Encontros no Parque
Capítulo 13
Hoje? No mesmo lugar?, dizia a mensagem de texto de Ray em resposta a Jeanie.
Ela sucumbira à tentação. George tinha saído naquela manhã para um fim de semana de golfe em Gleneagles. Era uma viagem anual que seu parceiro no esporte, Danny, organizava com seis outros homens. Eles voariam para Edimburgo, onde uma van os levaria para o hotel. Lá, passariam os próximos dois dias em um torneio particular muito competitivo. O vencedor tinha a honra dúbia de pagar o jantar para todos na noite de domingo. George não voltaria para casa até segunda-feira.
Na manhã de sexta-feira, após despedir-se do marido, que tinha a pesada bolsa de golfe no ombro, Jeanie trabalhou em um estado de torpor. Disse a si mesma que não podia e que não iria falar com Ray, mas sabia que não conseguiria resistir. A mensagem que enviara quando estava no café Nero, na hora do almoço, com as mãos tão trêmulas que ela mal conseguia ler as palavras, dizia apenas Você quer me encontrar?. Depois, ela esperou.
Nada. Examinou o celular para se certificar de que estava funcionando. Estava. Nada. Seu coração estava acelerado; ela não conseguia comer. O celular continuava em silêncio. Por volta das três horas da tarde, já tentava se convencer da possibilidade de Ray não querer mais vê-la e de que tudo aquilo, que mal começara, tinha terminado. Mas no fundo não acreditava nisso.
Quando a mensagem finalmente chegou, ela não viu. Margot tinha voltado, procurando obter informações sobre ácido hialurônico e querendo saber se ele melhoraria as erupções em sua pele. Quando Jeanie voltou ao caixa e viu a mensagem, achou que ia desmaiar.
— Más notícias, querida? — perguntou Margot gentilmente ao ver sua expressão.
Era cedo; o restaurante grego estava praticamente vazio. Jeanie tinha saído de casa tarde propositalmente, para não ter tempo demais para pensar, e atravessara o parque apressada, inspirando o ar suave do início da noite. Sentia-se livre e feliz diante do que estava fazendo; seus passos eram leves, como se voasse.
Ray a aguardava encostado na parede do restaurante, obviamente também ansioso.
— Oi.
— Olá.
Ambos ficaram em silêncio, tímidos, até que Jeanie se aproximou, sentiu a suavidade da camisa de Ray e inspirou o cheiro agradável de sua pele. Ele a abraçou. Sem fugir ao hábito, Jeanie olhou ao redor.
— Ninguém está olhando — sussurrou Ray. Jeanie se afastou ainda assim. — Um drinque? — perguntou ele, abrindo a porta do restaurante.
Eles pediram o vinho tinto da casa. Jeanie fingiu examinar o cardápio, mas as descrições dos pratos dançavam, indistintas.
— Não consigo decidir. Não sei o que quero comer.
Ray dirigiu-se ao garçom.
— Pode trazer uma tigela grande de batatas chips, por favor?
— Só isso? — O rapaz não podia ter mais de 16 anos e parecia preocupado, como se pudesse ser culpado pelo pedido estranho dos clientes.
— Por enquanto — acrescentou Ray para acalmá-lo ao devolver os cardápios.
Jeanie suspirou, aliviada.
— É exatamente do que eu preciso. — Ela tomou um bom gole de vinho. — Eu não devia estar aqui, mas George viajou esse fim de semana.
Ray ergueu as sobrancelhas e sorriu.
— Prometi a mim mesma que não faria isso, mas... aqui estou — acrescentou ela.
— Não vamos pensar em por que, como ou o quê. Vamos simplesmente ter esta noite, ter o agora. — Ray fitou-a com seus olhos claros e sorridentes. Jeanie apenas assentiu com a cabeça.
As batatas chips chegaram quentes, salgadas e deliciosas.
A pedido de Jeanie, Ray contou-lhe sobre sua família e sua infância.
— Meu pai não era um bêbado ou um irresponsável, mas passava a maior parte do tempo no mar, e minha mãe não suportou isso. Estava sempre preocupada, e creio que nós, meninos, não facilitávamos a vida dela. Jimmy sempre arranjava problemas, mas, por outro lado, ela nunca nos disciplinou.
— Você os vê muito?
— Todos já morreram.
— Até o seu irmão?
Ray confirmou.
— Ele morreu há dois anos, com problemas no fígado provocados pela bebida. Tinha só 61 anos. — Ele fez uma pausa. Jeanie viu a expressão que conhecia tão bem: a de uma pessoa contando uma história sem querer se emocionar. — Eu o vi uma vez depois que saiu de casa. Durante algum tempo, ele foi para o mar como meu pai, mas não suportou. Sucumbiu à bebida e a sabe Deus o que mais. Durante muitos anos, eu sequer soube onde ele estava. Depois nos reencontramos, há cerca de cinco anos. Ele viu um artigo no jornal sobre o clube de aikido e me procurou. Abandonou a bebida e se acertou na vida, mas já era tarde. Seu fígado já estava destruído. Ele voltou para Portsmouth, e eu o visitava nos finais de semana. Foi uma pena não termos nos reencontrado antes. — Jeanie permaneceu em silêncio. — Famílias, não é? Já falamos disso.
— Pelo menos você voltou a se aproximar dele.
— Eu sei. Mesmo assim, foi uma vida perdida. Jimmy sempre foi uma pessoa muito ativa, com muita energia. Nunca vou saber o que deu errado.
— Talvez ele tenha se divertido ao longo da vida.
Ray sorriu.
— Ah, tenho certeza de que sim.
Ele terminou o último gole do copo.
— Para onde vamos agora?
Jeanie não pensava mais; o vinho estava fazendo isso por ela.
— Você mora perto? — perguntou ela.
Ray não afastou o olhar.
— A uns 200 metros daqui.
— Sério?
— Pelo menos na última vez em que vi minha casa.
Ambos estavam tomados pelo momento.
— Hum... Você podia ir comigo até lá — continuou ele.
— É, eu podia... — Jeanie conteve a respiração, ansiosa.
— Você não parece segura.
— E não estou.
— Quem sabe não é melhor fazermos uma caminhada por Hampstead Heath?
Jeanie riu.
— Não, Ray, vamos para a sua casa.
O apartamento ficava no andar superior de um prédio no estilo dos anos 1930, em uma rua lateral que levava a Hampstead Heath. A parte externa do prédio tinha um ar de degradação. A pintura da portaria era arranhada e suja, e o elevador parecia instável. No entanto, o apartamento de Ray era claro e tinha uma atmosfera calma, acentuada pelo esparso mobiliário de madeira clara e pelas gravuras japonesas. Jeanie foi atraída para a janela, que se estendia por toda a largura da sala, e ficou ali por um momento, observando os tons verdes de Hampstead Heath, que se suavizavam ao anoitecer. “Este é o apartamento de um homem que busca a paz”, pensou. Ray havia tirado os sapatos ao entrar e andava pelo ambiente de tábua corrida, acendendo abajures e procurando as taças e o vinho. Jeanie abaixou-se para tirar as sandálias, relutando em afastar os olhos daquela vista, como se ao fazê-lo estivesse se comprometendo com Ray irrevogavelmente. Quando finalmente se virou, ele colocara uma garrafa de vinho tinto e duas taças sobre a mesa baixa ao lado do sofá e corria os dedos pela imaculada estante de CDs.
— Chet Baker? — perguntou.
Jeanie balançou a cabeça.
— Não conheço.
— Você vai gostar muito... se gosta de jazz.
— Vamos ver.
O trompete melancólico de Baker encheu o ambiente com seu ritmo suave e sensual, e Jeanie recostou-se no sofá e fechou os olhos. O lugar, o homem, a música, o momento: tudo combinava, recolhendo-a numa calma tão intensa que fez seu ser inteiro cantar de prazer. Jeanie percebeu que sorria.
Ray serviu-lhe o vinho, mas ela não tocou na taça.
— Você está bem? — Ele se sentou no sofá ao lado dela.
— Muito — respondeu Jeanie, vendo que Ray começava a relaxar e que também sorria.
Durante algum tempo não falaram nada, sentados lado a lado no sofá, apenas ouvindo a música.
— Eu queria trazer você aqui desde o começo, para ficarmos a sós. — Jeanie estendeu a mão e ele a segurou. — Não com más intenções — explicou ele, sorrindo —, mas para estarmos sozinhos, sem nos preocuparmos com todo mundo.
— É perfeito — murmurou Jeanie.
O desejo unia-os em uma certeza não dita, mas eles não tinham pressa; o prazer do toque, do cheiro e de simplesmente estarem próximos lhes bastava.
— Ray... — Jeanie queria dizer tudo, explicar, contar o que ele provocava nela, os sentimentos que despertava, mas as palavras não vinham. Ela encontrou o olhar dele, não mais refreado pelo mundo externo, e permitiu-se finalmente irromper por aquele espaço intenso, que ela vislumbrara, mas não ousara entrar, um espaço onde eles estavam juntos. Jeanie sentiu os lábios dele nos seus e finalmente liberou o desejo tolhido por tanto tempo, deixando-o fluir por seu corpo até mal poder respirar.
Jeanie não sabe quanto tempo eles ficaram ali. Aquele era um lugar diferente, sem limites, sem tempo.
— Jeanie?
Ela percebeu que Ray parecia preocupado e aflito e endireitou-se na almofada do sofá.
— O que é?
Ele a aninhou em seu corpo, acomodando o rosto dela junto ao seu ombro. Ainda envolvida pelo torpor do beijo, ela esperou que ele falasse.
— Jeanie, eu a quero muito, e o que temos é muito especial. Não é apenas sexo, pelo menos para mim.
Ela sorriu para ele.
— Essa fala não deveria ser minha?
O rosto de Ray desanuviou-se e, quando ele riu, Jeanie sentiu a risada ressoando no peito dele.
— Sim, mas não devemos nos precipitar — continuou Ray, encarando-a. — Isso é... grandioso. É a única palavra em que consigo pensar.
— Você não teve outro relacionamento depois de Jess?
— Nada além de sexo ocasional. — Jeanie ouviu Ray suspirar. — Tenho medo, Jeanie.
Ela pegou sua taça de vinho, sem entender, e temeu que Ray a comparasse com seu antigo amor.
— Então o que aconteceu com a ideia de aproveitar o momento? — brincou ela. Ele riu.
— É que gosto de estar com você assim, mesmo que seja apenas comendo batatas chips ou brincando com Dylan e Ellie. Se fizermos amor, entraremos em outro nível de relação.
Ela esperou que ele continuasse.
— Está preocupado que não seja bom comigo? — Jeanie finalmente perguntou ao ver que ele permanecia em silêncio. — Sei que não tenho praticado muito na última década.
Ray parecia horrorizado.
— Deus do céu, não... mas... — Ele pareceu desistir, desesperançado. — Não estou conseguindo explicar muito bem, não é?
— O que é, Ray? Por favor, diga. — A hesitação dele lembrou-lhe George. “Seria ela?”, perguntou-se. “Ela teria alguma coisa que levava os homens a não querer fazer amor?”
Ray levantou-se e começou a caminhar em frente à mesa de centro, para lá e para cá.
— O que tenho a dizer é muito simples. — Ele parou, as mãos nos quadris, e manteve o olhar em Jeanie. — Tenho medo de estar me apaixonando por você. Se fizermos sexo, serei irremediavelmente fisgado. Tenho medo que depois você volte para o seu marido.
Jeanie teve que sorrir, mais por alívio do que por qualquer outra coisa. Então ele a desejava.
— Essas últimas semanas foram muito difíceis, você não quis me ver. — Quando Jeanie começou a objetar, ele ergueu as mãos. — Entendo perfeitamente o motivo do seu afastamento. Não pense que a culpo. Mas nada mudou, Jeanie. Nós ainda estamos no mesmo ponto em que estávamos há três semanas atrás.
De repente, Jeanie percebeu que aquilo não girava apenas em torno dela.
— Fale sobre Jess — pediu ela, e logo viu a expressão sofrida e surpresa nos olhos de Ray.
Ele se recostou no sofá e colocou as mãos sob as coxas, em um gesto que parecia infantil.
— Não foi Jess em si, mas perdê-la — disse Ray, olhando para Jeanie com ansiedade. — Tem certeza de que quer ouvir?
Jeanie assentiu.
— Eu a amava muito. O que posso dizer? Ela era jovem, e isso às vezes causava problemas. Levávamos uma vida normal. Eu tinha uma gráfica bem-sucedida com um amigo, Mike, que produzia basicamente brochuras e outros produtos similares para empresas de navios de Portsmouth. Ela trabalhava para uma empresa de tecnologia da informação para RH... Seja lá o que isso significa.
— No nosso tempo, chamava-se Departamento Pessoal.
— De qualquer modo, Jess era boa no que fazia e era explorada. Eu achava que o cansaço que ela sentia se devia ao trabalho exagerado e reclamei muito dos seus horários, mas, na verdade, o cansaço não tinha relação com o trabalho; ela estava com aquele maldito câncer. Se eu a tivesse levado a um médico, talvez ela se salvasse.
Ray falava como se isso fosse uma história, um conto com um final infeliz. Seu relato ainda era inflamado, mas havia algo mecânico, como se ele já tivesse repetido as mesmas frases muitas e muitas vezes. Jeanie não sabia se ele as repetira para outras pessoas ou para si mesmo, mas tinha certeza de que ele não precisava ouvir que não fora culpado pela morte de Jess.
— Ela era muito jovem, Jeanie. Tinha apenas 32 anos. É cedo demais para morrer.
— De fato, é cedo demais — concordou Jeanie. Ela observou o rosto de Ray se contrair, gasto e curtido pela vida, e não pelo sol e pelo frio.
— Mas não contei tudo isso para você sentir pena de mim. O ponto principal é que não lidei bem com a morte e a perda de Jess. Na verdade, desmoronei. Comecei a beber muito e a negligenciar a empresa. Mike suportou por algum tempo, mas teve que me desligar de lá ou tudo iria por água abaixo. E, graças ao dinheiro que ele me deu para sair, embora não fosse muito, pude viver sem trabalhar durante algum tempo, bebendo diariamente até ficar bêbado. Eu me afundei.
— É compreensível.
— Sim, se durasse um ou dois meses. Mas isso se prolongou por dois anos, para ser preciso. Às vezes, eu passava dias sem sair de casa, exceto para comprar mais uísque. Eu provavelmente estava a poucos meses de arruinar meu fígado, como Jimmy, a poucos meses de me matar.
Ray estendeu o braço para pegar a mão de Jeanie mais uma vez. Ele brincou com a mão dela, virando-a e acariciando os dedos um a um, com a mente no passado.
— E o que aconteceu? Como se recuperou?
Ele riu.
— Você vai achar que sou louco, mas, no meu entender, fui salvo pelo universo.
Jeanie surpreendeu-se.
— Estamos falando de Deus?
— Prefiro chamar de universo. “Deus” sempre passa a ideia de religião, e isso não funciona para mim. Chame do que preferir. Foi algo que aconteceu acidentalmente. Eu estava bebendo do começo ao fim do dia, sem me barbear, abatido, provavelmente parecendo um desses moradores de rua que evitamos em Archway todos os dias. Um dia, precisei ir ao caixa eletrônico. Eu morava atrás do estaleiro e segui pela praia, um pouco tonto. Não me senti bem, então me sentei num banco, ao lado de um homem de aparência saudável, mas muito velho; devia ter cerca de 80 anos. Ele não afastava os olhos de mim.
“Perguntei, com agressividade, o que ele estava olhando, mas ele pareceu não se ofender e respondeu, calmo: ‘Estou olhando para um homem que não aguenta mais.’ A provocação me irritou, e perguntei o que ele tinha a ver com isso, e ele respondeu: ‘Tenho tudo a ver com alguém tão derrotado.’
“Creio que era a primeira vez em muito tempo que alguém se dirigia a mim, exceto pela garota do caixa do supermercado, que dizia o preço da bebida que eu estava comprando, e aquilo me chamou a atenção. Eu não tinha ninguém; meus pais estavam mortos havia muitos anos, meu irmão desaparecera e provavelmente encontrava-se num estado semelhante ao meu, e meus amigos tinham se afastado. Eu admiti a verdade: ‘Estou acabado, mas ninguém pode fazer nada.’ E ele respondeu: ‘É verdade; ninguém pode, exceto você.’ Eu ri, mas não foi uma boa risada. Mesmo no meu estado de torpor, ela soou cruel e cínica. Eu respondi: ‘Certo. É verdade. Ninguém além de mim, e eu não tenho qualquer interesse nisso.’ O homem fez um aceno de cabeça e disse: ‘Dá para ver.’ E eu rebati: ‘Não me venha com discursos sobre como eu tenho tanto para dar e como a vida é preciosa.’ E o homem: ‘Eu sequer sonharia em fazer isso. Mas quero lhe dizer uma coisa.’
“Eu estava convencido de que nada importava, mas me lembro de ficar curioso com o que ele queria dizer. Ele percebeu meu interesse e pareceu medir as palavras para passar a mensagem direito. Talvez soubesse que não haveria uma segunda oportunidade. E começou a falar: ‘Passei a minha vida buscando um sentido. Como você, passei por uma fase em que nada importava, exceto ter pena. De mim mesmo, não dos outros. Quando já estava no fundo do poço, e acredito que perto da morte, um amigo sugeriu que eu o acompanhasse até a escola de aikido onde ele tinha aulas. Rejeitei, com desprezo. Artes marciais? Eu? Eu mal conseguia sair da cama. Mas ele insistiu, apareceu na minha casa e praticamente me arrastou. Eu fui forçado a ir até lá. Era sustentado pelos outros e mal conseguia ficar de pé sem me apoiar; o tremor nas mãos era tão intenso que eu tinha certeza de que as pessoas percebiam e criticavam. Mas fiquei porque quis. Desde então, essa é a base da minha vida, tanto do ponto de vista físico quanto emocional.’
“Ele se levantou, e me lembro de sentir certo pânico ao pensar que ele estava me abandonando. Antes de ir embora, ele disse: ‘Eu nunca ousaria dizer a você o que fazer, nem mesmo sugerir. Só contei o que aconteceu comigo.’
“Depois dessas palavras, ele se foi; era um homem alto, de porte altivo, nem curvado, nem entrevado, como se esperaria na idade dele. Eu queria desesperadamente conversar com aquele desconhecido. Tinha esquecido o quanto o contato humano era importante para mim, mas meu orgulho idiota me impediu de chamá-lo. No dia seguinte, no outro e por uma semana inteira fui ao mesmo banco e esperei por ele, mas não o vi. Passou-se um mês até eu começar a procurar a escola de aikido local, com certa esperança de encontrar o velho. Ele não estava lá, mas isso não importou; como ele, nunca olhei para trás.”
Jeanie podia ver os olhos de Ray encherem-se de lágrimas.
— Ele salvou a minha vida, Jeanie. Soa como um clichê, mas foi o que ele fez. — Ray sorriu. — É isso que chamo de universo. Quando volto a pensar nele, quase tenho a impressão de que não era real, apenas uma aparição.
— Talvez não importe.
— Mas contei minha história a você por razões egoístas. Tenho pavor de perdas, do que isso pode me causar. É por isso que estou tentando me refrear com você. — Ray deu um sorriso melancólico. — Não está funcionando, claro, mas estou tentando.
Quando Jeanie olhou para o relógio, passava das três horas da madrugada.
— De novo. — Ela começou a entrar em pânico, como se a hora fosse importante, de algum modo perigosa.
— Se quiser, pode dormir aqui.
— Não, é melhor não. — De repente, ela quis estar sozinha, saborear a noite, ter um momento para si mesma. Tudo estava muito intenso.
— Eu acompanho você.
Eles saíram na noite fria de maio, subiram a Swain’s Lane, passaram pelo cemitério e entraram em Highgate Hill.
— Nós moramos tão perto — murmurou Jeanie quando se aproximaram de sua casa. — Mas não passe daqui.
Ray deu uma gargalhada.
— Vizinhos fofoqueiros?
— Muito.
— Se George está viajando, podemos nos encontrar amanhã?
— Vou passar o dia na loja. Os domingos são movimentados — explicou Jeanie, lamentando.
— E tenho que ficar com Dylan à noite.
Ray puxou-a para a sombra provida por uma parede ao lado da igreja e beijou-a suavemente. Embora quisesse ficar um pouco sozinha, Jeanie abraçou-se a ele, desejando jamais abandonar aqueles braços protetores.
Ela dormiu apenas algumas horas e acordou cedo, esquecendo-se por um instante de que George não apareceria com uma xícara de chá e um sorriso alegre nem abriria as cortinas. Sentia-se como se habitasse outro mundo, de sensualidade e paixão, e como se fosse outra pessoa. Ao contrário da Jeanie normalmente prática, que pulava da cama a cada manhã com o toque de corneta do marido, que nunca ficava de camisola nem postergava o banho ou a arrumação da cama e que sempre tomava o café da manhã na mesa antes das oito horas, ela se sentia estranhamente centrada e sã, como se aquela outra mulher fosse uma impostora que ocupava seu lugar havia muitos anos. Recusou-se a sair da cama e aninhou-se sob o edredom macio, ainda imersa nas carícias de Ray.
— Vou ficar mais uma hora — disse a si mesma, desanimada ao pensar no caos em que estaria a loja.
Logo ouviu o telefone tocar sobre a mesa de cabeceira.
— Jeanie? — Era George.
— Oi, como vai tudo por aí?
— Acordei você? Claro que não, já passa das nove. — George parecia alegre.
— Não, estou saindo para a loja — mentiu ela. — Desculpe, eu estava distraída com meus pensamentos.
— Tudo bem... Ontem tivemos um dia maravilhoso. O tempo estava perfeito. Ventava um pouco, mas isso é normal em Gleneagles. E quer saber? Eu venci! Roger e eu vencemos. Não é fantástico? Danny ficou muito desapontado, mas é bem-feito para ele. Ele não pode roubar com este grupo; todos o conhecem bem. Telefonei ontem à noite, mas você não atendeu.
Estava claro que George esperava uma explicação, obrigando Jeanie a buscar loucamente uma que fosse plausível. Não podia usar Rita, pois ela e Bill tinham viajado por duas semanas para Antígua, onde ficariam no flat que eles têm em regime de time-share, e George sabia disso.
— Jola e eu saímos para tomar um drinque. O dia foi muito difícil, e precisávamos disso. — Era verdade, pelo menos em parte.
— E a que horas você voltou? Já devia passar das onze quando liguei.
— Não faço ideia. Já era tarde quando saímos da loja. — Jeanie estava cansada demais para pensar se essa mentira seria suficiente para satisfazer o marido. Fez-se silêncio.
— Ah, está bem. É que você costuma avisar quando vai sair.
— Já expliquei que decidimos na hora.
— Não estou reclamando. Só fiquei um pouco preocupado.
Jeanie recusou-se a responder à mentira de George.
— De qualquer modo — prosseguiu George, em um tom mais animado —, vamos sair agora. O céu está nublado, mas, segundo a previsão do tempo, não vai chover até a noite, e espero que estejam certos.
— Os jogadores de golfe não encaram tempestades?
Ela ouviu a risada de George.
— Sim, sempre. Mas este aqui prefere não fazer isso. Tchau, minha velha. Tenha um bom dia.
— Você também.
Talvez por não estar sentada em frente ao marido, vendo-o comer sua torrada com geleia e ajeitar os óculos no nariz, Jeanie sentia que a noite anterior parecia muito distante, separada da realidade de seu casamento. Nada no dia que se seguiu lhe pareceu real; ela se sentia envolta em uma névoa de cansaço e euforia que não deixava lugar para culpa.