Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 19 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 19

 

 

— George! George! — Ele tinha a cabeça curvada sobre um canteiro de arbustos em um canto longínquo do gramado. Era a primeira vez que Jeanie o via naquele dia. Ao seu lado, a velha amiga da mãe de George, Lorna, aguardava-o pacientemente, com a respiração pesada depois de percorrer o longo caminho desde a estrada. Uma mulher grande e sem graça, de cabeça grisalha e cabelo escasso preso em um coque mal-arrumado, ela podia ter 70 ou 90 anos. Sob a saia de lã marrom, os pés arroxeados e inchados estavam apertados em um par de sapatilhas. Jeanie teve certeza de que as calçara especialmente para a visita.

— Eu moro a quase 300 metros daqui. — Ela agitou o braço grosso na direção da vila. — No máximo 400 metros. Não pude acreditar na coincidência: o filho de Imogen comprou a velha casa paroquial! — Seu riso pareceu um grande chiado. — Ouvi o nome Lawson e pensei: “Não, não pode ser.” A casa estava vazia havia muito tempo; estava à espera de vocês.

— É uma linda casa.

— Era. Ela era muito mais bonita até que aquele homem horrível, Barkworth, estragou a fachada com essas janelas medonhas em estilo vitoriano. — Jeanie se mostrou desconcertada, e Lorna continuou: — Estilo vitoriano em uma casa paroquial georgiana? Eu avisei, mas ele não quis ouvir, alegando que sempre se acrescentam estilos diferentes em épocas diferentes. Claro que é verdade, mas Barkworth não era exatamente vitoriano, era?

Jeanie supôs que não, mas não se considerou qualificada para comentar sobre as janelas que ladeavam a porta de entrada e que, na sua opinião, eram bonitas.

— Acho que ele acabou com a casa. — Lorna suspirou fundo. — Por outro lado, de que vale a minha opinião? Hoje em dia, as pessoas fazem o que querem.

— Entre. Vamos tomar alguma coisa enquanto chamo George de novo. — Jeanie temia que a vizinha desmaiasse se não se sentasse.

— George, não me ouviu chamar? — Jeanie puxou a manga da camisa dele. — Por favor, venha falar com Lorna, uma velha amiga da sua mãe. Lembra-se dela? Ela disse que o encontrou muitas vezes quando você era jovem.

George ficou olhando para Jeanie e não fez qualquer movimento em direção à casa.

— Ainda temos mais uma hora de luz — murmurou, olhando pesaroso para os arbustos que podava.

— George, eu não a convidei, mas você precisa entrar e falar com ela. Seria uma descortesia deixá-la sozinha na sala. — Jeanie estava exasperada, mas não surpresa. Fazia quase seis semanas que eles se mudaram, e George passava quase todo o tempo no jardim. Sua obsessão anterior, os inúmeros relógios que colecionara ao longo dos anos, fora ignorada desde a mudança; eles continuavam nos caixotes, empilhados junto à parede do seu novo escritório. George tomava o café da manhã com pressa e ficava no jardim até anoitecer, com chuva ou com sol. Só voltava no começo da tarde para abrir a geladeira, preparar um sanduíche de queijo e tomar uma xícara do café que tinha sobrado da manhã. No fim do dia, quando entrava, estava exausto. Preparava uma boa dose de uísque, jantava em silêncio e arrastava os pés até a cama. Tratava Jeanie com educação e cortesia, mas parecia não saber exatamente quem ela era. Jeanie sabia que George continuava deprimido, mas, estranhamente, não parecia infeliz, apenas fixado em seu pequeno mundo. Ela se perguntava o que aconteceria se não houvesse queijo para o sanduíche. Será que ele sairia para comprar? George nunca saía de casa. Jeanie procurara convencê-lo a se consultar com um médico local, alguém que ele não conhecesse, pois poderia ser mais fácil. Porém recebia sempre a mesma resposta: “Não há nada de errado comigo. Só estou um pouco cansado.”

— George, querido. — Com dificuldade, Lorna aproximou o corpo da beirada do sofá.

— Não se levante — insistiu Jeanie, uma vez que George não se pronunciou.

— Há quanto tempo não nos víamos? — continuou Lorna, agradecida, voltando a se recostar nas almofadas. — Sua mãe morreu há muito tempo, mas vejo que você herdou a paixão que ela tinha pela jardinagem. — Ela se virou para Jeanie. — Você conheceu o jardim dela? Era um espetáculo. As pessoas vinham de longe para admirar. — Ela riu. — Quando Imogen permitia, claro.

George sentou-se, com as mãos ainda imundas, parecendo um mendigo nas roupas que usava no jardim, mas não abriu a boca; apenas olhou brevemente para Lorna com uma expressão confusa no rosto. A idosa não pareceu perceber e, feliz com sua taça de vinho branco, falou sem parar, contando-lhes a história da região e da casa e casos do “terrível” Barkworth e da santa Imogen. Em dado momento, George se levantou subitamente e deixou a sala. Ele mal se dirigira a ela, mas Lorna fingiu não notar.

— Desculpe. — Jeanie estava cansada de desculpas. — Ele não anda muito bem.

A velha senhora fez um gesto com a cabeça em sinal de compreensão.

— A aposentadoria pode ter um efeito estranho nos homens, não acha? — sugeriu ela ao ver que Jeanie não mencionara qual era o problema de George.

— Não é isso. O médico explicou que pode durar algum tempo — explicou Jeanie, assustando-se com sua atitude patética de evitar a verdade. Ela sabia que, no interior, as doenças mentais sempre traziam um estigma e queria que George fosse aceito pela população local sem problemas. Tinha esperança de que Lorna espalhasse que ele tinha uma doença passageira e não que era simplesmente mal-educado.

Quando o trem parou na estação Waterloo, Jeanie ficou emocionada. Passara a maior parte da viagem preocupada com George. Era a primeira vez que o deixava em casa para ir à loja. Foi Lorna quem providenciou a solução. Ela havia passado pela casa para dizer que Sally, uma moradora da vila que limpava sua casa nas segundas e sextas-feiras, estava procurando mais um lugar para trabalhar. Sally era exatamente o que Jeanie queria: uma mulher de meia-idade, afetuosa, que gostava de rir e parecia muito otimista com relação a George. Ela viria nos dias em que Jeanie estivesse fora e telefonaria se acontecesse algum problema.

Foi só começar a subir Highgate Hill que Jeanie voltou ao seu antigo hábito de procurar por Ray. Nas últimas semanas, estar em Somerset, onde a possibilidade de encontrá-lo era praticamente inexistente, tinha sido uma espécie de alívio. No entanto, quando respirou o ar do norte de Londres, que lhe fora familiar ao longo da vida, a chance de vê-lo trouxe-a de volta ao clima de atenção plena e coração palpitante. Ela tentou ensaiar o que diria se eles se deparassem um com o outro, mas não foi além de imaginar como seria olhar nos olhos dele novamente.

— Está diferente — comentou Jeanie ao examinar a nova arrumação das prateleiras, ciente de que Jola estava ansiosa para ouvir seu veredito. — Muito melhor, menos atravancado. O que você fez com os produtos de milho?

Jola sorriu, aliviada.

— Aqui, embaixo dos enlatados. Ninguém gosta, você sabe. Jogo fora quando passa validade.

— Tem razão. Essa massa tem um sabor horroroso. Creio que agora existem outras opções sem trigo, além da espelta. Ah, está muito bom assim.

— Como é campo?

Jeanie suspirou.

— Bom, mas prefiro estar aqui.

— E Sr. Lawson? Está melhor?

— Mais ou menos. E onde está Megan?

Jeanie gostava da nova garota. Talvez ela fosse o estereótipo da australiana franca e entusiasmada, mas parecia gostar verdadeiramente de trabalhar para Jola.

— Nunca atrasa, feliz de trabalhar no fim de semana, trata clientes muito bem e não fica nervosa — contou Jola com entusiasmo quando Megan saiu para o almoço.

— Parece perfeito... Então você não precisa mais de mim. — Embora falasse jocosamente, por um instante Jeanie achou que iria chorar. Era o reconhecimento repentino de que de fato ela era supérflua, uma pessoa retirada de circulação, sem utilidade para ninguém, exceto para comprar queijo para o sanduíche de George e uísque para o jantar. Highgate parecia ter sobrevivido muito bem à sua ausência. Obviamente Jola protestou. Mesmo assim, Jeanie sentiu um imenso vazio.

“Vou visitar Ellie na hora do almoço”, pensou. Apesar das promessas de que a família praticamente moraria em Somerset, eles só tinham visitado Jeanie e George uma única vez, rapidamente, na manhã do sábado seguinte à mudança, quando a casa ainda estava repleta de caixas e plástico bolha e mais parecia um depósito de móveis. Chanty dizia que estava muito cansada e que era longe demais; Alex, claro, precisava preparar a exposição. Jeanie sentia uma terrível saudade da neta e temia que Ellie a tivesse esquecido.

Chovia quando Jeanie começou a descer a colina em direção à casa da filha. O outono tivera dias maravilhosos até a semana anterior, que mais parecera um verão indiano, mas agora o vento frio prometia mudanças. Jeanie tentou afastar o desânimo, porém nem mesmo pensar na pequena Ellie melhorou seu humor. No outro lado da rua, na esquina da Hornsey Lane, Jeanie viu um casal sob um grande guarda-chuva verde-escuro. A princípio não pôde ver os rostos, mas, quando se aproximou, ao mesmo tempo que uma rajada de vento quase levou o guarda-chuva embora, ela viu Ray. Ray e uma garota; Ray envolvendo a garota com os braços; Ray rindo e olhando nos olhos dela, uma garota linda e jovem.

Jeanie achou que vomitaria ali na calçada, em frente aos passantes. Vomitaria e morreria. Ela não conseguia se mexer, como se todo o sangue tivesse sido drenado de seus membros. O guarda-chuva foi ajeitado e se afastava lentamente, descendo a colina. Ray não a vira, mas Jeanie continuava ali. Finalmente, o enjoo transformou-se em algo muito pior: desespero absoluto. Ela saiu da rua principal se arrastando e, de alguma forma, conseguiu chegar à casa da filha.

— Jean, entra. Você está bem? Parece que viu um fantasma. — Preocupado, Alex a levou para a sala. — Ellie já vai acordar. Ela está ansiosa para vê-la.

Jeanie conseguiu sorrir.

— Você pode me dar um copo d’água, por favor?

Alex não se moveu e limitou-se a olhar para ela.

— Está doente?

— Vou ficar bem. Só tive uma leve tontura — assegurou-lhe Jeanie, mas até mesmo ela notou que sua voz era tensa e fraca.

— Que tipo de tontura? — insistiu Alex. Mesmo em sua confusão mental, Jeanie se perguntou se ele não estaria se lembrando da própria descrença diante do ferimento da filha.

— Sinceramente, vou ficar bem. Acho que esqueci de comer hoje. O trem saiu muito cedo e precisei resolver muitas questões na loja — explicou ela, mais segura ao notar que conseguia falar.

Alex pareceu aliviado.

— Isso não se faz na sua idade. Você precisa comer, principalmente no café da manhã. Chant fez um programa sobre isso. Parece que estudantes que se alimentam bem no café da manhã têm melhores resultados. Depois de uma noite inteira, a mente precisa de alimento para funcionar. — Ele riu. — É óbvio, na verdade. Achei que você soubesse, com toda a sua experiência em alimentação natural.

— Eu sei, mas sabe como é... — Ela deu uma risada tão natural quanto possível e viu que foi suficiente para convencer Alex.

— Vou preparar um chá com torradas para você. Depois podemos acordar Ellie. Prefere mel ou Marmite?

— Como vão os preparativos para a exposição? — perguntou Jeanie enquanto mastigava a torrada com mel. Sabia que não ter comido o dia todo nada tinha a ver com a “tontura”. Ela só queria processar mentalmente o que tinha visto e sofrer o que precisava sofrer, mas se esforçou para que seus pensamentos ficassem ali na cozinha da filha. — Você parece estar mais relaxado — comentou.

Alex respirou fundo.

— Você me pegou no olho da tempestade. Estou em uma breve pausa entre o alívio de finalmente terminar meu trabalho e o pavor de todos considerarem minha obra uma porcaria.

— Então vai estar nervoso na quinta-feira.

— Nervoso? — Alex estremeceu. — “Nervoso” não chega nem perto. Eu diria que vou estar desesperado.

— Não consigo imaginar — comentou Jeanie.

— Você vai, não é? E George. — Ele hesitou. — Aliás, como ele está?

— Não sei se ainda tem energia para ir, Alex. Ele nunca vai a lugar nenhum e talvez até mesmo o trem seja demais para ele.

— Isso não é bom... Chanty acha que ele melhorou.

— Ele não está tão infeliz. Está mais isolado, vive em seu próprio mundinho — explicou Jeanie.

Ellie não a havia esquecido. A menina não soltou a avó e fez questão de levá-la ao seu quarto para mostrar os brinquedos, animada e falando sem parar. Jeanie queria sair com ela, mas chovia muito, e as plantas do jardim do deque balançavam como se fossem “bonecas dançantes”. Ellie estava encantada, observando-as.

— Elas dançam, Gin. Buneca dançando chuva.

— E a creche? Como vai? Você gosta?

— Gosto — respondeu Ellie, sincera. — Jack meu amigo. Vi maionetes, Gin.

— Foi divertido?

— Sim — respondeu ela, fazendo Jeanie sorrir diante de sua formalidade verbal. Ela desenvolvera muito a fala nas semanas em que estiveram afastadas.

— Minha buneca é Becky. Oooolha, ela é pequena e está com fome. Tem letche na mochila. — Ellie tirou uma garrafa plástica de uma mochila cor-de-rosa com zíper, que ela não largava, e fingiu dar mamadeira à boneca. — Agora Becky pecisa dormir — disse, mandona, em uma imitação arrogante e dominadora de um adulto, ao deitá-la no berço portátil cor-de-rosa e cobri-la carinhosamente com uma manta.

Alex estava à porta.

— Espero que isso seja um bom presságio para o futuro — brincou.

— Não conte com isso — disse Jeanie, sorrindo. Somente a neta era capaz de abstraí-la de seus problemas, mas nos intervalos, nos momentos de calma, a imagem de Ray e da garota retornavam, puxando-a para baixo como uma onda violenta.

— O jantar está pronto, Ell — disse Alex. — Salsichas e ketchup.

— Aaaah! — Ellie abriu um sorriso amplo; seus olhos brilhavam. — Sochichas e kechup. Fome, Gin? Come comigo.

— Preciso ir embora, querida. — Jeanie levantou-se do chão do quarto.

— Você podia ficar para jantar. Chanty deve chegar dentro de uma hora. — Alex sorriu. — Não quero que desmaie no instante em que for embora. Chant pode achar que não aprendo com meus erros.

— Obrigada, Alex, mas é melhor eu voltar para a loja. Preciso colocar muita coisa em dia.

— E então? Está gostando de Somerset?

Alex parecia um homem mudado após concluir o trabalho. Não mais a atacava ou criticava; sua pergunta demonstrava uma preocupação real. Jeanie sentiu um aperto na garganta. Ela percebeu que manteve a fantasia de que haveria uma possibilidade, mesmo que não a aproveitasse, de estar com Ray novamente. Por isso, Somerset lhe parecia uma escala, uma parada, um lugar que não exigia seu comprometimento.

— Não sei responder — respondeu ela finalmente, tentando evitar as lágrimas.

— É George? O fato de ele estar tão deprimido deve ser muito difícil para você.

Jeanie viu o semblante de Ellie se anuviar.

— Está triste, Gin? — A menina se aproximou e ficou ao seu lado, abraçando sua perna e acariciando seu joelho.

Jeanie respirou fundo.

— Estou um pouco triste, querida, mas vou ficar bem. — Ela pegou a neta no colo e a abraçou. — É melhor eu ir — continuou, contendo-se para não chorar enquanto descia a escada. Acenou para Ellie e o genro e seguiu pela rua. Mas sucumbiu quando virou a esquina.

O apartamento em cima da loja transmitia a sensação fria e sombria de um lugar vazio. Fazia quase dois meses que estava desocupado. Jeanie mandara pintar as paredes com tinta branca e neutra e substituíra a mobília barata por alguns móveis da casa de Highgate. Tinha tudo para ser um bom espaço. O ambiente da sala e da cozinha era claro, com janelas nas duas extremidades e vista para a rua principal e para os jardins nos fundos. O andar superior consistia em um quarto grande e um banheiro. Enquanto ligava a calefação e procurava o chá, Jeanie disse a si mesma que podia transformá-lo em um ambiente bonito e agradável. Não gostava muito de sua antiga casa. Ela transmitia uma melancolia que impregnava os cômodos escuros e altos. Mesmo assim, não parecia certo estar em Highgate e não morar na casa que fora seu lar durante 35 anos. Quando chegou ao apartamento, só foi capaz de embrulhar-se na manta de lã roxa que trouxera da antiga cozinha e deitar no sofá, anestesiada, sem acreditar no que tinha visto.

Rita examinou o apartamento com curiosidade.

— Hum... Em comparação com a mansão de Highgate, houve certa decadência, mas certamente tem potencial. — Ela sentou na poltrona. — E então? Como está, querida? Sua aparência é péssima.

Rita havia insistido em visitar Jeanie depois que a amiga telefonara e contara sobre Ray.

— Eu me sinto uma idiota.

— Por quê? Você não fez nenhuma idiotice. A não ser ter abandonado seu único e verdadeiro amor.

Jeanie não reagiu.

— Desculpe, querida, vejo que você não está no clima para as minhas brincadeiras.

— Como fui tão idiota e pensei que ele podia realmente me querer com tantas garotas jovens e bonitas à solta? Ela é linda, Rita, uma mistura de raças, alta e magra, e com um sorriso incrível. Só a vi por um instante, mas ela é mesmo bonita. Claro que é muito mais nova que ele, mas a última namorada também era. Ele gosta de mulheres jovens. — Jeanie refletia em voz alta, finalmente verbalizando os pensamentos que monopolizavam sua cabeça desde a hora do almoço.

— Como sabe que era uma namorada?

— Eles estavam sob o mesmo guarda-chuva. Ray a abraçava, e eles riam juntos. — Jeanie descreveu a cena em tom uniforme e melancólico.

— Sim, mas podiam ser dois amigos que se encontraram por acaso e se abrigaram embaixo do mesmo guarda-chuva. E talvez estivessem rindo de alguma piada. Eles trocaram carícias?

Jeanie dirigiu um olhar suplicante à amiga.

— Não, mas davam essa impressão.

— Jeanie, já vivi o suficiente para saber que suposições são muito perigosas. — Rita se levantou. — Tem vinho? Você definitivamente precisa de uma bebida.

Jeanie balançou a cabeça.

— Então vamos sair. Você não pode ficar aqui sentindo pena de si mesma.

— Mas o que me resta, Rita?

Rita suspirou e se sentou mais uma vez.

— Você se lembra de que já não estava encontrando Ray? Lembra-se de que, na realidade, estava determinada a não vê-lo? De que estava decidida a morrer em Dorset? Está bem: em Somerset. Não entendo como o que aconteceu hoje pode mudar as coisas; isso só confirma que você está trilhando exatamente o caminho que queria. — Ela fez uma pausa. — A não ser, claro, que tenha desejos secretos, que eu não conheço... — Ela ergueu as sobrancelhas e aguardou.

— Eu, egoísta, imaginava que ele estaria me esperando se eu mudasse de ideia — admitiu Jeanie tristemente. — Na última vez que nos encontramos, ele disse: “Se você mudar de ideia, sabe onde me encontrar.” — Ela olhou para a amiga. — Mas é óbvio que ele não podia esperar eternamente.

— Então você está me dizendo que, se o homem do parque estivesse disponível, ficaria com ele? — Rita ergueu as mãos, exasperada. — Não consigo entendê-la, querida. Numa hora você não pode abandonar George; na outra, está nervosa porque Ray, com toda razão, considerando que você terminou com ele, encontrou outra pessoa.

— Não espero que você entenda. Eu também não entendo — replicou Jeanie, com um sorriso desolado. — Já disse: eu sou uma idiota.