Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 3 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 3

 

Jeanie misturou o molho de tomate e manjericão no penne quente e despejou-o numa tigela de cerâmica azul. A cozinha grande estava calma, e o sol iluminava o jardim em frente, além das janelas francesas, com uma suave luz dourada. Este era seu cômodo predileto, onde o casal passava a maior parte do tempo. Para Jeanie, sua casa, em estilo georgiano, tinha um ar frio e solene. Embora tivessem pé-direito alto e boas proporções, os cômodos transmitiam uma sensação de tristeza. Já a cozinha era voltada para o sul e, depois que eles fizeram a abertura para a varanda, passou a receber muita luz. Durante a reforma, George quis um fogão de ferro Aga, mas Jeanie insistira num Bosch a gás moderno e simples e escolhera azulejos de terracota em um tom quente para substituir o linóleo sombrio. Agora, o ambiente era claro, sem exageros na decoração. Os armários com vidros nas portas, assim como as cornijas e a porta, tinham sido pintados em azul-claro, com toques azul-turquesa aqui e ali, seguindo o estilo georgiano.

George estava muito pensativo desde que retornara do golfe. Agora, sentado à mesa da cozinha, calado, com uma taça de vinho tinto na mão, balançava o chinelo de veludo cotelê para a frente e para trás. Tinha diante de si um exemplar da revista Time, mas não o lia; apenas observava a esposa.

— Por que demorou tanto a chegar? — perguntou ele.

Jeanie esmoreceu. “Começou”, pensou ela.

— Fui ao Potter’s Bar para ver um novo produtor de salada orgânica. Eu avisei.

— Mas você disse que ia às duas da tarde. Não pode ter passado cinco horas lá.

Os olhos do marido a perscrutavam, como se tentassem ler sua alma. A tensão, mesmo à distância, era perceptível.

— Depois voltei para a loja. Tinha algumas coisas a fazer. — Jeanie suspirou e depositou com uma força desnecessária a tigela de penne sobre a mesa.

— Ah... Então a que horas voltou para a loja?

— Pare com isso, George, por favor.

Jeanie sempre se via respondendo aos monitoramentos absurdos de George numa atitude impensada, antes de se lembrar que, ao responder, dava crédito à ansiedade dele.

— Parar o quê? Eu só perguntei sobre seu dia. Não é isso que os maridos devem fazer?

Jeanie o viu respirar fundo, o que significava que a inquisição terminara por enquanto. George ao menos merecia alguma consideração, pois de fato tentou se controlar depois da explosão involuntária.

— Como foi o jogo? — perguntou Jeanie, colocando ao lado do marido um pedaço de parmesão fresco, trazido da loja. George costumava falar sobre o golfe com prazer, presenteando-a com as histórias das trapaças cometidas pelo parceiro das quintas-feiras. Ao que parecia, Danny gostava mais de trapacear do que do jogo em si.

Mas, nesta noite, George limitou-se a ajustar os óculos no nariz e pegar a colher que Jeanie lhe oferecia.

— Ah, foi bom. Danny ganhou, como sempre.

— E o que mais? — perguntou ela, ralando um pouco do queijo sobre a massa.

Ela viu o marido respirar fundo.

— Jeanie... — Ele fez uma pausa e pousou as mãos abertas sobre a mesa, com os polegares tocando a face inferior do prato. — Estive pensando...

Jeanie franziu o cenho e esperou. George parecia extraordinariamente sério.

— Diga logo! — disse ela, sem paciência, quando o marido não terminou a frase. — Está me deixando nervosa.

— Tenho pensado sobre esse assunto há muito tempo, e parece o momento certo, com seu aniversário de 60 anos no mês que vem... — Novamente, ele fez uma pausa.

Jeanie sentiu o coração bater acelerado. Será que George anunciaria que a abandonaria? “Talvez tenha passado esses anos com uma amante e queira viver os últimos anos de sua vida nos braços dela”, pensou ela, com humor. Isso poderia explicar as coisas. Ela afastou o pensamento.

— Sim? — disse ela, incentivando-o a continuar.

— Você sabe que há tempos falamos em comprar uma casa de campo para os fins de semana. Pois bem, eu andei pensando e me parece sem sentido termos duas casas quando somos só nós dois.

Jeanie concordou.

— Talvez você tenha razão. Seria bom ter para onde fugir de vez em quando, mas acabaríamos pressionados a ir sempre até lá. E os fins de semana são meus dias mais cheios.

Por um momento, eles comeram em silêncio.

— Eu não quis dizer isso exatamente — continuou George, começando a brincar com o pão no prato, partindo-o em pedacinhos e fazendo bolinhas antes de devolvê-los à pilha.

Novamente, Jeanie aguardou, confusa, enquanto o marido mastigava a massa sem pressa.

— Eu quis dizer que, em vez de comprar uma casa de fim de semana, devíamos vender esta e mudar para o campo. Morar lá.

— O quê? — Jeanie ficou pasma. — Vender esta casa? Está falando sério?

George piscou os olhos e balançou o vinho, girando o copo antes de tomar um bom gole.

— Eu sei que é um grande passo.

— Mas esta casa pertence à sua família há muitas gerações.

— Que diferença isso faz? — Ele parecia verdadeiramente surpreso.

— Que lugar no campo? Onde? — Jeanie não sabia por onde começar; tudo era muito inesperado. George já morava naquela casa em Highgate, grande e cheia de labirintos, quando ela o conheceu, na década de 1970. Naquela época, ele acampava no sofá da sala de estar, em meio aos livros e à parafernália do falecido tio Raymond, sem ter ideia do que fazer. Jeanie assumira toda a tarefa de organizar e reformar a casa: guardara a sombria mobília vitoriana no sótão e modernizara o lugar, inserindo-o no século XX com cores vivas nas paredes e tecidos modernos. Embora ele nunca tivesse feito qualquer comentário, Jeanie sempre imaginara que George gostava de morar ali.

— Mas não posso abandonar a loja — continuou Jeanie, ainda perplexa com a notícia.

— Você vai se aposentar quando fizer 60 anos, não vai? — George sorriu com prazer.

— Aposentar?

— Jeanie, você faz 60 anos no mês que vem. Nessa idade, as pessoas se aposentam. As mulheres, pelo menos. Você sempre disse que a loja era um pesadelo, que a exauria. Eu me aposentei há anos — assinalou George, usando sua lógica.

Jeanie levantou-se e começou a caminhar pelo chão de cerâmica, esquecendo o jantar.

— Pelo amor de Deus, George! Sessenta anos não é nada hoje em dia. De qualquer modo, a decisão deve ser minha, e não sua. — Jeanie o encarou, enfurecida.

— Eu não decidi nada. Acalme-se, minha velha. — George balançou a cabeça, confuso. — Imaginei que você ia gostar da ideia; afinal, sempre disse que adorava o campo. Estamos só conversando sobre o assunto.

— Não me chame de “minha velha”, você sabe que eu odeio isso — repreendeu-o Jeanie. — Sim, eu adoro passar os fins de semana no campo, ficar à toa, ler um livro, fazer um passeio a pé de vez em quando, mas não quero morar lá. A que lugar você se refere, afinal? — questionou ela mais uma vez.

George suspirou.

— Pensei em Dorset, perto da costa, mais ou menos no caminho para Lyme. É um lindo lugar.

Jeanie o encarou.

— Você realmente pensou em tudo, não foi?

O marido concordou.

— Quero sair de Londres, Jeanie. Não vejo sentido em continuarmos aqui. Isso nos permitiria um novo começo.

— Quando morava em Dorset, você se sentia extremamente entediado — lembrou Jeanie, ignorando a outra parte do comentário de George. Há algum tempo ela suspeitava de que seu envolvimento com o trabalho não o agradava. Ele jamais tinha dito isso, mas dera a entender inúmeras vezes.

— Sim, mas eu era adolescente. Agora é diferente. Na nossa idade, queremos outro tipo de vida.

— Você, talvez; eu, não — retrucou Jeanie. — E os nossos amigos? E o seu golfe? E Ellie? — Ela achou que mencionar a neta seria o trunfo que poria fim a esse absurdo.

— Ellie pode nos visitar. Pode passar os fins de semana e feriados. Ela vai adorar. Sair de Londres lhe fará um bem enorme. E nós faremos amigos. Dorset tem até campos de golfe, imagine só! — George sorriu. — Jeanie, eu só peço que você ao menos pense nessa possibilidade. Parece ridículo dois velhos morando nesta casa enorme. Além disso, depois que a Sra. Miller se aposentou, a casa sequer está sendo limpa. Nós poderíamos usar o dinheiro de uma forma muito melhor.

— Você bem sabe que dinheiro não é problema. É verdade que a casa está suja, mas isso pode ser corrigido facilmente. Jola tem uma amiga que gostaria de trabalhar aqui algumas manhãs. Eu só preciso acertar isso.

George olhou para Jeanie com um ar tolerante e divertido, como se as palavras dela não tivessem importância.

— Já me decidi quanto a isso, minha velha — disse George com seu jeito enganosamente doce, mas Jeanie encarou sua determinação com temor.

— Já disse para não me chamar assim. Nós não somos velhos — murmurou ela. — Não mesmo, George. Somos apenas um casal de meia-idade.

Com isso, a discussão terminou, mas Jeanie passou a noite sem dormir. George sempre conseguia o que queria. A casa era dele, e, se decidisse mesmo vendê-la, ela não poderia impedi-lo. George era antiquado nesse aspecto. Embora Jeanie fosse uma mulher de negócios, que administrava uma loja de alimentos naturais bem-sucedida numa rua importante, era George quem cuidava do lado administrativo da vida do casal. Ele decidia como investir o dinheiro, se era necessário fazer reparos na casa ou no jardim e quando estava na hora de comprar um carro novo, além de cuidar de todas as contas. Jeanie era perfeitamente capaz, mas ele não pensaria em envolvê-la nessas questões. “Será que George realmente venderia esta casa sem que eu concorde com isso?”, perguntou-se Jeanie quando o amanhecer começou a iluminar o céu, e os passos cautelosos de George iniciaram seu caminho usual.

Chanty abriu a porta para os pais.

— Shhh... Ellie ainda está dormindo e foi terrível o dia inteiro. Nós estamos no jardim.

Eles atravessaram a casa na ponta dos pés e saíram para o deque de madeira envelhecida, conforme estava na moda. A mesa de ferro batido estava posta para oito pessoas para o almoço de Páscoa — toalha branca, taças e talheres cintilando sob o sol de abril. O calor era surpreendente. Jeanie lamentou não ter levado os óculos de sol.

— Olá, Alex — disse George, aproximando-se para apertar a mão do genro.

Alex fizera um esforço hoje: a habitual camiseta surrada fora substituída por uma camisa azul, e, para alívio de Jeanie, ele cheirava a sabonete, e não a tinta e suor.

— Quem mais vem? — perguntou ela, apontando para a mesa.

— Meu antigo amigo de escola, Mark, com a mulher e os filhos. Você não se importa de não sermos só a família, não é? — Alex soava quase defensivo, como se desafiasse Jeanie a discordar.

— Será ótimo. Nós não os conhecemos, não é?

Chanty saiu para o jardim com uma bandeja cheia de copos e uma garrafa de champanhe.

— Não, vocês não se conhecem. — Ela colocou a bandeja sobre a mesa. — Eles moraram em Hong Kong durante cinco anos. Mark ganhou um bom dinheiro. Eles acabaram de comprar uma propriedade em Dorset.

Jeanie lançou um olhar para George, certa de que aquilo era uma cilada para ela. Chanty não conseguia encará-la, e Alex sorria, triunfante.

— Que interessante. — Jeanie recusou-se a reagir conforme o esperado, mas Alex não conseguiu resistir.

— Nós achamos que seria bom vocês se conhecerem. Assim poderão conversar sobre propriedades na região sudoeste.

Jeanie aceitou uma taça de champanhe e sentou-se numa espreguiçadeira à sombra da cerejeira. “Isso não é justo”, pensou.

— Que interessante — repetiu, sem conseguir disfarçar a tensão.

Chanty agachou-se diante dela.

— Mãe, Alex só está implicando com você. Convidamos Mark e Rachel porque ainda não os vimos depois que eles voltaram. Não tem nada a ver com essa história de papai querer se mudar.

Jeanie sorriu, mas se sentia péssima.

— Não podemos falar sobre isso agora — continuou Chanty —, mas você é totalmente contra a ideia? Ellie adoraria, sabia? Todo aquele ar fresco e a sensação de liberdade... Você a veria mais do que agora e, desistindo da loja...

— Se Ellie precisa de ar fresco, então por que você e Alex não se mudam para a maldita Dorset? — replicou Jeanie.

Chanty estava paciente.

— Não seja rude, mãe. Você sabe que eu não poderia ser uma editora de conteúdo em Dorset, e eu preciso trabalhar.

Jeanie mordeu a língua antes de fazer algum comentário desastroso sobre o genro desocupado.

— Eu também tenho que trabalhar — reagiu ela.

— Mas você não precisa.

— Financeiramente, claro que não. Mas eu tenho que trabalhar para o meu bem-estar. — Lágrimas ridículas brotaram em seus olhos. — Seu pai parece ter nos anulado, Chanty. Não sou uma velha. Posso não ser jovem, mas ainda estou cheia de vida.

Chanty sorriu.

— Claro que sim, mamãe — assegurou-lhe, sem ser muito convincente. — Você aparenta ter muito menos do que a sua idade. Mas se mudar para o campo não é a morte. Muitas pessoas moram no interior e são muito felizes.

— Sim, e têm até campo de golfe.

Sua filha parecia surpresa.

— Todos nós achamos que você gostaria de ter uma vida mais tranquila.

A campainha soou. Jeanie ouviu Ellie chamar em seu quarto, no andar superior.

— Eu vou — disse Jeanie, levantando-se da espreguiçadeira para buscar a neta.

De repente, a loja assumiu um significado diferente. Ao abri-la na terça-feira após a Páscoa, Jeanie olhou para tudo com muito amor: as caixas de gérmen de trigo e espinafre empilhadas perto da porta, a inevitável poça no chão de madeira, formada pela água que pingava da geladeira, os tomates-cereja que tinham amolecido e apodrecido durante a noite, as inúmeras datas de validade que precisavam ser vistoriadas. E quando Jola chegou e contou que a nova moça se despedira antes de começar no trabalho, Jeanie nem ligou. Sim, administrar uma loja podia muitas vezes ser frustrante, mas ela adorava. Era sua atividade, e ela era muito bem-sucedida.

Jeanie recusara-se a falar com George durante o restante do domingo de Páscoa. O almoço correra muito bem: o carneiro tinha uma cor absolutamente rosada, a sobremesa foi um sucesso, e o amigo de Alex e a esposa eram encantadores — para sua surpresa, considerando que eram amigos de Alex. O próprio genro pareceu menos mordaz na companhia deles. Mas Jeanie apenas fingiu estar bem. Ninguém havia percebido isso — exceto talvez Alex, que percebe tudo —, mas uma das poucas vantagens da maturidade é saber dissimular.

A terça-feira estava movimentada, com a volta dos clientes após os feriados da Páscoa. Jeanie e Jola mal tiveram tempo para respirar até a parte da tarde. Mas, enquanto sorria, conversava com os clientes, guardava mercadorias nas prateleiras e organizava entregas, ela estava consciente de uma sombra que pairava sobre o seu dia, como um sonho parcialmente esquecido.

Foi com algum alívio que leu a mensagem de texto da amiga, Rita: “Quadra reservada para hoje às cinco. Esteja lá. Bjs, R.”

Rita, uma sul-africana alta e bronzeada, já estava na quadra do parque Waterlow quando Jeanie chegou. O tempo estava nublado e havia uma brisa fria típica de abril, mas mesmo assim Rita usava um uniforme de tenista e calçados sempre imaculadamente brancos. Contrastando com ela, Jeanie vestia calças esportivas cinza e uma camiseta preta. Elas estavam empatadas; o jogo daquela semana seria uma batalha de vida ou morte. Rita, com seu longo alcance e seu saque rápido e potente, batia mais forte que Jeanie, mas se movia com mais lentidão. Jeanie era mais rápida e mais criativa em suas jogadas, além de ter mais precisão. Ao longo dos anos, nenhuma delas pôde se vangloriar de ser melhor que a outra. Por isso, cada vitória melhorava o ânimo e trazia alegria.

Hoje, porém, Jeanie estava estranha e lenta, chegando a tropeçar algumas vezes, como se alguém tivesse acorrentado seus pés.

— Cristo! — exclamou Rita quando acabou o primeiro set. — Acorda, Sra. Lawson! Parece que eu estou jogando sozinha.

Jeanie fez um aceno com a raquete, desculpando-se.

— Acho que não estou conseguindo entrar no jogo.

Mas o segundo set não foi melhor.

Elas pegaram seus pertences antes que terminasse a hora que haviam reservado na quadra e sentaram-se no banco favorito, de onde se via a cidade à distância. O sol já se punha, banhando o parque com uma luz suave.

— Fale — exigiu Rita.

— Você sabe que estávamos pensando em comprar uma casa de campo havia algum tempo.

Rita assentiu.

— Pois bem, George colocou na cabeça que isso não é suficiente. Ele quer vender a nossa casa e sair de Londres. Ele está falando sério e já conseguiu o apoio do resto da família. No almoço de Páscoa, Chanty tentou me convencer. Alex também. Todos já consideram isso um fato consumado. “Venda a loja”, “você está velha”, “não precisa trabalhar” etc.

Rita bufou.

— Canalhas! Eles não podem dizer a você o que deve fazer com a sua vida. — Ela examinou o rosto da amiga. — Você não está caindo nessa, está?

Jeanie balançou a cabeça.

— Eles até usaram Ellie, argumentando que o ar fresco e a liberdade seriam bons para ela.

— Isso é ridículo. As crianças nunca são o motivo principal. George não vai vender a casa sem o seu consentimento. — O marido de Rita, Bill, sempre fazia o que ela queria, sem reclamar. — Quero dizer... O que ele poderia fazer? — continuou Rita. — Puxá-la pelos cabelos para alguma caverna enlameada?

Jeanie riu.

— Talvez você o respeitasse mais se ele fizesse isso!

Ela sabia que Rita tolerava George, e até gostava dele, mas nunca entendera por que Jeanie sempre cedia às vontades do marido.

— Sério, querida, o que ele disse?

Jeanie suspirou.

— Não é o que George fala sobre irmos para o campo, mas sua atitude comigo, com a gente. Ele acredita que somos velhos. Chegou a dizer isso: “Agora estamos velhos... Você não vai querer a loja para sempre.” Tenho certeza de que ele não gosta do meu trabalho. Ele acredita que, quando eu cair em mim e parar de trabalhar, poderemos passar o fim da vida juntos, felizes por toda a eternidade. Velhos.

Rita começou a rir.

— Meu Deus!

— E não seria tão ruim se fosse só ele, mas, quando sua própria filha quer se livrar de você, é impossível não pensar que deve haver alguma verdade aí. — Jeanie fitou o rosto preocupado da amiga. — Não me sinto velha, Rita — continuou. — Eu me sinto saudável e tenho vontade de viver. É verdade que me sinto mais cansada do que antes e que também tenho andado mais esquecida das coisas talvez, mas isso é só uma tentativa de colocar a culpa em alguma coisa. Na verdade, durante a vida inteira tive períodos em que me cansava e ficava esquecida.

Rita pegou sua mão.

— Olha para mim. Você, Jeanie Lawson, não está velha. Você está na meia-idade... O que pode ser pior, pensando bem! Mas não está velha. Não pode estar! Temos a mesma idade.

Jeanie acariciou a mão da amiga.

— Quero dizer, olhe para você... — continuou Rita. — Você é linda. Ninguém imaginaria que é quase uma idosa.

Ambas começaram a rir.

— Muito obrigada.

— Estou falando sério. Você poderia facilmente ter 48 anos.

— E o que devo fazer agora?

— Na verdade, o problema não é estar velha nem se mudar para o campo, não é? — Rita pousou o olhar no rosto da amiga, e Jeanie percebeu o que estava por vir. — Vamos nos trocar. Estou morrendo de frio. — Poucas vezes Rita sentia calor no que ela denominava “esse clima abandonado por Deus”.

— Não comece — retrucou Jeanie, irritada.

— Ah, querida, isso precisa ser dito novamente. Você não me ouviu na última vez. Por que permite que George a controle? Por que permite que ele faça isso e escape sem punição? Você é uma mulher forte e inteligente, Jeanie. Acorda. Essas pessoas são dissimuladas.

— Que pessoas? O que está querendo dizer?

— Pessoas como George — continuou Rita, destemida, enquanto atravessavam o parque. — Passivo-agressivos, controladores compulsivos. Quem conhece George imagina que ele seria incapaz de fazer mal a alguém. Ele é encantador, educado e divertido em sua maneira calma de ser.

Jeanie considerou aquela uma perfeita definição de George.

— No entanto, Jeanie, ele é... Para falar de uma forma educada, ele tem problemas. Ele é esperto demais para agir assim na minha frente, mas às vezes baixa a guarda. Você se lembra que ele tentou impedi-la de tomar um drinque e quase a levou embora antes de comer o pudim na semana passada?

Jeanie fez que sim com a cabeça.

— Bill e eu vimos que você não queria ir embora, mas permitiu que ele a controlasse. — A frustração de Rita transparecia na voz. — Por quê?

— Porque ele fica muito ansioso.

— Ansioso? — perguntou Rita, confusa. — Você é subserviente porque ele fica ansioso? Isso é ridículo. Ele estava ansioso com o quê?

Jeanie balançou a cabeça. Elas tinham alcançado o topo de Highgate Hill. Era ali que se separavam: Rita seguia para sua casa, em uma das ruas arborizadas em frente a Kenwood, e Jeanie se dirigia para o lado mais distante da Pond Square. Elas pararam na esquina, ao lado do ponto de ônibus.

— Não sei. George não era assim. — Jeanie teve muita vontade de finalmente contar à amiga sobre aquela noite em que ele a rejeitara, quando tudo mudara irreversivelmente, mas não queria acrescentar mais nada ao desprezo que Rita já sentia por seu marido. Nem ela sabia como explicar a grandiosidade do evento depois de tanto tempo. Ao longo dos anos, Jeanie começara a se perguntar se tinha exagerado. Sabia que muitas vezes os casais paravam de fazer sexo e passavam a dormir em quartos separados. No seu caso, tratava-se de um casamento longo. Mas, no fundo, ela sabia que algo importante acontecera com George naquele dia. Algo que ele não pôde contar a ela, mesmo sob toda a pressão que lhe impusera. E ela não fazia ideia do que podia ser.

— Bem — disse Rita, animada —, se nem sempre foi assim, ele não precisa agir dessa forma agora, certo?

Jeanie deu de ombros.

— Suponho que sim, mas não sei por que...

Rita esperou, mas Jeanie não continuou a frase.

— Querida, o ponto principal é que você não está velha, trabalha e com certeza não quer se mudar para o campo. Portanto, a situação está ficando séria. Ser tirada de um jantar é desagradável, mas não é fatal. Mas ser carregada para Dorset? O interior é terrível, não se esqueça: cheio de lama, de pessoas que julgam os outros pelas roupas que usam e de mercadinhos onde um repolho que está na prateleira há 18 meses custa duas vezes a dívida externa do país.

Elas caíram na gargalhada.

— Então, direi que não estou velha, não venderei minha loja e definitivamente não me mudarei para o campo.

— Oba! — exclamou Rita, erguendo uma das mãos e convidando Jeanie a comemorar. — Eu falo sério, Jeanie... Já está na hora de você se impor.

— George não é má pessoa, Rita, mas realmente não acredito que ele possa mudar e procurar ajuda — concluiu Jeanie.

A amiga limitou-se a revirar os olhos e afastar-se em direção à rotatória, dando-lhe um aceno de adeus e seguindo em frente, a bolsa com as raquetes de tênis batendo em suas costas.

Naquela noite, a sós na cozinha, preparando a salada para o jantar enquanto George continuava trancado com seus relógios, Jeanie lembrou-se das palavras de sua tia Norma sobre ter 60 anos.

A tia, única irmã de seu pai, recentemente completara 90 anos e ainda vivia feliz e independente em sua casa em Wimbledon. Uma mulher ainda muito ativa e esperta, com os olhos azuis penetrantes que Jeanie herdara, tia Norma trabalhara no MI5 durante a guerra e, depois, cuidara dos pais idosos. Quando chegou aos 60 anos, ambos tinham morrido, e ela, uma solteirona um pouco robusta, que usava luvas e chapéu, assumira um ar boêmio ao transformar sua sala de jantar em estúdio e começar a pintar.

— Sessenta anos é o paraíso — dissera a Jeanie uma vez enquanto tomavam um chá. — O mundo não quer mais saber de você, e, para todos os efeitos, você se tornou invisível, especialmente se for mulher. Gosto de pensar nessa fase como a terceira vida. Temos a infância, a conformidade adulta, com trabalho, família, responsabilidades, e, finalmente, quando todos imaginam que tudo acabou e que você virou sucata, a liberdade! Você pode finalmente ser quem é, e não o que a sociedade quer que você seja ou quem você acha que deveria ser.

— Isso não é um pensamento de outra geração? — perguntara Jeanie. — Nossa geração tem muita liberdade. Desde o feminismo, podemos fazer o que queremos.

Tia Norma sabiamente concordara.

— Pode mesmo? — Ela sorrira. Seus pequenos olhos azuis brilharam. — Parece-me que ainda existem expectativas em relação à família e a outras coisas. — E balançara a cabeça. — Mas quem sou eu para saber?