Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 7 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 7

 

Quando Jeanie chegou à loja, Jola a recebeu com alívio e gratidão. Havia uma fila de clientes diante do balcão, cada um fazendo malabarismos para segurar suas compras, mas todos orgulhosamente pacientes, como se a simples decisão de comprar nesse ambiente saudável, orgânico e puro os transformasse em pessoas melhores.

— Bom dia — disse Jeanie, reconhecendo um cliente habitual enquanto se apressava para abrir o segundo caixa. Durante algum tempo, ela e Jola trabalharam em silêncio para atender os clientes, mas não demorou muito a surgir um momento de calma.

— Quer um chá? — Jeanie encaminhou-se para a pequena cozinha no fundo da loja.

— Podemos conversar? — perguntou Jola. Ela aceitou a xícara de chá, mas parecia tensa. Há meses, Jeanie temia a conversa em que Jola anunciaria seu retorno à Polônia. Sabia que o namorado insistia para que voltassem para a terra natal e que até agora ela resistira à pressão. Jeanie pagava bem; segundo Jola, o dobro do que ganharia na Polônia. E ela adorava seu trabalho. Mas o namorado não conseguira se adaptar tão bem. Ainda falava mal o inglês e parecia se ressentir do sucesso da companheira, embora (ou talvez por isso) fosse sustentado pelo salário dela. Jola a encarava.

— Jean, acho que alguma coisa não vai bem com você e com loja.

Jeanie não sabia o que dizer.

— Não pude evitar e ouvi conversa ao telefone. Você disse à amiga que não quer mudar de Londres, mas não sei o que quis dizer. — Jola ajeitou os óculos de aros pretos com o rosto franzido de ansiedade.

Jeanie tentou se lembrar. O que teria dito? Logo lhe veio à memória: muito nervosa, contara a Rita sobre George ter marcado uma visita a uma casa na semana seguinte, insistindo que não tinha qualquer intenção de acompanhá-lo.

— Você não vai embora? Não vai deixar loja? — perguntou Jola.

Jeanie balançou a cabeça com vigor.

— Não, de jeito algum. Não deixarei a loja, Jola.

Ela não parecia convencida.

— Vou ser sincera — prosseguiu Jeanie. — George quer se mudar para o campo, mas não tenho a menor intenção de sair daqui. Garanto a você, Jola: não vou desistir da loja.

— Mas e marido? — Jola tinha crescido em meio a uma cultura muito mais tradicional.

— Ele não pode me obrigar — assegurou-lhe Jeanie, embora percebesse certa ansiedade em sua voz.

Jola sorriu.

— Fico feliz.

— E quanto à Polônia?

— Por enquanto não... Namorado conseguiu emprego. Também está feliz.

— Não esqueça que estaremos fora na semana que vem — lembrou Alex, que continuava se esforçando para ser amigável.

— Invejo vocês. A Bretanha é maravilhosa nesta época do ano.

Alex parecia melancólico.

— Creio que sim.

— Procure se animar.

— Estou cheio de trabalho. A galeria já avisou que vou perder a vez se não estiver com tudo pronto para setembro, e eles só conseguirão me encaixar no final do ano que vem.

Eles estavam no corredor. Ellie puxava a mão de Jeanie.

— Anda, Gin, vamo. Anda.

— Já vou, querida. Pegue seu guarda-chuva para irmos ao parquinho. — A neta andava obcecada com seu novo guarda-chuva verde, cheio de pequenos dinossauros, e carregava-o para onde quer que fosse, abrindo-o e fechando-o, independentemente do tempo.

Alex parecia querer dizer mais alguma coisa. “Chegou a hora”, pensou Jeanie. “Finalmente vou descobrir o porquê de sua recente simpatia.”

— Jean, eu estava pensando...

Jeanie ergueu as sobrancelhas em expectativa.

— É que eu preciso de mais tempo. — Alex correu a mão pelos cachos escuros, ambos convincentemente respingados de tinta numa variedade de tons azuis e verdes, e apoiou o corpo na parede ao pé da escada. — Eu estava pensando se você poderia ficar com Ellie em tempo integral até o fim do verão.

Jeanie engoliu em seco.

— O quê? Você quer dizer todas as tardes?

Alex abriu um sorriso, como que se desculpando.

— É que isso ajudaria muito. Como ela passa duas manhãs na creche, e você fica com ela uma tarde, não seria uma grande diferença. Sei que é pedir muito, mas Chanty não quer ouvir falar em Ellie ter uma babá, e não temos como pagar uma pessoa qualificada, ao menos não com essa situação econômica...

— Mas, Alex, eu tenho uma loja.

Ele deu de ombros.

— Sim, eu sei, mas Jola não pode administrá-la por alguns meses?

Jeanie teve dificuldade para acreditar que ele lhe pedia aquilo.

— Não, ela não pode. Ela sabe fazer muitas coisas, mas não sabe fazer encomendas nem cuidar da parte financeira. — Jeanie se interrompeu. Afinal, não precisava se justificar.

Alex desviou os olhos, mas ela viu os músculos de seu rosto se contraírem. Ele estava furioso.

— Posso ficar com ela mais uma tarde, se isso ajudar. — Apesar de seus sentimentos pelo genro, Jeanie compreendia a situação. — Sinto muito, Alex. Não estou sendo insensível, mas tenho um negócio. Não posso me afastar da loja por três meses seguidos.

— De qualquer maneira, se você se mudar para o campo, precisará abandoná-la. George certamente vai cuidar de qualquer déficit ou algo assim, não é?

— Essa não é a questão. — Jeanie precisou elevar o tom de voz diante do egoísmo do genro. — E, para sua informação, não vou me mudar para o interior.

Ellie já estava na porta, agarrada ao guarda-chuva, observando-os.

— Ah, quer saber? Esquece! — vociferou Alex. — Sinto muito por ter pedido.

— Se eu pudesse, ajudaria.

— Sim, claro. — Alex fitou-a com muita raiva e se afastou rudemente.

— Alex, por favor. Eu sei que tivemos nossas diferenças, mas não é por esse motivo que estou me recusando. Já disse que posso ficar com Ellie mais uma tarde.

— Não importa.

Alex forçou o caminho, passando por Jeanie no corredor apertado, e inclinou-se para beijar a filha, que aguardava pacientemente ao lado do carrinho de bebê.

— Divirta-se no parquinho, Ell. — E voltou, sem dizer mais nada, quase arrombando o pequeno portão que bloqueava o acesso à escada e seguindo em direção ao estúdio, que ficava no andar superior, subindo dois degraus por vez.

Jeanie ergueu Ellie no colo e abraçou-a antes de pegar o carrinho e descer os degraus.

— Papai zangado — comentou a menina, como se isso fosse incomum.

Temendo o que poderia dizer, Jeanie preferiu não responder.

Foi um alívio rever Ray. Jeanie ficara abalada com o rancor de Alex.

— Olá, que bom ver você. — Ao vê-la se aproximar, Ray levantou-se do banco no deque de madeira próximo ao lago.

“Ele está especialmente bonito”, pensou Jeanie. Ray usava uma camisa de algodão azul e jeans. Ela procurou o menino.

— Onde está Dylan?

— O pai o levou a um festival de música infantil que ele estava organizando.

— Mas você veio mesmo assim?

Ray sorriu.

— Eu não queria que você imaginasse que eu a estava evitando depois de... Bem, você parecia mal na última vez que nos vimos. Olá, Ellie.

Jeanie tirou Ellie do carrinho e começou a partir o pão em pedacinhos para os patos.

— Isso não faz bem a eles — comentou Ray, sério.

— É orgânico. Eu trouxe da loja.

Ele riu.

— O problema não é ser orgânico ou não, é o pão em si.

— É mesmo? Pensei que as pessoas alimentassem aves com pão.

Ellie mastigava, feliz, o pedaço de pão de centeio envelhecido que Jeanie lhe dera.

— Joga para os patos, querida.

A neta cuidadosamente passou um pedaço através da rede que cobria a cerca e enfiou a sobra na boca.

— Sim, as pessoas os alimentam com pão, mas isso não significa que seja bom para eles. Ao que parece, fica preso no intestino, e eles adoecem. Se você pensar, faz sentido. Pão é um alimento processado.

Jeanie refletiu sobre aquela informação.

— Eu deveria saber disso. Afinal, tenho uma loja de alimentos naturais.

— A loja é para pessoas, não para patos.

Eles riram. Por um instante, seus olhos se encontraram. Como não desviaram o olhar, Jeanie sentiu a respiração ficar retida em seu peito e o coração bater forte contra as costelas.

Ela finalmente afastou os olhos e sentou-se no banco, ciente de que estava trêmula. Ray continuava junto à cerca, com os cotovelos escorados no corrimão de madeira. Ele fitava o rosto rubro de Jeanie de uma maneira perturbadora.

A menina corria pelo deque à caça dos pombos, imersa na exuberância de sua liberdade.

— Tive mais um desentendimento com meu genro. — Jeanie começou a contar, dizendo qualquer coisa que lhe viesse à mente e evitando o olhar de Ray.

— Você mencionou que o relacionamento com ele é difícil.

Jeanie confirmou, desejando que seu coração se acalmasse.

— Ele me pediu para cuidar de Ellie todas as tardes para que possa pintar.

Ray olhou para ela sem entender, com um sorriso suave.

— E isso é ruim? — perguntou. Logo, porém, percebeu que Jeanie se indignara. — Tenho certeza de que sim.

— É claro que sim — replicou ela asperamente. — Ninguém parece notar que administro uma loja.

— Então sua resposta foi não.

— E ele foi muito desagradável comigo. Mas agora me sinto culpada. Sei que ele é irritante, mas não deve ser fácil cuidar de uma criança e preparar uma exposição. Ellie parece incapaz de fazer qualquer mal, mas ela não para.

— Ela não pode ficar com uma babá?

— Chanty não quer nem ouvir falar em babá. Ellie já passa duas manhãs por semana na creche.

— Faça o que puder para ajudar, mas, no fundo, o problema é deles.

Jeanie olhou para Ray e concordou.

— Tem razão. O problema é deles, eu acho. Mas não quero que Alex volte a causar atritos entre Chanty e eu, dificultando minhas visitas a Ellie.

— Talvez você devesse confiar mais no seu relacionamento com sua filha.

— Devo parecer paranoica, não é? — Jeanie suspirou. — É que foi um inferno quando brigamos. Eu não suportaria passar por tudo novamente. — Ela contou sobre o comportamento de Alex antes do nascimento de Ellie.

— Veja bem, não sou um exemplo, Jeanie. Repito para mim mesmo que devo confiar em Nat. E, no fim, creio que eles nos querem em suas vidas tanto quanto nós.

— Certo. — Jeanie levantou-se, resoluta e ansiosa para evitar qualquer intimidade a mais, mas teve a ridícula sensação de que conhecia esse homem há muitas vidas. — Vamos para o outro parquinho; assim Ellie terá o que fazer.

— Tonco balança, tonco balança... — cantarolava Ellie quando chegaram ao topo da colina.

— Estou impressionado — disse Ray. — Dylan não consegue se equilibrar nessa ponte de troncos.

— Ela está falando daquela outra mais plana, mais segura, não da outra, que é instável demais.

Enquanto Jeanie segurava a mão da neta, que caminhava pelos troncos suspensos, as batidas de seu coração voltaram ao normal, mas ela não ousou fitar Ray.

— Agora você — sugeriu Jeanie, apontando para os troncos redondos e lisos que balançavam indolentes em suas amarras, desafiando todos os que se aproximavam.

— Se você segurar minha mão... — disse ele, sorrindo.

— Sem chance. Veja, Ell... — Jeanie mostrou Ray à neta. — Ray vai caminhar pelo tronco que balança e não pode cair.

Jeanie não acreditava que ele conseguiria, mas, sem dizer nada, Ray subiu com muito jeito no bloco de sustentação, estendeu os braços para os lados, como se fosse um acrobata na corda bamba, e colocou o pé nos troncos, com muita calma. Eles quase não se moveram quando ele passou e apenas balançou um pouco sob o peso. Quando Ray alcançou a outra extremidade, Jeanie ouviu palmas, e, ao se virar, viu um grupo de adultos e crianças que se aproximaram para assistir à apresentação.

Um menino pulava sem parar, entusiasmado.

— Repete, repete!

Ray hesitou.

— Está bem. Mais uma vez.

— Exibicionista! — exclamou Jeanie quando a plateia se foi.

— Você me obrigou.

— É verdade. Quando você aprendeu a fazer isso?

— Eu fugi quando era criança e me juntei a um circo.

Jeanie o encarou muito séria.

— Está bem. Sou treinado em aikido: firmeza e equilíbrio.

— Artes marciais?

— É, mas não muito marciais. Aikido é também espiritual. Um dia eu explico. Tenho uma escola, um clube, em Archway.

Jeanie começou a entender a origem daquela impressão de calma aprendida e o evidente preparo físico de Ray.

Ellie viu dois meninos mais velhos e começou a segui-los, cautelosa, junto às árvores que limitavam o parquinho.

— Chanty e Alex vão viajar para a Bretanha na semana que vem, portanto não virei — disse Jeanie sem olhar para Ray. Estava nervosa com a proximidade dele.

— Venha mesmo assim.

— O que quer dizer? — perguntou ela com os olhos fixos nele.

— Quero dizer... Venha, Jeanie. — A voz de Ray ficou baixa e intensa; seus olhos verde-claros, como os olhos de Dylan, eram vivos.

— Eu... não posso.

— Não pode ou não quer?

Jeanie suspirou, exasperada.

— Ray, sou casada. Não posso marcar encontros com você. Eu mal o conheço.

— Mas é só para um drinque! Eu não estava sugerindo nada inadequado, se bem que... — Ele sorriu ao ver o olhar furioso de Jeanie. — Só para um drinque — repetiu, claramente pesaroso.

A risada de ambos foi forçada e tensa. Jeanie passou os olhos pelo parquinho e se perguntou se as outras pessoas não estavam vendo o que acontecia entre ela e esse homem que a angustiava.

— Lamento — disse Ray, percebendo a aflição repentina de Jeanie. — Foi um impulso. Eu... É que faz algum tempo que não me sinto assim. Achei que poderia ser divertido.

— Já disse que não posso. — A resposta, porém, trazia certa relutância, que não passou despercebida.

Jeanie observou-o pegar um cartão no bolso da jaqueta.

— Se mudar de ideia... — disse ele ao entregar-lhe o cartão.

O caminho passou sem que Jeanie percebesse. Seu corpo, enquanto o cartão de Ray queimava no bolso do jeans, parecia ter voltado à vida, como se cada célula tivesse sido ativada, saindo de um longo torpor. A realidade era que, pela primeira vez em dez anos... Aliás, não, corrigiu-se Jeanie, pela primeira vez em toda a sua vida, ela se confrontava com um desejo físico que ameaçava fazer seu coração parar de bater.

Lembrou-se de que o namoro com George fora sereno. Ele a envolvera com seu galanteio tranquilo — abria as portas para ela, recusava-se a deixá-la pagar qualquer coisa ou a voltar para casa sozinha. Isso, na época em que se queimavam sutiãs, no auge do feminismo extremo. E ele fora um companheiro divertido e prazeroso, que planejava cada saída como uma operação militar, levando-a ao teatro, ao parque, ao cinema para assistir a filmes estrangeiros, a pubs à beira do rio. O trabalho de Jeanie como enfermeira era estressante e exaustivo, além de mal-remunerado, e era uma tranquilidade saber que George a buscaria no final do dia em seu MG branco conversível e a levaria para mais um divertimento.

Depois, o pai de Jeanie morreu. De repente, enquanto preparava mais um sermão, ele simplesmente apagou após um ataque cardíaco fulminante. Como ele não respondia ao chamado para o jantar, sua mãe, uma pessoa perturbada, foi atrás dele e encontrou-o morto, com o rosto caído no texto. George acompanhou Jeanie até Norfolk e se encarregou de todos os detalhes, desde conseguir os coveiros, informar os parentes e providenciar pãezinhos com ovos e presunto para aqueles que ficariam acordados até levar a certidão de óbito à prefeitura. Ele não se aproveitou da tristeza de Jeanie e da mãe, apenas ofereceu seu apoio. E Jeanie se apaixonou.

Com George, porém, a atração física foi muito diferente. E, agora ela refletia, não se comparava aos fogos de artifício que um olhar de Ray lhe provocava. Quando abriu o portão branco que levava à casa de Ellie, Jeanie mal conseguia lidar com as emoções complexas que estava experimentando.