Encontros no Parque
Capítulo 20
— George, a exposição de Alex é hoje à noite. Você quer ir? Nós podemos ficar no apartamento e voltar amanhã. Você ainda não viu o apartamento.
George olhou para ela.
— Claro que vou. Não posso perder a exposição de Alex.
— Temos que pegar o trem das três da tarde.
— Hoje?
— Claro.
— Talvez seja difícil. — Ele olhou para fora. A garoa anuviava a paisagem. — Preciso preparar o terreno da horta antes que venha uma geada e seja muito difícil escavar. Eu preciso mesmo...
— Tem que ser hoje, George. É o dia da vernissage.
George refletiu sobre a informação.
— É claro que vou — repetiu, hesitante.
— Você não precisa ir. Posso pedir a Sally para ficar aqui. Tenho certeza de que Alex vai entender se você não estiver em condições de ir.
— Não, eu vou.
Por um lado, Jeanie queria muito que ele fosse, ao menos que estivesse bem o suficiente para ir. Queria muito o antigo George, o marido e pai “seguro” e “equilibrado”. Por outro lado, temia levá-lo para tão longe e afastá-lo da segurança da casa. E se George bebesse demais e se comportasse como naquela noite na casa de Chanty?
O trem atrasou mais de uma hora devido a uma falha de sinalização em Axminster. No início da viagem, George permaneceu calado, com os olhos melancólicos fixos na janela. Aos poucos, porém, Jeanie percebeu no marido uma curiosidade e, em seguida, um entusiasmo. Seus olhos, tão sem vida nos últimos tempos, voltaram a brilhar. Ele começou a conversar sobre coisas que, no estado mental em que se encontrava, Jeanie não imaginava que ele tivesse percebido. Era como se as informações armazenadas durante tantos meses fossem liberadas. George conversou sobre Lorna e Sally, a casa, a família e o jardim, claro. Quando finalmente chegaram a Londres, ele estava nitidamente mais esperto, talvez até animado, como se tivesse se livrado de uma nuvem que o cobria. Jeanie observava, impressionada. Ela não questionou, mas passou por sua mente que a solidão que George se impusera na velha casa paroquial causara-lhe mais danos do que benefícios, pois a falta de estímulos o havia aprisionado ainda mais na depressão. Quem sabe, se ele pudesse ser novamente um marido para ela, Jeanie talvez tivesse algo por que ansiar, algo que a fizesse esquecer.
A galeria estava muito iluminada; as cores vivas das pinturas contrastavam com o branco das paredes. Jeanie estava encantada com o amadurecimento de Alex, uma característica que transparecia em sua obra. Ela percebeu o burburinho animado do pequeno grupo de pessoas atentas que, com suas taças de vinho nas mãos, admiravam as pinturas, encantadas, enquanto socializavam.
— Pai! Mãe! — Chanty pareceu aliviada ao vê-los. Ela usava uma elegante bata preta e calças legging que a valorizavam na gravidez. Jeanie viu a filha pousar os olhos no pai. — Como foi a viagem? — perguntou ela, mas não pareceu ter ouvido a resposta.
Jeanie percebeu que a filha estava distraída, com os olhos na porta, nos convidados e no marido, avaliando cada olhar dirigido às obras dele. Alex estava como ele mesmo previra: apavorado. E quase não interagia com o grupo que o rodeava, sorrindo automaticamente em intervalos de poucos segundos, com os olhos azuis arregalados de medo como um coelho paralisado diante dos faróis de um carro.
Uma glamorosa garota espanhola, com um rabo de cavalo que balançava na medida em que ela se movia, agitava ostensivamente uma prancheta com detalhes das pinturas e, aos poucos, começou a colocar etiquetas vermelhas ao lado de algumas molduras.
— Acho que está sendo um sucesso! Parece que todos estão gostando — sussurrou Chanty ao ouvido da mãe.
— Os quadros são bons — concordou Jeanie. — Especialmente aquele — continuou, indicando uma obra na parede ao lado da porta. — As cores são incríveis.
— Papai parece estar voltando a socializar. — Elas olharam para George, que ouvia atentamente a um homem magro, com ar sério, em roupas pretas, com a alça de uma grande bolsa de couro junto ao peito magro.
— Se aquele homem não se cuidar, George começará a descrever as melhores condições para a adaptação de cercas vivas ou a falar sobre a ampla variedade de agapantos híbridos disponíveis no mercado.
Chanty parecia impressionada.
— Eu li num catálogo — admitiu Jeanie, rindo. — Ele está obcecado.
— Isso é bom?
— Provavelmente não, mas seu pai é assim. Os pobres relógios foram inteiramente descartados em prol dos agapantos híbridos. Mas hoje aconteceu algo diferente. Ele parece ter passado por algum tipo de revelação sobrenatural no trem. De repente, ele se abriu e começou a conversar normalmente. E olhe para ele agora. É a primeira vez em muitos meses que vejo George realmente engajado em uma conversa com alguém.
— Talvez papai esteja se recuperando, mãe. Espero que sim. — Chanty pousou a mão no braço de Jeanie. — Desculpe por não ter visitado vocês nesses últimos meses. Deve ter sido muito difícil. Detesto ter você tão longe.
— Eu também sinto a sua falta, querida. Acho que vou levar George daqui a pouco. Não quero que ele tenha uma recaída. Você pode avisar àquela garota que quero comprar este quadro?
— Ah, mãe, você não precisa comprar. Alex dá de presente.
— Que absurdo! É claro que vou comprar; nós temos condições. Quero colocá-lo no apartamento.
— Estou exausto, mas me diverti — disse George no táxi a caminho do norte de Londres.
— Eu também. Comprei um quadro para o apartamento.
— Que bom. Ainda não sei se gostei das pinturas. Você sabe... Gosto mais de paisagens. Nós devíamos fazer isso mais vezes, minha velha — acrescentou ele, acomodando-se confortavelmente junto a ela. Em todos esses meses, era a primeira vez que George a tratava pelo apelido abominável, mas, por alguma razão, isso já não a ofendeu.
— Quer beber alguma coisa? — perguntou Jeanie quando eles subiram para o apartamento, estranhando agir como anfitriã para o próprio marido.
Mais tarde, quando se viram na rotina nada familiar de partilhar a mesma cama, Jeanie sentiu George estranhamente tenso.
— Você está bem? — perguntou ela.
— Jeanie? — George virou-se e, subitamente, ela sentiu a mão dele em seu seio, hesitante, quase se desculpando. — Você se importaria se nós... você sabe.
Ela tentou não se retesar, mas todo seu corpo se rebelou. Esse homem se tornara quase um estranho para ela. Jeanie fez um esforço para acalmar sua respiração e disse a si mesma que devia encorajá-lo. Afinal, George era seu marido. Não era isso que ela queria? Que tudo voltasse ao normal? Ele se aproximou ainda mais e começou a beijar seu rosto e os lábios. Ele tinha cheiro de velho, gosto de mofo e ranço de vinho; a única coisa que Jeanie conseguiu foi não afastá-lo. Ela continuou deitada, retesada e sem reação, fazendo tudo para sentir qualquer coisa além de aversão. George não pareceu perceber, mas terminou muito rápido, quase antes de começar. Jeanie ouviu seu gemido na escuridão e suspirou, aliviada.
— Obrigado. Foi muito bom — agradeceu George, quase sem fôlego. — Não foi uma boa performance, mas faz tanto tempo... — Ele se recostou com um suspiro. — Mas você gostou?
— Foi bom — respondeu Jeanie, sem muito convencimento e quase engasgando com sua mentira.
— Acho que tudo vai se resolver, Jeanie.
— George, o que aconteceu no trem?
— Não sei. Eu estava admirando a beleza da paisagem campestre e pensei em como vivemos num mundo maravilhoso. De repente, voltei a ver as coisas em cores, como se pela primeira vez. Não sei explicar... As palavras não são o meu forte. Ultimamente a vida tem sido muito sombria...
Jeanie continuou ouvindo a respiração de George, que se transformou em um ronco suave. Ele se levantou, como sempre, às cinco e meia, e só então Jeanie adormeceu.