Encontros no Parque
Capítulo 14
O negócio estava fechado, e os contratos relativos à nova casa, assinados. George o fizera em tempo recorde, impulsionado por algo que Jeanie não sabia o que era. Tudo para garantir a casa.
— Precisamos colocar essa aqui à venda — George fitou-a rapidamente por cima da xícara de café. — O mais cedo possível.
Jeanie assentiu.
— Já escolheu o corretor?
— Acho que vamos entregar à Savills. Eles não têm filial em Highgate, mas há uma em Hampstead. Precisamos de alguém em quem possamos confiar, e eu nunca ouvi qualquer reclamação sobre eles.
— Você decide. — Jeanie mordeu uma ponta da torrada integral e a mastigou devagar. Há semanas não tinha apetite, mas sempre levara a boa alimentação a sério e esforçou-se para comer.
George retornara triunfante. O fim de semana na Escócia parecia tê-lo estimulado, dando-lhe uma energia que não tinha havia anos. “Será que vencer é tão importante assim?”, Jeanie se perguntou. Desde que ele voltou, Jeanie fazia tudo mecanicamente, por inércia, sem se irritar com o marido. A presença dele, que ultimamente era motivo de raiva para ela, não mais a perturbava. Na verdade, ela estava estranhamente em paz. Mas também não prestava muita atenção ao marido.
— Está me ouvindo? — Jeanie ouviu George perguntar, impaciente.
Ela sorriu.
— Desculpe, o que você disse?
— Às vezes eu acho que você vive em outro planeta. Eu disse que vou marcar uma reunião esta semana.
— Tudo bem... Você está cuidando disso, não é?
— Sim, mas seria bom você se interessar um pouco.
George estava irritado, o que não era característico dele.
— Bem, não estou muito interessada em vender esta casa, como você sabe.
George revirou os olhos.
— Não me venha com isso, Jeanie, por favor. Já conversamos sobre esse assunto, não? — Jeanie não se preocupou em responder, mas George insistiu:
— Você não vai causar problemas, vai?
Jeanie olhou para ele, surpresa.
— Problemas? Como assim?
— Com os corretores ou os possíveis compradores... sendo negativa. É muito fácil criar a atmosfera errada.
— Certamente não vou comprar flores frescas e torrar grãos de café para eles, se é o que você quer dizer, mas não vou impedi-lo, se você achar que isso pode ajudar.
— Jeanie, por favor. O que há com você? Não consigo entendê-la ultimamente. No início, você não estava entusiasmada com a mudança, mas sei que adorou a casa. Precisa continuar sendo tão do contra?
— Não vale a pena conversar com você, George, porque você nunca ouve uma palavra que eu falo. Nem leva minha opinião em consideração. — A raiva que sentia não transpareceu em suas palavras; Jeanie soou simplesmente cansada.
George levantou-se, aproximou-se e acariciou as costas dela, sem êxito.
— Isso não é verdade e você sabe. É claro que me importo com sua opinião, mas você muda muito, e nunca sei onde estou pisando.
Ela quis perguntar em que momento ela se animara com o projeto, mas sabia que não adiantaria. Chanty havia insistido que o pai não se mudaria se Jeanie não quisesse, e ela conversara com ele, como a filha sugerira, no dia em que ele voltara do golfe. Sentados à mesa da cozinha, dissera a ele, em palavras quase monossilábicas, que não queria se mudar para o campo. Explicara sua posição com calma e considerara a opinião dele, sugerindo que comprassem uma casa de fim de semana por enquanto. George respondera com o mantra usual: “Você vai gostar quando chegar lá. Muitas vezes você não sabe o que é melhor para você (mas eu sei).” Ele falara de modo menos inflamado, mas a essência era clara. Foi como se ela não tivesse dito nada.
Jeanie levantou-se.
— Não mencione a loja para a Savills.
— Claro que não. A loja é sua. — George deve ter visto a expressão de perigo nos olhos dela, pois seu tom foi conciliatório. — Mas o que vai fazer com ela, Jeanie? Não pode administrá-la em Somerset. — O tom intimidador retornara à sua voz, e Jeanie não pôde mais suportar. Sem dizer uma palavra, deixou a mesa e a cozinha.
Deitada na cama, inerte, ela estava longe até mesmo da possibilidade de chorar.
As palavras de Rita ecoaram em sua mente. Por que ela simplesmente não abandonava George? Pela primeira vez, Jeanie encarava a possibilidade, em vez de afastá-la como fizera todas as vezes em que Rita a confrontara. Mas sua mente negou-se a levar adiante a sugestão, e Jeanie descobriu que era literalmente incapaz de se colocar nesse cenário. Não devido a alguma questão em particular, embora pudesse ver o pai levantando-se do túmulo em protesto ao ouvir a palavra “divórcio”. Era algo menos definido, mais um pressentimento amorfo e opressivo de perda, como sentira diante da morte de Will. E todas as células de seu corpo resistiam a essa dor.
As quintas-feiras já não eram as mesmas. Jeanie continuava evitando o parquinho de Waterlow — não por medo de Alex e Chanty, já que Ray lhe informara que muito raramente levava Dylan ao parque às quintas-feiras, mas porque o lugar lhe trazia à mente os dias em que estavam juntos, dias em que tudo era simples e emocionante, dias em que não sabiam o que poderia acontecer. Mas nessa quinta-feira Alex pedira a Jeanie para encontrá-lo cedo nesse parquinho e ficar com Ellie. Ele a pegava na creche em Dartmouth Park, onde ela agora passava três manhãs por semana, e ele precisaria estar em West End antes das duas da tarde.
O tempo tinha mudado de novo; o dia estava quente e ensolarado — um dia perfeito de início de verão. Naquela manhã, Jeanie e Jola tinham fechado a loja para fazer um levantamento do estoque; Jeanie já sabia, havia algum tempo, que o estoque antigo estava sendo perdido na pressa de colocarem mercadorias novas nas prateleiras, mas a loja andava movimentada demais para elas conseguirem monitorar as entregas adequadamente. É claro que o levantamento tomara mais tempo do que previram e ela estava atrasada. Sabia que Alex estaria impaciente, querendo ir embora, e esperava que não a recebesse mal e com reclamações. Desde o incidente com Ray, ele a tratava bem, tomando cuidado para não contrariá-la. Mas ela não o perdoara e encurtava as conversas.
Jeanie chegou ao pé da colina onde fica o antigo parquinho, mas não conseguiu ver Ellie nem Alex. Procurou perto dos patos, mas não havia sinal deles. Examinou o celular e viu que Alex lhe enviara uma mensagem, que ela não ouvira devido ao barulho do tráfego em Highgate Hill. Eles estavam no parquinho novo.
Com muito calor devido à caminhada, Jeanie começou a subir a colina devagar, mas, ao fazer a curva, viu-se diante da mais extraordinária cena. O parquinho estava repleto, com uma multidão de crianças espalhada por todo o lugar, na sua maioria bebês e crianças com menos de 5 anos, pois as mais velhas ainda estavam na escola. No centro do parquinho, estavam Alex e Ray, frente a frente, discutindo aos berros. Os outros pais e babás fingiam que nada estava acontecendo, mas Jeanie pôde perceber, pelo silêncio, que ouviam cada palavra. Seu primeiro pensamento foi que Alex descobrira sobre ela e Ray e estava tomando satisfações. Seu sangue gelou.
— Você é um idiota. — O tom de voz de Ray era frio e controlado. — Isso não tem a ver comigo ou com você, seu imbecil egoísta, isso tem a ver com a vida da sua filha.
“Ah, Deus, não, não isso”, pensou Jeanie. “Por favor, que não seja isso.”
O rosto de Alex, com as feições de quem fora um menino, estava tomado pela raiva; seus braços estavam plantados com firmeza nos quadris magricelas, e ele se inclinava em direção a Ray como se estivesse a ponto de atacá-lo. Jeanie olhou ao redor, à procura de Ellie, e encontrou-a caída, estranhamente quieta, próxima aos pés do pai. Também viu Dylan atrás do avô, com os olhos arregalados e preocupados.
— Não se meta. Você não tem nada com isso. Ela é minha filha, e você não tem o direito de falar comigo sobre ela, ainda mais dizer como devo agir como pai. Cai fora! Sai daqui e nos deixe em paz.
Fez-se um silêncio chocante no parquinho, e até as crianças os observavam, curiosas para ver o que iria acontecer.
— Meu Deus do céu, por que vocês estão brigando? — perguntou Jeanie ao se aproximar.
— Esse maldito homem está se metendo na maneira como cuido da minha filha. — Alex bufava de raiva e baixou a voz. — Diga a esse seu amigo para cair fora e cuidar da vida dele. — Ele passou a mão na testa suada.
— Olá, Jeanie. — Ray parecia tentar se conter.
— Alguém pode fazer o favor de me dizer o motivo dessa discussão?
— Ellie caiu do tronco. Eu estava perto e ouvi. Ela bateu com a lateral da cabeça na madeira e foi uma batida horrível. Ela caiu como uma pedra e se levantou cerca de um minuto depois, mas parecia entorpecida e nem chorou.
— Ellie está perfeitamente bem. Olha para ela! Você acha que eu colocaria em risco a segurança da minha filha? Ela está bem. Tem um galo na cabeça, mas é só. — Alex estendeu os braços para incluir todas as outras crianças no parquinho e continuou: — Como acontece com a maior parte das crianças todos os dias.
Ray virou-se para Jeanie com uma expressão preocupada.
— Você não ouviu. Foi uma batida de verdade; ela caiu de forma estranha. Eu não sei se teve alguma concussão, mas, de qualquer modo, ela deve ir ao pronto-socorro para ser examinada. Eu sei reconhecer uma queda perigosa. Faz parte do meu trabalho.
Alex desviou o olhar, muito irritado.
— Ah, pelo amor de Deus, dá um tempo! Não vou levar minha filha ao pronto-socorro por causa de um galinho. Eles vão achar que enlouqueci. Diga a ele, Jean, como ele soa patético.
Jeanie estava inclinada, examinando a neta. Ellie sorriu para ela, fraca e cansada.
— Oi, Gin... Caí do tonco que balança e fez dodói qui. — Ellie esfregou a mão na têmpora, onde já havia uma leve mancha roxa. — Papai bobo grita com Way.
Jeanie ajoelhou-se para dar um beijo na neta.
— Está se sentindo bem agora, querida? — Ela acariciou a cabecinha loura, com o coração palpitando diante da ideia de que algum mal pudesse ocorrer a Ellie.
— Dodói no baço. Olha, Gin...
— Mas agora você está bem, não é? — perguntou Alex, tranquilizando-a, enquanto a pegava no colo e examinava a mancha rocha. — Você só bateu com a cabeça, tolinha.
Jeanie inspirou fundo e se perguntou como poderia trazer Alex para seu lado.
— Os sinais podem demorar a aparecer, Alex. Se ela bateu a cabeça com força, deveria ser examinada por alguém. Garanto que eles não vão pensar que você é louco. Lembre-se de que fui enfermeira, e sempre ficávamos mais felizes quando era alarme falso do que quando chegava uma criança com algum dano cerebral ou pior.
Alex a fitou duramente.
— Isso é ridículo. Eu tenho uma reunião com um possível comprador no centro da cidade, e pode ser importante. Você está me dizendo que devo ir àquele pronto-socorro imundo e esperar por umas quatro horas para ouvir que minha filha está muito bem e que foi tudo uma perda de tempo? Isso não vai acontecer mesmo. — Ele olhava para Jeanie com raiva. — Você não devia ouvir esse homem. Eu não esperaria isso de você.
Jeanie pensou rápido.
— Está bem. Vá para a sua reunião, Alex. Tem razão. Se ficar aqui, vai se atrasar.
— Finalmente um pouco de bom senso. — Jeanie viu o olhar presunçoso que ele lançou para Ray, que continuou em silêncio quando Alex entregou Ellie à avó e pendurou sua bolsa no ombro, visivelmente aliviado.
— Vejo você depois, querida. — Ele beijou o nariz da filha, tentando fazê-la sorrir, mas Ellie limitou-se a fitá-lo em silêncio. Jeanie percebeu um lampejo de dúvida no rosto de Alex, mas o genro estava tão tomado pelo triunfo sobre Ray que não podia voltar atrás agora.
Eles viram Alex se afastar.
— Espere — disse Jeanie a Ray, que estava prestes a falar. Alex olhou para trás, inseguro, mas não acenou. Assim que ele sumiu, Jeanie virou-se para Ray. — Agora, vamos.
— Vamos, Dylan. — Ray conduziu o neto, descendo o morro em direção ao portão leste, seguindo os passos de Jeanie.
— Para onde vamos, vovô?
— Para o hospital. Vamos ver se Ellie não machucou muito a cabeça. — Ele se virou para Jeanie. — Quer que eu a carregue?
Jeanie balançou a cabeça.
— Estou bem.
Antes que eles chegassem ao meio da colina, Ellie dormiu no ombro de Jeanie.
— Acorda, meu anjo — pediu ela, sacudindo-a com delicadeza. — Não dorme agora... Vamos, Ell... — Jeanie esfregou o rosto da neta, falando com ela o tempo todo. — Vamos cantar? Anda, vamos cantar! Brilha, brilha, estrelinha...
Jeanie olhou para Ray.
— Ela não pode dormir — disse a ele. — Precisamos mantê-la acordada.
— Passe-a para mim. Isso deve fazer com que ela acorde. — Ele a pegou no colo, mas ela não pareceu notar a mudança. Logo, Ellie ficou repentinamente muito branca e vomitou na camisa de Ray.
— Ah, Ray, sinto muito. Isso não é um bom sinal. — Jeanie sentia um aperto no peito. “Permita que ela esteja bem. Por favor, permita que ela esteja bem”, pediu ela a um universo invisível. — Rápido! Precisamos chegar ao hospital o mais breve possível.
Jeanie pegou Ellie quando eles chegaram ao portão do hospital Whittington. Ela correu para a recepcionista e contou o que havia acontecido.
— Ela vomitou e está muito sonolenta — acrescentou. — Sou enfermeira. Por favor, consiga alguém que a veja imediatamente.
Para Jeanie, o tempo parou. Não havia nada no mundo além de observar esse rostinho tão amado, de notar qualquer mudança, por menor que fosse, na sua expressão ou na sua cor ou qualquer reação; nada exceto o mantra constante que se tornou o centro de todos os seus pensamentos, seu apelo a qualquer poder universal que ajudasse Ellie. Em poucos segundos, um jovem médico surgiu e encaminhou-os para um cubículo.
— Vou ficar aqui com Dylan. E tentar limpar isso — disse Ray, afastando do peito a parte da camisa em que Ellie vomitara.
Jeanie assentiu, embora preferisse que ele a acompanhasse. A responsabilidade pela criança doente parecia demais para ela.
As coisas aconteceram com rapidez. O médico examinou Ellie e chamou outro médico, obviamente mais experiente e possivelmente um dos diretores. Ele enfiou uma agulha com um tubo no bracinho de Ellie e prendeu-o com esparadrapo. Ela permanecia deitada; seus olhos não tinham foco, e a mão repousava entre as de Jeanie.
— Parece que ela teve um edema no cérebro, mas queremos examinar o que está acontecendo. — O diretor era um homem alto, de cabelo avermelhado e cerca de 40 anos, com um rosto pálido e cansado. Ele olhou para Jeanie. — Quando isso aconteceu?
— Deve ter sido uns quarenta minutos atrás. Eu não estava presente. Ela vai fazer uma tomografia?
— Vai. — O médico a fitou nos olhos, obviamente tentando decidir o quanto ela podia ser informada.
— Eu fui enfermeira.
— Ah... Precisaremos fazer uma tomografia computadorizada para examinar se houve hemorragia. Foi uma sorte chegarem tão rápido. Se houver algum problema, teremos tempo para resolver. Você é mãe dela?
— Avó.
— Certo. A enfermeira virá em um instante. Eu as verei mais tarde.
Jeanie pediu para a enfermeira chamar Ray.
— Vão levá-la para uma tomografia — contou a ele. — Não espere, por favor. Leve Dylan para casa. Depois eu telefono.
— Eu vou, mas volto. — Não era uma pergunta, e Jeanie não discutiu. — Eles precisam saber... Alex e sua filha. — Com a camisa molhada lavada por ele, no local em que Ellie tinha vomitado, Ray não afastou os olhos da menina na maca.
Jeanie concordou, tendo esquecido tudo durante o pânico.
Apesar de haver vários avisos de proibição quanto ao uso de celulares, Jeanie ligou para a filha. Não houve resposta. Ela deixou uma mensagem para que Chanty fosse para o hospital imediatamente, mas não pareceu suficiente. Telefonou para George, mas ele também não atendeu, e ela deixou uma mensagem: “George, Ellie sofreu uma queda e está sendo examinada em Whittington. Não posso usar o celular. Por favor, ligue para Chanty e Alex e peça que eles venham para cá imediatamente.”
Jeanie quis acrescentar que a neta estava bem, para tranquilizá-lo, mas ainda não havia evidências nesse sentido. Ela sabia quando um médico estava preocupado.
— Tenho boas notícias. — O médico de cabelo avermelhado, que se chamava Rob, parecia aliviado. — A tomografia mostrou que há um edema. Obviamente foi uma pancada forte, mas não houve hemorragia.
Jeanie respirou fundo pela primeira vez desde o parquinho. Ellie ainda parecia muito pálida; tinha os olhos abertos, mas sem focá-los.
— Ela terá de ficar internada por 24 horas para observação. A enfermeira vai organizar tudo. Mas creio que ela vai ficar bem... Não é, Ellie? — Ele acariciou o braço da menina com uma ternura surpreendente. “Ele deve ter uma filha”, pensou Jeanie. — Vamos mantê-la levemente sedada.
Ellie olhou para Jeanie.
— Gin, cadê mamãe?
Jeanie examinou o relógio. Tinham se passado quase duas horas desde o acidente, mas ninguém havia aparecido.
— Ela está vindo para cá, bonequinha. Vou telefonar de novo.
Determinada a não deixar a menina nem por um instante, Jeanie desconsiderou as regras e ligou para o celular de Chanty mais uma vez. Ninguém atendeu. Onde ela está? Onde estão todos? Jeanie viu que George havia tentado telefonar quatro vezes, mas não se preocupou em ouvir as mensagens. Telefonou para ele de novo. Desta vez, ele respondeu, com a voz ofegante e assustada.
— Estou em frente ao hospital. Onde você está?
— Ainda na emergência, mas ela está bem, George. Quando você chegar aqui, eu conto.
— Vovô. — Ellie sorriu para George enquanto Jeanie o colocava a par dos acontecimentos.
— Conseguiu falar com Chanty e Alex?
— Finalmente sim. Ela não atendia o celular, então telefonei para o Canal 4. Eles são tão imbecis que não conseguiam encontrá-la no prédio. Eu quase fui até lá. Obviamente, Chanty ficou muito nervosa quando falei com ela. Ela teve uma reunião em Canary Wharf, e o celular estava no modo silencioso. Agora ela deve estar no metrô a caminho daqui. Deixei uma mensagem para Alex, mas sem dúvida Chanty vai falar com ele. — George trocou o peso do corpo de um pé para o outro. — Não gosto de hospitais — afirmou ele.
— Quem gosta?
— Você deve gostar. Trabalhou em um durante anos.
Jeanie riu.
— Nós gostamos do trabalho, não do lugar. Você não precisa ficar. Ela foi sedada e agora deve dormir. — Ellie começava a relaxar a mãozinha que segurava a da avó e a cerrar as pálpebras.
— Você vai ficar?
— Enquanto Chanty não chega, sim.
George parecia indeciso.
— Tem certeza de que não me quer aqui?
Jeanie balançou a cabeça.
— Pode ir, sim. Dou notícias se alguma coisa mudar.
George inclinou-se para beijar a cabeça de Jeanie e se encaminhou para a porta.
— Telefone.
Eles transferiram Ellie para o setor infantil. Ela dormia, com o rostinho bonito e sereno sobre o lençol branco. Jeanie recostou-se na cadeira ao lado da cama e fechou os olhos, ansiando pela chegada da filha.
— Jeanie? — Ray estava diante dela e tinha a mesma expressão tensa e ansiosa de George. — Como ela está?
— Ah, Ray, ela está bem. Segundo o médico, teve um edema, mas felizmente não houve hemorragia. Ela vai ficar internada até amanhã.
Ray sorriu, aliviado.
— Graças a Deus! Você está bem?
— Não exatamente. Mas se Ellie está, nada mais importa.
— Claro. Onde estão os pais?
Ouviram-se passos rápidos na entrada do quarto.
— Mãe, o que aconteceu? — Chanty entrou correndo, passando por Jeanie e Ray, lutando para abaixar a grade lateral da cama a fim de acariciar o cabelo da filha adormecida e beijar-lhe o rosto com uma ferocidade passional. — Meu Deus... Ela está bem? — Chanty virou-se para a mãe, ignorando Ray. — Quero que conte tudo o que aconteceu.
Jeanie a fez se sentar.
— Foi uma queda no parquinho. Ela bateu com a cabeça.
— O que ela estava fazendo? — Sua voz tinha um tom acusatório. Jeanie percebeu que Chanty estava tensa demais para se controlar.
— Eu não estava presente. Ela estava com Alex. Mas Ray assistiu.
Chanty encarou Ray, compreendendo tudo.
— Você é o homem... O homem do parquinho — gaguejou ela com um olhar quase hostil. Ray apenas assentiu. — Mas onde está Alex? Tentei telefonar mil vezes, mas ele não atendeu.
— Ele foi ao centro da cidade para um encontro com um comprador importante.
Chanty levou algum tempo para processar a informação.
— Ele abandonou Ellie?
Jeanie lançou um olhar de advertência para Ray.
— Quando ele saiu, Ellie estava bem.
Chanty acenou a cabeça.
— Mas depois ficou doente?
— Nós... Eu achei melhor que ela fosse examinada. Pancadas na cabeça são perigosas. Quando surgem os sintomas, pode ser tarde demais.
— Eu já vou — murmurou Ray. Jeanie assentiu com a cabeça. Estava claro que a presença dele não era bem-vinda pela filha.
— Graças a Deus você a trouxe, mãe. Se alguma coisa acontecesse a ela... — Chanty nunca chorava com facilidade. Quando menina, era forte e autossuficiente. Sempre soube o que queria e geralmente conseguia, mas agora chorava abertamente.
— Eu sei, mas ela vai ficar bem, querida.
— O que aquele homem estava fazendo aqui? — perguntou Chanty, irritada, enxugando as lágrimas.
— Ray, o nome dele é Ray. Já disse que ele estava no parquinho quando tudo aconteceu e queria se certificar de que Ellie estava bem.
— Então esse é o homem... Pensei que você não se encontrasse mais com ele.
Jeanie fez um esforço enorme para se manter equilibrada, dividida entre o desejo infantil de prejudicar o genro contando a Chanty o que ocorrera e o desejo mais maduro de ajudar a filha em seu sofrimento. A maturidade venceu.
— Eu não estava lá, Chanty. Alex me pediu para encontrá-lo no parquinho cedo e ficar com Ell. Ele a pegou na creche. Ray estava lá por acaso. Foi uma coincidência. — Ela fez uma pausa. — Ele tem esse direito.
Chanty acenou a cabeça, concordando, e examinou o relógio.
— Onde ele está?
Eram seis horas da tarde quando Alex finalmente chegou. Ele ficou surpreso ao ver a filha. Ellie estava acordada e, embora ainda sonolenta, parecia mais alerta do que antes.
— Papai... — Ela estendeu os braços para receber o abraço dele.
Alex olhou para Jeanie.
— O que aconteceu?
— Ela não estava bem, Alex. Parecia tonta. Achei melhor que a examinassem. Depois, no caminho para cá, ela vomitou. — Jeanie não disse mais nada.
Chanty explicou ao marido o que Jeanie lhe informara.
— Então ela vai ficar bem? Totalmente bem? — perguntou ele. Jeanie viu seu rosto estremecer e ficar branco.
— Sente-se... Você está abalado — disse ela, puxando mais uma cadeira.
Alex desmoronou na cadeira e debruçou sobre a cama de Ellie, escondendo a cabeça nos braços. Jeanie percebeu que ele chorava.
— Eu devia ter ouvido aquele homem. Ele me avisou, mas eu não quis acreditar.
Jeanie notou o olhar surpreso da filha.
— Você quer dizer Ray? — perguntou Chanty.
Alex ergueu a cabeça e, pela primeira vez desde que o conhecera, Jeanie viu vulnerabilidade em grandes olhos azuis. Caíra a máscara pesada de sua eterna obsessão consigo mesmo, que normalmente o levava a evitar qualquer vínculo verdadeiro com o resto do mundo, a não ser que estivessem falando sobre ele.
— Sim, Ray. Ele viu a queda e me preveniu. Disse que entendia disso. E eu mandei ele cair fora.
— Por que não me contou, mãe? — Chanty parecia um pouco envergonhada, talvez por se lembrar de sua grosseria ao desconfiar de Ray.
Jeanie limitou-se a dar de ombros.
Durante algum tempo, Alex permaneceu ali. Chanty o observava; sua expressão endurecia à medida que processava a informação.
— Então você sabia que Ellie tinha caído e que poderia ser perigoso e simplesmente foi embora? — Seu tom de voz era duro e piorava devido às suas emoções.
Jeanie assistiu ao genro endireitar-se na cadeira para enfrentar as consequências.
— Para mim, Ell estava bem, Chant. Ela não chorou e parecia bem — disse Alex em tom de súplica.
— Mas você não esperou para ter certeza.
— Eu estava atrasado para encontrar Al Dimitry. Ele só estaria na cidade por um dia, a caminho de Cannes, e meu agente tinha mostrado meu trabalho a ele pela internet.
— Desculpe — começou Chanty, interrompendo-o friamente —, mas, acredite se quiser, não estou ligando a mínima para a porcaria do seu trabalho agora. Você abandonou nossa filha quando era evidente que ela poderia precisar de ajuda médica.
— Não era evidente. Juro que não. — Alex fitou Jeanie com olhos suplicantes. — Você estava lá e disse que eu podia ir embora.
— Não cabe à minha mãe dizer o que você deve fazer. Além do mais, você nunca ouviu o que ela disse. Mãe, por favor, conte exatamente o que aconteceu.
— Ray é especialista em artes marciais e vê quedas o tempo todo. Por isso ele sabe distinguir uma queda perigosa de uma inofensiva — começou Jeanie, relutante. — Ele viu a queda de Ellie, achou que tinha sido uma batida séria e avisou a Alex. Mas, para ser sincera, ninguém sabia se era um problema ou não. E as pessoas frequentemente se enganam.
— E morrem em consequência disso? — perguntou Chanty em tom repreensivo.
— Sim, às vezes.
Alex sentiu-se atacado de novo.
— Sei que errei. — Ele estendeu a mão para a filha e acariciou o rosto dela com o polegar. — Ela não é a criança mais linda do mundo? E eu não cuidei dela. Ela poderia ter morrido, e eu seria o responsável.
Seu melodrama não convencia Jeanie, mas ela notou que Chanty amolecia, como sempre, diante das manipulações do marido. E talvez — Jeanie concedeu-lhe o benefício da dúvida — ele estivesse mesmo abalado com o acontecido.
— Ellie não morreu, Alex. Ela vai ficar bem. — Jeanie falou, prática, interrompendo a performance exagerada. — Tenho certeza de que você teria agido de forma diferente se visse que ela não estava bem.
— Mas a questão não é essa, é? — comentou Chanty, ríspida, sem ter perdoado o marido. — Você a abandonou.
— A maioria das pessoas teria pensado o mesmo que Alex — insistiu Jeanie. — Ninguém gosta de criar caso quando não há uma evidência clara.
— Então temos que agradecer a Ray... — disse Chanty, demonstrando não gostar dessa opção.
Alex se mexeu na cadeira e, por fim, levantou-se. Ele parecia pronto para falar, lançando olhares ansiosos para Jeanie e Chanty.
— Hum... Quanto a Ray...
Chanty estreitou os olhos.
— Quanto a Ray o quê?
Alex respirou fundo e endireitou os ombros, como se estivesse pronto para enfrentar um pelotão de fuzilamento.
— Alex?
Ele ainda hesitava.
— Bem, sabe o que Ellie disse? Sobre Ray? Não era verdade. Ela nunca disse aquilo.
Alex deixou a cabeça cair para a frente, como se quisesse se proteger de ataques imaginários. E Jeanie pensou, por um instante horrível, que Chanty ia mesmo atacá-lo. Ela se continha, petrificada, sentada na cadeira do hospital, a cabeça também baixa, mas não de medo, e as mãos apertadas sobre o colo, como se estivesse se preparando para o ataque.
Alex, embora estivesse no fundo do poço, continuou a cavar:
— Ellie não parava de falar sobre ele. Dizia que ele conseguia se equilibrar na ponte de troncos sem se segurar e que todos aplaudiam, que ele era excelente jogando bola e com todas as outras brincadeiras, que cantava músicas e que comprou um suco de maçã para ela. E isso me irritou. Eu não queria nenhum homem fazendo com a minha filha coisas que eu não consigo fazer.
Jeanie ficou chocada. Embora já soubesse que Alex havia mentido, quase teve pena dele diante dessa história patética. “Imagine o inferno que é ter esse ego”, pensou.
O assombro sobrepujou a raiva de Chanty. Ela continuou sentada, imóvel, sem falar, o que era mais amedrontador do que qualquer ataque ao marido.
— Chanty, eu sinto muito. Sei que foi uma tolice.
— Tolice? — Chanty voltou a si. — Tolice? Você acha que é uma tolice acusar um homem de molestar Ellie porque está com ciúmes dele? — Era difícil para ela não gritar, mas seu rosto, normalmente bonito, estava totalmente vermelho.
— Eu não disse exatamente molestar — reagiu Alex, com petulância. — Eu só disse...
Chanty o interrompeu de novo.
— Nós sabemos o que você disse, Alex. E sabemos o que você quis sugerir.
— Eu não tinha intenção; na verdade, eu não disse exatamente o que você está pensando. Eu só queria que você soubesse da existência dele, que ele estava brincando com Ellie. Mas, quando contei, você reagiu de forma exagerada e aquilo cresceu, e eu mais ou menos fiz parecer maior do que era. Fugiu do meu controle antes que eu pudesse explicar.
— Então a culpa é minha? — Chanty elevou a voz, mas pareceu perder a força e fez um gesto de desprezo. — Simplesmente vá embora. Não consigo olhar para você.
Alex hesitou, mas não por muito tempo. Jeanie observou-o sair do quarto, constrangido.
— Não consigo falar sobre isso agora, mãe — murmurou Chanty.
Durante algum tempo, ficaram em silêncio. Ambas fixaram os olhos na criança que dormia e que, apesar de ser o centro de toda essa desavença, felizmente ignorava o conflito ao seu redor.
— Onde está o papai? — perguntou Chanty, com a voz muito triste e desapontada.
— Ele esteve aqui mais cedo, quando ainda estávamos na emergência. Sugeri que ele fosse para casa.
— Como assim?
— Ele odeia hospitais. E, quando chegou, Ellie estava bem... Quero dizer, quase bem. Vou telefonar para ele. — Jeanie não conseguiu evitar o tom defensivo, quase culpado, e disse a si mesma que não se livrara de George por causa de Ray.
Por um instante, o olhar de Chanty pousou em seu rosto, e Jeanie, para seu horror, viu nos olhos da filha que ela começava a entender.
— Como estão as coisas por aqui? — perguntou a irmã Deehan, que deve ter presenciado a briga, levando em consideração sua atitude educadamente desaprovadora. — A menina precisa de descanso e tranquilidade. — Ela se voltou para Chanty. — Pode ficar durante a noite, se quiser.
— Quer que eu volte mais tarde e assuma? — perguntou Jeanie a Chanty baixinho, quando se afastaram para permitir que uma jovem enfermeira se aproximasse de Ellie para as observações de rotina. Chanty hesitou.
— Não, mãe, pode ir. Eu vou dormir aqui. Vou ficar bem. Por quanto tempo você acha que Ell ficará internada?
— Ela ainda parece um pouco entorpecida. Eles querem que ela fique quieta até o edema ceder. Segundo o médico, umas 24 horas. Vamos ver como ela acorda amanhã, querida.
Chanty suspirou, quase chorando de novo.
— Ah, mãe, se você não estivesse lá... — Jeanie a abraçou. — Sei que parece que não dou a você o merecido valor, mas dou, de verdade. Sinto muito ter duvidado de você.
— Eu entendo seus motivos.
Jeanie queria falar mais, mas Chanty não precisava ser relembrada das falhas do marido, e uma briga entre os pais não ajudaria a neta. Mas ela se perguntou como a filha podia suportar uma pessoa tão autocentrada. Não se pode confiar em alguém tão egoísta, a não ser que os interesses sejam comuns. Ela refletiu sobre como George sempre fora estável e percebeu que não dava valor a isso.
George preparara o jantar. Ele tinha apenas um prato em seu repertório — espaguete à bolonhesa —, mas era bom nisso, e, como era de esperar, meticuloso em sua organização e apresentação: tudo bem calculado e bem arrumado, com a mesa posta, o vinho desarrolhado e a salada aguardando apenas o molho. Esta noite, Jeanie sentiu-se agradecida.
— Um pesadelo, hein? — disse ele, mexendo o molho meticulosamente. — Foi uma sorte você estar lá.
Jeanie se perguntou se o nome de Ray seria mencionado por Chanty ou Alex. Nunca, nem mesmo no início, contara a George sobre tê-lo conhecido no parquinho com Ellie.
— Sirva o vinho — disse ele, indicando a garrafa — e sente-se. Você deve estar exausta.
— Eu estava apavorada, George. Só pedia que ela ficasse bem. — Quando se sentou, Jeanie teve a impressão de que nunca mais teria forças para se levantar. Ela estendeu o braço para pegar o vinho e encheu metade das taças (George sempre insistia que o vinho tinto devia ter espaço para respirar). Quando o tanino rico e frutado bateu na garganta, foi como uma mágica. Jeanie sentiu seu corpo quase suspirar de alívio.
George olhou para ela.
— Está fazendo pedidos ao Deus em que você não acredita?
Jeanie sorriu.
— Está bem. Mas você teria feito o mesmo. É um instinto natural.
— Sim, mas Ele teria me ouvido. Eu frequento a igreja. — Ele deu um sorriso forçado, um pouco presunçoso, e ambos riram.
— Não muito.
A risada transformou-se em mais risadas, e, no fim, lágrimas corriam pelo rosto de Jeanie enquanto ela ofegava, esforçando-se para ter algum ar, segurando junto à boca o guardanapo que George dispusera ao lado dos talheres com muito zelo. Toda a tensão do dia esvaiu-se na alegria compartilhada.
Quando se deitou, só conseguia ver a neta sobre o lençol do hospital, com os olhos castanhos arregalados e desnorteados em seu rosto pequenino. Nada poderia ser mais importante do que a segurança e a felicidade de Ellie.