Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 5 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 5

 

— Mãe, precisamos conversar sobre a festa. Só faltam três semanas.

Sentadas uma de frente para a outra, elas conversavam no pequeno jardim pavimentado nos fundos da Pomegranate, um pouco antes do horário de abertura da loja. Jeanie instalara recentemente quatro mesas, às quais os clientes podiam tomar seus sucos e smoothies. Ela se escondia do sol matinal sob o guarda-sol.

— Já não preparamos tudo? — Para Jeanie, a ideia de uma festa para celebrar sua decrepitude oficial era profundamente depressiva. Chanty, ao contrário, insistia em afirmar que seria muito divertido.

— Sim, mas não esqueça que vou viajar durante uma semana. Todos já responderam?

Jeanie confirmou com um aceno de cabeça.

— Eram 43 convidados na última contagem. — O entusiasmo de suas amigas era alarmante.

— Mas ainda temos de organizar as mesas e decidir sobre os discursos, a hora de servir o jantar e o quarteto que vai tocar. Não podemos confiar na sorte ou vai ser um desastre. Alguém verificou se há dietas especiais? Temos que informar ao bufê.

— Dietas especiais? — Jeanie estava perplexa.

— Sim, mãe, vegetarianos, alérgicos a glúten ou a nozes, essas coisas.

— Meus amigos nasceram antes do advento da alergia a nozes — retorquiu Jeanie com sarcasmo. Em seguida, passou os olhos pela lista de convidados. — Não... Pelo que sei, todos têm dentes. Não consigo sequer encontrar um vegetariano.

Chanty riu.

— Está bem. Não comece a falar da minha geração “neurótica”.

— Como Ellie se saiu na creche? — Jeanie achava que a neta ainda era muito pequena, mas Chanty cedera à pressão de Alex, que alegava precisar de mais tempo para si. Jeanie não culpava a filha, pois entendia o medo dela de perdê-lo novamente.

— Ela adorou. — O rosto de Chanty suavizou-se. — Eles deixaram que ela pintasse até cansar. Agora, mãe, podemos retomar nosso assunto? Preciso ir trabalhar. Já estou atrasada.

Na quinta-feira seguinte, quando chegou para pegar a neta, Jeanie surpreendeu-se com a simpatia incomum com que Alex a tratou. Na verdade, ele parecia querer conversar com ela.

— Chanty contou que os preparativos para a festa estão indo bem.

— Ah, creio que sim.

— Você não parece muito entusiasmada. — Alex sorriu com simpatia. O tom de sua voz não trazia o sarcasmo e a hostilidade usuais.

Jeanie fitou-o com desconfiança.

— Para ser franca, estou apavorada.

Alex riu.

— Não a culpo. É a minha concepção de pesadelo.

— Uma festa?

— Não, fazer 60 anos.

— E cá estava eu pensando que ao menos desta vez você estava do meu lado — disse Jeanie. Em seguida, suspirou enquanto procurava os sapatos de Ellie.

— Eu estou — insistiu Alex, sorrindo —, mas tenho de ser sincero, não é?

— Não o tempo inteiro.

— Desculpe, não sabia que era uma questão tão séria. Você está ótima para a sua idade.

De novo. Jeanie odiava a expressão “para a sua idade”. Ainda assim, estava surpresa com a rara atitude do genro de tentar elogiá-la.

— Obrigada.

— Veja bem, Jeanie, nós começamos mal — disse Alex, enquanto ela, sentada, pegava Ellie no colo e esforçava-se para trocar os chinelos pelos sapatos.

Jeanie evitou dizer qualquer coisa e preferiu esperar e descobrir onde ele queria chegar. Será que Alex estava fazendo terapia? Ou precisava de dinheiro?

— E penso que seria bom darmos uma trégua para podermos ser amigos — continuou ele.

Jeanie percebeu, naquele momento, que nunca é fácil eliminar um hábito, ainda que seja um hábito tolo como odiar o genro. Parte dela gostava de odiá-lo, embora admitir isso a envergonhasse, e gostava também do fato de poder justificar suas críticas a ele. Cada fibra de seu ser resistia à sugestão. Era difícil sorrir para Alex sem um ar irônico, mas ela se esforçou.

— O problema é que...

— Eu sei... Você não acredita que não voltarei a trair Chanty.

Jeanie concordou.

— A verdade é que também não tenho certeza disso, mas estou fazendo tudo o que posso.

— Não é exatamente o que uma mãe quer ouvir, embora, como sempre, eu não possa reclamar da sua sinceridade.

Os cachos negros de Alex estavam presos em um nó frouxo atrás da cabeça. Com o rosto fino revelado, ele parecia mais jovem e mais vulnerável.

— Mas não há garantias, certo? Pelo menos em relacionamentos.

Jeanie se viu obrigada a concordar.

— Por que agora?

Se ela não tivesse capturado o olhar de Alex, teria se decidido relutantemente a favor dele.

— É preciso existir uma razão?

— Não, mas geralmente existe.

Alex deu de ombros.

— Pense como quiser. A trégua está de pé?

Ele estendeu a mão para Jeanie, e ela a aceitou.

Quando chegou ao parquinho, Jeanie ficou um pouco desapontada por não encontrar Ray e Dylan.

Ellie tinha desistido do balanço e agora subia e descia o escorrega. Um menino à sua frente tentava se exibir e descia de costas, com a cabeça para baixo. É claro que ela quis fazer o mesmo, mas não conseguiu descobrir como se posicionar para realizar a manobra. Ela, então, ficou de pé no topo do escorrega, com a cabeça abaixada e os braços caídos rente ao corpo, e gritou. Jeanie tirou-a dali e abraçou-a, mas Ellie, por alguma razão, estava inconsolável.

— Vamos conhecer o novo parquinho — sugeriu Jeanie para desviar a atenção da menina, que logo se animou e, com suas perninhas fortes, correu pela subida da colina. Seus cachos esvoaçavam ao vento enquanto a avó corria atrás dela, levando o carrinho de bebê.

Jeanie avistou-os tão logo dobraram a esquina. Ray estava apoiado no trepa-trepa de madeira, orientando o progresso do neto em direção à barra mais alta.

Ellie gritou ao ver Dylan e pediu para subir até onde ele estava. A estrutura, porém, era para crianças muito mais velhas, e Jeanie começou a lamentar sua decisão.

— É muito alto, querida. Você ainda é muito pequena.

Ellie estava desapontada, obviamente pensando se uma explosão de raiva a ajudaria em sua causa, quando Ray pegou Dylan no colo para tirá-lo da estrutura.

— Vamos para o balanço, rapaz.

Ellie voltou a atenção para um grupo de crianças pequenas engajado em atravessar, para lá e para cá, um pequeno monte revestido com borracha que ficava ao lado do balanço e rapidamente esqueceu Dylan, juntando-se a elas.

Jeanie sentou-se na grama. Ray logo a acompanhou, sentando-se ao seu lado com as pernas cruzadas e colhendo gravetos caídos na grama.

— Como vão as coisas?

Jeanie deu de ombros.

— Acho que tudo bem. E com você?

— Pelo modo como você falou, não parece tão bem assim.

— Ah, sabe como é...

Ray olhou para ela. Os olhos esverdeados, idênticos aos olhos do neto, estavam muito claros e brilhantes.

— Não — disse ele. — Conte.

Jeanie ficou em silêncio.

— Ei, é a sua vez — continuou ele. — Você já ouviu minhas histórias chatas sobre famílias complicadas.

Por um instante, Jeanie não respondeu, mas logo alguma coisa aconteceu com ela, como se os muitos anos suportando tudo finalmente tivessem transformado sua resistência em pó.

— Você quer mesmo saber? — perguntou ela, espantada com seu tom de voz desafiador.

Ray parecia ter sido pego de surpresa, mas Jeanie respirou fundo, determinada. Fazia dias que andava nervosa, irritada com todos à sua volta e com uma vontade imensa de se livrar de seu fardo. “Vai ser você”, pensou, fitando esse estranho que se preocupava com ela.

— Está bem — continuou, respirando fundo mais uma vez. — Vou fazer 60 anos dentro de algumas semanas, e meu marido e minha filha decidiram que estou oficialmente velha. Eles querem que eu desista da loja de alimentos naturais, que é minha, que eu adoro e que é um sucesso, para morar no campo. Eles não entendem por que não estou abraçando de corpo e alma a oportunidade de me aposentar e me isolar em alguma cidadezinha pacata em Somerset para comer bolinhos com geleia ao lado da lareira, cuidar de begônias e participar de festas na igreja e todo o tipo de diversão campestre inocente. Será que estou... — Enquanto falava, Jeanie notou, horrorizada, que sua garganta se contraía, as lágrimas começavam a brotar e sua voz falseava.

Ray limitou-se a observá-la, sem nenhum constrangimento, esperando ela terminar.

— Então é isso? — continuou Jeanie, sem reprimir as lágrimas. — Devo simplesmente ceder? Desistir?

— O que você gostaria de fazer?

— O que faço agora. Gosto da minha vida. Da maior parte dela.

— De que parte você não gosta?

Jeanie o encarou.

— Que pergunta estranha...

Ray deu uma risada.

— Você acha?

— Ah, sim. Todas as pessoas têm áreas problemáticas em suas vidas, mas elas não fazem diferença, não é? Bem, eu poderia falar sem parar sobre o que não me agrada. — Jeanie percebeu que estava falando sem parar e não sabia o porquê. Esse homem era perturbador em seu jeito direto e perigosamente confiável. — Você não deveria sair por aí perguntando às pessoas por que elas não são felizes. É melhor não pensar nessas coisas.

— Desculpe. — Ray parecia desconcertado diante da explosão de Jeanie, e ela teve que rir.

— Não, agora é minha vez de pedir desculpas — retrucou ela. — Estou agindo como uma louca. — Ela procurou um lenço de papel no bolso do casaco.

— Certamente seus desejos são importantes para seu marido, não?

Era como se Ray conseguisse enxergar sua alma com aqueles olhos claros e brilhantes. As lágrimas começaram a rolar novamente.

— Você não deveria ter começado isso — murmurou Jeanie, já quase sem constrangimento.

— Não era minha intenção. Eu apenas... — Ray desviou o olhar. Por um instante, ambos observaram, em silêncio, as crianças correndo para lá e para cá pelo parquinho.

— Não me sinto velha, não mesmo. — Jeanie tentava, sem êxito, engolir as lágrimas, mas já não se importava com o que Ray poderia pensar. O desejo por expressar seus sentimentos era forte demais para ser interrompido agora. — Não me sinto diferente. Sou forte e saudável. Não posso... Não posso me isolar e apodrecer com um homem que há dez anos sequer liga para mim o bastante para fazermos amor.

Jeanie suspirou ao ouvir suas próprias palavras, o rosto vermelho e envergonhado. Ela o cobriu com as mãos, desejando que a terra a engolisse.

Ela ouviu Ray respirar fundo.

— Deve ser difícil — disse ele devagar, com cautela.

Jeanie balançou a cabeça, pasma.

— Não posso acreditar que contei tudo isso a você, um perfeito estranho... Desculpe, é uma situação muito constrangedora.

Ray caiu na risada.

— Para você, talvez, mas...

O celular de Ray tocou. Ele o tirou do bolso da jaqueta.

— Salva pelo gongo — murmurou Jeanie, com tristeza.

— Alô... sim... sim... Não, não volto hoje, mas vou cuidar disso o mais rápido possível. Obrigado por me informar, Mica. Sim, até logo. — Ray guardou o celular. — Era do clube — explicou.

— Vovô! Vovô! Quero fazer xixi... Muito, vovô. — Dylan estava em frente a Ray, pulando para cima e para baixo com as mãos na virilha.

Ray levantou-se num pulo.

— Vamos. — Eles correram em direção aos arbustos na margem do parquinho, deixando Jeanie com uma sensação de tontura, como se tivesse acabado de percorrer um caminho sinuoso.

Depois, pouco falaram. Jeanie colocou Ellie no carrinho de bebê e fez a neta, que tinha as maçãs do rosto vermelhas de tanto correr, beber um pouco d’água da caneca de plástico azul. Dylan acompanhou o carrinho, arrastando os pés, e vestiu a jaqueta de pele por cima da cabeça. Eles se despediram junto ao portão do parquinho.

Ray hesitou por um instante.

— Lamento não termos tido tempo de terminar a conversa.

Jeanie tentou rir.

— Foi melhor assim. Por favor, esqueça tudo o que eu disse.

Ray retribuiu o sorriso e, antes de ir embora, tocou o braço dela rapidamente, um gesto que pareceu muito íntimo. Mas ela gostou.