Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 17 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 17

 

Deitada na banheira, Jeanie observava a água quente tocar seus seios. Uma imagem se repetia na sua cabeça. Vira uma fotografia de George mais ou menos nessa idade, usando o uniforme escolar: um menino alto, magro, desengonçado e tímido, engolido por um blazer que ele poderia usar durante anos. E George convivera com isso todos os dias, sozinho. Jeanie quis chorar por ele, por sua infância roubada, e por si mesma, pois os tentáculos do crime abominável de Stephen Acland terminaram por corroer seu casamento. George finalmente explicara o que tinha acontecido naquele dia, mais de dez anos atrás, quando ele a rejeitara e se isolara no quarto de hóspedes.

— Eu estava almoçando com Simon em Primrose Hill — contara ele. Jeanie pôde ver que até narrar a história era desgastante para George, mas também percebia seu desespero para tirar aquilo do peito. — E, de repente, ouvi uma voz em outra mesa. Logo soube que era Acland; ele tinha uma maneira de falar peculiar, muito rápida e fluente, sempre em um tom alto, como se soubesse que tinha algo interessante a dizer, e com traços de sua infância na África do Sul em algumas vogais. Era inconfundível. Devo ter ficado pálido, pois Simon perguntou se eu me sentia bem. Fingi que estava enjoado e fui ao banheiro. Acland me seguiu. Ele já devia ter seus 70 e poucos anos, mas para mim não tinha mudado. Eu realmente pensei que vomitaria. Ele me encontrou na porta do banheiro masculino e agiu como se nada jamais tivesse acontecido. Perguntou como eu estava e disse que era ótimo me ver depois de tanto tempo. Contou que Caroline tinha morrido no ano anterior e que sentia muito a falta dela. Não falei nada, não consegui. Depois, Simon, preocupado comigo, chegou, e Acland, descarado como sempre, contou a ele sobre o tempo maravilhoso que passamos juntos quando eu era menino e o quanto minhas visitas à sua casa foram importantes para ele. Ele disse: “Você e eu éramos amigos muito especiais, não é, George?” Ele usou essas palavras, Jeanie: “amigos especiais”. Você acredita na coragem daquele homem? Na audácia dele? Quando ele me viu ali, encolhido e branco, percebeu que eu não tinha contado a ninguém e que jamais contaria.

Jeanie abraçara George, ainda vestido em seu pijama azul-marinho depois do que pareceu ser a noite mais longa da sua vida. Ela sabia que não havia o que pudesse fazer para apagar essas memórias.

— Você pensava nele, no que ele fazia com você, quando estávamos na cama? Foi esse o problema? — Jeanie tivera que perguntar.

George havia assumido uma expressão atormentada.

— Sim e não. Eu gostaria de poder dizer que não, de modo algum, mas não posso. Sei que é horrível até pensar nessa possibilidade. Com o passar dos anos, consegui afastar a lembrança para um canto da mente e aprendi a mais ou menos reprimi-la. Às vezes, a lembrança me assaltava, e eu me via de volta àquele lugar, como se ainda tivesse 10, 11 anos. Na maior parte do tempo, conseguia viver razoavelmente bem, mas vê-lo naquele dia me liquidou. Achei que poderia evitar esses pensamentos para sempre, mas, naquela noite, quando você e eu estávamos na cama, ele estava bem ali, entre nós, com aquele sorriso convencido. Entrei em pânico e fugi. Eu devia ter contado a você. Teria sido muito melhor para nós, mas simplesmente não consegui.

— Você deveria conversar com um advogado e processar o canalha. Deveria ao menos ver um terapeuta.

George tinha balançado a cabeça.

— Não, por favor, não. Não posso contar a ninguém, nunca. Por favor, não conte a Chanty. Eu não suportaria — implorara ele. — É tão repulsivo. O que ela pensaria de mim?

Jeanie havia estremecido diante da ideia. Sabia que Chanty sentiria apenas uma enorme compaixão horrorizada por ele, mas nenhuma filha deveria lidar com uma revelação dessas sobre o próprio pai.

— É claro que cabe a você decidir a quem contar. Mas deveria ir a um terapeuta. Contar para mim não vai mudar nada. Você precisa resolver isso com um especialista; do contrário, isso, ele, vai assombrá-lo pelo resto da vida. Por favor, George, chega de segredos.

— Tem certeza de que ele não inventou tudo isso para impedir que você o abandone? — Rita guardou a raquete de tênis na bolsa e fechou o zíper. Jeanie jogara como nunca, lançando a bola com uma força incrível, descarregando em cada jogada um pouco da raiva pelo que Acland fizera ao seu marido.

Ela encarou a amiga.

— Você não pode estar falando sério.

— Ora — Rita demonstrou indiferença —, não seria a primeira vez que alguém se lembra de algo em um momento conveniente.

— Ele não “se lembrou”, Rita. Ele nunca esqueceu. E me contou que pensou nisso todos os dias da vida dele.

— Está bem. Perguntei por perguntar, querida. Não me entenda mal. Não estou dizendo que não é horrível, caso seja verdade. Nenhuma tortura é ruim o suficiente para um pedófilo. Mas George não é tolo, é? Embora tenha fingido que não, ele sabe que você estava pensando em deixá-lo quando contou sobre Ray.

— Não posso deixá-lo agora.

— Então, funcionou.

— Rita, por favor, não seja tão cínica. Você não viu. Ele ficou em um estado horroroso. Tenho certeza de que não inventou aquilo.

— Você não pode ficar com ele por pena.

Jeanie não soube o que responder. De repente, sua amiga segurou seus braços e olhou para seu rosto.

— Jean Lawson, esta... é... a sua... vida — disse ela.

— E isso significa...

— Sabe exatamente o que isso significa. — Rita a soltou, balançando a cabeça como se estivesse desconcertada. — Você está dizendo que escolheu George ao homem do parque?

— Talvez o que eu sinta por Ray seja tolice. Chanty disse que, se eu terminar meu casamento, acabarei sozinha... e velha.

Rita bufou, pegou seus pertences e acompanhou Jeanie para fora da quadra.

— É óbvio que ela vai dizer isso. É sua filha e não quer que os pais sofram. Mas isso não significa que ela esteja certa, querida.

— Eu sei, mas você não viu George. Dava pena de tão vulnerável. Se eu o deixar agora, não sei se ele sobreviverá. — Ela se lembrou da figura do marido, encolhido e trêmulo.

— Sobreviverá, sim — afirmou Rita com firmeza. — As pessoas sobrevivem... George também.

Jeanie olhou para a amiga.

— Por que você quer tanto que eu largue George?

— Não quero que você faça nada. Mas sei como ficou quando conheceu Ray. Você voltou a viver. Odeio perdas e sinto que você está desperdiçando sua vida com George. Ele não é um homem ruim, mas vive superficialmente. Você sempre o arrasta pela vida, Jeanie, e deve ser cansativo.

Ela se sentia mesmo opressivamente cansada. E, ao baixar a guarda, percebeu que queria deixar George. A ideia já não significava perda; ao contrário, abria uma perspectiva de liberdade, uma vontade de viver, como respirar o ar fresco da manhã por uma janela aberta. Algo mudara. Talvez o fardo do segredo de George a tenha prendido a ele, e agora, ironicamente, quando ele mais precisava, ela finalmente estava livre. O pensamento, contudo, foi passageiro. A responsabilidade a amarrava de forma obstinada ao presente.

— Entendo o que você quer dizer, Rita.

— Mas não vai se arriscar?

— Como eu poderia? Abandonar George agora confirmaria o pior medo dele, de que ele me causa nojo. Não posso sequer pensar em Ray.

Rita parou de atormentá-la. Ela parecia triste.

— Quando pretende contar a Ray?

— Não sei — respondeu Jeanie, balançando a cabeça. — Só falei com ele antes de conversar com George. Ele deve ter percebido que algo aconteceu.

— Pobre homem, foi derrotado.

Jeanie fitou a amiga severamente.

— Você ainda acha que George está me manipulando, não é?

— Ele não é novo nesse jogo, Jeanie. Não esqueça que ele ficou muito feliz em mudar completamente o casamento de vocês há dez anos, sem nenhuma explicação, mesmo vendo o quanto você estava infeliz. Ele podia ter contado tudo naquela ocasião, mas esperou até o momento em que você estava prestes a largá-lo. Cheira a egoísmo, não?

— Não acho que essas coisas sejam controláveis. George me contou quando conseguiu fazer isso.

Rita ergueu as sobrancelhas.

— Escute, querida, faça o que tiver que fazer. Sempre vou apoiá-la plenamente, mas por favor, por favor, pense duas vezes antes de voltar à sua vida.

— Vou chegar tarde esta noite — avisou Jeanie. — Vou sair com Rita.

George lançou-lhe um olhar severo.

— Você esteve com ela ontem.

— Ela tem entradas para a nova peça de Tom Stoppard.

Era verdade, mas Rita não levaria Jeanie.

— Melhor você do que eu — murmurou George, retornando às suas palavras cruzadas e balançando uma torrada na outra mão.

— Vou direto da loja. Devo chegar tarde; Rita gosta de sair depois para jantar.

Jeanie sabia que deveria contar a George que encontraria Ray, mas, desde a noite anterior, começara a vê-lo por outro prisma, como se fosse uma planta de estufa que necessitasse de cuidados constantes. Ele estava frágil demais para lidar com a verdade.

— Divirta-se — disse George sem olhar para ela. Quando chegou à porta, Jeanie ouviu seu nome. — Hoje virão duas pessoas para ver a casa. Segundo o corretor, há muito interesse. — Como Jeanie não fez qualquer comentário, ele continuou: — É maravilhoso, Jeanie. Vai ser um novo começo para nós. Eu sei que podemos conseguir, você e eu. Chegamos até aqui e não foi de todo ruim. — George sorriu com satisfação; ela sorriu de volta.

— Eu nunca disse que foi ruim — replicou Jeanie. Era como se o colapso nervoso duas noites antes nunca tivesse acontecido, e a dor que ela testemunhara em seu rosto tivesse sido apenas um pesadelo. Ele não havia feito qualquer referência àquilo desde então, mas Jeanie não podia acreditar que alguém, até mesmo George, pudesse enterrar uma confissão tão importante quanto aquela uma segunda vez.

— Você está tremendo — comentou Ray carinhosamente.

Jeanie não sabia como tinha chegado ao apartamento dele. Descera a colina muito angustiada. Por mais que dissesse a si mesma que aquilo era o certo a fazer, no fundo parecia inteiramente errado. Quando se falaram ao telefone e Jeanie lhe contara sobre o abuso, Ray tinha se mantido em silêncio. Talvez ele soubesse o que aquilo significava para Jeanie.

— Ray... — Ela pretendia ser prática e eficiente, contando a verdade e contendo seus sentimentos. Porém, quando ele a tomou nos braços, o sofrimento das últimas semanas desapareceu, e Jeanie se viu encantada pelo cheiro dele, pela sensação do rosto dele contra o seu, o puro prazer de seu abraço.

— Não diga nada — pediu Ray, quando ela se afastou e começou a explicar. — Eu sei o que você precisa dizer, mas, por favor, não quero ouvir essas palavras. Não quero me lembrar delas.

Jeanie também não tinha vontade de pronunciá-las.

— Vamos simplesmente ter esta noite para nós — murmurou ele.

Duas taças e uma garrafa de vinho esperavam sobre a mesa de centro; as notas melancólicas de Chet Baker inundavam o ambiente. Ray tomou a mão de Jeanie e levou-a deliberadamente em direção ao quarto.

O quarto estava banhado pela luz suave do fim do dia. Quando Jeanie se sentou na cama, Ray ajoelhou-se diante dela. Beijou-lhe os lábios delicadamente e deslizou as alças da roupa de Jeanie pelos ombros, pelos seios nus e pelo corpo. Seu toque era suave, quase não encostava na pele, mas tão sensual e intenso que Jeanie mal conseguia respirar.

— Tem certeza de que quer isso, Jeanie? — perguntou ele com os olhos cheios de desejo.

Trêmula, Jeanie fez que sim. Então ele lhe deu um beijo ardente e pleno de uma paixão por muito tempo reprimida, igualada somente à dela. Eles desabaram na cama, buscando um ao outro e dando e recebendo carícias com as quais Jeanie mal ousara sonhar. O amor que fizeram foi além de qualquer coisa que ela havia imaginado.

Chet Baker já silenciara há muito tempo quando voltaram a falar.

— Que horas são? — perguntou Jeanie.

Ray checou o relógio na mesa de cabeceira.

— Tarde.

— É melhor eu ir. — As palavras pareciam ser de outra pessoa. Jeanie ouviu Ray suspirar ao seu lado, mas estava inebriada de prazer, com uma sensação tão poderosa e inesperada que mal conseguia se concentrar.

— Nós fazemos um bom time. — Ele riu e beijou o topo da cabeça de Jeanie. Então, continuou, num jeito travesso: — E agora que já teve o que queria, você vai se livrar de mim.

Ray se levantou. Jeanie o observou ir à sala e escolher na estante o disco Kind of Blue, de Miles Davis. Seu corpo nu era forte e compacto, porém ele andava com a leveza e a graça de um dançarino.

— Eu sei quem é Miles Davis — insistiu ela quando ele voltou para a cama e beijou-a, caçoando de sua ignorância musical. O jazz era mais lírico, mais leve do que o trompete de Baker, e, enquanto faziam amor, Jeanie sentiu a alegria de Ray por ela ter dito que conhecia sua escolha.

— Esse jazz é fácil. Você ainda não viu nada... Espere até ouvir alguma coisa da minha coleção mais pesada.

Lágrimas brotaram nos olhos de Jeanie quando se lembrou do motivo de sua vinda. Ela se sentou na cama, cobrindo os seios com o edredom.

— Não posso abandonar meu marido, Ray... Por favor, entenda. Não tem nada a ver com você, ou com meus sentimentos por você. Essa noite foi inesquecível; para mim, foi única. — Jeanie o fitou, enxugando as lágrimas e agarrando a mão de Ray com força, como se estivesse se afogando. — Se ele não tivesse me contado sobre o abuso, se...

— Shh, Jeanie... Por favor, não fale sobre isso.

— Mas eu preciso ir. Já passa das onze.

Mesmo assim, os dois não pareciam sequer remotamente inclinados a sair dali. Por mais meia hora, continuaram entrelaçados, amorosos e sonolentos, até ela se obrigar a levantar.

Com um suspiro, Jeanie deixou a cama e começou a reunir as roupas espalhadas.

— Vou levá-la para casa.

Eles caminharam em silêncio, as mãos entrelaçadas com força. A noite estava fresca e nublada. No topo da colina, Ray inclinou-se e a beijou carinhosamente.

— Querido coração, pensar em você/ É a dor ao meu lado/ A sombra que esfria minha

visão/ Tenho medo de perdê-la/ Tenho medo do meu medo* — murmurou ele. — Se mudar de ideia, sabe onde me encontrar. — Apesar do tom deliberadamente casual, Jeanie viu nos olhos dele a desolação da perda, tão claramente refletida nos seus.

A casa estava silenciosa, exceto pelo insistente tique-taque dos muitos relógios. Enquanto Jeanie subia a escada para seu quarto, o relógio comprido que ficava no corredor soou, marcando o quarto de hora. Ela já não tinha vontade de chorar; só queria dormir para sempre. Sem acender a luz, apenas tirou as roupas enquanto caminhava em direção à cama, deitou-se sobre o lençol macio e fresco e cobriu-se com o edredom para se sentir aconchegada. Mas, ao se virar, soltou um grito. Ali, ao seu lado, estava George, em sono profundo.

— Olá, Jeanie — murmurou ele, sonolento, acordado pelo grito.

— O que está fazendo aqui? — Jeanie já estava acordada e furiosa.

George sentou-se à meia-luz que entrava pelas cortinas abertas.

— Desculpe se assustei você. Achei que estava na hora de recomeçar. Acabar com essa tolice de quartos separados.

Jeanie ficou confusa.

— Sem falar comigo?

— Você é minha mulher. Eu não deveria precisar da sua permissão para dormir na sua cama — replicou ele, irritado.

— Para começar, você não deveria ter saído dela — replicou Jeanie. — George, estou cansada. Por favor, volte para o seu quarto. Amanhã conversamos.

Será que ele adivinhou o que ela tinha feito? Será que ele poderia sentir?

— Está bem, se você insiste. Achei que podia ser uma boa surpresa.

— Com certeza foi uma surpresa — murmurou Jeanie.

— Você chegou muito tarde — comentou George, encarando-a, vestindo as calças do pijama ao lado da cama.

— Eu avisei que chegaria tarde. Rita detesta comer antes de ir ao teatro.

— Mas já é quase uma da manhã. — Os olhos de George continuavam a perscrutá-la.

— Vá para a sua cama, George. — Jeanie virou as costas para ele. Estava muito perto de dizer onde estivera.

Quando ele fechou a porta, ela se encolheu sob o edredom, irritada, pois a presença do marido a afastara muito brutalmente de Ray. Sentiu que seu santuário fora violado. Jogar limpo não era o ponto forte de George.

Na manhã seguinte, Chanty apareceu inesperadamente na loja.

— Olá, querida, que surpresa boa! Onde está Ellie?

— Ela está bem; está na creche. É quarta-feira.

— É?

— Tudo bem com você? Está com uma aparência cansada.

— Estou bem. Saí com Rita ontem à noite e voltamos tarde.

— Sei... — Chanty riu. — Espero que tenham se divertido. — Ela olhou ao redor para ver se Jola estava ouvindo, e, apesar de perceber que Jeanie estava sozinha na loja, baixou a voz. — Como vão as coisas com papai?

— Bem — mentiu Jeanie, com a revelação de George ainda em sua mente. Sabia que não podia compartilhar um segredo que não era só seu e percebeu, chocada, que agora vivia em um mundo repleto de segredos. Chanty, contudo, parecia feliz em aceitar a resposta.

— Isso é bom. Mãe, Alex e eu pensamos em convidar você e papai para jantarem conosco hoje. Não vemos vocês há tempos.

— Seria ótimo, querida. Por que não está trabalhando? — Jeanie achou que a filha tinha uma aparência extraordinariamente feliz.

— Vou para o trabalho agora. Tive que fazer algumas coisas de manhã. — Chanty pareceu hesitar. Depois debruçou-se sobre o balcão e beijou o rosto da mãe. — Esta noite então? Venham em torno das sete para verem Ellie. Se o tempo continuar bom, vamos fazer um churrasco.

Quando Chanty se foi, Jeanie sentou-se no banco que ficava atrás do caixa. Tivera pouco tempo para pensar sobre a noite anterior, mas o prazer que sentira com Ray, tão surpreendente e tão mágico, ainda envolvia seu corpo cansado, mesmo enquanto trabalhava, como um véu suave entre ela e o mundo. Ray a fizera renascer, e cada centímetro de seu corpo a lembrava desse fato. Recusava-se a contemplar a possibilidade de nunca mais experimentar essa sensação. Naquela manhã, George continuara o mesmo, sem demonstrar nenhum remorso por ter invadido seu território e fazendo um interrogatório completo sobre cada detalhe da noite anterior. Quando saiu para o trabalho, estava cansada de suas mentiras.

Naquela noite, Ellie correu pela sala para receber Jeanie; ela logo foi parar no colo da avó, jogando os bracinhos em torno do pescoço dela para abraçá-la. Saíra do banho havia pouco tempo; o cabelo estava molhado, e o rosto, rosado e limpo. Ela apontou, orgulhosa, para a blusa do pijama.

— Gin, olha, diz “sou anjinho”. — Ela riu e se aninhou no corpo da avó. — Mmmm... Tava espeando você.

— Sua blusa está certa: você é um anjinho. — Jeanie enterrou o rosto no cabelo cheiroso da neta.

— Ela estava louca para ver você. — Chanty sorriu e levou-as para o jardim. — Papai já chegou, e Alex está preparando o churrasco.

Jeanie levou Ellie para fora e acomodou-se em uma das cadeiras no deque de madeira. George perambulava por ali, tenso e inquieto, com uma taça de vinho na mão.

— Recebemos uma oferta.

— Boa?

— Para meu espanto, ofereceram o preço que pedimos. É o quinto casal a ver a casa. Mas, segundo o corretor, havia mais duas pessoas interessadas, e eles entraram em pânico.

— Isso é fantástico. Não me surpreende... A casa é linda. — Alex evitou o olhar de Jeanie e dirigiu-se a George. — E então? Você aceitou?

George confirmou com um aceno de cabeça, mas não parecia tão exultante quanto Jeanie imaginara.

— Você não parece estar muito feliz — observou ela.

George a fitou, inexpressivo.

— Estou muito satisfeito, sim. Achei que seria muito mais difícil. Telefonei para contar, mas seu telefone estava desligado.

Jeanie observou Alex remexer os pedaços de frango sem muito resultado. Era evidente que o carvão ainda não estava quente, mas ele não pareceu perceber. Definitivamente, o clima estava estranho; todos, inclusive Chanty, pareciam um pouco distraídos. Jeanie montou um quebra-cabeça com Ellie na mesa do jardim. A neta conhecia o jogo e, triunfante, colocou as peças no lugar com a rapidez que suas mãozinhas permitiam. Depois de colocar a filha na cama, Chanty trouxe da cozinha uma bandeja com uma garrafa de champanha. Jeanie notou quando ela sorriu para o marido.

— Estamos comemorando a casa? — perguntou George.

Nem Chanty nem Alex responderam até o champanha ser servido.

— Temos uma notícia para dar a vocês — disse ela. Jeanie notou que ela mal conseguia se conter. Alex interrompera a atividade de churrasqueiro e estava ao seu lado, um pouco encabulado, como sempre ficava diante de uma ocasião familiar. — Estou grávida.

O cansaço de Jeanie imediatamente desapareceu.

— Isso é maravilhoso! Que fantástico, querida. Para quando é?

— Já estou com dez semanas. É para logo depois do Natal.

Jeanie abraçou a filha e deu tapinhas nas costas do genro.

— Dez semanas? E você não nos contou nada?

— Só foi confirmado esta manhã. Acho que tudo que aconteceu com Ellie me distraiu, e só me dei conta de que havia alguma coisa diferente quando comecei a enjoar. — Chanty beijou o rosto do marido. — Foi Alex quem percebeu.

— Mas logo agora... — resmungou Jeanie. — Vamos estar tão longe quando o bebê nascer.

— Você pode ficar aqui quando vier. Vai dar certo, mãe. Vou precisar muito da sua ajuda com Ellie.

— Ela já sabe?

Chanty balançou a cabeça.

— Segundo os livros, é melhor deixar para mais tarde. As crianças nessa idade não têm noção de tempo.

Jeanie sorriu.

— Ela não vai gostar!

A conversa continuou, principalmente entre elas duas, e ninguém notou que George estava no canto do jardim, calado, com ar tristonho e mais uma taça de vinho na mão. Quando Alex anunciou que o frango e as linguiças estavam prontos, todos se sentaram à mesa, mas George não saiu do lugar.

— Venha, papai. Vamos comer — chamou Chanty.

George olhou ao redor, mas não fez qualquer movimento para se juntar aos demais.

— George? — Jeanie se aproximou. — Você está bem?

— Não estou muito bem, minha velha. — Jeanie percebeu o esforço que ele fazia para falar.

— Está se sentindo mal?

George olhou para ela.

— Devo dizer que não me sinto ótimo. — Ele acenou com a taça para a filha e o genro. — Notícia maravilhosa! Vocês vão me dar mais um neto... Por que não...

Chanty ficou desapontada.

— Papai, você está bêbado.

George deu uma risada e concordou.

— Parece que sim... Desculpe, mas não tive uma semana fácil...

— George, acho melhor eu levar você para casa. Vamos, levante-se.

Jeanie fez um gesto para Alex ajudá-la, mas George não queria ir embora e puxou o braço que a esposa segurava.

— Deixa eu falar... Estou contando a eles sobre minha semana.

— Pare, George, você não está falando coisa com coisa.

— O que estou dizendo faz muito sentido... Eles devem saber como foi minha semana... Porque minha mulher está fazendo sexo com outro homem... E eu contei a ela... Sobre o Sr. Acland... E agora ela sabe... E foi uma semana infernal para todos nós.

Fez-se um silêncio mortal.

— Quem é o Sr. Acland? — perguntou Chanty com um olhar acusador para Jeanie, quando George caiu no silêncio, quase largando a taça.

— É uma longa história. É melhor deixar para outra hora, querida — murmurou Jeanie, fazendo um sinal para Alex pegar o outro braço de George.

— Sr. Acland... Stephen Acland Esquire… Um extraordinário sodomita, brincava comigo... Jogava xadrez. — George apontou para Jeanie. — Ela já sabe... Que semana... Que... Desculpe...

George então começou a chorar; era um choro fraco, lamuriento, aflitivo.

— Mãe, do que ele está falando? O que está acontecendo?

Jeanie desistiu de carregar o marido.

— Seria melhor que ele mesmo explicasse, mas como não está em condições...

O frango e as saladas ficaram intocados sobre a mesa enquanto ela contava a história toda e observava as expressões de perplexidade e repulsa que gradativamente endureciam, transformando-se em raiva.

— Um herói de guerra — murmurou Alex entre dentes cerrados.

Chanty estava arrasada.

— É terrível, mãe. Não posso acreditar que ele nunca contou a ninguém. Pobre papai... Como lidar com algo assim?

George se levantou subitamente.

— Vocês falaram alguma coisa sobre comida? — Fitando-os sem focalizar os olhos, George oscilava. Então caiu, deslizando suavemente no deque de madeira, derramando o restante do vinho e derrubando os óculos no chão.

Chanty começou a chorar.

— Nunca vi papai assim. O que ele passou é simplesmente terrível. Ajude-o Alex. Leve-o para dentro.

Alex levou Jeanie e George para casa e ajudou-a a despir o marido e deitá-lo na cama. Ele estava quase inconsciente, murmurando de vez em quando um monte de sílabas desconexas.

— Ele vai ficar bem? — Alex cobriu o sogro com uma delicadeza surpreendente e olhou para Jeanie. — Não seria melhor ele caminhar e tomar um café forte? — Ele sorriu, desculpando-se. — Medicina não é o meu forte.

— Acho melhor ele dormir. Não deve ser uma reação à bebida; ele não bebeu tanto assim. A maior parte é resultado do choque por ele não conseguir lidar com o problema do abuso. Já tentei convencê-lo a fazer terapia, mas ele se recusa.

— Deve ser horrível se confrontar com o passado dessa forma. Ele vai acordar com uma ressaca daquelas.

Eles deixaram George descansar e voltaram para o andar térreo da casa.

— Muito obrigada pela ajuda, Alex.

— Você está bem? Isso não pode ser fácil para você.

Pela primeira vez, Jeanie sentiu uma simpatia verdadeira pelo genro.

— Digamos que as coisas já foram melhores. — Ela deu uns tapinhas no braço de Alex. — Cuide bem de Chanty. Ah! Alex, a gravidez foi uma grande notícia.

O rosto dele se iluminou.

— Não é? Nunca pensei que queria ter um filho, que dirá dois... Mas estou muito animado.

 

Nota:

* Tradução livre de um poema de John Cornford: Dear heart, the thought of you.../ Is the

pain at my side/ The shadow that chills my view/ I am afraid to lose you/ I am afraid of my

fear. (N. do E.)