Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 15 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 15

 

Ray telefonou na manhã seguinte, quando Jeanie descia a colina em direção ao hospital.

— Como ela está?

— Falei com Chanty uma hora atrás. Pelo que entendi, está bem. Estou indo para o hospital agora, para dar um descanso a ela. Minha filha disse que Ellie não tem muito apetite e está muito sonolenta, mas isso é esperado quando há traumas na cabeça. Chanty parecia muito mais aliviada.

— Graças a Deus... Aliás, adorei imaginar você como enfermeira. — Jeanie pôde ouvir uma risada travessa.

— Por causa das meias de seda preta? Naquela época, eram mesmo feitas de seda — disse Jeanie, rindo.

— Ei, não me excite. Você deve ter levado os pacientes à loucura.

— Obrigada pelo voto de confiança, mas a maioria deles tinha menos de 10 anos. Lembra-se de que contei que trabalhava na Great Ormond Street?

— Ainda assim...

— Ray — Jeanie interrompeu a brincadeira —, acho que Chanty sabe, ou ao menos desconfia, de nós.

— Por quê? O que ela disse?

— Nada, mas Alex finalmente confessou que você não é um molestador de crianças. Ele aparentemente se “confundiu”. E mencionou que você tinha avisado sobre Ellie e que ele se recusou a ouvir. Foi um verdadeiro show.

Jeanie ouviu Ray assobiar.

— Caramba! Como sua filha reagiu?

— Você pode imaginar.

— Ao menos ele finalmente contou a verdade.

— De qualquer modo, seu nome foi mencionado por todos, e houve um instante em que ela me encarou e não disse nada.

— Talvez seja paranoia. Não foi um dia fácil. — Jeanie o ouviu suspirar. — Jeanie, não diga mais do que o necessário se ela a provocar. Você sabe que a máxima “nunca se desculpe, nunca se explique” já se provou eficaz e confiável. Ninguém tem provas. E nós não fizemos o principal... Ainda.

— Não posso mentir para minha filha, Ray — explicou Jeanie, ignorando a última frase dele.

— Você já mentiu.

A franqueza da afirmação dele, embora verdadeira, surpreendeu Jeanie.

— E se ela perguntar?

— Com tudo o que aconteceu, ela dificilmente vai querer descobrir que nós... estamos nos vendo.

A frase de Ray minguou, e Jeanie entendeu o motivo. Não havia uma boa maneira para descrever a relação entre eles sem recorrer a rótulos desconfortáveis sobre seus momentos juntos, tais como “caso”, “infidelidade”, “traição”, “apaixonados”... E, claro, “amor”. Nenhuma dessas palavras — e ao mesmo tempo todas elas — podia ser aplicada.

— Como terminou a conversa com Alex? — perguntou Ray, incitando-a a contar.

— Chanty o mandou embora, furiosa. Foi uma estupidez ele contar sobre você naquela hora, porque ela já estava a ponto de perdoá-lo por não ter cuidado de Ellie. Mas ele sabe como manipulá-la. — Jeanie fez uma pausa quando um ônibus passou. — Ele parece se sentir muito culpado. De qualquer modo, tenho certeza de que ela vai perdoá-lo; ela sempre o perdoa, por pior que seja o erro dele.

— E perdoará você também?

Fez-se silêncio.

— Eu não tenho o talento de Alex.

Jeanie partilhava o temor de Ray de que uma revelação pudesse significar o fim.

— Chanty não tem nada a ver com isso, mas infelizmente ela não verá a questão dessa forma.

— Não deixe de me contar as novidades.

— Farei isso.

Eles continuaram ao telefone, sem dizer nada.

— Jeanie? — Ray não disse mais nada. Não precisava.

— Tchau, Ray.

Chanty tinha uma aparência cansada, muito pior que Ellie, que parecia estar quase recuperada. Seu rosto estava muito corado, e Jeanie concluiu que isso devia ser consequência da atmosfera quente e fechada do quarto e do edema em si.

— Conseguiu dormir um pouco?

Chanty balançou a cabeça, sem energia.

— Sem chance. Mas eu não teria dormido ainda que estivesse no Ritz.

— Eu trouxe um cappuccino.

Chanty tomou o café como se fosse água encontrada no deserto.

— Ah, obrigada, mãe. Você não sabe como está bom.

— Por que não vai tomar um banho e dormir? Eu fico com Ellie. — Jeanie inclinou-se para beijar a neta. — Bom dia, bonequinha. — Virando-se para a filha, continuou: — Os médicos já decidiram alguma coisa?

— Eles vêm por volta das onze horas, segundo a enfermeira Julie. Talvez seja melhor eu ficar. — Chanty olhou para a filha com adoração e medo. Jeanie sabia que ela tinha passado pela pior experiência que qualquer mãe poderia enfrentar. — Você nos deu um belo susto, sabia? — disse ela carinhosamente, afastando o cabelo que caía sobre a testa da filha. Ellie afastou a mão, ignorando-as, pois estava ocupada construindo uma torre de Lego. — Você acha que ela se importa se eu sair um pouco?

Jeanie assumiu uma expressão de dúvida.

— Tenta. Você sempre pode voltar.

O dia passou lentamente. Jeanie cedeu ao pedido de Ellie para repetir pela quarta vez a história que estava lendo, tentando torná-la levemente diferente para não enlouquecer: “Suich, suach, fez o rabo do jacaré quando ele passou pela porta; snip, snap, fizeram os dentes. As crianças estavam com medo? Pode apostar que sim...”

— De novo — pediu Ellie, empurrando o livro no rosto de Jeanie.

— Desta vez, você vai me contar a história — sugeriu Jeanie, esperançosa.

Ellie pensou na possibilidade.

— Hum, difícil. Conta você, Gin. É bunito você.

— É bonito quando eu conto? Está bem, mais uma vez.

— Bigada, Gin. — Ellie sorriu, triunfante, sabendo que tinha vencido e sem se importar com nada mais.

Na ronda daquela manhã, os médicos declararam que ela estaria em condições de ter alta no final do dia, desde que fosse mantida em repouso total em casa. Mas já eram quase cinco da tarde e Ellie ainda esperava a alta do médico.

— Tudo pronto? — George apareceu, balançando as chaves do carro e acenando para a neta num cumprimento alegre. — Tive que parar em uma vaga proibida, para entregas ou algo assim, portanto é melhor irmos.

— Precisamos esperar. Ela ainda não recebeu alta oficialmente. — Chanty franziu a testa e olhou para o relógio do quarto pela milionésima vez. — Onde está o médico?

— Então vou estacionar em outro lugar. — George caminhou até a porta. — Telefonem. Vou esperar no carro, em uma das ruas laterais. Ele não deve demorar, não é?

— Acho que na verdade é “ela”, uma pediatra — disse Jeanie, distraída. Nem Chanty nem George pareceram ouvi-la, e ela se perguntou se tinha mesmo falado alguma coisa. Sua mente andava esgotada com a possibilidade de seu segredo ser descoberto. Será que Chanty mencionaria Ray na frente de George para testá-la?

Naquela noite, Jeanie se olhou no espelho e percebeu que seu rosto estava tenso, com os traços marcados e as rugas acentuadas. Seus olhos estavam caídos por causa do cansaço. Tinha a sensação de que sua vida começava a desmoronar. Na volta do hospital, após deixar Chanty e Ellie em casa, George vira a filha tratar mal o marido e não aprovara sua atitude.

— Sei que Chanty está sob grande pressão, mas não precisava tratar tão mal o pobre Alex. Afinal, ele está passando pela mesma pressão.

Chanty havia repreendido cruelmente o marido por ele ter aberto a porta e tentado pegar Ellie, que estava no seu colo.

— Ela está irritada porque ele foi a uma reunião depois do tombo de Ell.

George olhou para Jeanie enquanto buscava uma vaga para estacionar o carro.

— Não era você quem estava com Ellie quando ela caiu?

— Não, eu cheguei pouco depois. Outra pessoa explicou a Alex que era bom Ellie ser examinada por ter batido a cabeça, mas ele ignorou o conselho e foi embora para sua reunião.

— Agora posso entender por que Chanty estava tão zangada. Quando aquele rapaz vai aprender?

Jeanie enfureceu-se com a inesgotável tolerância de George.

— Ele não é um rapaz, é um homem de 42 anos.

— Está bem, não precisa se exaltar. No fim das contas, não houve nenhum dano, certo?

O telefone de Jeanie tocou no instante em que George dava ré para entrar na vaga. Ela não estava de óculos e não pôde ver o número, mas tinha certeza de que era Ray.

George tinha desligado o motor e a observava.

— Pode ser Chanty — disse ele ao notar que ela não atendia.

— Não é. Não reconheci o número e não estou com humor para conversar agora.

— Quer que eu atenda e diga que você está ocupada? — ofereceu George, estendendo a mão para pegar o celular.

Jeanie apressou-se em jogar o aparelho na bolsa.

— Não! Obrigada.

George deu de ombros, mas, quando saiu do carro, Jeanie concluiu que, de agora em diante, teria que ficar atenta em todas as conversas com a família para evitar que Ray fosse mencionado.

Jeanie escovou o cabelo, passou creme no rosto, no pescoço e em volta dos olhos e examinou a pele com muita atenção. Logo, com um suspiro, afastou o olhar do espelho que a lembrava de sua idade. Disse a si mesma que devia estar louca por acreditar que alguém, ainda mais um homem atraente como Ray, podia achar sexy uma bruxa velha como ela. “Só não permita que ele pergunte se pode ser meu ‘amigo’”, suplicou na escuridão.

Rita finalmente havia retornado das duas semanas em Antígua. No reduzido maiô vermelho, seu corpo tinha um bronzeado invejável. Jeanie, contudo, expunha o corpo pela primeira vez naquele ano. Vestira o maiô preto esportivo com certa dificuldade, terrivelmente consciente da brancura de sua pele e das celulites. Durante o verão, Rita levava a amiga para nadar nos lagos de Hampstead tantas vezes quanto o clima permitisse. Ela insistia que o lago reservado para mulheres era o melhor, ainda mais rodeado pela vegetação agreste de Hampstead Heath e com os patos chapinhando felizes em meio aos nadadores. Parecia mesmo um recanto isolado, diferente dos demais lagos. Jeanie teve a sensação de pertencer a um clube privado, apesar de a entrada ser quase livre — uma elite cujos membros eram mulheres de caráter, fortes, competentes e honestas.

Era mais um dia quente. Jeanie sabia que a água estaria gelada. Depois do choque inicial, porém, seria deliciosamente fresca, e sem o cloro pegajoso de uma piscina.

Rita caminhava à frente dela.

— Anda, sua covarde — gritou ela quando Jeanie hesitou, com os dedos dos pés na escada de madeira que balançava dentro da água, segurando com firmeza o corrimão de metal gelado. As outras nadadoras se viraram para ver, e, sem escolha, Jeanie foi obrigada a mergulhar.

— Uau! — exclamou ela, e logo começou a nadar crawl para agitar a circulação sanguínea.

Após algum tempo, elas começaram a nadar lado a lado, até a outra margem do lago, na companhia de um casal de patos silvestres.

— Pobrezinha. — Jeanie acabara de contar a Rita sobre Ellie. — Deve ter sido horrível.

Quando ela terminou de contar o restante dos dramas daquele dia, ambas estavam cansadas de nadar.

— Não posso deixar você sozinha por um instante! É só eu viajar por duas semanas e a sua vida desmorona — reclamou a amiga depois que se secaram e partiam em busca de um sorvete.

O café próximo ao lago estava lotado, como sempre, com uma multidão de crianças e cachorros.

— Vamos caminhar em vez de sentar aqui — decidiu Jeanie. — Vou comprar os sorvetes. Uma ou duas bolas?

— Duas, claro. Vamos mandar a força de vontade para o espaço.

Enquanto circundava as mesas, Jeanie avistou um homem de costas na fila, e percebeu que era Ray. Ele estava com Dylan e outro menino; as duas crianças, obviamente inquietas, se apoiavam no balcão de bandejas, até o amigo de Dylan, sem querer, jogar ao chão uma bandeja que, felizmente, só tinha um sanduíche de atum e milho em um recipiente de plástico.

— Muito bem... Esperem por mim lá fora — disse Ray. — Mas não se afastem; fiquem perto das mesas. — Ray mostrou o caminho, e eles, obedientes, fizeram o que ele pediu. Quando ele se virou para verificar se estavam bem, viu Jeanie e saiu da fila.

— Estou com minha amiga Rita — informou ela, olhando, nervosa, ao redor.

— E você não quer que eu a conheça? — O sorriso receptivo murchou.

— Não. Quero dizer, sim, eu adoraria que você a conhecesse, mas...

Ray aguardou, obviamente magoado.

— Você disse que ela sabe sobre mim.

— É, mas seria estranho. — Jeanie não sabia por que não queria que Rita conhecesse Ray.

— Está bem. Você é quem sabe. — Ele passou a mão pela cabeça. — É melhor eu pegar uma bebida para os meninos antes que eles provoquem alguma catástrofe — disse ele com um sorriso forçado.

— É só que... — “Só que o quê?”, ela se perguntou.

Enquanto Jeanie refletia, Ray se foi, sem sequer comprar as bebidas, conduzindo os meninos para longe do café em uma marcha apressada. Jeanie viu Dylan protestar diante da decisão do avô.

— E os sorvetes? Você demorou um século! — disse Rita, surgindo ao lado de Jeanie.

— Aquele era Ray.

— Onde? Quem? Para que lado ele foi? — Rita o procurava, ansiosa. — Por que não nos apresentou, querida?

— Não sei... Eu... Espere aqui. — Jeanie correu na direção que Ray havia tomado. Não demorou muito a vê-los, caminhando rumo ao lago.

— Ray! Ray! Dylan!

Os três se viraram. Dylan abriu um amplo sorriso, mas Ray, não.

— Olá. — Ela estava sem ar, tanto por causa da ansiedade quanto pela corrida.

— Oi, Gin — cumprimentou Dylan, adotando o nome pelo qual Ellie a chamava.

— Esse é Ben. — Ray apresentou o menino de cabelo claro. — É um amigo de Dylan.

Ray e Jeanie se olharam por tanto tempo que os meninos perderam o interesse neles e seguiram adiante.

— Por favor — continuou ela —, venha conhecer Rita.

— Você não parecia tão entusiasmada antes — comentou Ray, sem expressão definida.

— Eu não queria que você fosse escrutinado — explicou Jeanie.

— E que achassem que não sirvo para você?

Jeanie baixou os olhos.

— Eu não quis dizer isso; não é uma questão de julgamento. E, mesmo que fosse, acho que você é o homem mais maravilhoso do mundo. Como pode pensar que me envergonharia? — Suas palavras já estavam no ar quando ela percebeu o que dissera.

— Jeanie... — Ray não tentou tocá-la, mas ela queria desesperadamente segurar a mão dele. — Se você não se sente confortável, tudo bem.

Jeanie o encarou.

— O que temos é sagrado. Eu não queria que ninguém mais, ninguém que pertence à minha outra vida, fizesse parte disso, de você.

Ray concordou, mas Jeanie viu que ele não havia entendido.

— Rita é uma grande amiga, mas ela é humana, e, à sua maneira, acha que tudo é motivado por sexo.

Ray deu uma risada.

— Você não está falando coisa com coisa.

Jeanie riu de um jeito hesitante.

— Você não entende. Você seria visto como meu amante. Todos o olhariam com olhos escrutinadores e o observariam nos mínimos detalhes. Não é assim que deve ser.

— Está bem. Isso está ficando intenso demais. — Ray olhou ao redor em busca do neto. — É melhor eu ir embora. Eles estão se distanciando demais. — Ele a fitou por mais um tempo. — Eu disse que não poderia haver nenhum plano bom. — E, quando se virou, encostou no braço nu de Jeanie.

— Tchau. — Jeanie esperou Ray se afastar e voltou para o café, onde a amiga esperava, impaciente, sentada no muro.

Rita apenas ergueu as sobrancelhas.

— Acabei de fazer uma asneira. Ray achou que tenho vergonha dele.

— E tem?

— Claro que não!

Foi a vez de Rita se ofender.

— Então o problema é comigo? Não sou legal o bastante?

— Ah, com certeza — respondeu Jeanie, com a voz cansada.

— De qualquer modo, vi vocês daqui enquanto conversavam. Ele é fofo.

— Fofo? — Jeanie estava muito longe, pensando em Ray.

— É uma gíria moderna que designa o quanto alguém pode ser atraente do ponto de vista sexual, geralmente usada pela juventude idiota quando fala com seus amigos igualmente idiotas — explicou Rita.

— Está bem. — Jeanie cobriu o rosto com as mãos. — Ah, Rita, eu estraguei tudo. Ele ficou sentido. O que posso fazer? Devo telefonar?

Rita levantou-se, pegou o braço de Jeanie e começou a conduzi-la pelo caminho asfaltado.

— Não faço ideia, querida. Vocês estão se comportando como adolescentes. Lavo as minhas mãos.

Fazia uma semana que Ellie voltara do hospital. Estava cheia de energia e sem qualquer sequela da batida na cabeça, exceto por uma pequena mancha roxa na têmpora, que já se amarelava. Jeanie a visitara muitas vezes e encontrara Alex e Chanty. Segundo a tradição da família Lawson, nada mais foi dito sobre o assunto. É verdade que Alex andava calado, e Chanty, um pouco alegre demais para a paz de espírito da mãe. Ela não permitia intervalos de silêncio nas conversas, como se temesse o que poderia surgir para preenchê-los. Jeanie sabia que Chanty ruminava alguma coisa em sua mente, mas também que ela tinha muito em que pensar. O telefonema que Jeanie temera desde aquele dia no hospital aconteceu quando ela fazia um chá na cozinha da loja.

— Alex se ofereceu para ficar com Ellie. Quer jantar comigo hoje? — Ela fez uma pausa. — Sem o papai.

— Eu adoraria. — Jeanie sentiu a respiração acelerar. — O que devo dizer a George? Ele vai querer me acompanhar.

— Diga que é noite das mulheres. Ele vai entender. — Sua voz não trazia hostilidade, mas era nitidamente tensa.

Alguém ao fundo chamou Chanty, e ela passou a falar como uma profissional.

— Preciso ir, mãe. Podemos nos encontrar às oito no restaurante francês da colina?

— Claro, já estou animada — respondeu Jeanie, embora nenhuma resposta pudesse estar mais distante da verdade. Sabia que Chanty estava abalada pelos últimos acontecimentos e tinha consciência de que traria à filha ainda mais sofrimento, mas isso não parecia suficiente para impedi-la de ver Ray.

O incidente com Rita no parque abalara a harmonia perfeita que ela achava que sempre existiria entre ela e Ray. Jeanie sabia que fora consequência da situação em que se encontravam, mas ver a expressão sofrida de Ray quando ela se recusou a apresentá-lo à amiga fora como receber uma bofetada. Quando relembrava o acontecido, ela mesma não conseguia entender, não mais do que ele ou Rita, o motivo de sua recusa a apresentá-los. E, como Rita perdera a paciência, horas se passaram até ela estar a sós e telefonar para Ray.

Jeanie separou-se da amiga na base da colina e correra para casa, ansiosa para chegar ao santuário de seu banheiro trancado. Como a adolescente que Rita a acusara de ser, ali pôde chorar. Quando finalmente digitou o número de Ray, ainda tinha a voz engasgada pelo remorso.

— Tudo bem, Jeanie — assegurou-lhe ele, porém sua voz era fria. — Nós sabíamos que não seria fácil.

— Mas você sabe que eu não o faria sofrer por nada neste mundo.

— Meu ego foi temporariamente ferido. Bem-feito para mim por ter um ego — brincou ele.

— Não era vergonha de você.

— Sim, eu sei.

— Odiei aborrecer você — murmurou Jeanie, sem conseguir evitar as lágrimas.

— Jeanie, por favor, não chore.

— Já conversamos sobre isso, mas o que somos afinal? — Ela riu. — Até Rita nos chamou de adolescentes.

— Sim, e, como qualquer caso adolescente, pode ser difícil e sem dúvida é intenso, mas eu não ficaria sem você.

— Nem eu.

O restaurante francês estava vazio, mas o pequeno jardim murado nos fundos estava lotado; o barulho das vozes e do tilintar dos copos e talheres era intenso. O céu estava carregado, mas ainda fazia calor. A umidade era grande, e os mosquitos pairavam sobre as velas das mesas. Chanty já estava ali, em uma mesa ao canto, debruçada sobre o BlackBerry, sempre trabalhando. Quando Jeanie chegou, ela sorriu para a mãe e guardou o telefone.

— Salva pelo gongo — disse ela, obviamente aliviada por ter uma desculpa para desligar.

Jeanie encontrou uma garrafa de vinho branco já aberta e um balde de gelo ao lado da mesa. O copo de Chanty estava quase vazio. A filha pegou a garrafa e serviu-as.

— Gostei do lugar — comentou Jeanie, experimentando uma sensação genuína de bem-estar ao sentar-se à luz fraca com a filha querida. Talvez Chanty sentisse o mesmo e não quisesse estragar o momento, pois não falaram durante algum tempo.

— Como está Ellie?

— Mãe, você esteve com ela ontem — brincou Chanty, sabendo perfeitamente que a mãe poderia conversar sobre a neta até o fim da noite e ainda assim não seria o suficiente.

— Só estava perguntando. Sendo mais direta, como você está, querida? Essa semana deve ter sido difícil. — Jeanie não especificou a qual dos pesos sobre os ombros de Chanty se referia.

— Não estou propriamente bem — respondeu ela, com sua habitual franqueza. — É difícil esquecer o que Alex fez.

Jeanie aguardou.

— Eu sei que você sempre o considerou um idiota e deixou isso claro, portanto não quero ouvir um discurso sobre os defeitos dele — prosseguiu Chanty. — Não sou burra, mãe. Tenho plena consciência de que às vezes ele é egoísta. — Jeanie achou que valia a pena dizer que aquela descrição estava muito aquém da realidade, mas seguiu as instruções de Chanty e não disse nada. — Mas o que ele disse poderia ter consequências permanentes na vida de Ray... A síndrome de “onde há fumaça, há fogo”. E me pergunto se Alex teria contado a verdade se Ellie não tivesse ficado doente.

— Tenho certeza de que ele nunca teria permitido que você envolvesse as autoridades — afirmou Jeanie.

Chanty encarou a mãe.

— Tem mesmo?

— Hum... tenho. Ele é egoísta, mas não é uma pessoa ruim, embora, para mim, o egoísmo seja uma espécie de mal. Ele ficou ressentido quando seu ego foi ameaçado por outro homem e agiu com infantilidade. Mas nunca permitiria que aquilo fosse além.

Chanty riu com ironia.

— Você apoia e condena Alex ao mesmo tempo, mãe. Muito inteligente.

— Não estou tentando ser inteligente, mas, querida, você não se apaixonou por esse homem por ele ser abnegado e altruísta.

— Não. Eu sempre soube exatamente como ele é. Por isso costumo perdoá-lo, porque não tenho nenhuma expectativa fantasiosa.

Jeanie achou aquilo triste. Por que Chanty escolhera um homem assim? Alex era muito diferente do pai dela.

Chanty viu a expressão da mãe.

— Parece terrível, não é?

Jeanie concordou.

— Alex não foi uma segunda opção, mãe. Eu o amo, mas também o compreendo, é isso o que quero dizer. Ele tem defeitos e teve uma infância horrível. O pai foi embora quando ele tinha 4 anos. Eles não se viram até Alex completar 16 anos, quando se encontraram para um café numa lanchonete na A3, e foi só. O pai morava em Guernsey e era dono de um negócio de táxis bem-sucedido, mas o medo que tinha da ex-mulher era tanto que ele fez Alex prometer que nunca contaria sobre o encontro. Alex gostou dele e queria manter contato, mas o pai nunca mais o procurou nem atendeu seus telefonemas. — Chanty respirou fundo. — A mãe dele era obsessiva e controladora, um verdadeiro monstro. Alex conta que ela o monitorava em tudo, que, ao mesmo tempo que era carinhosa, batia nele e satisfazia a todos os seus caprichos. Desde pequeno, a mãe fazia com que ele se sentisse responsável por ela e, se estava triste ou irritada, dava a entender que a culpa era dele. Pela manhã, ele tinha que ajudá-la a escolher as roupas que usaria e depois elogiá-la. Um horror... Ela chegou ao ponto de fingir que ele tinha um problema cardíaco para mantê-lo em casa e evitar que ele praticasse algum esporte ou participasse de qualquer atividade física.

— Isso explica muita coisa. Não é para menos que ele seja tão cauteloso comigo, uma figura materna. Por que não me contou isso? Eu poderia ter sido mais compreensiva.

— Ele também não me contou até eu conseguir que ele começasse uma terapia. Foi minha condição para ele voltar depois que Ellie nasceu. O triste é que Alex não achava isso estranho até então. Ele sabia que a mãe era pegajosa e possessiva, e ela me odeia, como você pode imaginar, mas essa foi a realidade em que ele cresceu. Ele tem me contado histórias inacreditáveis.

Por um instante, Jeanie se perguntou se as confissões do genro eram mesmo verdadeiras, mas Chanty, como sempre, estava um passo à sua frente.

— Não, mãe, ele não inventou essas coisas. Conversei com a tia dele, com quem ele foi morar quando a mãe adoeceu. A essa altura, ele já tinha 14 anos, e ela percebeu o que estava acontecendo. O médico examinou o coração dele e a mentira foi descoberta. Mas já era tarde demais... O estrago estava feito.

— Mas ele ainda vê a mãe. Eu me lembro que vocês a visitaram no último Natal.

— É verdade. É a única ocasião em que ele a vê: uma visita de uma hora na véspera do Natal. Ele entra em depressão uma semana antes e é terrível comigo, muito tenso e irritado. Como você sabe, ela agora bebe, por isso nós vamos cedo. Ela entra numa onda de culpa, diz que era a “melhor mãe do mundo”. A visita é sempre um pesadelo; ela não consegue nem lembrar o nome de Ellie. Acho que já contei que no ano passado ela revelou que o pai de Alex era gay.

Jeanie confirmou, rindo.

— Eu me lembro. Talvez vocês nunca venham a saber se ele era mesmo gay ou não.

— Exatamente. Alex não acreditou porque ela sempre o envenenou contra o pai.

— E a terapia?

Chanty balançou a cabeça.

— Ele fez duas sessões, mas se recusou a continuar, dizendo que o tratamento poderia ter consequências ruins para o trabalho.

— Aquela velha história. Embora talvez ele tenha razão. O talento de um artista em parte é uma habilidade aprendida, mas depende muito de suas emoções. — Jeanie acariciou a mão da filha. — Por que não se casou com um neurocirurgião, querida?

— Você acredita na sanidade mental dessas pessoas? Alguém cuja zona de conforto é fazer buracos no crânio das pessoas e ficar fuçando a parte do corpo que nos faz funcionar? Quem ousaria acreditar nisso?

— É, talvez não. Que tal um paisagista então? Ou quem sabe um marceneiro? Há evidências de que eles são confiáveis.

O garçom estava ao lado da mesa, com seu bloco, sorrindo pacientemente enquanto elas tentavam controlar o riso. Chanty pediu frango, e Jeanie, o salmão com lentilhas.

— Falando sério, talvez você precise de ajuda profissional.

— Do tipo terapia de casal? — Chanty balançou a cabeça. — Sem chance.

— Não, eu quis dizer para conseguir que Alex volte para a terapia. Porque você tem razão. O que ele fez foi muito sério; ele agiu sem mais nem menos, por capricho. E precisa de ajuda.

Jeanie viu o cansaço nos olhos da filha.

— Você tem razão — concordou Chanty, suspirando. — Eu sempre acho que vou conseguir torná-lo uma pessoa melhor e que, se o amar o bastante, ele vai ficar bem. — Ela olhou para a mãe em busca de confirmação.

— Amá-lo é bom, mas isso não vai fazer com que ele mude, Chanty. Nunca faz. Ele precisa fazer isso sozinho.

— E você acredita que ele pode conseguir?

Jeanie deu de ombros.

— Ele tem muito a perder se não conseguir.

Somente quando o chá de hortelã chegou à mesa, Chanty colocou as mãos abertas sobre a toalha de linho branco, em um gesto tão igual ao do pai que ficou claro que o assunto era grave. Ambas já estavam um pouco altas, e Jeanie sentiu-se tranquila diante do que a filha estava prestes a dizer.

— Foi ótimo, mãe. Obrigada por me ouvir. Só mais uma coisa...

Jeanie não fugiu do olhar da filha.

— Claro.

— Diga que você não está tendo um caso com Ray.

Relembrando a situação, Jeanie soube que poderia ter mentido. Afinal, o que é um caso? Ela não dormira com Ray. Chanty estava tão preocupada com a própria vida que, na verdade, não queria ouvir a resposta para aquela pergunta quase casual. Ela mal estava ouvindo quando perguntou. Mas Jeanie corou. A consciência de seus sentimentos por Ray era tão forte, tão à flor da pele, que era quase como se ele estivesse ali, ao seu lado. Por um momento, ela hesitou. Foi inevitável. E, nessa hora, viu a expressão de Chanty se transformar de distraída para chocada. E soube que era tarde demais para mentir.

— Mãe? — A palavra foi como o tiro de uma pistola.

Jeanie não sabia como responder.

— Meu Deus, você está! Você está tendo um caso.

— Não estou tendo um caso — conseguiu dizer por fim, mas sabia que não estava convencendo.

— Não acredito em você. — O rosto da filha parecia fixado naquele primeiro instante de choque.

— Não vou dizer que não sinto nada por ele.

“Como era difícil”, pensou, embora tivesse imaginado a cena um milhão de vezes.

— Mãe, é muito simples. Você está tendo um relacionamento sexual com Ray? — Chanty estava debruçada sobre a mesa, com os olhos azuis arregalados e penetrantes.

— Não fiz sexo com ele, se é isso o que você quer saber.

Aquilo pareceu aliviar a preocupação de Chanty por um instante.

— Ah, graças a Deus. — Ela pensou um pouco. — Não foi isso que eu perguntei.

Jeanie sabia, mas não estava preparada, mesmo em prol da sinceridade, para detalhar a intimidade preciosa que se desenvolvera entre ela e Ray.

— Não. Bem, não é só sexo. Não dá para explicar, mas não é. — Jeanie nunca havia imaginado que isso seria tão difícil. Como podia explicar que o prazer que sentia na companhia de Ray e as risadas que eles compartilhavam eram tão importantes quanto os beijos?

— Você não vai abandonar o papai, vai? Mãe, você não pode fazer isso.

— Não sei o que vou fazer — respondeu Jeanie, o que era a pura verdade.

Chanty limitou-se a fitá-la à luz da vela, e Jeanie observou como a filha era bonita, com as maçãs do rosto salientes e os olhos claros. Tão forte, tão honesta e sincera, mas cercada de gente depressiva e dissimulada. Até o sempre honesto George parecia ocultar algum segredo desagradável.

Chanty balançou a cabeça em desespero.

— Como assim você não sabe?

— Exatamente assim. É difícil. Eu tenho uma ligação muito forte com Ray. Nós...

— Pode parar por aí. Não quero ouvir mais nada. Você precisa terminar esse caso imediatamente. — Chanty esperou a mãe concordar, mas, como isso não aconteceu, continuou, aflita. — Mãe, papai não merece isso. Ele é o melhor marido que qualquer mulher poderia ter. Vocês se amam; eu sei que se amam. Pense nisso. Você nem conhece esse homem.

— Eu o conheço, sim.

— Como você pode conhecê-lo? Isso tem o quê? Uns meses no máximo? E você diz que nem fizeram sexo? Quão importante isso pode ser? Você passou a vida inteira casada com papai.

— Não é isso.

— O que é então? Não posso acreditar. Você tem 60 anos, mãe, não tem 16. Não pode estar pensando em abandonar um casamento maravilhoso por... o quê? Um pouco de... Chame do que quiser, mas só pode ser sexo. — A última palavra saiu como se estivesse presa na garganta. — É repugnante.

Jeanie viu a filha tremer de indignação. O jardim tinha se esvaziado; só havia uma mesa ocupada, do lado oposto, com quatro homens de cerca de 50 anos, provavelmente italianos, com rostos vermelhos brilhando à luz das velas e risadas barulhentas que abafavam a conversa acalorada entre mãe e filha.

— Papai sabe?

— Claro que não.

— E você acha que está tudo bem?

— Não, claro que não acho que está tudo bem. — Jeanie estava cansada e sentiu-se afundar numa estranha apatia. Não era justo esperar que Chanty entendesse ou aceitasse sua posição. Dizer a verdade à filha não aliviaria sua culpa e a faria trair George ainda mais.

— Mãe... — Chanty decidiu atacar por outro prisma, e Jeanie viu o esforço que ela fazia para substituir a raiva pela razão. — Não quero parecer engraçada, mas você está velha. Tem uma ótima aparência, claro, mas o fato é que, na sua idade, as pessoas são mais vulneráveis. Esse homem só está atrás de uma coisa. Se você seguir esse caminho e desistir do papai e do seu casamento, como vai estar daqui a dois anos? Rejeitada, velha e sozinha. Isso é horrível.

— De fato, é horrível. — Jeanie quis dizer que, se estivesse apenas atrás de sexo, Ray poderia ter escolhido entre centenas, talvez milhares de mulheres com metade da sua idade.

— Não brinque, mãe.

Jeanie levou a repreensão a sério.

— Desculpe, querida. Sinto muito deixá-la angustiada, acredite. Mas nunca imaginei que isso fosse acontecer.

Chanty reagiu, bufando com cinismo.

— Eu sei que parece um clichê — continuou Jeanie —, mas realmente lamento por você ter descoberto.

— Lamenta por eu ter descoberto mas não lamenta por ter acontecido?

— Não — respondeu Jeanie com firmeza.

— “Não?” Mãe! Como pode ser tão insensível? Você não é assim. Sempre foi uma pessoa honesta e íntegra. Sabe o quanto eu a admiro, mas... — Chanty soltou um longo e triste suspiro. — Você tem ideia do que isso pode causar ao papai? Não é para menos que você não queira se mudar para o campo.

— Isso não tem nada a ver com a mudança. Seu pai já tinha decidido.

Jeanie ficou em silêncio, e Chanty recomeçou.

— Você precisa terminar isso, mãe. Sabe disso, não é? Termine agora e papai não precisará saber. Não vou contar a ninguém, nem mesmo a Alex. Especialmente a Alex.

O tom de voz da filha dava a entender que ela estava oferecendo a Jeanie um passe livre para sair da prisão.

— Eu não posso — disse Jeanie simplesmente.

Chanty virou-se para o outro lado com os dentes trincados. Sua ira era compreensível. Ela e o pai eram muito próximos, e Jeanie sabia que se George fosse infiel, Chanty o trataria com a mesma ira e teria o mesmo desgosto.

— Então o que você vai fazer?

Jeanie inclinou a cabeça, sentindo-se como uma estudante rebelde.

— Chanty, eu já disse que não sei. Claro que sei o que devo fazer, mas não é tão simples assim.

— É perfeitamente simples. Eu explico. Você termina esse caso com Ray e vai para o campo com o papai. Fim de papo. — Ela pegou a bolsa no chão, muito irritada, sinalizando o fim da discussão. — E tem mais: se eu descobrir que você não terminou com ele, vou contar ao papai. Por mais que o faça sofrer, não posso vê-lo ser enganado. Como eu poderia encarar meu pai sabendo a verdade?

Jeanie sabia que Chanty faria exatamente aquilo e compreendia suas razões. A maioria dos filhos faria qualquer coisa em seu poder para manter os pais unidos, mas, nesse caso, Jeanie sabia que não era puramente por egoísmo nem para manter o status quo. Chanty estava convencida de que a mãe estava sendo enganada.

— Eu mesma vou contar a ele — afirmou Jeanie, serena, e imediatamente viu a preocupação nos olhos da filha.

— Não é preciso contar ao papai se você for terminar isso de uma vez por todas. Se nunca mais vir ou falar com esse homem. Se agir assim, não tem sentido contar ao papai. Seria cruel. — Chanty encarou a mãe com um olhar duro, esperando a afirmação que Jeanie não podia dar. Como ela poderia olhar nos olhos da filha e dizer que nunca mais falaria com Ray?

— Não me ameace, querida. Não vai adiantar.

E a filha teve que se satisfazer com isso.