Encontros no Parque
Capítulo 23
Deitada no sofá, Jeanie ouvia o CD de Chet Baker sem parar. Deixou a música mergulhar nela, fluir ao seu redor e através de seu corpo, transportada pelas notas longas e suaves para aqueles momentos inesquecíveis que mudaram sua vida. Esta noite, pela primeira vez desde que havia embarcado na separação, sentia-se livre para se entregar a essas memórias, porque George finalmente entendera.
O presente de Ray só podia significar uma coisa, mas ela hesitou em entrar em contato com ele. Este momento de esperança antes da completa incerteza de um novo romance era muito precioso para ela.
Sua mensagem para Ray, no dia seguinte ao Natal, perguntava se deviam se encontrar.
Na resposta, ele concordava.
No parque, ao meio-dia?, sugeriu ela.
Como resposta, ele enviou beijos.
* * *
Naquela manhã, Jeanie passou um bom tempo em frente ao espelho do banheiro. Sob a luz brilhante do sol, nada podia ser escondido, pensou, e logo se censurou pela vaidade. Pela primeira vez, preocupou-se com o que vestir. Experimentou roupas que nunca tinha usado e descartou-as, apavorada. Por fim, as considerações práticas venceram: fazia frio e era hora do almoço. Usaria calças jeans, botas e seu suéter favorito de cashmere creme.
Quando fez a curva que levava ao parquinho, Jeanie o viu sentado no banco ao lado dos patos, no mesmo lugar onde, no passado, o vira tantas vezes. Seu coração quase pulou ao avistá-lo.
Ray se levantou ao vê-la, e, por um instante, ambos pareciam congelados no tempo, tanto no passado quanto no futuro.
— Ah, Jeanie — sussurrou Ray, abrindo os braços para ela. Ela se aproximou dele e se aninhou em seu peito. Quando ele a abraçou com força, ela sentiu uma felicidade quase insana.
Não parecia haver nada a dizer, como se qualquer coisa pudesse quebrar o encanto, e então passearam pelo parque de mãos dadas, quase sem falar. Desceram a colina e andaram em direção ao único café que achavam que poderia estar aberto em um feriado bancário.
— Você não faz ideia do quanto senti sua falta — disse Ray. Eles estavam sentados sob o calor do sol de inverno, em cadeiras de metal um pouco instáveis. Havia alguns cães no lugar; os donos puxavam suas coleiras e os repreendiam enquanto tomavam seus cafés.
— Faço, sim — retrucou ela. Nenhum dos dois conseguia parar de sorrir.
— Mas você achava que não daria certo comigo.
— Não, eu achava que não devia deixar George.
— E o que a fez mudar de ideia?
— Você, eu acho. — Jeanie deu uma risada. — Mas eu o vi com aquela garota bonita e concluí que tudo estava terminado, que você tinha reconstruído sua vida com outra pessoa.
Ray não entendeu nada.
— Que garota bonita?
— Pode ser sincero comigo. Vi vocês juntos, embaixo do guarda-chuva. Vocês pareciam muito próximos.
Ray refletiu um pouco. De repente, ele jogou a cabeça para trás com uma gargalhada.
— Mica! Era Mica! Você achou que éramos um casal de namorados?
— Você a abraçava com muita intimidade... — disse Jeanie, desconcertada com a risada de Ray.
— Ela é minha assistente. Ajuda na administração do clube de aikido. Naquele dia, embaixo do guarda-chuva, ela tinha acabado de contar que estava grávida! Ah, Jeanie, isso é hilário... Você com ciúmes de Mica! Você não imagina...
— Está bem, não precisa ficar falando sobre isso. Na ocasião, não foi nada engraçado. Não fiquei só com ciúme; eu achei que vomitaria bem ali na calçada — admitiu Jeanie. — E morreria — acrescentou.
Ray fez um aceno de cabeça.
— Eu entendo. Passei alguns meses muito mal, desesperado, pensando em você com seu marido.
— Eu devia isso a ele. Ele ainda acha que nossa separação está, em parte, vinculada ao abuso, e que passei a sentir repulsa pelo que aconteceu a ele. Eu de fato me sinto enojada, mas não da forma como ele imagina. Ele também acha que me separei por sua causa. George percebeu que havia alguma coisa relacionada a você mesmo quando não estávamos nos vendo mais.
— Você contou a ele sobre nós?
— Não. Ele precisava saber o que eu realmente sentia?
Ray deu de ombros.
— Provavelmente não.
— Você acha que eu deveria ter contado?
— Não sei, Jeanie. Não cabe a mim opinar. Gosto de pensar que a sinceridade é a melhor política, mas plantar uma imagem na cabeça de um homem pode enlouquecê-lo.
— Mais do que sua imaginação?
— Talvez não.
— Não vamos falar sobre George — pediu Jeanie, buscando a mão de Ray.
— Claro. — Por um momento, eles pareciam perdidos na ainda surpreendente realidade de estarem juntos. — Jeanie, você acha que podemos ter uma relação de verdade, você e eu?
Jeanie respirou fundo.
— Nós podemos tentar — respondeu, com um sorriso nos lábios.
Ray balançou a cabeça.
— Essa é a questão. Eu nunca preciso tentar com você. Não me lembro de ter me sentido tão à vontade com ninguém. Por isso sofri tanto quando você se afastou. Eu sabia que nunca mais encontraria alguém que me causasse essa sensação.
— Vamos caminhar um pouco? — sugeriu Jeanie. — Está esfriando mais.
— Pensei em irmos à minha casa — sugeriu Ray com um sorriso.
Extremamente feliz, Jeanie concluiu que não havia motivo no mundo para não aceitar o convite.
A relação foi tão sensual e apaixonada quanto na primeira vez. Agora, porém, não havia desesperança, apenas alegria. A tristeza da perda iminente, que obscurecera todos os seus encontros anteriores, já não os atormentava.
Após o ato de amor, Jeanie continuou deitada, nos braços de Ray, que acariciava sua pele nua.
— Isso é o paraíso — murmurou ele.
Jeanie ergueu o rosto e beijou-lhe a boca. No início, delicadamente; depois, com mais ansiedade. De repente, o som de seu celular interrompeu-os. Com um suspiro, ela pegou o aparelho, e, quando viu o número, logo soube do que se tratava.
— Alex?
— Estou levando Chanty agora para o hospital. Ellie está comigo. Pode pegá-la lá? — Jeanie percebeu que a calma do genro era apenas aparente. — As contrações ficaram mais frequentes. Foi tudo de repente, por isso não telefonamos mais cedo. Onde você está? Não acho que vai demorar muito.
— Estou a caminho. Quinze minutos. — Jeanie desligou o telefone e pulou da cama. — Chanty está em trabalho de parto. Tenho que pegar Ellie.
Ray sentou-se.
— Uau... Boa sorte, espero que tudo corra bem.
Jeanie se inclinou para se despedir com um beijo rápido e se foi, subindo a colina apressadamente em direção à maternidade, com o coração pulando de alegria.
A pequena Rebecca Anne nasceu perfeita, pesando 3,63 kg. Chanty chegou tarde demais para uma anestesia peridural, mas o parto não foi difícil. “Para os outros, foi muito fácil!”, replicava ela quando ouvia esse comentário. Ellie recebeu a irmãzinha como uma grande novidade, mas a alegria só durou 24 horas, pois logo deu lugar ao ciúme. Chanty lidou muito bem com a situação, apreciando talvez o contraste em relação aos primeiros meses de Ellie, quando estava sozinha para cuidar de tudo.
Jeanie preferiu esperar para contar à família sobre Ray. Ainda temia as reações e as inevitáveis acusações.
— Conta, conta, querida — atiçava Rita. — Afinal, o que eles podem fazer? Eles não vão gostar, mas a vida é sua.
— Sim, mas será melhor se eu esperar. Quanto mais tempo passar desde que deixei George, menos confusão eles vão criar.
— Se esperar demais, eles com certeza vão saber por alguém. Vocês serão vistos juntos, e sempre há alguém para contar.
— E se Chanty não me deixar ver Ellie e a bebê? Ela detesta Ray. Acredita que ele foi responsável por eu ter deixado o pai dela.
— Ah, e ela tem razão: ele foi mesmo. Pelo menos foi uma das causas. Mas Chanty jamais afastaria você das crianças. Claro que ela o odeia agora, mas com o tempo vai aceitar. Ela a ama e quer que você seja feliz. — Rita fez uma pausa; o olhar que lançou para Jeanie foi de pura compaixão. — Ninguém disse que seria fácil, querida.
— Mas você não acha que é errado estarmos juntos, acha?
— Ah, querida, claro que não. Estou morrendo de ciúmes, mas isso é outra questão.
Jeanie riu.
— Mais vinho?
— Obrigada. — Rita estendeu a taça. — Fiquei preocupada quando você deixou George, com medo de que estivesse sendo impetuosa. Mesmo sabendo que você não era feliz, achei que era uma fase e que vocês se acertariam, como acontece com vários casais. Parecia uma atitude perigosa demais...
— Para alguém da minha idade — interrompeu Jeanie.
— É, para alguém da sua idade. — Rita ergueu a taça. — Mas vamos brindar, querida. Ao amor!
— Não vou demorar para falar com Chanty. — Jeanie prometeu a si mesma tanto quanto à amiga. Sabia que esse era o obstáculo final e que, quaisquer que fossem as consequências, não estaria propriamente livre para amar Ray enquanto não contasse à família.
Fazia três semanas desde que Jeanie havia se encontrado com Ray no banco do parque e Rebecca tinha nascido. Eles se falavam todos os dias e se encontravam sempre que podiam. Ray ficava no apartamento dela ou Jeanie ia para a casa dele. No aspecto sexual, a relação maravilhava ambos, principalmente Jeanie. Ela nunca se imaginara tão fisicamente apaixonada.
— Você vai me levar para velejar? — perguntou ela, sonolenta, numa noite em que estavam na cama. A simples alegria de tê-lo ao seu lado a deixava tonta. Sentia-se jovem e feliz como nunca. — Um barco no Adriático, o sol na nossa pele, o sal nos nossos lábios e nos nossos cabelos, uma brisa fresca, nós dois deitados sobre o deque de madeira sob as velas brancas e tranquilas. Nat me contou que você esteve lá no verão passado. Foi isso que imaginei.
Ray mudou de posição.
— Quando a primavera chegar, já estaremos longe. Pegaremos emprestado o barco de Phil e partiremos. Podemos ir para onde você quiser.
— E nossos trabalhos?
— Até mesmo você e eu merecemos umas férias, não acha? — Jeanie o ouviu gargalhar na escuridão do quarto. — Você precisa aprender aikido, Jeanie, e não se preocupar tanto. Você se preocupa demais. Isso não é saudável.
— Eu? Desculpe, mas faz tanto tempo que vivo sob tensão que talvez isso seja um hábito. — Jeanie se virou para ele. — Qual foi a reação de Nat quando soube que estamos juntos?
— Acho que ficou surpresa. Ela nem imaginava, mas gostou. Ela gosta de você, e Dylan também. E acho que ficou aliviada por eu ter me apaixonado por uma pessoa apropriada, e não por alguma adolescente interesseira.
Fez-se silêncio. Ambos sabiam que Jeanie estava adiando a conversa com a própria filha.
— Certo. — Ela chegou a uma decisão. — Vou contar a Chanty amanhã.
Ray não reagiu. Não era a primeira vez que Jeanie dizia isso; aliás, dissera aquilo muitas vezes nas últimas semanas. Sabia que ele não acreditava nela.
Chanty telefonou na manhã seguinte, enquanto Jeanie e Ray tomavam café da manhã no apartamento dela. Era como se tivesse ouvido os pensamentos da mãe.
— Becca e eu vamos nos aventurar em Crouch End esta manhã. Ell está na creche, e pensei em nos encontrarmos no café italiano. Quero ver o mundo de novo. O que acha?
— Acho ótimo; vou adorar. A que horas você prefere?
— Devo chegar por volta das onze horas, depende da mamada. Como Alex buscará Ellie, não precisarei voltar rápido.
— Vejo você lá. Estou ansiosa.
Ela olhou para Ray com ar de culpa.
— Agora não vai poder voltar atrás — disse ele sorrindo.
— É fácil falar — retrucou Jeanie, com o estômago apertado diante da perspectiva.
— Parece que ela é um monstro. Ela não pode ser tão terrível assim... De qualquer modo, já deve ter adivinhado.
Jeanie pegou a xícara vazia de Ray e andou até a cafeteira para tornar a enchê-la.
— Por que ela teria adivinhado se, nos últimos meses, sempre que seu nome vinha à tona, eu dizia que não estávamos nos encontrando?
Ray deu de ombros, obviamente se divertindo mais do que concordando.
— Ela a ama. Confie nisso — afirmou ele simplesmente, aceitando a xícara que Jeanie oferecia, mas retendo a mão dela e dando-lhe um beijo suave.
Jeanie respirou fundo.
— Rita disse o mesmo, e é claro que sei que é verdade.
— Mas ainda se sente culpada por minha causa.
Jeanie concordou.
— Sim. Não tanto por sua causa quanto por separar a família. — Ela fez uma pausa. — E, na verdade, acho um pouco indecente me apaixonar na minha idade.
— Ah, que ótimo! Você e eu somos um perfeito par de bruxos velhos depravados. Deveríamos comemorar. — Rindo, ele a segurou e sentou-a no sofá. — Cuidado ou não deixarei você sair para trabalhar, para ver a sua filha ou para qualquer outra coisa.
No final, a recusa de Ray em acreditar que havia algum problema deixou Jeanie menos preocupada, e ela desceu a colina em direção a Crouch End com passos confiantes.
— Mãe, se você me garante que não estava se encontrando com ele até se separar do papai, eu acredito.
— Acredita mesmo? Seu pai não acredita.
Chanty suspirou. Ela empurrava o carrinho para a frente e para trás enquanto a bebê dormia profundamente, envolta numa linda roupa de lã branca e um gorro com orelhas de coelho que a protegia do frio.
— Não, é claro que ele não acredita, mas estou dizendo que acredito em você, mãe. Esse maldito homem parece ter a única intenção de causar problemas para nossa família — acrescentou Chanty, furiosa.
Jeanie brincou com os saquinhos de açúcar que estavam no centro da mesa, balançando o conteúdo deles de um lado para o outro dentro dos tubos finos de papel encerado.
— Tudo estava bem entre você e papai. Que prazer ele teve em acabar com uma relação perfeita de 35 anos e com nossa família? — Ela fitou a mãe com um olhar furioso. — Eu detesto ver você ser enganada assim.
A conversa ia tão mal quanto Jeanie temia, mas ela começou a se irritar diante da rude e injusta observação contra Ray.
— Não era um casamento perfeito, Chanty.
— É claro que agora você diz isso e inventa problemas que nunca existiram para salvar sua consciência. — Com raiva, ela balançava o carrinho com violência, mas Becca dormia feliz.
Jeanie não conseguiu se controlar.
— A verdade é que, durante dez anos, antes de Ray, seu pai se recusou a fazer sexo comigo e, pior, se recusou a me contar o motivo. Ele simplesmente saiu da nossa cama uma noite dizendo que não conseguia mais e pronto.
Jeanie observou o rosto de Chanty.
— Desculpe, eu não deveria ter dito isso.
— Mas por quê? — perguntou Chanty, ignorando o pedido de desculpas da mãe.
— Ele havia encontrado Acland naquele dia, por acaso. Revê-lo aparentemente trouxe tudo à tona, a lembrança do abuso.
— Então você não sabia quais eram as razões dele?
— Na época, não.
Elas continuaram em silêncio por um tempo.
— Nunca foi minha intenção contar a você assim — prosseguiu Jeanie — e não espero um voto de simpatia pelo meu comportamento. Quem arruinou o casamento fui eu, e não Ray. Eu e seu pai.
— Deve ter sido muito difícil essa história com papai. Dez anos é muito tempo. — Ela suspirou. — Acho que ele simplesmente não foi capaz de contar a você.
— Não, e agora eu entendo isso. Mas foi difícil não ter uma explicação.
— Então quando Ray apareceu...
— Eu não estava procurando alguém para ir para a cama. Se fosse assim, eu teria feito isso anos antes. Simplesmente me resignei a viver daquela forma, mas seu pai aniquilou uma confiança que eu acreditava que nós tínhamos quando se recusou a falar sobre o problema, sem se preocupar com a forma como aquilo me afetava.
Chanty olhou ao redor.
— Você ama esse homem? — perguntou ela, sem fitar a mãe.
— Sim, querida — respondeu Jeanie, respirando fundo. — Sim, eu o amo.