Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 12 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 12

 

 

— Nós podemos colocar um piano para Ellie aqui.

Era como se George já tivesse comprado a casa. Em cada cômodo da antiga residência paroquial em Woodmanstead (pronuncia-se Woomsted), ele já imaginava a disposição dos móveis que tinham em Highgate. O corretor de imóveis, James, arrumado e penteado, aguardava pacientemente a uma leve distância enquanto brincava com as abotoaduras e concordava com tudo o que George dizia de maneira exageradamente entusiástica. Ele tinha um brilho nos olhos que, para Jeanie, era reflexo do símbolo da libra esterlina.

— Esta é a primeira casa que vemos — disse Jeanie em tom reprovador.

— Isso não significa que não possamos comprá-la, significa? — respondeu ele com doçura.

— Claro que não, mas devemos ao menos ver outras. Esta é muito cara.

Jeanie sabia que era perda de tempo. George compraria ou não, independentemente do preço e até da sua opinião.

— É tão perfeita — murmurava George. Os olhos do agente brilhavam cada vez mais.

— Pare de dizer que adorou, está bem? Isso só vai elevar o preço. Lembre-se de que o corretor não está do nosso lado.

Jeanie estava cansada. Não se lembrava do que era ter uma boa noite de sono. Depois daquele almoço, Ray a levara ao parque St. James. O calor amainara como se nem tivesse existido e fora substituído por uma brisa fria e uma chuva intermitente. Havia grupos usuais de turistas, mas não muitos. Jeanie e Ray ficaram sentados sobre o casaco dele, embaixo de um espinheiro; ele tinha as pernas cruzadas e as costas eretas, sem nenhum esforço, enquanto ela segurava as pernas junto ao corpo, com a saia discretamente arrumada acima dos joelhos.

— Você fica estranha nessa roupa — comentara Ray.

Jeanie sentira vontade de rir em meio à preocupação.

— Que impertinente! Saiba que esta é a minha maravilhosa Roupa Para Ir Ao Contador. Não a uso para mais nada. É tão feia assim?

— Eu não disse que é feia, mas não é para você. Sim, talvez seja feia. O contador não faria sua contabilidade do mesmo jeito se você usasse jeans?

— Sempre achei que não. Creio que tem a ver com respeito. Mas talvez minha maneira de pensar seja antiquada.

Eles observaram um grande grupo de turistas adolescentes passar, andando com dificuldade, sem perceber nada no mundo exterior à sua redoma.

Ray apontou para eles.

— Eu culpo o aquecimento central.

— Pelo quê?

— Somos muito mais fortes do que eles. Mas nós os mimamos demais, e, como resultado, eles não têm muita determinação. — Ray começou a falar com um tom confiante, e Jeanie percebeu que aquele não era um discurso vazio. — Eu cresci em Portsmouth. Meu pai trabalhava na marinha mercante e tínhamos uma casa pequena, fria, e uma lareira que precisava de lenha a todo instante.

— Aquelas com plástico laranja em cima da grelha? — interrompeu Jeanie. — Eu me lembro. Eram melhores do que aquelas a gás medonhas que tínhamos em casa. Ou congelavam o ambiente ou o transformavam numa floresta tropical.

Ray deu uma boa risada.

— Exatamente. Nada desse aquecimento medíocre. De manhã, eu costumava segurar minha roupa em frente à lareira porque ela congelava durante a noite. O que esse grupo sabe sobre isso? — Ele apontou com desprezo para os adolescentes estrangeiros. — A culpa é nossa.

— Ah, sim, e não tínhamos o que comer além dos restos dos vizinhos e apenas um par de sapatos para 12 pessoas. — Jeanie deu um empurrão em Ray, com ar brincalhão. — É um mundo em mudança, não é?

— Mas, falando sério, olhe para pessoas como seu genro. — Ray estava inspirado. — Ele obviamente pensa que é um deus, e imagino que essa arrogância não venha de uma autoconfiança real, mas de muito mimo e tolerância com seus erros.

Jeanie franziu o cenho.

— Por favor, não vamos falar sobre ele.

Ray segurou o braço dela e puxou-a para perto de si.

— Está bem. Eu paro de falar se você me der um beijo.

O beijo foi longo e muito terno. Por um momento, Jeanie esqueceu que estava em um espaço público. Seu desejo era que aquele momento durasse para sempre e apagasse a decisão dolorosa que havia tomado.

Quando eles se separaram, Jeanie suspirou.

— Ray, isso não pode dar certo.

Jeanie fez menção de se levantar.

Ray levantou-se com ela, sacudindo o blazer para tirar a grama que tinha grudado nele.

— A decisão vai ser sua — disse ele, estendendo as mãos e segurando-lhe o rosto ao fitá-la. Por um instante, ela permitiu que seu corpo inteiro vivesse o prazer daquele toque suave enquanto a dor da perda pairava sobre eles como um predador. Ela se inclinou para pegar a bolsa e a pasta com documentos.

— É melhor eu ir.

— Você pode nos deixar um pouco sozinhos? — perguntou George a James, que concordou e se afastou em direção ao Peugeot para se apoiar na porta aberta, com o celular prateado ao ouvido.

George pegou a mão de Jeanie e a conduziu ao maravilhoso quarto do primeiro andar, a “suíte principal” no linguajar dos corretores.

— Olha essa vista. — A casa ficava no topo de um vale, diante das montanhas Blackdown. A luz do sol coloria a paisagem e as flores cor-de-rosa e brancas da macieira no pomar. Ovelhas passeavam nos campos. Era quase uma caricatura do idílio pastoril. — Imagina acordarmos e vermos isso.

— É lindo — concordou Jeanie, sem vida.

— Não é grande demais, mas tem muitos quartos para toda a família — comentou George. — James explicou que, se resolvermos os contratos logo, poderemos mudar até o fim do verão. Não há impedimento: o proprietário morreu há mais de um ano, e os parentes estão ansiosos para dividir os bens. — George abraçou Jeanie em um gesto nada característico. — Não vê Ellie correndo pelo jardim? — Ele olhou por cima do ombro de Jeanie e apontou. — Olha, tem até um balanço no velho carvalho. — Sua alegria era ao mesmo tempo emocionante e ameaçadora. Jeanie sabia que já estava presa naquela armadilha. Se não dissesse ou fizesse alguma coisa, essa seria sua casa pelo resto da vida. O que Ray dissera? Que não havia plano que pudesse resolver tudo?

— Qual é a cidade mais próxima?

— Segundo James, Honiton e Chard. É isolado, concordo, mas a vila é simpática, e o mar não fica longe.

Jeanie tentou se imaginar ali. Aos 18 anos, deixara sua casa e se mudara para Londres a fim de se preparar para a profissão de enfermeira. Seu primeiro lar fora a casa das enfermeiras ao lado da Russell Square, uma construção austera e sombria, mas situada no que, para ela, era o centro do universo. Já fazia 42 anos. Ela observou o marido, que conversava seriamente com o jovem corretor bajulador. Sua certeza fazia parecer que ele planejava essa mudança havia anos.

Na volta para casa pela A303, George conversava, animado, e não deixava de olhar para Jeanie com um sorriso encorajador. Ela se sentiu tão pressionada que quis gritar.

— Podemos colocar a casa à venda agora, mas, se demorar um pouco até conseguirmos um comprador, não tem importância. Logo que a nova casa passar para nossas mãos, poderemos reformá-la aos poucos para ficar ao nosso gosto. E, mesmo como está, é perfeitamente habitável, concorda?

Como Jeanie não respondeu, ele continuou:

— Você está muito calada, minha velha. Sei que não estava entusiasmada com a ideia, mas deve ter mudado de opinião depois de ver a casa, não é?

Ela continuou sem dizer nada.

— Vamos, Jeanie, fale. Qual é o problema? É o local? Ou o tamanho? Fale comigo. — Ele riu. — Devo dizer que fazer 60 anos deixou você com um humor muito estranho.

Jeanie estava irritada demais para responder, mas conhecia o marido. Ele continuaria implicando com ela enquanto não respondesse.

— Eu já disse o que penso, George. Não tenho nada a acrescentar.

Assim como se espera um amante, Jeanie esperava todas as noites o momento em que George subiria para seu quarto e ela poderia estar em segurança. E então chorava com soluços intensos, mas quase silenciosos, abafados pelo edredom que a deixava ofegante, precisando respirar. As lágrimas não eram apenas por Ray. Ele era a causa inicial, mas elas pareciam se transformar em uma tristeza muito maior, incluindo a infância reprimida, a doença e a morte de seu irmão, a mentira que vivera com o marido desde que ele abandonara sua cama, o homem em que George se transformara. “Lágrimas deveriam livrá-la do sofrimento”, pensou. Mas essas não agiam dessa forma; elas apenas se intensificavam e se transformavam em algo cruel, quase violento, até Jeanie se sentir prestes a se quebrar. Ainda assim, todas as noites acontecia a mesma coisa: ela chorava, inclusive ansiava por isso, e não conseguia parar até eventualmente mergulhar no sono de tão exausta.

— Mãe, você está com uma aparência horrível — observou Chanty quando Jeanie entrava em seu carro.

Ao mesmo tempo, Ellie estendeu a mão, no banco de trás, para alcançar a avó.

— Gin vem também. Olha, bolsa e garda-chuva. — Ela mostrou a bolsa rosa-shocking para Jeanie, na qual estava enfiado o guarda-chuva verde com dinossauros. Jeanie beijou-lhe a mãozinha.

— Devo ir atrás com Ellie para mantê-la quieta?

Chanty balançou a cabeça; seu rabo de cavalo louro acompanhou o movimento.

— Ela vai ficar bem. Quero que ela durma, se conseguir. Do contrário, vai ser um pesadelo.

Segurando o volante, Chanty esperou que a mãe colocasse o cinto de segurança.

Naquele domingo, elas estavam a caminho da casa de tia Norma para um chá. Ela sempre preparava um chá especial, com pãozinho branco sem casca, manteiga e uma esplêndida bandeja de madeira de três andares repleta de biscoitos no compartimento de cima, docinhos decorados no do meio e um grande bolo redondo de frutas no de baixo, para serem comidos com a mão, claro. Ah, sim, tia Norma tinha horror a garfos para bolo e dizia que eram uma “horrível invenção da Europa continental”. Elas tomavam um chá preto chinês, feito com as folhas, e não saquinhos, em xícaras e pires de fina porcelana. Tia Norma sempre confiava a Ellie sua própria xícara, com uma pequena quantidade de chá — uma confiança que, para surpresa de Chanty e de Jeanie, a menina nunca traíra, sem derramar uma gota sequer no tapete claro.

— Mãe? — Chanty olhou para Jeanie várias vezes enquanto o carro passava por Wimbledon Common. — Tem certeza de que está bem? Parece muito cansada.

— Eu estou bem.

— Ainda está preocupada com o homem do parque?

— Eu... Talvez seja melhor não entrarmos nesse assunto.

A expressão de Chanty era tensa.

— Tive que perguntar, mãe. Tratava-se de Ellie. Você teria feito o mesmo se fosse comigo.

— Não é isso. Eu estou bem, de verdade, querida.

— Fala, mãe, por favor. Sinto muito por ter duvidado de você. Não foi você. Foi o que Alex contou sobre Ellie.

Jeanie pousou uma das mãos no braço da filha.

— Eu já disse que não é isso.

— O que é então? Papai diz que você está muito diferente. Ele está preocupado; acha que você está doente. Por favor, me conta. É a mudança? Eu soube que você adorou a casa.

— É uma casa bonita, mas isso não significa que eu queira morar nela. Eu preferia não ter essa conversa agora, se for possível. Vou ficar bem.

Mas a filha não desistiu com facilidade. Ela desviou o carro para o acostamento numa das ruas atrás de Wimbledon Village e parou.

— Desculpe, mãe, mas não vamos à casa da tia Norma até você me contar qual é o problema. — Chanty olhou para trás, viu que Ellie dormia, cruzou os braços e esperou.

Jeanie estava cansada demais para discutir.

— Está bem. Acho que é a mudança. Não quero ir e desistir da minha loja. Não quero desistir da minha vida. — Quando Chanty começou a listar suas objeções, ela ergueu a mão. — Não me fale das vantagens de Somerset. Não sou uma idiota e sei enxergar por mim mesma, mas ultimamente percebo que ninguém me ouve. Você e seu pai não parecem confiar em mim, na minha capacidade de pensar e decidir. Veja o incidente do parque, ou falta de incidente, pode-se dizer assim. Você sugeriu que eu estava caduca o bastante para não me lembrar dos meus próprios atos. E não acreditou em mim quando contei a verdade. E seu pai simplesmente me coagiu com relação a essa mudança. Eu avisei que não queria morar no campo. Sugeri que comprássemos uma casa para os fins de semana, já que ele queria passar mais tempo fora de Londres. Deus sabe que temos condições financeiras para isso. Mas ele não me ouviu e simplesmente foi adiante. E não parece ouvir quando digo que não quero me mudar. Na verdade, nos últimos anos, desde que se aposentou, ele se tornou cada vez mais ditatorial. George não era assim; ele era uma pessoa fácil de lidar. Talvez você devesse se preocupar com ele, não comigo. Meu problema é simples. Não quero vender minha loja. E não quero apodrecer no campo com ele. — Sua voz era dissonante e estridente. Ela apertava as mãos unidas sobre o colo, sem olhar para a filha. — Tenho 60 anos, não 160, e não fiz nada para merecer essa falta de respeito.

Fez-se silêncio.

— Ah, mãe...

— Por favor, não venha com... — Jeanie sabia que a pena de Chanty seria a última gota. O que ainda a mantinha firme era pura força de vontade. — Vou ficar bem, já disse. Vou superar isso. — Por mais que tentasse evitar, as lágrimas quase brotavam de seus olhos. — Tem sido um período difícil.

— Em parte, isso é culpa minha — disse Chanty, aflita. — Mas você e papai estão bem, não estão? Vocês estão se dando bem?

Era a primeira vez que Chanty perguntava isso a Jeanie, que teve um desejo repentino de contar a verdade à filha. Não, não estamos bem há anos. Seu pai está escondendo alguma coisa. Conheci um homem e quero fugir com ele... O homem do parque.

Sem obter resposta, Chanty continuou.

— Meu pai... Você sabe o que ele pensa de você. Aquele discurso que ele fez na sua festa de aniversário foi simplesmente divino, não achou?

Jeanie percebeu a tática pouco sutil, mas concordou mesmo assim.

— Você deve falar com ele, mãe. Diga como está se sentindo. Se você realmente não quer se mudar, tenho certeza de que ele não vai obrigá-la. E, como você diz, vocês poderiam comprar uma casa no campo por algum tempo e ver como se sentem.

— Vou ficar bem — repetiu Jeanie pelo que parecia ser a centésima vez e tentou se animar para que a filha acreditasse nela. Na verdade, nada mudara, exceto Chanty estar mais tranquila quanto aos seus piores temores.

— Está bem. Mas você vai conversar com ele. Promete?

Jeanie sorriu e prometeu. Chanty ligou o carro.

Na manhã de terça-feira, na loja, Jeanie levou um susto ao erguer os olhos e ver Dylan. Ele estava com uma mulher que devia ter 20 e muitos anos. Tinha o rosto pálido, embora bonito, e aparência ansiosa, segurando com firmeza o capuz da blusa de moletom listrada de Dylan, puxando-o sempre que ele dava um passo. O menino sorriu para Jeanie.

— Olá, Dylan. Como vai?

A mulher fitou-a com curiosidade.

— Nós nos encontramos no parquinho às vezes — explicou Jeanie. — Com minha neta, Ellie. — Certa de que a moça era filha de Ray, Jeanie tinha dificuldade em acalmar o coração.

— Ah, sim, papai contou. E Dylan já falou sobre Ellie. — Com uma expressão de quem pede desculpas, ela continuou: — Nem sempre com gentileza.

Jeanie riu e se surpreendeu por conseguir soar tão normal.

— Acho que Ellie é obcecada pelo seu filho.

Dylan sorriu.

— Ellie quer brincar o tempo todo, mas não pode porque é pequena.

— Sim, mas você deve ser gentil sempre. Você sabe disso — murmurou a mulher com firmeza para ele. — Aliás, eu me chamo Natalie.

— Jeanie. — Elas se cumprimentaram com um aceno de cabeça. — Como está seu pai?

— Ah, ele está bem. Muito ocupado com o clube de aikido. — Ela olhou para Jeanie. — Ainda vai ao parque? Dylan não tem mencionado vocês.

Jeanie fingiu estar ocupada com o caixa.

— Não ao Waterlow... Minha filha prefere que eu leve Ellie ao Priory. Ela acha que os brinquedos são mais estimulantes.

Aquilo soou tão ridículo que Jeanie se perguntou se Natalie não cairia na gargalhada, mas ela apenas meneou a cabeça, séria.

— Entendo o pensamento dela. A nova área de Waterlow é ótima, mas não para crianças da idade da sua neta. Priory é um pouco longe para nós, que moramos ao norte.

— Vovô anda na ponte de troncos — interrompeu Dylan, buscando a confirmação de Jeanie.

— Anda mesmo, e muito bem. — Ela viu o orgulho nos olhos do menino diante das suas palavras.

Natalie procurava algo nas prateleiras.

— Você tem leite de arroz?

— Leite de arroz, de aveia, de soja... — Jeanie mostrou a prateleira.

— Soja faz mal. Dá câncer — anunciou Natalie com sua voz alegre, sem se dirigir a ninguém em especial. — A não ser que seja fermentada, mas o leite não é. Essas peras estão lindas — comentou, apontando para uma cesta. Selecionou duas com cuidado e depositou-as no balcão.

— Comi uma pera no café da manhã. Elas estão deliciosas. — Jeanie se perguntou se Natalie sabia sobre ela e Ray, mas concluiu que não, lembrando-se da expressão de pouca curiosidade quando ela cumprimentou Dylan. Tinha certeza de que Ray não a enviara, embora no fundo desejasse que sim.

— Ray ainda leva Dylan às quintas-feiras? — perguntou Jeanie, e logo mordeu a língua.

— Quando pode, mas, como a babá terminou o tratamento no hospital, ele às vezes vai em outros dias. Você tem pão de espelta?

Jeanie pegou o pão na vitrine, embrulhou em um saco de papel e juntou-o às outras compras de Natalie. A jovem tinha pouca semelhança física com o pai, mas Jeanie viu o mesmo jeito de mover a boca, indicando talvez controle ou determinação a fazer a coisa certa.

— Cumprimente seu pai por mim — disse Jeanie, já sem conseguir suportar a lembrança, embora não intencional, que essa moça e seu filho traziam, mas querendo falar sobre Ray até que o inferno congelasse. Fazia duas semanas e quatro dias que se afastara dele no parque St. James, e, cumprindo sua palavra, ele a deixara livre para decidir se entraria em contato ou não.

Jeanie estava envolvida em uma batalha diária de resistência e resignação. Levantava-se quase mais cedo que George, sempre exausta, e usava todos os meios à sua disposição para evitar pensar em Ray, entrar em contato com ele ou comparar o que sentia por George com a intensidade de sua ligação passageira com o avô de Dylan. Todos os dias, falhava no primeiro e no último item, mas tinha êxito em sua determinação de não procurá-lo. Não lhe parecia uma vitória menos importante, mas a comparação evidenciava o quanto estava intensamente enfurecida com George pelo presente e pelo passado...

— Por que você simplesmente não o deixa? — perguntou Rita, perdendo a paciência com a amiga. — Isso está fazendo mal a você.

Elas estavam sentadas na varanda de Jeanie com duas grandes taças de Sauvignon; a única luz vinha da cozinha, que ficava atrás delas, e de uma vela que tremeluzia ao vento na beirada mais distante da mesa em frente a elas. Jeanie usava um moletom azul-marinho, e Rita estava embrulhada em um xale roxo, feito à mão, que morava no sofá da cozinha, deixando à vista apenas o rosto forte e quadrado e um braço, cuja mão segurava a taça acima das dobras do tecido. Pela primeira vez, ela estava concentrada demais no problema da amiga para sugerir que entrassem.

— Deixar George?

— Sim, George. Quem mais? — Rita balançou a cabeça. — Você fala como se a ideia fosse ridícula.

— E é mesmo. Como eu poderia deixá-lo? Passei toda a minha vida adulta com ele.

— E esse é um bom motivo para continuar?

Elas se fitaram em silêncio, ambas cientes de que não era a primeira vez que tinham essa conversa desagradável.

— Se você dissesse “não posso deixá-lo porque o amo”, isso sim seria um motivo válido.

— Mas eu o amo — disse Jeanie baixinho, mas convicta.

Ela ouviu o suspiro exasperado da amiga.

— Sim, mas ele ama você? Bill não sonharia em pensar em uma mudança sem que eu... Sem que nós dois estivéssemos de acordo e felizes com ela. Você precisa dizer isso a ele, Jeanie.

— Sobre Ray?

— Não, imbecil. Diga que não vai; eu repito: não vai. Não que “não quer ir”, e sim que não vai se mudar para o campo.

— Mas talvez seja uma mudança para melhor, Rita.

Ela jogou os óculos na mesa de madeira.

— Ah, pelo amor de Deus, ouça o que está dizendo!

Jeanie sobressaltou-se.

— Shhh, fala baixo. — Ela desviou o olhar para a cozinha.

— Ele saiu, Jeanie, não pode ouvir.

— Ele pode voltar cedo. — George tinha ido a um jantar para celebrar a aposentadoria de um ex-colega de trabalho. Jeanie havia estranhado o fato de ele querer estar com as pessoas que o tinham descartado do mercado de trabalho precocemente, mas George insistira em ir.

— Então que ouça. Na minha opinião, seria ótimo se isso acontecesse, já que é evidente que você não vai contar a ele.

— Por favor, Rita, não seja cruel. Eu não suporto isso.

O rosto de Rita suavizou-se. Ela se inclinou para a amiga.

— Desculpe, querida, mas não consigo vê-la tão depressiva. Isso é muito importante. Se George vender a casa e você for com ele para o campo, acabou. Você terá feito sua cama. Este é o momento para se opor. Apenas diga a ele, por favor. Ou então eu mesma direi.

Jeanie ficou apavorada diante da ameaça de Rita.

— Prometa que não vai fazer isso. Vou falar com ele. Mas sei que ele não vai me ouvir. Ele e Chanty acreditam que não tenho capacidade para saber o que quero e já se convenceram de que, quando eu chegar lá, tudo vai ser uma perfeição bucólica.

Rita não disse nada. Apenas olhou para a amiga, como se não tivesse nada a acrescentar.

— Sabe de uma coisa? Se eu simplesmente concordar e me afastar da tentação, talvez até goste. Talvez eu esqueça essa loucura... Talvez eu esqueça Ray.

— E é isso o que você quer?

Jeanie deu de ombros.

— Talvez sim... A outra opção parece extrema demais, ridícula demais.

— Qual é a outra opção? Falando sério, que alternativas você está criando na sua cabeça?

Jeanie respirou fundo.

— Ora, deixar George e fugir com um homem que mal conheço... Não que ele tenha pedido isso... Abrir mão de minha família e anos do que tem sido um bom casamento. Não é um casamento perfeito — acrescentou, em resposta às sobrancelhas erguidas de Rita —, mas sou feliz, estou satisfeita... Você viu.

Rita concordou.

— Mas as coisas mudam, Jeanie. Não esqueça que talvez você ainda tenha mais trinta anos de vida com George.

Ambas riram.

— Colocado dessa forma...

— Qual é a piada? — perguntou George.

As duas pularam quando ele, em um elegante terno escuro com uma gravata azul-marinho, esgueirou a cabeça por uma fresta nas janelas francesas.

— Ah, nós imaginávamos como seria abandonar nossos maridos e fugir com um garotão — respondeu Rita de um jeito relaxado, enquanto Jeanie tentava acalmar as batidas do coração, feliz por estar escurecendo.

— Isso seria engraçado — disse George, com uma risada. — Querem um drinque?

Rita bocejou e tirou o xale.

— Obrigada, George, mas eu tenho que ir.

— Agora me sinto culpado por interromper vocês — retrucou George. — Por favor, fique. Tome mais um drinque. Quem sabe um conhaque? Tenho um bom armanhaque.

— Não, eu preciso mesmo ir. — Quando se inclinou para se despedir de Jeanie com um beijo, Rita sussurrou ao seu ouvido: — Fale com ele. Agora.

— Estou um pouco embriagado — declarou George, sem que fosse necessário, ao fechar a porta. Ele abriu um sorriso frouxo para Jeanie e apontou para a garrafa de conhaque que havia tirado do armário. — Vamos, tome uma taça.

Jeanie sabia que seria impossível conversar com o marido nesse estado, mas de repente quis estar com ele, divertir-se com ele, talvez para testar o que ainda restava de seu casamento.

— Está bem. Só um drinque.