Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 22 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 22

 

No instante em que saiu da casa de Somerset, Jeanie teve uma sensação de alívio impressionante. Seu coração ficou mais leve, e até sua respiração se tornou mais fácil. A culpa parecia uma pedra em suas entranhas, mas ela sabia que teria de aprender a conviver com isso; era algo que não a abandonaria tão cedo.

Quando ela chegou a Londres, Chanty era sua principal preocupação. Sabia que, no estado em que se encontrava, George era capaz de telefonar aos prantos para a filha. Jeanie queria contar a ela pessoalmente.

— Oi, mãe, você ligou cedo. Está no trem?

— Não, estou em Archway. Estou dirigindo. Pode me encontrar na loja antes de ir para o trabalho? Por volta das nove?

Chanty parecia surpresa, mas com Ellie gritando a seu lado, não questionou o pedido da mãe.

— Parei de trabalhar ontem. Posso ir a qualquer hora.

— Largar ele? Você vai largar o papai? É definitivo? — Chanty estava perplexa.

Jeanie confirmou com um aceno de cabeça e contou a história à filha com a voz trêmula. No final, Chanty se limitou a suspirar, talvez cansada demais das vicissitudes do final da gravidez para se importar com a situação tanto quanto se importaria em outros tempos.

— Não posso dizer que estou surpresa. Quando papai melhorou, pensei que talvez tudo se resolvesse, mas há algum tempo Alex e eu estamos percebendo uma tensão entre vocês. Ele me avisou que isso poderia acontecer, mas não acreditei.

— Não espero que você goste da notícia.

— Para ser sincera, ainda não consegui absorver. Você e papai separados... O que ele vai fazer?

— Não sei. Ele diz que não vai conseguir superar, mas é muito mais capaz de descobrir a ajuda de que precisa do que pensamos.

— Mas você sempre foi essa ajuda. Ele é um homem com problemas.

Ao ver as lágrimas nos olhos de Chanty, Jeanie detestou-se por tê-las provocado.

— Eu sei, mas não posso mais ajudá-lo, e nem sei se algum dia consegui fazer isso. Sinto muito, querida. Não sei o que dizer.

— Vai ficar com aquele homem? — Chanty recusava-se a se referir a Ray pelo nome.

— Não. — Jeanie viu Chanty examinar seu rosto para descobrir se era verdade. — Juro que não estou me encontrando com ele. Não o vejo há meses. George também diz que ele foi o motivo da minha decisão, e até certo ponto ele tem razão, mas não da maneira como pensa.

— Como assim?

— Um caso testa um casamento, e nossa união não era forte o bastante para sobreviver. — Jeanie não quis entrar em detalhes.

— Era tão ruim assim viver com papai?

— Claro que não. Mas agora queremos coisas diferentes.

— Como Somerset? — Chanty balançou a cabeça. — Eu nunca teria apoiado a ideia se soubesse que terminaria assim.

— Eu avisei — replicou Jeanie gentilmente, lamentando não poder contar à filha toda a verdade e sabendo que ela não gostaria de ouvi-la.

Chanty ficou em silêncio, as mãos apoiadas na enorme barriga. Parecia muito cansada.

— Eu não queria contar antes que o bebê nascesse.

Chanty deu de ombros.

— Não vou estar em melhores condições de ouvir más notícias quando tiver que cuidar de um recém-nascido e uma menina rebelde de 2 anos. — Ela deu um sorriso irônico. — Mesmo assim, tudo tem seu lado bom, e pelo menos você vai estar por perto de novo. Quem sabe conseguimos persuadir papai a vender aquela casa sem sentido e voltar para Londres também?

— Não sei não... Ele parece gostar muito de morar lá.

— Nunca se sabe o que vai acontecer, mãe.

Jeanie sabia que Chanty a perdoava tão facilmente porque ela e Alex tinham conversado a respeito e concluído que não passava de uma fase, um estresse diante do “pânico da aposentadoria”. Eles esperavam que ela caísse em si.

Ficou claro que Chanty e George tinham a mesma opinião, pois ele se comportava como se nada tivesse acontecido. Seu único comportamento diferente eram telefonemas incessantes. Normalmente, George nunca lhe telefonava, mas agora o fazia — às vezes duas ou três vezes por dia. No entanto, não para falar sobre a separação, mas sobre qualquer coisa, como atualizá-la sobre a vida dele ou mesmo perguntar sobre o dia a dia da loja, algo que antes não o interessava. Ele contou que tinha voltado a trabalhar com relógios e que estava consertando-os para os vizinhos depois que Lorna descobriu seu hobby e pediu que consertasse um pequeno relógio do século XVII. No final de cada telefonema, ele dizia “tenho saudades de você” ou “vejo você em breve”, como se ela estivesse em uma viagem a trabalho e fosse para casa em pouco tempo.

Fazia quase um mês que Jeanie não ia a Somerset. O Natal estava chegando e pendia sobre ela como a espada de Dâmocles.

— Pensei em ir um pouco antes do Natal e ficar mais ou menos até o dia 28 — declarou George no primeiro telefonema daquele dia.

Jeanie foi pega desprevenida.

— Ficar? Onde?

Obviamente, George percebeu o pânico na voz dela e mudou seu tom.

— Ora, no seu apartamento, claro. Chanty não vai querer hóspedes em casa tão perto do parto.

Jeanie respirou fundo e fez de tudo para controlar a sensação de sufocamento diante da perspectiva de George em seu espaço. Procurou se convencer de que tinha que pensar em Chanty. Não podia desestabilizar a família agora.

Jeanie amaldiçoou o Natal, uma festa que havia temido ao longo de toda sua vida. Mesmo quando criança, seu pai ficava insuportavelmente nervoso nesse período, pois precisava usar essa oportunidade anual para angariar novas almas para sua igreja. Desde meados de novembro, todos andavam pela casa na ponta dos pés e eram obrigados a ouvir uma versão do sermão quase todos os dias, durante o jantar, lida em voz alta para receber comentários. Quando finalmente chegava a manhã de Natal e o reverendo Dickenson subia ao púlpito, a família se encontrava em um estado de torpor, sem se importar com a versão final do sermão, mas com o fato de que agora estavam livres por mais um ano.

— Se você ficar aqui, um de nós vai dormir no sofá. — Jeanie falou sem pensar, odiando-se por ser tão má.

Fez-se um silêncio sofrido do outro lado da linha.

— Sou tão intolerável que você não pode dividir uma cama comigo por algumas noites? — A frase de George denotava seu espanto, mas talvez ele tenha se lembrado de seu comportamento, porque mudou o tom e pareceu deliberadamente alegre. — Ah, tudo bem, vamos tirar à sorte — disse ele, tentando rir. — O Natal é na sexta-feira. Posso chegar na quinta e voltar na segunda seguinte.

“Quatro noites”, calculou Jeanie. Como conseguiria enfrentar a situação?

— Não se sente sozinha fechada nesse lugar o tempo inteiro? — Rita perambulava pelo apartamento, ainda vestida com seu casaco, enquanto Jeanie se arrumava para acompanhá-la ao cinema no Swiss Cottage Odeon.

— Não propriamente solitária — respondeu Jeanie depois de pensar um pouco. — Fico triste, às vezes choro, mas não acho que seja solidão. Não estou louca por companhia.

Na verdade, não chorava às vezes, mas quase todas as noites, tanto pelo que poderia ter tido com Ray quanto pelo que poderia ter sido seu casamento com George. Também pensava muito na própria família e chorava pelo irmão Will como nunca antes, com muita tristeza, porque naquela época, assim como agora, a família não conseguira se unir diante do trauma que sofreu.

Após a morte de Will, ela e os pais se recolheram aos seus próprios sofrimentos. No início, Jeanie tentou conversar e chorar com eles, mas nunca viu a mãe ou o pai chorarem, sequer uma vez. Sua mãe encolhia diante de seus olhos, parecia mesmo tornar-se menor, e sua neurose desapareceu diante do medo de um desastre real. Essa mulher, que antes fora irritante e frenética, mal falava, nem mesmo para demonstrar preocupação com a filha. Jeanie, então, voltou-se para o pai, mas ele parecia ter adquirido um permanente e alarmante sorriso de felicidade, beatífico, pois tinha certeza, segundo ele, de ter sido martirizado pelo Senhor e de que o Senhor o honrara colocando sob Sua proteção a preciosa vida de Will.

— Will não foi levado na hora errada. Você não deve pensar assim, Jean — insistia ele, com os olhos brilhando em um fervor sagrado. — Quinze anos foi o tempo designado para ele, perfeito em si mesmo. Deus não podia passar mais tempo sem ele. Não devemos sofrer. Ele está com Deus. É melhor uma vida levada em estado de graça do que vivida sem ela. Temos sorte; devemos nos ajoelhar e agradecer ao Senhor a cada instante por todos os dias em que tivemos a sorte de ter Will.

Jeanie, pouco antes de completar 14 anos, bateu os pés e chorou, com raiva, diante dessa orientação nascida de uma devoção submissa.

— O senhor está errado; Deus está errado. Vocês são uns mentirosos estúpidos. Você sabe que ele não deveria ter morrido. Por que não chora, pai? Você não se importa que ele tenha ido embora e que nós nunca mais poderemos vê-lo? Eu o amava com todo o meu coração, mesmo que você não o amasse. Por que você não pode sequer chorar? O que há de errado com você?

Jeanie fora criada para acreditar em um Deus misericordioso, um Deus que se importava com as crianças e que abençoava quem era bom, justo e íntegro. E Will, embora fosse um adolescente, era, pelos padrões de Jeanie, bom, justo e íntegro. Ele era gentil, engraçado, inteligente e sábio. Nunca fazia ninguém sofrer. Como Deus podia deliberadamente infligir um sofrimento tão grande e tão cruel a uma simples criança? Mais do que isso: a agonia de sua morte não deixara espaço para reflexão. Ela só queria gritar de tanto sofrimento, sem acreditar que era o fim, que ele nunca mais voltaria e que ela nunca o veria novamente. “O conforto do simples reconhecimento do luto por parte do pai ou da mãe teria sido suficiente”, pensou ela. Mas, com a morte do irmão, seus pais pareceram esquecer que ela existia, pareceram esquecer-se um do outro. Três satélites orbitavam separadamente a memória de seu amado irmão Will, e, na realidade, eles também haviam morrido. Agora, enquanto chorava por todos, não mais conseguindo culpá-los por reagirem da única forma como eram capazes, ela chorava também por viver novamente a dor silenciosa e não declarada, agora em seu próprio casamento.

— Estou preocupada com você — disse Rita enquanto elas desciam a escada estreita.

— Não se preocupe. Estou bem. Pelo menos estou conseguindo lidar com a separação. É melhor do que viver uma mentira — acrescentou Jeanie.

— Você vai precisar do seu casaco grosso. — Jeanie pegou o casacão vermelho forrado de pele e com capuz que estava pendurado no final do corrimão da escada e segurou-o para Ellie enfiar os braços.

— Não gosto desse. Quero outro... Azul. — Ellie recuou, resoluta.

— Lá fora está gelado, querida. O casaco azul é muito fino, e vamos ficar na rua, ao lado da árvore de Natal, para ouvir os cantos. Vamos, vista, senão vamos chegar tarde e perder tudo.

Ellie hesitou, avaliando até que ponto a avó insistiria, mas a sedução da festa venceu. Ela sorriu e não fez mais objeção.

— Estamos de saída — gritou Jeanie em direção ao andar de cima, onde a filha descansava. — Voltamos por volta das sete.

— Não esqueçam os bilhetes! Eles estão ao lado da porta — gritou Chanty. — Divirtam-se!

— Está esculo — declarou Ellie com satisfação. — Vamos ver arvre de Natal grande, Gin.

— E cantar. Talvez eles cantem “Noite feliz”!

Ellie pensou um pouco sobre aquilo.

— Na cleche, Jo põe um lenço na cabeça da Mina e cantamos para mamãe e papai.

— Eu sei, querida. Mamãe me contou. Você gostou?

— Gostei — respondeu Ellie, séria.

A entrada de Lauderdale House já estava repleta de pais e crianças e havia um ar de felicidade e expectativa em todos os rostos rosados por causa do frio. Jeanie guardou o carrinho de bebê junto aos outros, ao lado do portão, e levou Ellie pela mão até os fundos.

— Oba! Lindo! — exclamou Ellie quando dobraram a esquina da casa e viram a imensa árvore brilhando, com suas luzes brancas, os enfeites vistosos e reluzentes e uma grande estrela cintilante no topo. Sobre as mesas dispostas ao longo da parede havia bandejas com vinho quente e suco de frutas para as crianças; três garotas avançavam lentamente em meio à multidão, oferecendo travessas repletas de salsichas com mostarda e ketchup. As músicas seriam tocadas por quatro garotas, possivelmente estudantes, usando calças jeans, botas, muitas echarpes de lã e chapéus coloridos, que aguardavam alegremente a hora do show. Duas afinavam os violinos, uma tinha um clarinete e outra estava sentada ao piano dentro da casa; elas se acomodaram ao lado das janelas francesas abertas, de modo que o frio não rompesse as cordas dos violinos. Ellie mastigava sua salsicha em silêncio. Quando a música começou, seus olhos castanhos arregalaram-se, admirados, enquanto todos seguravam diante da luz que vinha da casa a folha com as letras das músicas. Jeanie gostaria que Chanty estivesse ali para vê-la.

— Olha o Din! — anunciou Ellie, de repente.

Jeanie se virou, com o coração na boca.

— Dylan? Onde, querida?

— Olha! Lá. — Ellie apontou o dedo através da multidão, e, de fato, lá estava o rosto lindo do menino, voltado para os galhos deslumbrantes da árvore e brilhando diante das luzes. Atrás dele, com a mão delicadamente apoiada em seu ombro, estava Ray.

Jeanie tentou se acalmar, mas não teve sucesso. Eles ainda não as tinham visto; ainda dava tempo de sair dali, de fugir. Porém Ellie a puxava pela mão.

— Vem, Gin, vem ver Din.

Ray pareceu tão assustado quanto ela. Por um instante, seus olhos se encontraram, mas nenhum dos dois conseguiu falar.

— Oi, Gin. — Dylan sorriu para ela. — A árvore brilha muito, né?

— É linda. — Jeanie conseguiu dizer através dos lábios paralisados não apenas pelo frio.

Ellie estendeu os braços para Jeanie.

— Abaço — disse a menina, querendo colo.

Jeanie a pegou no colo e a viu sorrir para Ray.

— Olá, menina linda — disse ele com um amplo sorriso, tocando brevemente na mão de Ellie. — Não vejo você há muito tempo.

O som da voz dele transportou Jeanie para os momentos de intimidade, como se os últimos meses nunca tivessem existido.

— Está gelado. — Ray bateu os pés e as mãos enluvadas para fazer Ellie sorrir, mas Jeanie ainda não confiava em si mesma para falar.

— Dylan, leve Ell até a árvore para ela ver melhor — pediu Ray. Da segurança dos braços da avó, Ellie fitou o menino com cautela, parecendo que iria recusar, mas ninguém resistia ao sorriso de Dylan, nem mesmo uma menina tão pequena quanto ela. Com ar de adulto, ele pegou a mão da pequena e conduziu-a, com muito cuidado, através da multidão até ficarem em frente ao vigário, um homem jovem e carismático de ótima aparência e que tinha toda a atenção da multidão.

Jeanie e Ray formavam uma ilha de silêncio em meio às vozes frias que os rodeavam e se esforçavam para cantar, inicialmente vacilantes e irregulares, mas ganhando confiança já no final do primeiro verso de “As Shepherds Watched Their Flocks by Night”.

Jeanie fixou os olhos na neta, mas sua mente estava presa ao homem ao seu lado.

— Como você está? — perguntou ele, por fim, sem olhar para ela.

— Eu estou... — começou Jeanie. — Não sei como responder — concluiu após uma longa pausa.

Ela ouviu Ray dar uma risada.

— E essa era a pergunta fácil.

Jeanie teve que rir também, desejando se sentir tão relaxada quanto ele parecia estar — Ray falava como se tivesse reencontrado um velho amigo, sem qualquer sinal de estar sofrendo como ela.

— E você? — perguntou Jeanie, arriscando um olhar para o rosto querido.

— Nada a declarar — respondeu Ray, dando de ombros e lançando-lhe um olhar que parecia sugerir que ela não tinha o direito de perguntar.

— Vi você algum tempo atrás. — Jeanie se ouviu dizer, contra sua vontade, exatamente o que havia jurado a si mesma que jamais mencionaria se algum dia estivesse em uma situação como esta.

Ray ergueu as sobrancelhas.

— Onde?

— Na colina. Estava chovendo.

Ele aguardou um pouco, talvez esperando que ela explicasse melhor.

— Highgate Hill? Eu não a vi. Até achei que a veria algum dia, mas... — Ele desviou os olhos, e Jeanie tomou aquilo como uma confirmação do que vira. — Você deveria ter me cumprimentado — acrescentou ele, tarde demais.

Ellie estava voltando, abrindo caminho pelas outras pessoas. Jeanie a pegou no colo.

— Está se divertindo?

A menina parecia cansada, mas determinada.

— Sim. Ele canta muito alto, igual a Way. — Ela riu quando olhou para o vigário. — Posso comer mais sochicha , Gin? Com kechup?

Jeanie olhou ao redor à procura das salsichas, mas só viu pratos vazios.

— Vou pegar para ela — ofereceu Ray, distanciando-se antes que Jeanie pudesse impedi-lo e voltando com um pratinho de papel com quatro salsichas e muito ketchup.

— Bigada — agradeceu Ellie prontamente, com os olhos brilhando diante do prato.

Jeanie segurou o prato, observando o lento progresso da neta, que mergulhava a salsicha no molho e comia. Ela se sentia cada vez mais desesperada, querendo fugir da presença sufocante desse homem que obviamente já não se importava com ela tanto quanto ela se importava com ele. E, para seu pavor, percebeu que ainda gostava dele, com a mesma intensidade da última vez em que estiveram juntos. O tempo não arrefecera em nada seus sentimentos.

Todas as músicas tinham sido cantadas, com vozes alegres e determinadas lideradas pelo padre bonitão. Tudo estava perfeito, como em um quadro, com a árvore brilhando, a música agitando a multidão, o ar gelado trazendo um brilho a cada rosto e o espírito de Natal visível no entusiasmo de todos ali. Tudo estava em total contraste com o desespero de Jeanie, que se elevava sobre a felicidade da multidão como um pesado pássaro negro. Será que ela havia mantido mesmo a esperança, apesar da bela garota do guarda-chuva?

— É melhor irmos para casa — disse Jeanie a Ellie, rezando para que a neta não tivesse uma explosão de raiva. Porém Ellie estava cansada demais para reclamar e, exausta, abraçou a avó, com a cabeça loura apoiada em seu ombro.

— Tchau. — Jeanie olhou mais uma vez para Ray e viu que ele a fitava com ar carrancudo.

— Nat contou que você se mudou para Devon — disse ele rapidamente quando ela se virou para ir embora.

— Somerset. Eu não me mudei. Quero dizer, eu me mudei, mas George e eu nos separamos. Agora estou morando em cima da loja.

Ray a encarou.

— Deve ter sido difícil. Sinto muito.

Confusa, Jeanie balançou a cabeça.

— Foi melhor assim.

Ellie começou a reclamar.

— Nós temos de ir. Foi bom ver você. — Ela ouviu a formalidade quase fria de suas palavras, mas não pôde evitá-la, abraçando o corpinho de Ellie contra o seu como um escudo de proteção.

Ray acenou.

— Foi bom ver você também — disse ele, mas, diferente dela, soou verdadeiro.

Os cânticos tinham terminado; a multidão corria em direção à entrada, ansiosa para chegar em casa e se aquecer. Jeanie colocou a sonolenta Ellie no carrinho, cobrindo seus joelhos com a echarpe. Seus próprios pés estavam quase dormentes, e o vento gelado fazia seu rosto doer enquanto ela caminhava pela rua a caminho da casa de Chanty. Disse a si mesma que choraria mais tarde, como se resistisse a um prazer. Mas, na verdade, mal conseguia conter sua dor. E, para piorar, ela se lembrou de que George chegaria na manhã seguinte.

No meio da sala, com as mãos apoiadas nos quadris, George examinava o espaço como se fosse um senhorio bisbilhoteiro. Jeanie precisou lembrar a si mesma que o apartamento não era dele.

— Você transformou o apartamento. Ele está mais alegre e aconchegante. É um pouco pequeno, mas está muito mais simpático do que na última vez em que estive aqui. — Ele olhou para Jeanie. — Você sempre teve jeito para transformar qualquer casa em um lar.

Jeanie examinou a expressão de George para descobrir se a observação era verdadeira, mas ele parecia estar tranquilo, sem vontade de começar uma briga.

— Quer um chá? Sente-se. — Jeanie imaginara que seria mais estranho rever George, mas, talvez como um resultado de toda uma vida juntos, nem mesmo as hostilidades recentes conseguiram apagar décadas de familiaridade. — Chanty está nos esperando esta noite.

George esfregou as mãos e sorriu para a esposa.

— Vai ser bom, não acha? Estou louco para ver a pequena. Fiz uma caixa de brinquedos para ela e estampei com algumas coisas. Não posso mostrar porque já embrulhei. Foi difícil! Está no carro.

— Ela vai adorar. Está muito ansiosa. Ela não entende bem o que é o Natal, mas sabe que é divertido.

— E o bebê? Algum sinal?

Jeanie passou-lhe o chá — sem leite, sem açúcar e o saquinho espremido ao máximo.

— Poderia nascer hoje. Pobre Chanty, ela está imensa. É de dar medo. Ell foi prematura, claro, mas não pelas razões normais, por isso não sabemos quanto tempo esse vai demorar.

Eles estavam sentados e conversavam, tomando o chá como se nunca tivesse havido qualquer problema entre eles. Jeanie se perguntou se seria possível manterem esse tipo de relação, preocupada com a possibilidade de George tomá-la como um sinal de que eles poderiam voltar. Ela estava cansada, mal tinha dormido. Quando deixou Ellie em casa, Chanty e Alex insistiram para que ficasse para jantar, e bebera demais, o que nunca fazia, querendo protelar as lágrimas. Quando chegou em casa, seu desespero era tamanho que não conseguiu chorar. Passou a madrugada sentada no sofá, no escuro, com a cabeça vazia, desconcentrada, até o frio finalmente obrigá-la a ir para a cama. Agora estava um pouco tonta, como se o dia não fosse real e George não estivesse ali.

— Quer que eu tire minhas coisas do caminho e leve para cima? — perguntou George, embora aparentemente só tivesse trazido a pequena maleta de couro. Ele notou que ela estava olhando para a maleta. — Não é só isso. O restante está no carro.

A noite foi um triunfo de comedimento: ninguém falou sobre a relação de George e Jeanie. Todos estavam concentrados em Ellie, na chegada iminente do bebê, na sensação de família de que ainda podiam desfrutar. Jeanie flagrou Alex olhando para ela algumas vezes, mas estava determinada a viver o momento e se divertir com a alegria e a animação contagiante da neta.

Quando voltavam para casa, George deu o braço a Jeanie, e ela não fez qualquer movimento para afastá-lo. O esquema tinha sido combinado na noite anterior: George insistira que o sofá era dele e, para surpresa de Jeanie, ele não tinha dado importância exagerada ao acordo que fizeram. Por isso, ela não se preocupou em estar transmitindo a mensagem errada. Ambos haviam bebido, mas Jeanie sentia-se aliviada e acreditava que George sentia o mesmo, porque a noite fora agradável e transcorrera sem problemas.

— Quer um drinque antes de dormir? — perguntou George quando chegaram.

Jeanie aceitou, sentindo-se despreocupada e tranquila enquanto esperava George pegar a garrafa de conhaque na mala. “Estou no controle, sou forte e sobreviverei a tudo isso e a esses dois homens”, pensou, ignorando a crescente histeria que a espreitava.

— Como vão as coisas... por aqui, Jeanie?

Dava para ver que George estava embriagado: seu rosto estava leve; sua expressão, muitas vezes fechada e quase formal, estava indefesa. Ele sorriu para ela.

— Hein? Como vão as coisas? — repetiu, diante da ausência de resposta.

— Tudo bem, George... Um pouco estranho, claro.

— Para mim também é estranho. Na verdade, é muito estranho você não estar lá. — Ele fez uma pausa. — Não estou gostando, como você sabe.

Jeanie não disse nada.

— Você está? — perguntou ele.

Ela ouviu a repentina obstinação na voz de George quase antes que ele falasse, mas também estava com a guarda baixa; sentia-se cansada demais para mentir.

— Não, George, claro que não estou gostando. Não dá para gostar de uma separação depois de tanto tempo de casamento.

George a encarou, obviamente tentando entender o que Jeanie dizia.

— Então você vai voltar para casa. — Ele afirmou em vez de perguntar, mas não havia alívio em sua voz.

— Eu não disse isso. Só disse que era difícil.

— Mas você disse que não gostava de estarmos separados. Ora, o que mais isso pode significar além de você querer voltar para casa para ficarmos juntos?

A frustração de George o fez abandonar a posição relaxada e se debruçar na direção dela, sobre a mesa de centro.

— Por favor, não comece. Nós tivemos uma noite tão agradável.

Ele se levantou, com os braços tensos estendidos ao lado do corpo.

— Você pode ser uma verdadeira canalha de vez em quando — disse ele, rispidamente, com fúria no olhar, sem poder fazer nada. — Sinceramente, não acredito que você saiba o que quer, mas, pelo visto, vai me manter sob seu controle até decidir. É isso mesmo?

Jeanie estava chocada. Ele nunca tinha se referido a ela assim, embora Jeanie soubesse que merecia. Talvez, pela primeira vez, ela tenha se visto e ao seu comportamento da forma como George a via: egoísta, volúvel, cruel.

— Sinto muito — disse ela.

— Isso não quer dizer nada. Sente muito o quê? Por não saber o que quer? Por ter destruído um bom casamento? — George se aproximou e ficou quase em cima dela. — Pelo que exatamente você sente muito, Jeanie? Eu adoraria saber.

Jeanie levantou-se e encarou a raiva dele.

— Eu sinto muito por tudo, George.

George respirou fundo.

— O que isso quer dizer, Jeanie? — Ele estava implorando, calmo, e segurou as mãos dela. — Diga. Eu preciso saber.

Jeanie fitou aquele rosto tão familiar e se sentiu incapaz de falar diante do sofrimento que enxergou ali, que ela própria causara.

— Quer dizer que sou uma canalha. Não pense que não sei. E talvez você tenha razão e eu não saiba o que quero. Só sei que não posso morar com você em Somerset, George. Não consigo. Agora queremos coisas diferentes.

George segurava as mãos dela com força. Jeanie sabia que ele estava fazendo tudo o que podia para controlar as lágrimas.

— Mas o problema não é geográfico, é? — perguntou ele, com a voz suave.

Jeanie o encarou por um longo tempo e, finalmente, balançou a cabeça.

— Não, não é geográfico.

Naquela noite, dormiram juntos na cama de Jeanie. Não apenas pelo conforto de estarem próximos naquele momento em que ambos enfrentavam a vida sozinhos, mas também, talvez inconscientemente, como um reconhecimento de que era o fim.

A manhã de Natal chegou. Jeanie e George dormiram até tarde, cansados e abatidos depois das conclusões a que tinham chegado, e pouco falaram enquanto se vestiam e preparavam o café. Tinham pela frente um dia que seria como uma maratona, e Jeanie, pelo menos, estava apreensiva diante dessa perspectiva.

— Eles nos esperam às onze horas — disse Jeanie. — Alex avisou que o almoço vai sair por volta de uma da tarde. Eles acham que Ellie não aguentaria mais tempo.

George concordou.

— Temos que ir de carro por causa da caixa de brinquedos.

Eles tinham comprado presentes um para o outro, mas não tiveram vontade de abri-los. Os embrulhos — o dela pequeno, em forma de caixa; o dele, o volume macio de um suéter — ficaram intocados na mesa de centro.

— Devo pegar alguma coisa na loja para levar?

George riu.

— Não sei se eles vão querer suco de clorofila ou salada de grãos no dia de Natal...

— Eu estava pensando em azeite orgânico ou um queijo artesanal — retorquiu Jeanie, rindo com George. — Está bem, talvez não.

— Não, é uma boa ideia. Um bom azeite nunca é demais.

Enquanto George guardava os presentes em uma sacola, Jeanie desceu para a loja.

— Encontro você lá embaixo.

O dia estava lindo, com um sol radiante, e fazia muito frio. Para Jeanie, que estivera fechada em si mesma com toda aquela tensão, o ar fresco cheirava a liberdade. Ela sentiu que seu humor melhorava quando introduziu a chave na fechadura e abriu a porta da loja, e quase não viu o embrulho delgado de papel marrom, amarrado com uma fita vermelha, encostado no degrau. Curiosa, inclinou-se para pegá-lo. Encontrou um cartão branco junto ao embrulho, mas não havia nada escrito — apenas três beijos escritos em tinta preta no centro do cartão. Soube imediatamente de quem era, embora nunca tivesse visto a letra dele antes, pois o embrulho continha um CD — Chet Baker in Paris , a trilha sonora da noite em que fizeram amor.

Nada a preparara para isso. E, ainda imersa na tristeza provocada pelo ponto final dado ao seu casamento na noite anterior, foi incapaz de entender o que aquilo significava. Não soube ao certo quanto tempo passara ali em pé, segurando o presente cuidadosamente nas mãos, mas de repente ouviu a voz de George e viu a cabeça dele aparecer atrás da porta.

— Por que está demorando tanto? Precisa de ajuda para escolher?

Jeanie escondeu o presente atrás do balcão.

— O que aconteceu? Você está bem? Está com uma cara horrível — continuou ele.

Jeanie conseguiu sorrir.

— Obrigada! É exatamente o que uma mulher precisa ouvir.

— Não foi isso que eu quis dizer, mas você está muito pálida.

— Eu estou bem, de verdade. — Jeanie correu para a prateleira dos azeites e pegou uma garrafa qualquer. — É só cansaço.

— Não me surpreende — comentou George secamente. Quando eles entraram no carro, ele continuou: — Não se preocupe. Decidi voltar para casa depois do almoço. Acho melhor assim.

Jeanie quase disse que não era preciso e que ele podia ficar. Era um hábito, e ela se sentiu triste por ele, por ambos. Mesmo assim, resistiu, percebendo que mal suportava esperar pelo momento de estar sozinha novamente. O silêncio no carro era pesado. Eles não tinham nada a dizer um ao outro.

— Ele vai ficar bem? — Chanty olhou para a rua quando o carro do pai partiu. O almoço fora simples e rápido, quase apressado; todos estavam ansiosos para acabar com as formalidades do Natal. Chanty parecia exausta, segurando a barriga inchada com os dois braços, como se tentasse mantê-la no lugar. Alex permaneceu em silêncio durante a maior parte do tempo.

— Vocês brigaram? — perguntou Alex quando retornou do quarto de Ellie, após colocá-la na cama para o sono da tarde.

— Não. Quero dizer, mais ou menos, a mesma discussão de sempre. Parece que ele finalmente entendeu que terminou. — Sem aviso, Jeanie começou a chorar na frente da filha e do genro e parecia não conseguir parar, por mais que tentasse. Eles não reagiram com o espanto e o embaraço que ela esperava, como se há muito tempo soubessem que isso aconteceria. Chanty a abraçou.

— Sinto muito. Vocês não deveriam passar por isso nesse momento — lamentou Jeanie. — Vou melhorar. É que foi muito difícil. Eu amo seu pai, mas não posso mais viver com ele, e isso torna tudo mais complicado. A caixa de brinquedo é linda; Ellie adorou. O que estou passando não tem nada a ver com seu pai. Ele é um bom homem, mas simplesmente não dá mais. Sinto muito. — Jeanie continuou falando tudo o que lhe vinha à mente com relação a George e ao seu casamento; seus ouvintes se limitavam a acenar a cabeça com pena e compreensão.

— Você acha que ele vai ficar lá? — perguntou Alex em determinado momento.

Chanty confirmou com a cabeça.

— Ele disse que gosta do lugar e das pessoas — disse ela. — Sally tem ido com mais frequência. Ele tem suas duas obsessões: os relógios e o jardim. Não está tão solitário como imaginamos.

As lágrimas de Jeanie começaram a escassear.

— É muito triste — murmurou.

— E acabou mesmo? Para sempre? Como pode ter tanta certeza, se você ainda o ama? — questionou Chanty.

— Eu tenho certeza — afirmou Jeanie, firme.