Encontros no Parque
Capítulo 2
Naquela tarde, quando dobrou o quarteirão e entrou na rua onde ficava a casa da filha, Jeanie começou a ficar tensa. Se Chanty estivesse em casa, não haveria problema. Afinal, Jeanie e o genro, Alex, sabiam se comportar na presença de outras pessoas. Porém, quando estavam a sós, parecia uma guerra. Mas Chanty estaria no trabalho, no Canal 4, onde atuava como editora de documentários. Ela parecia trabalhar durante mais horas do que havia no dia.
Jeanie subiu os degraus da casa com varanda, de estilo vitoriano, afastando a lata verde de lixo reciclável que os coletores tinham largado no meio do caminho.
— Jean, entra. — Alex conseguiu recebê-la com um sorriso, embora seco, e afastou o corpo para que ela pudesse passar.
“Será que cheirar mal é uma condição intrínseca a todos os artistas?”, Jeanie perguntou-se, prendendo a respiração diante do cheiro de suor seco na camiseta respingada de tinta. E, pela milionésima vez, fez outra pergunta para si mesma: “O que exatamente Chanty vê nesse homem?” Dava para perceber que Alex fora um “menino bonito”, com os grandes olhos azuis e os cachos negros. E ele certamente conseguia ser agradável quando queria. Para Jeanie, porém, Alex tinha um ar vaidoso e meio petulante, como se o mundo não fizesse jus a ele. Agora, aos 40 anos, já não tinha a aparência da qual provavelmente tirara partido, embora se comportasse como se nada tivesse mudado.
Jeanie esqueceu o genro quando a neta, de 2 anos, veio correndo na sua direção, com os braços estendidos para ela e um sorriso amplo iluminando os grandes olhos castanhos.
— Gin, Gin!
Jeanie se abaixou e pegou a criança no colo, aninhando-a num abraço apertado e enterrando o nariz na gostosa maciez da pele de Ellie.
— Como vão as coisas, Alex?
— Cuidar de criança nunca foi meu passatempo predileto.
Jeanie não se rebelou. Não poderia se rebelar na frente de Ellie.
— Quando vai ser a exposição? Em breve? — perguntou ela, animada. Sua intenção não era alfinetar. Estava apenas puxando conversa, mas, pelo sorriso irônico de Alex, ele entendeu diferente.
— Eu adiei.
Jeanie se afastou e pegou o casaco e os sapatos de Ellie.
— Ah, é uma pena — observou gentilmente. — Vem — disse ela, dirigindo-se a Ellie. — Vista o casaco. Nós vamos ao parque alimentar os patos.
— Não faz sentido produzir às pressas, sob pressão. Vai acontecer no momento certo. Eu preciso de espaço. — Ele estava apoiado na prateleira sobre a lareira da sala de estar e se exibia como se estivesse entre convidados numa festa. A sala pouco mobiliada continha apenas um grande sofá de couro marrom, uma poltrona Conran laranja com braços de madeira, um pufe e uma imensa televisão de tela plana sobre um tapete de sisal claro. Jeanie sabia que em parte era uma escolha de estilo, concentrando a decoração nas pinturas coloridas, a maior parte abstrata, e no moderno espelho retangular que cobria a parede acima da lareira. Além disso, era evidente que, enquanto Ellie fosse pequena, eles procurariam não usar nada que pudesse ser derrubado ou danificado ou que representasse algum perigo para a filha.
O coração de Jeanie chegou a se acelerar com a indignação. “Espaço? Ele precisa de ‘espaço’?” Esse folgado arrogante, com cara de fuinha, que se aproveita diariamente do amor de Chanty para se alimentar, se vestir e morar, sem jamais contribuir com um único centavo, e que nem quer cuidar da própria filha, tão linda, tem a coragem de reclamar de “espaço”! E, para completar, todas as pinturas de Alex, pelo menos para Jeanie, eram um lixo abstrato sem nenhuma originalidade.
— Vou trazer Ellie por volta das cinco. — Jeanie tentou sorrir, mas sentiu a raiva estampada em seu rosto como um anúncio em néon.
— Claro, não se preocupe com o horário. Até mais tarde, meu anjo. — Alex inclinou-se para beijar a filha no topo da cabeça, evitando o olhar da sogra.
— Brilha, brilha estrelinha — cantou Jeanie para a neta, após respirar fundo, enquanto subiam a colina em direção ao parque. Censurava-se por não conseguir ser mais madura. Mas estivera presente quando Chanty, aos oito meses de gravidez, desmoronara no chão da cozinha dos pais, agarrada ao bilhete monstruoso deixado por Alex:
Isso não está funcionando para mim.
Não estou pronto para ser pai, ainda tenho muito a realizar.
Por favor, me desculpe.
Eu a amo, mas tudo isso foi um terrível erro.
Beijo, Alex.
O bilhete não era um rabisco escrito no desespero da fuga — o que, na opinião de Jeanie, teria sido melhor. Fora cuidadosamente escrito em tinta preta, em estilo decorativo, organizado em uma coluna num grosso cartão creme, como se fosse um convite para uma festa.
Chanty literalmente não conseguia respirar, e, quando a ambulância chamada por George a levou para um pronto-socorro com as sirenes ligadas, tornou-se óbvio que ela estava em trabalho de parto. Portanto, esse homem, que Jeanie deveria aceitar e de quem deveria gostar, colocara em risco a vida da própria filha e da esposa devido ao seu egoísmo.
Ellie, no entanto, superara tudo sem dificuldades. Passara 48 horas na incubadora para estabilizar a respiração, mas nunca foi uma menina frágil. Não graças ao pai.
— De novo, Gin! — insistiu Ellie. E Jeanie cantou mais uma vez, observando com deleite os cachos dourados da neta balançarem para um lado e para outro acompanhando a melodia.
Chanty escolhera perdoar Alex, e George, não sendo o tipo de remoer esse tipo de coisa por muito tempo, conseguira superar, mas com Jeanie tinha sido diferente. Sempre que o via, lembrava-se da expressão permanentemente desolada da filha, com o rosto coberto de lágrimas, esforçando-se para lidar sozinha com a bebê durante meses até Alex ceder e voltar.
O parquinho estava vazio, exceto por um menino de cerca de 4 anos e o pai, cada um num lado do carrossel, girando a toda e dando gargalhadas.
— Balanço! Balanço! Vem! — Uma vez liberada do carrinho de bebê, Ellie correu para os balanços. A experiência mostrara a Jeanie que essa animação podia durar horas, pois, quando se balançava, a neta entrava num estado semelhante ao transe e, se a avó ameaçasse relaxar, ela a encorajava: “Mais alto, mais alto!”
Hoje Ellie estava fascinada não pelo balanço, mas pelo menino com o pai. Seu rosto iluminava-se com risos enquanto observava as travessuras deles. De repente, o menino soltou-se do pai e correu em direção à sua bola, passando em frente ao balanço de Ellie.
Jeanie ouviu o grito:
— Dylan!
Naquele instante, ela se lançou para conter o balanço e interrompeu o movimento. O menino passou por elas, alegre e displicente, sem perceber que por pouco escapara de um acidente horrível.
— Dylan!
Jeanie virou-se e viu que o rosto do homem estava branco, evidenciando seu estado de choque. Ele correu para o filho e, em vez de repreendê-lo, apenas o abraçou, apertado, até ele conseguir se desvencilhar e voltar para a bola.
O homem levantou-se. Embora tivesse uma compleição robusta, seus movimentos eram surpreendentemente graciosos e leves. Jeanie observou-o passar a mão pelo cabelo louro, meio grisalho, num gesto que lembrava uma criança buscando conforto em seu cobertor.
— Obrigado — agradeceu ele. — Muito obrigado.
Jeanie deu de ombros e sorriu.
— Acontece.
— Ah, mas não pode acontecer com Dylan, nem uma vez sequer. — A voz dele tinha um tom de desespero.
— Seu filho está bem. Não houve nada. — Jeanie procurou tranquilizá-lo, deduzindo que ele era um novato em parquinhos para ficar tão transtornado.
O homem não entendeu por um instante.
— Ah, não, Dylan não é meu filho! Ele é meu neto, filho da minha filha. Você deve ter percebido que não saio muito com ele. De fato, esta foi a quarta vez que ela me deu permissão para isso. — Ele respirou fundo. — E teria sido a última se aquele balanço o acertasse.
— Descer! Descer, Gin — pediu Ellie, atenta à bola de Dylan. Quando Jeanie tirou a neta do balanço, ela correu para perto do menino mais velho e ficou olhando para ele, envergonhada.
— Deixa a menininha brincar também!
Dylan não deu atenção às palavras do avô.
— E a sua filha? Quantos anos tem?
Jeanie riu.
— Agora foi a sua vez... Ellie também é minha neta. Está com pouco mais de 2 anos.
Ele também riu, erguendo as mãos em protesto.
— Não foi bajulação, sinceramente. Eu apenas deduzi. — Ele afastou o olhar, constrangido.
Fez-se um silêncio estranho. Jeanie olhou ao redor, procurando a neta, que já estava totalmente envolvida na perseguição a Dylan e a sua bola, gritando, alegre, sempre que ele lhe permitia se aproximar.
— Netos são uma coisa estranha — disse o homem, sem tirar os olhos do menino. — Eu não imaginava que fosse tão especial. — Era quase como se ele falasse consigo mesmo. — Mas ele é tudo para mim.
As palavras surpreenderam Jeanie — não por desconfiar de sua sinceridade, ou mesmo do sentimento que havia nelas, mas porque parecia uma observação muito pessoal para ser feita a uma total estranha.
— Eu sei, entendo o que você quer dizer — respondeu ela, que também fora dominada por seus sentimentos por Ellie desde o primeiro instante em que a segurara nos braços, enquanto a incubadora era preparada para receber aquele pequeno ser. Fora literalmente amor à primeira vista. — Talvez seja porque não nos sentimos velhos o bastante — continuou ela, sorrindo.
O homem achou graça.
— Isso é verdade.
— É como se fosse uma droga — disse Jeanie. — Se passo alguns dias sem vê-la, tenho sintomas de abstinência. — Ela deu uma gargalhada, mas logo ficou tímida, de um jeito muito britânico, diante da intensidade de seus sentimentos. Jeanie não fora uma dessas mães que importunam as filhas para ter netos. Na verdade, ao receber a notícia da gravidez de Chanty, Jeanie se assustara um pouco, temendo, de maneira egoísta, interferências em sua vida movimentada.
Dylan aproximou-se do avô, aos pulos.
— Vovô, ela não me deixa em paz! Fica no caminho toda vez que eu chuto a bola.
O homem deu de ombros.
— Ela é pequena, Dylan. Seja gentil.
O menino olhou para o avô, carrancudo, com ar de frustração, e Jeanie reparou em como ele era bonito, com a pele dourada e os olhos verde-claros.
— Joga com ela um pouco — insistiu o homem. — Não vai ser nenhum sacrifício.
Dylan afastou-se, batendo os pés no chão, com a bola agarrada junto ao peito num gesto possessivo.
— Ele é uma criança adorável.
O avô, orgulhoso, assentiu com a cabeça.
— Sua neta também.
O que era verdade. Ellie puxara à mãe — forte e decidida —, mas o cabelo louro lembrava um querubim, aliado aos olhos grandes num tom castanho-claro quase transparente, como os de George.
— É melhor eu ir embora — disse Jeanie, chamando a neta e andando em direção ao carrinho de bebê.
— Talvez eu a veja de novo — sugeriu o homem.
— Talvez.
— Eu pego Dylan todas as quintas-feiras. Minha filha trabalha, e a babá faz radioterapia no hospital. Ela está com um câncer no seio.
— Ah... Espero que ela se recupere — murmurou Jeanie, gentil.
— Isso me dá uma oportunidade para ver Dylan — continuou o homem, e logo se interrompeu. — Desculpe, falei como se fosse um insensível. Não quis dizer que estou feliz por ela ter câncer no seio...
— Tenho certeza de que não. — Jeanie riu da confusão dele. — Então, até logo. — Ela se apressou para pegar Ellie, tentando poupar o homem de mais algum constrangimento.