Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 10 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 10

 

— O que você acha, mãe? Qual é o melhor plano para Ellie? Não quero que ela fique acordada durante a festa, por isso pensei em chegar mais cedo. Nós podemos colocá-la na cama no andar de cima. Assim ela vai estar dormindo quando os convidados chegarem.

Jeanie estava em dúvida, mas havia muito tempo aprendera a não interferir nos arranjos para a neta, pois isso só resultava em atrito. De qualquer modo, Ellie nunca era deixada com alguém que não fosse ela, portanto não havia escolha.

— Está bem, querida. Pode deixar Ellie aqui e se arrumar em casa. Mas não esqueça que o pessoal do bufê chega por volta das quatro. Isso não vai ser um problema em relação ao jantar de Ellie? Eles vão assumir a cozinha.

Jeanie ouviu Chanty suspirar.

— Já não sei qual é a melhor solução. Eu me esqueci do bufê. Com muita gente na cozinha, Ellie não vai sossegar. Plano B: nós a levaremos mais tarde, alimentada e de banho tomado, e já estaremos prontos. A festa começa às sete e meia. Vamos chegar às sete, e Alex levará o berço portátil.

— Como preferirem.

— Estou tão animada, mãe! Vai ser uma grande noite. — Chanty adorava festas. — Você se decidiu quanto ao vestido? Vai ser o azul ou o prateado?

Jeanie riu.

— Nenhum deles. O azul faz com que eu pareça ter 150 anos, e o prateado já foi visto por todos pelo menos dez vezes. Eu me dei um presente. Comprei um vestido em Crouch End.

— Fantástico! Como é? Ellie, não! Largue isso, está imundo. Desculpe, mãe... Ellie pegou uma coisa... Ellie, já disse que não. Solta isso e me dá agora!

Ellie soltou um grito de raiva e seguiu-se uma briga. Jeanie sorriu.

— É um daqueles recipientes de isopor horrorosos, onde se coloca comida para viagem — comentou Chanty. — Coberto com alguma coisa indescritível. Londres é terrível.

Jeanie recusou-se a reagir ao mantra tão familiar.

— É preto.

— O que é preto?

— Meu vestido novo. É preto, simples, com alças largas... Um pouco justo.

— Aaah, sensual! Aposto que papai gostou.

— Ele ainda não viu. Mas me senti bem nele.

Jeanie não se importava muito com moda. Gostava de roupas bonitas nos outros, mas resolver o que ficava melhor em si própria era um sofrimento eterno. Fora criada pelos pais com a noção de que roupas vistosas eram coisas do diabo. Quando criança, todas as suas roupas tinham tecidos duráveis e escuros e eram práticas e grandes demais. Jeanie não experimentou a rebeldia da adolescência. A morte do irmão a impressionara demais, e, de algum modo, ela nunca se recuperou. Geralmente, era Chanty quem a convencia a sair para comprar coisas novas, sempre com grande relutância por parte de Jeanie. Mas ela escolhera o vestido preto com cuidado e até pedira a opinião da vendedora na pequena butique, em vez de agir como sempre fizera — isto é, esconder-se atrás das araras de roupas, escolher a peça mais semelhante possível à antiga, que estava sendo substituída, pagar e ir embora quase fugindo, como se estivesse participando de um assalto. Ao experimentar o vestido em frente ao espelho, enquanto a vendedora movia a cabeça em sinal de aprovação, pensara em Ray e tentara imaginar o que ele veria.

— Ótimo, mãe. Será a sua noite. Tenho certeza de que vai estar linda.

— Ah, Chanty, antes que você desligue, eu queria saber uma coisa... — Jeanie queria falar com a filha a sós. — Alex está bem?

— Sim. Por que pergunta? — Sua filha ainda era cautelosa quando falava sobre o marido com a mãe.

— Ele parece estressado. Você sabia que ele me pediu para ficar com Ellie mais dias por semana durante o verão enquanto prepara a exposição?

Após um instante de silêncio, Chanty falou:

— Não, não sabia. O que você respondeu?

— Eu disse que não podia. Não posso abandonar a loja. Mas não fale com ele sobre isso, querida. Ele ficou um pouco... desapontado por eu não poder ajudar.

— Mas vocês estão se dando bem, não é?

— Sim, claro — mentiu Jeanie.

— Eu me sinto culpada por obrigá-lo a cuidar de Ellie, mas não tenho escolha! — Chanty suspirou. — Você acha que eu deveria deixá-la com uma babá? Só durante o verão?

— Depende da babá. Parece funcionar para muitas mães.

Jeanie sabia que não passava muito entusiasmo pela ideia de sua preciosa Ellie ficar nas mãos de uma pessoa desconhecida.

— Mas já deve ser tarde demais para encontrar uma; pelo menos uma que seja boa.

— Lamento não poder ajudar, querida.

— Não, mãe, não é sua responsabilidade. Você vai ter muito o que fazer com a mudança.

Jeanie engoliu em seco. A mudança. Esquecera-se da ainda hipotética mudança.

— Conversaremos amanhã — disse Chanty. — Estou ansiosa, mãe.

Se a filha se sentia culpada, Jeanie não se sentia muito diferente. Desde que se tornara avó, ela achava confuso lidar com as responsabilidades familiares, como se pisasse em areia movediça. Seria esta sua “terceira vida”, como tia Norma dizia, ou ela ainda era basicamente esposa, mãe e avó?

Porém, por mais confusas que suas responsabilidades pudessem parecer, Jeanie acordou, na manhã seguinte, com a estranha certeza de que era uma velha aposentada — uma cidadã idosa, no vocabulário atual. “Como isso aconteceu?”, perguntou-se, procurando se recordar de como via, há uma década, as pessoas de 60 anos. Segundo Rita, elas faziam parte de uma geração diferente, fruto do baby boom, que não aceitava docilmente a decrepitude. Mas todas as gerações não pensavam assim?

A porta se abriu, e George apareceu com um grande sorriso. Nas mãos, trazia uma bandeja muito bem-arrumada, com uma rosa vermelha num vaso, torradas num pequeno prato de prata, um vidro de geleia, um guardanapo dobrado ao lado de um ovo cozido, um bule fumegante e uma xícara de porcelana azul com uma jarra de leite do mesmo conjunto. Apoiado no vaso, havia um cartão e um presente comprido, embrulhado em papel dourado.

— Feliz aniversário, querida.

Jeanie sentou-se para receber a bandeja.

— Obrigada, George. Que adorável.

Ele abriu as cortinas e comentou sobre o tempo, como de costume.

— O clima está fantástico, um dia perfeito. — Ele se sentou na cama. — Vamos — insistiu. — Abra.

Jeanie riu.

— Está bem... — Ela estava sensibilizada com o entusiasmo do marido. Quando estendeu a mão para pegar o presente, afastou Ray, com firmeza, para o fundo da mente.

Dentro da caixa de couro azul-escuro com desenhos em dourado havia um belo relógio analógico, com o mostrador retangular e fecho de prata.

Jeanie quase perdeu o ar.

— É perfeito, querido, simplesmente perfeito. — Ela balançou o pulso para ele apreciar o relógio.

— Devo dizer que ficou muito bem em você — comentou George, claramente contente.

Jeanie aproximou-se para beijá-lo, e, numa atitude rara, ele a abraçou e a manteve junto de si. Ela não se lembrava da última vez que ele agira assim e quase chorou pelo que tinham perdido.

— Você já sabia? Eu não poderia mesmo dar outra coisa, considerando minha obsessão por relógios, mesmo se você não quisesse.

Jeanie riu e meneou a cabeça.

— Faz tempo que quero um desses. E, não, eu não tinha pensado em presentes. Adorei.

As lágrimas vieram. George parecia assustado e segurou sua mão.

— Qual é o problema, minha velha?

Jeanie sorriu entre as lágrimas. Se ao menos ele não a chamasse assim. Aquela expressão parecia representar tudo o que estava errado no relacionamento.

— Nada. Eu estou bem. Apenas um pouco desarmada.

George concordou.

— É uma grande coisa fazer 60 anos, especialmente para uma mulher.

— Por que para uma mulher?

— Ah, você sabe, os homens podem continuar para sempre.

— Fazendo o quê?

George pareceu constrangido depois de perceber o tom ofendido da pergunta de Jeanie.

— Ah, deve ser uma questão de ponto de vista.

Em qualquer outro dia, Jeanie não deixaria passar. Sabia exatamente o que ele queria dizer. Mas ela mordeu a língua e, decidida, transferiu a atenção para seu café da manhã, batendo a colher na casca do ovo cozido e preparando uma xícara de café.

— Então qual é o plano? — perguntou ela, enquanto comia a torrada.

George se levantara e perambulava pelo quarto.

— Hoje é o seu dia. Você escolhe. Não irá à loja, certo?

Jeanie balançou a cabeça e pensou por um instante.

— Não, Jola vai cuidar da loja. Sabe de uma coisa? Já que o dia está tão bonito, eu gostaria de ir a Kenwood e almoçar num lugar aberto.

George aprovou a sugestão.

— Então vamos a Kenwood.

— Nossa! Você está linda! Muito linda.

George apoiara o braço na prateleira sobre a lareira da sala, evitando o pessoal do bufê. Com o cabelo grisalho bem-penteado, usava seu smoking antigo e slippers pretos de veludo com um monograma. Jeanie observou que a roupa de gala o deixava com um ar distinto, um homem que poderia ter sido grande na vida, não fosse sua veia neurótica. Jeanie deu um rodopio.

— Adorei o vestido.

— Que bom. — Ela mostrou que estava usando o relógio novo e sorriu em agradecimento.

George se aproximou e segurou-lhe as mãos.

— Jeanie, quero que tenha uma noite perfeita. Você merece.

Ela percebeu a vulnerabilidade na expressão do marido. Seria esta sua maneira de se desculpar, de dizer que lamentava por perdê-la?

A campainha soou.

— Deve ser Chanty.

A sala de jantar parecia um mundo encantado. Quando o sol se pôs, destacaram-se as pequenas luzes cintilantes e as velas compridas e claras, trazendo vida ao ambiente escuro e realçando as toalhas imaculadamente brancas, os cristais, os arranjos de rosas cor-de-rosa, os vestidos de festa cheios de brilho e os convidados ali reunidos.

George provocou risadas ao admitir a natureza aleatória do critério usado para acomodar os convidados nas mesas, mas isso ajudou a conversa a fluir. Jeanie percebeu que já estava um pouco embriagada. Com Ellie segura em um dos quartos de hóspedes e a chegada dos primeiros convidados, ela relaxou e deixou a tensão das últimas semanas se desvanecer num fluxo suave de champanha. Nada nem ninguém importava. O amanhã, no plano imortal, seria outro dia.

Observando as mesas, Jeanie sorriu diante da estranha combinação de amigos. Alex fazia o possível para ser simpático com Rita; Jola estava obviamente entediada com o monólogo de Danny; Marlene, sua antiga parceira de tênis, lançava suas opiniões direitistas aos ouvidos da sua vizinha, Sue. Chanty tivera sorte e se sentara com o belo marido da prima de George. No geral, eles pareciam satisfeitos de estar ali, e ela percebeu a alegria dos convidados quando o salmão defumado, o pato assado e finalmente o bolo de chocolate com morangos apareceram diante de todos.

— Está se divertindo? — sussurrou Bill, o marido de Rita, ao ouvido de Jeanie. Ela gostava de Bill. Ele era relaxado e franco, um homem modesto, apesar dos milhões que ganhara com suas lojas de plantas e equipamentos para jardinagem. Por um instante, passou pela cabeça de Jeanie a possibilidade de Rita ter contado a ele sobre Ray, mas, naquela noite, isso não importava.

— Adorando.

— É esse o relógio? — Bill tomou-lhe o pulso. — Boa qualidade.

— Você sabia? — perguntou ela, achando aquilo engraçado.

— Ora, todos sabiam exceto você, Jeanie. George andava obcecado com isso havia meses. Rita, Chanty, Jola e eu tivemos de opinar sobre o modelo que ele deveria comprar.

— Vocês concordaram?

Bill teve de rir.

— Claro que não. Sendo o especialista em relógios, George tirou vantagem de sua superioridade e insistiu em uma correia de couro. Chanty achou que você gostaria de números romanos. Eu sugeri a correia de elos — disse Bill, com um tapinha no peito. — É mais moderna, não acha? Ainda não estamos na idade de nos entregar ao que é tradicional.

— Qual foi a parte de Rita?

— Ah, Rita achou que ele devia comprar um Aston Martin.

— Com certeza — concluiu John Carver, o alegre e encantador designer de interiores que os ajudara na decoração da casa, intrometendo-se. — Sempre digo que, para uma mulher, um Aston nunca é demais.

— Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre Jeanie.

As palavras de George vieram logo depois que Tia M. deu umas batidas leves com o garfo na taça de cristal para que todos silenciassem.

— Jeanie é minha mulher há 32 anos e, na minha opinião, ela é a melhor esposa da Inglaterra... — Inúmeros “silêncio!” ecoaram por toda a sala enquanto George ajustava os óculos no nariz e aguardava que todos se calassem. — Nós nos conhecemos em um cinema, como muitos sabem, mas ainda assim vou contar a história, porque ela é boa. No Screen on the Green, em Islington, para ser mais preciso, assistindo a Julie Christie no filme Inverno de sangue em Veneza... Meu amigo era obcecado por ela. Lá pelas tantas, durante a exibição do filme, ouviu-se um grito de pânico na fileira atrás da minha. “Ajudem! Rápido! Alguém desmaiou...” Outra pessoa gritou: “Tem algum médico aí?” Eu não sabia o que fazer e me envergonho de dizer que não saí do lugar quando as luzes do cinema se acenderam. Até que, de repente, abrindo caminho pela fileira, surgiu uma linda garota ruiva. Todos pareciam paralisados. Nós nos limitamos a observar o pobre rapaz desmaiado na poltrona, produzindo sons como se estivesse sufocado. Sem afobação, a garota se inclinou e tocou-lhe o braço. “Ei... Você está bem?”, perguntou ela. “Você teve um desmaio”, continuou. O rapaz imediatamente abriu os olhos, confuso. “Você é epilético?”, perguntou a garota. Ele balançou a cabeça negativamente. “Não, não, eu estou bem. Vou ficar bem...” Mas ele estava branco e suava, parecendo longe de estar bem. Ela o ajudou a se endireitar na cadeira e enxugou o suor em seu rosto. Chamaram uma ambulância e, finalmente, o rapaz foi levado. Mas Jeanie agira com tanta calma, tanta bondade e tanta confiança que, quando voltou para a sua cadeira, todos bateram palmas. — George fez uma pausa. Ele parecia saber que tinha a atenção de todos. — Eu me apaixonei. Contei ao meu amigo que precisava saber quem ela era e, no fim da sessão, corri para a saída e a esperei na calçada.

Jeanie tentou se lembrar da garota sobre quem ele falava. “Até naquela época eu era responsável”, pensou, com um sorriso amargo, percebendo que, embora estivesse fugindo do sombrio vicariato de Norfolk e da sensação de dever e obrigação que a impregnava, nunca tinha sido uma pessoa alegre e despreocupada. Seu irmão, Will, era o brincalhão da família, que tentava, em vão, descobrir um meio de estimular o senso de humor dos pais. Com ele, Jeanie ria até mal conseguir respirar. Ela lançou um beijo imaginário para o irmão, pensando no que ele diria sobre a irmãzinha fazendo 60 anos se estivesse aqui, vivo, esta noite.

George ainda falava.

— Quando ela saiu, meu amigo e eu nos aproximamos e conversamos sobre o ocorrido. Ela estava com outra amiga. Ambas eram enfermeiras, e acabamos tomando um drinque ali perto. O resto... — George estendeu a mão para a esposa — é passado. Isso não quer dizer que Jeanie seja uma santa... — continuou ele quando as palmas pararam.

— Ela aguentou você por 32 anos, não aguentou? Cara sortudo! — interrompeu uma voz masculina. George sorriu.

— De fato, sou um cara sortudo e prefiro ela a qualquer santa. Jeanie me mantém alerta, tem bom humor inclusive quando faço tolices, é leal, verdadeira e a amiga tolerante que qualquer homem gostaria de ter. — Mais aplausos saudaram a declaração. Jeanie baixou a cabeça, perplexa, como se golpeada por uma bofetada, diante da crueldade da situação. Ao erguer os olhos, viu o olhar imparcial de Rita.

Por um minuto, fez-se silêncio. George parecia ter se perdido temporariamente. Jeanie sentiu que cada pessoa esperava com ansiedade quando ele quebrou o silêncio e falou, tranquilo, mas firme, olhando para os amigos ao redor.

— Não tenho nada mais a dizer, exceto que a amo, sempre a amei e sempre a amarei. — E, com isso, ele se sentou como se a força lhe tivesse abandonado as pernas.

Houve silêncio em respeito à emoção sincera. Jeanie viu lágrimas nos olhos de Chanty, assim como em muitos outros, inclusive nos seus. Notou que Alex a fitava com um respeito que ela não conhecia. Bill a abraçou.

— Vamos fazer um brinde à querida Jeanie, que, tenho certeza de que vocês concordam, não parece ter mais de 12 anos. — John Carver tentou dizer mais alguma coisa, mas todos se levantaram com as taças nas mãos. — A Jeanie! Feliz aniversário!

— Discurso! Discurso! — Jeanie ouviu os pedidos e balançou a cabeça, rindo.

— Não vou puni-los desse jeito, exceto para agradecer muito a todos por estarem aqui e celebrarem comigo. E obviamente quero agradecer a George por suas lindas palavras.

Ela se aproximou dele e o beijou. Ele parecia exaurido.

— Você foi brilhante.

Ele sorriu.

— Tudo o que eu disse é verdade, Jeanie, cada palavra.

Alex abriu as janelas francesas da sala de jantar. No calor da noite de abril, as pessoas começaram a sair para a varanda e para o jardim, onde havia luminárias e tochas dispostas pelo bufê.

— Uma festa fabulosa, querida. — Rita aproximou-se de Jeanie e a abraçou.

— Que tal seus companheiros de mesa?

— Ótimos. Sei que você e Alex não se dão muito bem. É claro que ele é obcecado por si mesmo, mas não é má companhia quando se esforça.

— Espero que você tenha falado a meu favor.

— Eu parecia sua agente, querida. — Rita olhou ao redor, verificando se elas podiam ser ouvidas por alguém. — Você está bem? Isso tudo não pode ter sido fácil.

Jeanie balançou a cabeça.

— Estou me sentindo uma merda.

— Ele falou o que realmente sente — comentou Rita.

— Não...

— Mãe... — chamou Chanty, dando-lhe um abraço forte. — Não foi lindo? Você não adorou o discurso do papai?

Jeanie retribuiu o abraço.

— Adorei. Adorei tudo. Obrigada, querida. Estou muito feliz por você ter me obrigado a fazer uma festa.

Chanty fez uma careta para Rita.

— Nem consigo dizer o quanto foi difícil convencê-la. “Odeio festas”, “não quero comemorar”, “vai ser uma tagarelice geral”...

Rita achou graça.

— Ela é uma grande teimosa, mas nós a amamos.

Muito depois, Jeanie e George estavam novamente a sós, sentados na cozinha, com as portas ainda abertas para o ar fresco da noite e uma vela solitária queimando entre ambos. A mesa estava cheia de travessas com sobras de comida envoltas em papel-filme e caixas com copos que o pessoal do bufê buscaria na manhã seguinte. George beliscava um pato frio.

— É a hora que eu mais gosto — comentou.

— Quando todos já foram? — Jeanie sorriu e tirou os sapatos sob a mesa. — Entendo o que você quer dizer.

— Foi tudo bem, não acha?

— Foi maravilhoso. Nunca dá para saber, mas acho que todos se divertiram.

— O namorado de Jola parecia perdido, e não sei se Bea gostou.

— Com todo o barulho, ela provavelmente não ouvia o que as pessoas diziam, mas fiquei feliz com a presença dela.

Bea era uma vizinha, já com mais de 90 anos, que conheciam desde antes de se casarem.

Eles conversaram mais um pouco. Então, George se levantou e pegou as mãos de Jeanie, puxando-a para se levantar.

— Bem, agora vou para a cama — disse ela, bocejando, mas George não soltou suas mãos.

De repente, ele se inclinou e beijou-a nos lábios. Um beijo demorado. Jeanie gelou. “Não”, pensou ela, “não, por favor, agora não”. Os braços de George a envolveram, suas mãos a acariciaram; ele afastou a alça do ombro esquerdo e beijou-lhe a pele nua. A respiração dele era rápida e irregular.

— George... — Jeanie afastou-se um pouco, mas ele não ligou.

— Jeanie, suba comigo, por favor. — Ele a beijou novamente com uma paixão terrível, desesperada, que a fez se retrair. Era como se ele estivesse fazendo apenas o que sabia que deveria ser feito, cerrando os dentes para realizar a tarefa.

George puxou-a em direção à porta, segurando-lhe o pulso com firmeza, mas pareceu mudar de ideia. Encaminhou-se para a sala e sentou-se no sofá, levando-a consigo. Por dez anos, Jeanie ansiara por esse momento, mas agora era errado. Ray não era o problema; naquele momento, ela mal pensava nele. Não, ela se sentia furiosa, até ultrajada, por George acreditar, ainda que por um único instante, que tinha esse direito.

— George, para, por favor, assim não...

Mas ele continuou.

— George! — Dessa vez, foi um grito.

Ela empurrou o peito do marido com força e levantou, ofegante.

George estava desmoronado nas almofadas, com os óculos tortos sobre o nariz e o rosto enrugado na expressão mais vazia que Jeanie já vira.

— Desculpe... Desculpe... — murmurou ele quando ela o encarou. — Você estava tão bonita esta noite. Ah, Jeanie, eu achei, depois de tanto tempo, que era o que você queria. — Ele piscou.

Ela sentiu que a força a abandonava e sentou-se novamente ao lado do marido.

— Não assim, George. Não de repente. Já faz dez anos.

Os olhos de coruja de George a fitaram com tristeza.

— Dez anos? Eu não imaginava.

Fez-se silêncio.

— Então você não quer mais?

— Eu quero, claro, embora ache que seria estranho depois de tanto tempo. Essa nunca foi minha escolha. — Jeanie suspirou, frustrada. — Mas você ainda não explicou por que de repente não quis mais fazer sexo comigo.

Jeanie observou o marido brincar com a abotoadura direita, tentando enfiá-la na casa do botão. Era um disco de ouro pesado com um monograma, quase grande demais para as casas, que ele recebera do pai ao completar 21 anos. Jeanie se aproximou e o ajudou, à espera de uma explicação.

— Por quê, George? — perguntou ela finalmente.

Ele a encarou, mas logo desviou os olhos, nervoso.

— Não houve um motivo — respondeu George de um jeito infantil, irritado.

Jeanie levantou-se.

— Estou velha demais para isso — murmurou ela, cansada, sentindo que de fato estava velha demais para ouvir mais uma vez essa mentira tão antiga.

George tinha uma postura obstinada, teimosa.

— Nada aconteceu. Não consigo explicar.

— Melhor dizendo, não quer explicar. — Jeanie pegou o xale de lã azul-claro, que estava nas costas da poltrona. Em uma última tentativa, com os braços cruzados, dirigiu-se a ele, que ainda estava desmoronado sobre as almofadas. — Veja isso do meu ponto de vista, George. Suponha que fizéssemos sexo esta noite, e eu pensasse “que bom, voltamos à nossa vida normal”. Suponha que eu não fizesse perguntas e apenas concluísse que o problema que existia antes não existiria mais e, depois, você fizesse tudo de novo. — Jeanie o encarou. — Eu não teria condições de superar isso.

George moveu a cabeça lentamente.

— O que eu disse sobre você é verdade, Jeanie. Eu a amo. Sempre a amei e sempre a amarei.

Jeanie concordou, porque isso pelo menos era verdade.

— Nós temos uma relação sólida, não temos? Você e eu?

Jeanie limitou-se a fitá-lo.

— Eu sei que a questão do sexo não é fantástica, mas eu não suportaria perdê-la.

Jeanie desviou o olhar. De repente, sentia-se cansada demais para falar sobre esse assunto. Eles já não pareciam estar do mesmo lado. Ela sabia que George ainda escondia algo e vira a agitação nos olhos dele. E agora ela também tinha um segredo.

— Boa noite, George.

— Boa noite.

— É como os ônibus: podemos esperar durante horas até chegarem dois ao mesmo tempo.

Rita subia a colina; Jeanie a acompanhava. Finalmente chegaram ao topo, lutando contra o vento, e tomaram fôlego, tendo à frente a paisagem panorâmica de Londres que se estendia além de Hampstead Heath.

— Não é engraçado — comentou Jeanie, embora, pelas risadas, ambas demonstrassem o contrário.

— Sinceramente, querida, nós deveríamos estar preocupadas com nossas cadeiras de banho, e não resistindo a bandos de homens cheios de luxúria!

Jeanie enviara uma mensagem para Rita naquela manhã, assim que considerou o horário adequado. Apesar do cansaço, não dormira após deixar George na sala. Às cinco horas, descera para a cozinha e observara o nascer do sol saboreando os morangos que tinham sobrado da noite anterior.

— Eu deveria ter permitido? — perguntou a Rita, contando-lhe a dúvida que a havia atormentado durante a noite. — Se tivesse, talvez as coisas fossem mais simples... Poderíamos voltar à nossa vida normal, juntos.

Rita tomou um bom gole de água e enxugou a boca com as costas da mão. Mesmo tendo de sair de repente, estava bem-vestida, com uma calça esportiva cinza levemente ajustada ao corpo e uma camiseta de lycra cor-de-rosa.

— Se você achou que seria errado, é porque seria. Fim de papo.

— Simples assim? Podemos nos sentar um pouco? — Jeanie estava tonta. O banco estava úmido, e ela se perguntou se chovera durante a noite.

— Isso está mesmo mexendo com você. — Preocupada, Rita observou a amiga, que usava um pedaço de celofane para tentar secar o assento do banco.

— O que aconteceu não teve relação com o homem do parquinho, teve? — continuou Rita. — Você os comparou?

Jeanie analisou seus pensamentos antes de responder.

— Na hora, não pareceu ter. Tive a impressão de que eu me defendia de um ataque. — Ao ver a amiga franzir o cenho, ela continuou: — Eu sei que estamos falando de George, mas você não viu, Rita. Ele estava descontrolado.

— De desejo?

— Não exatamente. Eu diria que era desespero.

— Não é um bom sinal. Jeanie, o que você sente por George? Ainda se sente atraída? O beijo dele provocou em você algum desejo?

Jeanie balançou a cabeça.

— Eu o desejava, mas agora já não é bem assim. E ele não me deu chance de sentir nada ontem.

— Exceto raiva. E o que ele disse esta manhã?

— Não esperei por ele. Eu estava sem condições de encará-lo.

— Ah, querida... — Rita viu as lágrimas quase antes de Jeanie percebê-las. — Pretende conversar com ele sobre isso?

— Não vejo sentido.

— Quer dizer que vai continuar como antes? Como se nada tivesse acontecido? — A expressão de Rita era de incredulidade.

— O que mais posso fazer se ele não conversa comigo?

— Está bem. Não fique nervosa.

— Desculpe, mas você não entende. Em primeiro lugar, você nunca se permitiria chegar a essa situação ridícula.

O silêncio de Rita pareceu confirmar essa suposição.

— E o homem do parque?

Quando Jeanie pensou em Ray, algo nela se suavizou, e aparentemente, pela primeira vez após o ataque de George, ela relaxou.

— Ele não tem nada a ver com tudo isso, Rita... Ele é apenas Ray.

Rita parecia cética. Tomou mais um gole d’água, limpou o gargalo da garrafa e ofereceu-a a Jeanie.

— Você ainda tem uma vida sexual com Bill? — De repente, Jeanie quis saber se o resto do mundo funcionava normalmente.

Rita achou graça.

— Não é como o sonho da juventude, mas, sim, é divertido. Nós sabemos do que o outro gosta e descobrimos formas de nos estimular; às vezes assistimos a pornôs.

Jeanie arregalou os olhos.

— Pornôs?

— Não fique tão chocada. Você deveria experimentar. É hilário.

Jeanie tentou se imaginar fazendo o mesmo com George, mas não conseguiu.

— E então? Vai encontrar Ray de novo?

— Eu... Tenho a impressão de que vê-lo é ao mesmo tempo tolo e essencial, mas não vê-lo parece a mesma coisa.

Rita se levantou.

— Vamos! Essa discussão está rodando em círculos. Você precisa andar para esquecer os dois.