidinha segura.

— “Quase” foi a palavra-chave — disse Rita, erguendo as sobrancelhas. Jeanie riu.

— Ah, ok!

— Exatamente. De qualquer modo, se você se sente assim, pode se afastar e nunca mais vê-lo.

Fez-se uma pausa na conversa.

— Eu já imaginava que não era isso o que você queria — prosseguiu Rita, com um suspiro. — Não é fácil. Não sei que conselho dar. Descobriu o que ele faz?

— Ele tem uma escola de aikido, uma espécie de clube para meninos. Em Archway.

— Então não é uma boate. Isso é bom. Nós gostamos de artes marciais. Elas são disciplinadoras e formadoras de caráter.

— Fico contente por você aprovar. — Jeanie riu.

— Você sabe que só quero seu bem. — Rita bateu palmas. — Agora, vamos ao que importa: vou sentar com quem no jantar?

A entente cordiale entre Jeanie e Alex chegou ao fim. Aparentemente, o feriado fora um desastre. Chovera bastante, causando algumas goteiras no telhado, e Chanty pegara uma gripe. Agora, em casa, ele estava diante de uma montanha de trabalho, sem a sogra rebelde para ajudar. Jeanie compreendia seu estado de espírito.

— Olá. Entra. — Ele bateu a porta quando Jeanie entrou, trazendo Ellie do parquinho, e saudou a filha com um entusiasmo fingido.

— Como estava o parquinho, querida? Foi no balanço? Alimentou os patos?

Ellie fez sua expressão de drama para contar ao pai.

— Din não deixou bincar de bola com ele... Goísta.

Alex riu.

— Quem é Din? — perguntou, virando-se para Jeanie.

— É Dylan... Ele também frequenta o parquinho às quintas-feiras. — Jeanie estava ocupada, desamarrando as alças do carrinho para soltar a neta, mas seu rosto ficou rubro.

Quando se levantou, ela viu que Alex tinha percebido e a encarava deliberadamente.

— Esse é o menino que vi com vocês algumas semanas atrás?

Jeanie ficou sem ar.

— Quando?

— Outro dia, voltando do centro da cidade, vi vocês subindo a colina com um homem e um menino. — Alex começou a morder a lateral do dedo polegar. — Eu tinha esquecido.

— Ray é avô de Dylan e, como eu, cuida do neto nas tardes de quinta-feira. Nós conversamos, e as crianças, apesar do que Ellie diz, brincam juntas.

— Parece agradável.

— Fazer amigos no parquinho é normal, Alex.

Jeanie recusou-se a ser intimidada, mas começou a se preocupar enquanto voltava para casa. Alex parecia viver para criar problemas.

Jeanie temera ir ao parquinho naquela quinta-feira, pois a relação com Ray poderia ter mudado. Talvez ela não fosse boa o suficiente; talvez ele tivesse se cansado dela. Mas ela desejava vê-lo ainda assim. Agora, tinha duas vidas distintas: em uma, era guiada por seus compromissos e agia exatamente da mesma maneira havia dezenas de anos; na outra, a verdadeira, que elevava sua alma, vivia totalmente à parte, no lugar secreto habitado por Ray. Irritava-se quando as pessoas pediam sua atenção, interrompendo seus pensamentos em torno dele. A única exceção era Ellie. O tempo que passava em companhia dela sempre teve uma mágica que fazia as preocupações desaparecerem e a permitia viver como a neta, no aqui e agora. Com a respiração em suspenso, Jeanie dobrou a esquina que levava ao parquinho. Ray estava ali como sempre, procurando por ela. Um único olhar daqueles olhos verdes tranquilos alegrou seu coração. A hora e meia que se seguiu foi de puro prazer. Eles conversaram e correram atrás das crianças. Ray andou pela ponte de troncos de novo, e, por fim, eles foram tomar chá.

— Mais um drinque? — perguntou Ray quando eles se dirigiam ao portão, mas Jeanie não quis assumir novos compromissos até depois do aniversário.

— Aí você vai ser velha demais para sair — brincou ele, recebendo um tapinha no ombro.

Ao se separarem, ele sussurrou ao seu ouvido:

— Eu gostaria de dar um beijo em você pelo seu aniversário, mas talvez não seja muito apropriado — disse ele, com um sorriso, apontando para as crianças.

— Guarde para depois — respondeu Jeanie num sussurro.