Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 16 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 16

 

Jeanie estava sentada em um banco, no centro da Pond Square, a apenas cem metros da porta de sua casa. O lugar estava calmo e escuro. Era meia-noite e meia; os restaurantes que margeavam um dos lados da praça estavam fechados ou fechando, os sacos de lixo na calçada, os garçons recolhendo os quadros com o cardápio do dia. Casais conversavam em voz baixa; um homem ao celular andava de um lado para outro em frente ao ponto de ônibus na esquina com a rua principal, claramente discordando da pessoa com quem falava. Fazia frio, mas já não trovejava. O coração de Jeanie parecia ter crescido em seu peito e adquirido duas vezes o tamanho normal, pois batia como um tambor enquanto ela tentava recuperar o fôlego.

— Sou eu — sussurrou ela ao celular.

— Onde você está?

— Na Pond Square, sentada em um banco.

— Venha para cá.

— Não posso. Ray, jantei com Chanty essa noite. Ela sabe. E ameaçou contar a George se eu continuar com você.

Jeanie ouviu a respiração suave do outro lado.

— E o que pretende fazer?

— Não tenho muita escolha. Vou contar a ele. Isso precisa vir de mim.

— Contar a ele o quê, Jeanie?

— Contar que me apaixonei por você. — Jeanie já não se preocupava com rótulos, nem com saber se era correspondida em seus sentimentos, nem com a reação de Ray. Somente contar a verdade importava naquele momento, contar a Ray a sua verdade, qualquer que fosse o resultado. Era como um exercício de limpeza, de purificação. Seu coração começou a se apaziguar enquanto ela aguardava a reação de Ray.

— Jeanie, tem certeza de que é uma boa ideia?

— Eu me apaixonar por você? Não, provavelmente não, mas foi o que aconteceu. — Ela mesma notou o tom despreocupado em sua risada.

— Não foi isso que eu quis dizer — disse Ray, às gargalhadas. — Eu me referia a você contar ao seu marido.

Jeanie percebeu que contar a Ray não bastava. Precisava que ele fizesse algum comentário sobre suas palavras.

— Que escolha eu tenho? — perguntou.

— Chanty faria isso mesmo?

— Ah, sim, você não conhece minha filha. Ela é patologicamente sincera.

— Como você acha que ele vai reagir?

— Nada bem, obviamente.

Apesar da discussão com Chanty, Jeanie não podia se imaginar contando a verdade a George.

— Pense bem, Jeanie. Que resultado você espera?

Jeanie desviou os pensamentos do marido e retornou à conversa.

— Resultado?

— Sim, o que você imagina que pode acontecer depois? Precisa pensar nisso.

Não havia “depois”.

— Tenho certeza de que você pode persuadir sua filha a não contar.

— E depois o quê?

Ouviu-se um suspiro do outro lado da linha.

— Não posso dizer o que deve fazer, Jeanie.

— Quem dera que alguém pudesse.

— Não sei se isso ajuda — Jeanie o ouviu murmurar —, mas também estou apaixonado por você.

— Pode abrir um pouco mais a boca?

Jeanie estendeu o maxilar e sentiu uma dor subir pela lateral da face.

— Não consigo mais do que isso — informou o mais claramente possível com um chumaço de algodão na parte interna da bochecha e o maxilar estendido até o limite. Logo sentiu o conhecido odor da anestesia local.

— Agora uma leve picada. Não se mexa — murmurou o dentista antes de introduzir a agulha na parte posterior da gengiva de Jeanie. Doeu, mas ela não se importou. Havia 12 horas que Ray lhe fizera uma declaração de amor, e o dentista poderia arrancar todos os seus dentes, inclusive o implante, que ela mal se queixaria.

Jeanie não contara a George. Regozijava-se com as palavras de Ray e mantinha todas elas para si, distantes do furor que provocariam ao se tornarem públicas. Dera-se de presente esse dia.

— Morde. Muito bem. De novo. — O dentista fez o movimento de uma mordida para exemplificar. — O que sente?

— Não sinto nada.

O dentista mostrou-se paciente.

— Não sente que aquele dente está alto? Morde outra vez.

Jeanie mordeu.

— Está bom.

— Cuidado para não beber algo quente nas próximas duas horas — disse o dentista. — Para não se queimar — acrescentou ao ver o olhar de espanto de Jeanie.

Saindo do consultório, Jeanie foi para a loja. Jola teve pena dela.

— Cuidei dos dentes na Polônia. Dói muito! Se quer ir para casa, fico sozinha.

Ir para casa era a última coisa que Jeanie queria. George estaria no escritório, ocupado com os relógios, sem saber da arma apontada para seu coração. Agora, toda vez que o via, ou quando ele sorria ou a chamava de “minha velha”, seu coração se contraía, envergonhado.

— Estou bem. Foi só uma obturação — assegurou Jeanie, batendo o dedo cautelosamente na bochecha para checar se a dormência diminuía.

— O homem veio e perguntou por você.

— Que homem?

— Ele veio com o menino pequeno, menino bonito. Você não estava aqui.

— Dylan... — disse Jeanie, sem pensar.

— Disse que você não demora, mas ele não espera. Pediu para telefonar.

— Não estou conseguindo falar direito.

— Venha mesmo assim — pediu Ray.

Depois de fechar a loja, Jeanie foi ao encontro dele no café do parque. O hábito de se preocupar com que alguém os visse juntos já não parecia relevante.

— Como nos velhos tempos — disse ele, balançando o saquinho de chá dentro da xícara.

— Podemos fugir? Poderíamos ir para o Rio ou para algum outro lugar que não tenha tratado de extradição. Eu poderia comprar uma lanchonete em frente à praia e servir salsichas inglesas e Marmite. Parece que as praias são lindas. Você poderia dar aulas de aikido aos brasileiros. Nós beberíamos rum, ou o que quer que eles bebam por lá, e seríamos felizes.

— Caipirinhas. Elas são de matar, mas você morre feliz. — Ray deu uma risada. — Então vamos!

Eles ficaram em silêncio.

— Não diga nada. — Ray cobriu os lábios de Jeanie com a mão, e ela a tomou entre as suas. — Eu queria ver você mais uma vez antes... — continuou ele, hesitante — antes da catástrofe.

— Você fala como se fosse o fim.

— George? — Jeanie o chamou ao pé da escada. Nenhuma resposta. Ela subiu ao segundo andar e bateu na porta do escritório.

— Entra.

Ele estava sentado em seu lugar; a superfície de madeira da mesa estava cheia de peças complicadas de mecanismos de relógios. O que ele consertava naquele momento tinha uma bonita caixa art déco em mármore liso acinzentado.

— Olá, querida, em que posso ajudá-la? — George afastou a lente de aumento, segurou-a na palma da mão, puxou os óculos que estavam no topo da cabeça e virou-se para cumprimentá-la.

— Você está bem? Parece preocupada.

— George, podemos conversar?

Ela o observou levantar-se e esticar os membros compridos, elevando as mãos acima da cabeça e bocejando. George examinou um entre os vinte e muitos mostradores de relógio à sua disposição.

— Uau, essa é a hora certa? Eu pretendia cuidar da magnólia no jardim esta tarde. — George segurou os ombros de Jeanie, girou-a delicadamente e levou-a em direção à porta. — Vamos pegar uma taça de vinho e sentar lá fora. Está um lindo fim de tarde.

A mão de Jeanie tremia quando ela pegou a taça de vinho branco gelado que George oferecia.

— Agora me diga o que você quer. — Ele tomou um gole sem pressa e se recostou na cadeira do jardim com uma expressão de puro prazer. — Espero que não seja mais uma das suas reclamações bobas sobre nossa ida para o campo — acrescentou com olhos travessos, tão iguais aos de Ellie.

Contrastando com ele, Jeanie estava empertigada na cadeira e segurava o vinho longe do corpo, como se fosse uma distração não desejada. O que estava prestes a falar era tão distante de qualquer coisa que jamais poderia se imaginar dizendo que quase chegou a rir, tão implausível era a situação.

— George, não é fácil contar isso a você, mas eu me apaixonei por outra pessoa.

Pronto, está dito.

Por um instante, Jeanie pensou que ele não ouvira ou que talvez ela não tivesse falado, afinal. O sol não havia caído do céu, e George continuava ali, sentado, como se nada tivesse acontecido. Passado algum tempo, ele olhou para ela.

— O que você disse?

Jeanie apoiou a taça na mesa, temendo que ela pudesse cair no chão de pedra da varanda. Parecia muito importante não deixar isso acontecer.

— Conheci um homem há poucos meses e ficamos muito próximos. — Mesmo aos seus ouvidos, pareceu uma fala acanhada, como se extraída de algum melodrama romântico banal.

George endireitou-se na cadeira.

— Jeanie, não seja ridícula. Você não pode amar outra pessoa. Isso é... Bem, é ridículo. — Quando ela o encarou, ele continuou. — É uma piada, não é?

Jeanie viu a raiva de George crescer.

— Antes fosse, George.

Ele se levantou, colocou a taça na mesa com violência e a encarou.

— Pare com isso imediatamente.

Jeanie baixou os olhos.

— Quem é ele?

— O nome dele é Ray Allan. Eu o conheci no parquinho com Ellie.

— Não acredito em você — afirmou George, inflexível e decidido. Ele começou a se afastar, atravessou as portas francesas e entrou na cozinha.

— George, volta. — Jeanie correu atrás dele. — Aonde você vai?

Ele continuou andando em direção ao corredor.

— Não pretendo ouvir essa baboseira — murmurou ele.

— George! — Jeanie o alcançou, segurou-lhe o braço e o girou para que ele se virasse para ela. Ele tentou se soltar, mas ela foi mais forte. — Temos que conversar sobre isso.

George então a fitou nos olhos, e ela enxergou seu sofrimento.

— Eu não quero conversar sobre isso.

Mas Jeanie tinha passado dez anos cedendo à negação autoritária do marido, e isso não aconteceria mais.

— Não, George. Nós vamos conversar sobre isso. Nós precisamos. — Ela começou a puxá-lo para a cozinha e sentou-o numa cadeira. Do outro lado da mesa, observou as pálpebras de George tremerem sobre o olhar vazio.

— Não há nada a dizer. — Ele não a fitava, e começou a folhear a revista de relógios para a frente e para trás. Era o único som que se ouvia na cozinha, além do tique-taque dos relógios. Jeanie pegou a revista e lançou-a no outro canto da mesa.

— Então vai fingir que nada aconteceu?

— O que quer que eu faça? Que me mate? Que dê um tiro nele? — George fez uma pausa e ergueu as sobrancelhas. — Ou até que atire em você?

— Por favor!

Ele levantou-se e observou-a por um instante.

— Jeanie, eu não sei o que está acontecendo nem quero saber. Tenho certeza de que você resolverá tudo. Enquanto isso não acontecer, não vejo sentido em conversarmos sobre esse assunto. — Com essas palavras, George se virou e a abandonou ali.

No meio do caminho em direção à porta, ele parou e olhou para Jeanie, obviamente pronto a fazer uma pergunta ou comentário. Mas, o que quer que fosse, não conseguiu. Em vez disso, fez dois meneios bruscos de cabeça e seguiu seu caminho.

Jeanie continuou sentada na mesa da cozinha, paralisada, enquanto anoitecia. Mais uma vez, George se recusara a acreditar nela, negara seus sentimentos e a deixara no limbo, sem ser ouvida. Mas ele a ouvira, e ela sabia disso, pois vira nele seu sofrimento. Contudo, era como se nada tivesse mudado.

O barulho do celular a despertou.

— Mãe, sou eu. Está sozinha?

— Estou. George está lá em cima.

— Você ainda não contou ao papai, não é? — Antes que Jeanie pudesse falar, Chanty continuou. — Porque acho que isso o faria sofrer demais. Eu estava sendo egoísta. Você me deixou aturdida, e eu quis revidar, quis chantageá-la para que terminasse com Ray. Mas isso não é justo com papai, certo? Eu tinha bebido um pouco e estava irritada diante de tudo que você contou. Não fala com ele, mãe, por favor. Não estou perdoando o que você e Ray estão fazendo, mas, se é um capricho passageiro, então continue com ele e não estrague o que tem com papai.

Jeanie sentiu a respiração entrecortada de Chanty, como se ela estivesse subindo uma escada. Ao fundo, ouviu o som de um elevador e a filha dando boa-noite a alguém.

— Eu já contei, querida.

— Ah, não, a culpa é minha. O que ele disse?

— Primeiro, ele não acreditou. Depois se recusou a conversar. Como sempre. Ele disse que sabia que eu resolveria. Chanty, não é culpa sua. Nada do que aconteceu é culpa sua.

— Então você está dizendo que papai não ficou transtornado?

— Ele ficou muito chateado, claro, mas não admitiu provavelmente nem para si mesmo.

— Não diga a ele que eu sei, está bem? Ele odiaria isso.

— Não vou dizer.

— Você está com uma voz horrível... Parece mal.

— Estou mesmo, mas isso é coisa minha. Eu queria que ele conversasse, nem que fosse para dizer que me odeia.

— Espero que ele não a odeie. É melhor eu desligar. Estou no metrô. Falo com você mais tarde. Tchau, mãe. Manda um beijo para o papai.

Jeanie aguardou, com a esperança de ver George novamente. Depois entendeu que ele tinha razão: não havia nada para conversar. O que esperava que ele dissesse? Fazer perguntas estranhas sobre detalhes — como, por que e onde — não era seu estilo. Ela então foi para a cama, apesar de ainda não passar das dez da noite, e tentou ler um romance que Rita havia lhe emprestado. Era um épico passado na Índia, mas havia personagens demais para sua mente cansada. Voltava a todo instante ao início, e logo desistiu, desligou a luz e caiu em um sono exausto.

No meio da noite, um som estranho a acordou. Era quase semelhante a um miado, uma espécie de choro reprimido, e vinha do outro lado da cama. Ela ficou paralisada; sua mente girava diante das possibilidades. Muito lentamente, ela tirou a mão esquerda de baixo do edredom e encontrou o interruptor do abajur. Quando acendeu a luz, viu que ali, deitado e enroscado em posição fetal do outro lado da cama, perto da beirada, estava seu marido.

— George? — Horrorizada, Jeanie estendeu a mão e o tocou, mas ele parecia catatônico, com o corpo rígido firmemente enroscado; seu choro quase mecânico sequer parecia consciente. Ele estava indiferente ao seu toque, com as mãos apertadas junto ao peito e os olhos cerrados no rosto branco e tenso. Com o coração acelerado, ela reagiu sem pânico, como seu treinamento lhe ensinara muito tempo atrás, rapidamente embrulhando-o em seu edredom e puxando o corpo encolhido para o meio da cama. — George, querido... — Jeanie aproximou-se dele, aninhando-o nos braços e balançando-o como se fosse uma criança. — Está tudo bem. Vamos, abra os olhos... Abra os olhos, George.

Ela gentilmente afastou o cabelo dele da testa suada, como costumava fazer com Ellie, acariciando-lhe o rosto e o corpo com firmeza e repetindo sem parar qualquer palavra que pudesse tirá-lo daquele estado. Com o tempo, ele começou a se mexer e o choramingo parou, mas, quando tentou desenroscar-se da posição em que estava, começou a tremer descontroladamente.

Ao abrir os olhos, seu olhar era vazio e incompreensível.

— Jeanie, me ajuda... Estou com muito frio... O que está acontecendo comigo?

— Você vai ficar bem. Você entrou em estado de choque. — Jeanie começou a movê-lo lentamente para que ficasse apoiado nos travesseiros, e embrulhou-o ainda mais no edredom. — Está sentindo alguma dor?

— Não, nenhuma. Por que estou tremendo? Não consigo me controlar. Estou com medo, Jeanie.

Após algum tempo, o tremor arrefeceu, e a cor voltou ao rosto de George.

— Como eu vim parar aqui? — continuou ele. Sua voz era fraca, e a respiração, intensa.

— Não sei. Um barulho me acordou e vi que era você. Você não parecia consciente. Deve ter entrado em estado de choque.

— Choque? — George olhou para Jeanie, confuso. — Por que eu entraria em estado de choque?

Jeanie começou a se preocupar. “Por favor”, pensou, “não me obrigue a repetir tudo”. Ela não respondeu e se limitou a abraçá-lo. Ele pareceu adormecer um pouco, com a cabeça afundada no peito. De repente, ali, sem os óculos, ele pareceu velho, indefeso e vulnerável.

Com o coração cheio de culpa, Jeanie esperou que ele acordasse. Fazia alguns meses que seus sentimentos por Ray tinham transformado tudo o que George dizia ou fazia em algo sem importância e irreal. No entanto, agora, em seus braços, ele estava intensamente presente, e seu rosto era quase tão familiar para ela quanto o seu próprio.

Jeanie deixou o marido em sua cama e desceu para preparar um chá. Fazia meia hora que ele acordara e, apesar da aparência de cansaço e fraqueza, já estava fisicamente recuperado. Ela tinha ido ao quarto dele para buscar seus óculos ainda dobrados ao lado da cama desfeita, perguntando-se que processos mentais o levaram a se deitar, choramingando, ao seu lado. Jeanie nunca vira George chorar, nem uma vez sequer nos 35 anos de relacionamento.

“Jeanie, precisamos conversar” foram as primeiras palavras de George ao acordar, como se ele tivesse adormecido no meio de uma conversa e quisesse retomá-la do ponto em que a interrompera.

Jeanie tinha consciência de que, ocupando-se com o chá, estava atrasando o inevitável, mas dormira pouco naquela noite e não se sentia forte o bastante para ouvir o que George tinha a dizer.

Jeanie sentou-se à mesa da cozinha para reunir forças. Eram seis e vinte de uma radiante manhã de verão, que, em outras circunstâncias, ela teria apreciado. Finalmente, voltou para o quarto.

— Obrigado. — George aceitou o chá numa atitude quase formal. — Jeanie, eu preciso contar uma coisa a você.

— George, desculpe, eu me sinto responsável pelo que aconteceu. Você ficou em um estado horrível e sei que foi minha culpa, mas vamos deixar isso para outra hora, quando você estiver mais forte para conversar.

Ele balançou a cabeça com firmeza.

— Isso não pode esperar. Não é sobre você. Por favor, quero que me ouça, do contrário a coragem pode me abandonar.

Jeanie o fitou sem entender, mas a expressão de George se manteve impassível enquanto ele aguardava que ela sentasse.

— Não é culpa sua. Eu a decepcionei muito porque fui um covarde. — Ele estava sentado e abraçava as pernas junto ao peito de modo infantil, uma posição em que ele nunca era visto. Por trás dos óculos, os olhos abatidos estavam sérios. Enquanto observava o rosto do marido, Jeanie percebeu que George nunca parecera jovem, mesmo quando rapaz. Controlado e responsável em tudo o que fazia, ele sempre parecia confinado em si mesmo, afastado de Jeanie e do mundo. Agora seu olhar era resoluto; não havia mais sinal de medo.

— Jeanie. — Seus olhos encontraram a expressão intrigada da esposa. — Não existe maneira fácil de contar isso, nem uma forma de tornar o que vou dizer mais palatável para você ou para mim. — Jeanie o observou respirar fundo e percebeu que ouvia as batidas fortes de seu próprio coração, como se ela compartilhasse esse medo ainda anônimo. — Eu sofri abusos na infância. Foi um amigo do meu pai, Stephen Acland, aquele que me levava para a casa dele nas férias escolares, quando eu não viajava para encontrar meu pai onde quer que estivesse servindo como diplomata. — As palavras ensaiadas saíram precipitadas.

Jeanie olhou fixo para ele.

— Você foi abusado sexualmente?

George confirmou com um gesto de cabeça.

— Mas você foi para a casa dele durante anos... — prosseguiu Jeanie.

— E ele abusou de mim durante anos. Dos 10 aos 14. — O rosto de George se contorceu, mostrando um ódio reprimido por muito tempo.

— Deus! Por que não me contou, George? Durante todos esses anos, você guardou esse segredo terrível e achou que não podia me contar? — Jeanie pensou por um instante. — Mas você dizia que ele era maravilhoso com você e que ele era muito inteligente, culto, engraçado...

George concordou novamente.

— Ah, ele era, sim. Ele me ensinou muita coisa. Jeanie, a culpa foi minha. Eu permiti. Quando ele me pedia, eu ia ao escritório depois do jantar. E ele me ensinava xadrez.

Jeanie bufou, irritada; seu coração pulava no peito.

— Ah! É esse nome que ele dava? O desgraçado. — Ela fulminou o marido com o olhar. — George, abuso é abuso, e a culpa é do criminoso. Isso é terrível! É terrível ter acontecido e é ainda pior você ter achado que não podia me contar. Que reação você imaginou que eu teria?

George deu de ombros.

— Eu tinha muita vergonha. Não queria que você pensasse que eu era gay. Eu não sou gay.

— Eu não disse que era.

— E achei que você me desprezaria e sentiria repugnância. Eu sempre achei que a culpa era minha e que você pensaria o mesmo. Eu não poderia contar aos meus pais; eles jamais teriam acreditado. Stephen tinha sido colega de papai na artilharia do Exército. Eles serviram juntos em Burma e no cerco de Malta. Stephen era um herói de guerra; ele recebeu a Ordem de Serviços Distintos por salvar três homens em um tanque em chamas no norte da África. Meu pai achou que ele seria um bom exemplo para mim.

— E a mulher dele?

— Tenho certeza de que Caroline não sabia. Os tempos eram outros, Jeanie. Hoje em dia, fala-se nisso o tempo todo, e basta você conversar com uma criança para ser acusado de abuso, mas as pessoas eram mais inocentes na década de 1950. Alguém como Caroline mal saberia do que se tratava, sequer suspeitaria de que o marido me sodomizava no escritório depois do jantar. A casa era grande, e ela nunca o incomodava no escritório. Com certeza enfiava-se na cama com creme no rosto e um bom romance da biblioteca Boots.

Jeanie sorriu.

— Eu tinha me esquecido da biblioteca Boots. — Ela balançou a cabeça. — Desculpe. Todo esse tempo... Quantos anos? Cinquenta? E você nunca contou a ninguém. Não sei o que dizer, exceto que lamento por você não ter me contado.

Ambos ficaram em silêncio por algum tempo.

— E então o que aconteceu? Quando terminou? Vocês se encontraram depois?

George esticou as pernas e piscou algumas vezes.

— Terminou quando papai morreu. Eu tinha 14 anos e já estava morando em Sherborne. Minha mãe voltou para a Inglaterra e foi morar na nossa casa em Dorset.

— Mas você ainda o encontrava? Se ele era tão amigo do seu pai...

— Eles se mudaram para a África do Sul. Talvez minha mãe tenha encontrado com eles em suas viagens, mas as pessoas não viajavam tanto de avião. De qualquer modo, como você sabe, minha mãe era a mulher mais antissocial do planeta. Todos diziam que era uma piada ela ter se casado com um embaixador.

Jeanie gostava de Imogen. Era uma mulher atraente no seu jeito calmo, suave e meio indefinido. Sua alegria era estar sozinha e cuidar de seu lindo jardim. Fazia quase 15 anos que ela morrera por complicações decorrentes de uma queda; George sofrera muito com a perda da mãe.

— Você chegou a contar a ela?

George deu uma risada triste.

— Você pode imaginar uma coisa dessas? De qualquer modo, mesmo que ela acreditasse, de que adiantaria? Ela ficaria arrasada.

— Acho que sim. Mas poderia ter me contado. Não confiava em mim?

George se aproximou dela e segurou sua mão.

— Não era uma questão de confiança. Eu achava que a perderia.

— Perderia? Você achou que eu deixaria de amá-lo por ter sido vítima de abusos? Isso é ridículo.

— Para você, pode parecer que sim, e talvez também me pareça uma estupidez agora, mas naquela época ainda era algo muito forte para mim. Eu pensava muito nisso, todos os dias da minha vida, e achava que você odiaria saber, que seria levada a pensar nessas coisas também, em mim e nele... Mas o principal era a vergonha que eu sentia. Aliás, ainda sinto.

Jeanie foi tomada por tamanha fúria que sua vontade era bater em alguma coisa. Ela se levantou e caminhou pelo quarto, sem saber o que fazer com suas emoções.

— Você era tão pequeno. Tinha apenas 10 anos. Como pôde lidar com tudo sozinho? Mal sabia o que estava acontecendo.

— Ele transformou aquilo em um jogo.

— Que patife depravado e doente! — Jeanie não conseguia lidar com a imagem de um menino no escritório, vulnerável, sem o conhecimento e o apoio necessários para rejeitar a manipulação daquele homem em busca de um prazer casual.

— Está vendo? — George a observava. — Não preferia não saber?

Jeanie aproximou-se da cama e o abraçou com força.

— A questão não é essa.