Encontros no Parque
Capítulo 4
Jeanie chegou tarde ao parquinho na quinta-feira. Fazia frio e parecia que ia chover, mas ainda havia algumas mães entediadas reunidas ali com seus filhos — e também o homem que conhecera na semana anterior. Jeanie mal pensara nele e não estava tão satisfeita assim em vê-lo. Gostava de perambular sozinha com Ellie e nunca se envolvera com outros adultos no parque. Ele falava ao telefone, apoiado no escorrega, enquanto Dylan descia o tobogã de metal de frente, com a barriga voltada para baixo e os braços estendidos.
Ao ver Jeanie, ele acenou com a mão e sorriu para ela, concluindo a chamada e guardando o celular no bolso da jaqueta.
— Oi, tudo bem?
— Tudo bem, e com você?
Ellie pediu para ir ao balanço, o que os separou por algum tempo enquanto monitoravam a brincadeira dos netos. Jeanie evitou o olhar dele.
Dylan juntou-se a outro menino de sua idade, e eles começaram a dar voltas em torno do parquinho. O avô aproveitou para se aproximar dos balanços.
— Quero pedir desculpas pelo outro dia.
— Como assim?
— Eu estava meio sensível. Exagerei um pouco.
Jeanie riu.
— Não há motivos para se desculpar.
— Não, mas você deve ter me achado estranho.
Jeanie não sabia o que dizer. Não o achara propriamente estranho, mas ele tinha um ar perturbador, como se quisesse alguma coisa dela, algo que ela não sabia identificar.
— Essa coisa de parquinho é nova para mim. Não conheço bem as normas de comportamento.
— Não há normas — assegurou-lhe Jeanie, com uma gargalhada —, exceto sempre garantir que, não importa o que aconteça, a culpa não é da sua criança!
— Empurrar a culpa para alguém?
Jeanie assentiu. Depois de algum tempo, perguntou:
— Fui muito sarcástica?
— Eu diria realista. Soa melhor. De qualquer modo, vou deixá-la em paz.
Jeanie o observou abrir o portão de metal do parquinho e se debruçar sobre a cerca que circundava o lago dos patos.
— Descer, Gin. — Quando tirou Ellie do balanço, ela sentiu as primeiras gotas de chuva. Procurou a capa de chuva de plástico no fundo do carrinho de bebê, mas só encontrou um pacote amassado de lenços umedecidos, um livro amarrotado de Ellie e uma casca de banana apodrecida.
O parquinho se esvaziava rapidamente. Jeanie ouviu o homem gritar para o neto:
— Dylan! Vamos, rapazinho. Daqui a pouco vai começar a chover.
Enquanto colocava Ellie no carrinho, sob protestos veementes, Jeanie percebeu que o menino não prestava atenção ao chamado do avô. Ela correu para o portão com a neta, mas, quando começavam a subir a rua, a chuva começou. Não era uma chuva normal, mas um temporal. Jeanie concluiu que seria tolice continuar, pois o caminho até a casa de Ellie demoraria uns 15 minutos. Era preciso esperar a chuva diminuir. Assim, mudou o caminho e dirigiu-se a um café a uma pequena distância do parque, enquanto Ellie ainda reclamava aos berros e lutava contra a chuva e as limitações do carrinho.
O café estava vazio. Jeanie escolheu uma mesa externa, em um espaço coberto, pois ali Ellie poderia perambular pelas mesas. Logo que se instalou, pediu uma xícara de chá para si e uma caixinha de suco de maçã para a neta.
Enquanto avaliava o céu, preocupada, encharcada e ansiosa para que a chuva passasse, perguntando-se quanto tempo ela ainda demoraria, Dylan e o avô apareceram.
— Eu de novo. — Ele estava ofegante após subir a ladeira correndo, mas ainda parecia empenhado em desculpar-se com ela. Jeanie preocupou-se ao perceber que ficaria presa ali, com ele, enquanto durasse o temporal.
Dylan começou a correr, com Ellie no seu encalço. Eles subiam a rampa na entrada do café, desciam pela escada e repetiam o circuito, rindo sem parar.
— Ufa! — O homem tirou a jaqueta de couro, sacudiu-a e pendurou-a no espaldar de uma cadeira em frente à mesa de Jeanie. Ao ver o olhar temeroso da amiga recente, sorriu com um jeito travesso. — Tudo o que precisamos agora é uma cortina de chuveiro e um punhal.
Jeanie não pôde deixar de rir.
— Você me olha como se eu fosse um assassino com um machado. Na melhor das hipóteses, um perseguidor.
— Você é? — Jeanie analisou o rosto bonito e vivido, e, não encontrando nele a aparência de uma pessoa furtiva, viu uma sinceridade atraente e uma calma deliberada, quase aprendida, como se ele tivesse treinado para ser tranquilo.
— Não intencionalmente.
— Você pode entender minha situação — defendeu-se Jeanie, sorrindo.
Ouviu-se um grito, e, quando se viraram, viram Ellie caída no chão de concreto. Ao erguê-la e ver seu rostinho vermelho por causa do susto que passara, Jeanie aninhou-a no colo e abraçou-a apertado até que o choro acalmasse. Dylan rodeava a menina, ansioso, e não parava de andar para lá e para cá.
— Eu não fiz nada — murmurou ele, com os olhos baixos, como se estivesse acostumado a ser acusado.
— Sei que não. — Jeanie sorriu para ele. — Ellie ainda não sabe correr muito bem.
O rosto de Dylan iluminou-se.
— Ela ainda é pequena — concordou ele, enchendo o peito de orgulho por ser grande em seus quase 4 anos. — Vem. — Ele segurou a mão de Ellie e guiou-a carinhosamente, ansioso para voltar a brincar.
A chuva caía forte, esfriando o ar e escurecendo o céu; a água que descia do telhado formava uma cortina, isolando-os em um mundo úmido e frio. Por um momento, fez-se um silêncio constrangedor.
— Vamos cantar? Como nos filmes? O ideal seria termos uma freira com um violão, uma mulher em trabalho de parto, um menino precoce e um bárbaro que se torna herói, mas, na falta deles, podemos tentar algo dramático e sombrio para passar o tempo até sermos resgatados.
— Como o quê?
— Ah, não sei, que tal... — Ele fez uma pausa, endireitou-se na cadeira com o peito estufado como um tenor de ópera e começou a cantar a tragédia adolescente dos anos 1960 sobre o jovem piloto que sofre um acidente de carro e, na hora de morrer, diz “Tell Laura I love her”. Sua voz era baixa, mas ele parecia confiante quanto ao tom. Quando terminou, ambos começaram a rir.
— As mais antigas são as melhores — brincou Jeanie. Eles repetiram a música em coro, desta vez bem alto, exagerando o melodrama. As duas crianças, por sua vez, pararam de brincar e ficaram diante deles, com os olhos arregalados diante do espetáculo.
— Aliás, meu nome é Ray — disse o homem.
— Jeanie.
Eles se cumprimentaram com um aperto de mão por cima da mesa.
— Você tem muitas amigas com netos?
Jeanie balançou a cabeça.
— Nenhuma. Minha melhor amiga nem tem filhos, e nenhuma das outras já é avó. Creio que é porque elas têm filhos homens... Demora mais.
— Então Ellie é filha da sua filha?
— Sim, mas Chanty trabalha em horário integral, e quem fica com a filha é o marido.
— Sua ajuda deve ser muito apreciada.
Jeanie deu de ombros.
— Não é bem assim. Não me dou muito bem com meu genro. Existe um passado complicado.
Ray suspirou.
— Ah, famílias... Não podemos viver junto delas nem sem elas. Mas Nat, minha filha, parece estar cedendo com relação a mim. Ela até deixou que eu levasse Dylan para nadar na próxima semana.
— O que você fez?
— Ah, o usual... Eu me separei da mãe dela. Mas, do jeito que sou, escolhi a pior maneira. Eu me apaixonei pela filha da melhor amiga da minha esposa, que tinha 21 anos. Isso não foi muito bem aceito.
Jeanie digeriu a informação.
— Quantos anos tinha sua filha?
— Nove. E Carol não me deixou vê-la depois disso. Disse que eu era um pedófilo etc. Ela se mudou para Leicester e sempre trocava o número de telefone e devolvia os cartões e presentes que eu enviava para Nat. Até que, um dia, parei de tentar. Nós perdemos contato durante muitos anos. — Ele passou a mão no cabelo. — Veja bem, fui um pai horrível. Não culpo Nat.
— Por que ela entrou em contato com você?
— Ela não teria me procurado se não fosse pelo pai de Dylan. Ronnie é um músico das Antilhas. Ele trabalha com educação de crianças e nunca conheceu o pai. Quando Nat estava grávida, ele a convenceu a me procurar pelo bem do bebê. — Ray fez uma pausa. — Você não quer ouvir essas coisas.
Fez-se um silêncio quando ambos olharam para o céu e perceberam que a chuva tinha passado.
— É melhor eu levar Ellie para casa ou meu genro vai reclamar — disse Jeanie, surpresa diante de sua própria relutância em ir embora.
Naquele mesmo dia, George acenou para a mulher, animado:
— Venha ver isso aqui.
Jeanie deixou o jornal e se aproximou da escrivaninha de George, posicionando-se atrás dele.
— Pegue os óculos para ver melhor.
Jeanie viu na tela a foto de uma imensa casa de campo.
— Não é maravilhosa? E olha... — George clicou sobre uma fileira de pequenas fotos para mostrar o interior de uma sala espaçosa, na qual o sol entrava através da janela aberta, e uma cozinha planejada quase nova, com um fogão vermelho brilhante. Jeanie examinou a descrição detalhada do corretor de imóveis no pé da página.
— Tem cinco quartos e seis hectares. Isso é ridículo, George. Você disse que nossa casa é grande demais para nós, mas essa tem o mesmo tamanho.
George demonstrou indiferença.
— Ah, sim, mas vamos precisar de mais espaço para acomodar a família. Não é maravilhosa?
— Sim, ela é linda, mas isso não é razão suficiente para comprarmos.
— Veja esta aqui então. — George recomeçou todo o processo. Desta vez, tratava-se de uma casa paroquial em Somerset. — Também tem cinco quartos, mas podemos ter escritórios separados. E ela foi reformada. Olha só! Você não consegue imaginar Ellie adorando esse jardim? Tem até um riacho.
— Ela vai se afogar — replicou Jeanie. — George, podemos conversar?
George afastou-se da tela e girou na cadeira para fitá-la, os olhos ainda brilhando, cheios de entusiasmo.
— Você ouviu quando eu disse que não tenho qualquer intenção de me mudar para o campo?
George piscou os olhos.
— Claro que ouvi.
— Então o que você está fazendo?
— Estou procurando uma casa porque sei que é a coisa certa para nós. Claro que você levará algum tempo para se acostumar à ideia. Chanty e eu estávamos rindo sobre isso no domingo. Quando se trata de um novo projeto, você sempre precisa ser carregada, esperneando e gritando. Lembra-se da loja? — George sorria para a mulher com uma afeição que, para um observador amador, pareceria tocante. Jeanie ficou furiosa.
— Você fala como se eu fosse um bebê — reclamou ela, ignorando a observação a respeito da loja. George sempre jogava isso na sua cara como um exemplo do quanto a conhecia melhor do que ela própria. Comprar a loja fora uma sugestão dele, dez anos atrás, após o fiasco ocorrido no quarto. Eles tinham saído para um passeio e notaram que a loja estava à venda. Jeanie não o levara a sério. Ainda estava irritada com ele e entendera aquilo como uma tentativa de acalmar seu ego ferido. Mas George sabia que havia muitos anos que Jeanie tinha vontade de abrir uma loja de produtos naturais. Por fim, cedendo à mesma persuasão obstinada que o marido usava agora, ela concordara. E estava cansada de sentir-se grata a ele.
George franziu o cenho.
— Não podemos alugar uma casa em algum lugar, como planejávamos, para ver se gostamos? — sugeriu Jeanie.
George balançou a cabeça, negando com firmeza.
— Não quero uma casa de fim de semana. Alugar é perder dinheiro. Não, eu quero sair de Londres.
— E se eu não concordar?
— Mas, Jeanie, querida, isso não vai acontecer. Quando vir algumas casas à venda, você vai ficar louca para se mudar. Quer dizer, o que há aqui que não a agrada? — George apontou para a casa na tela. — Chanty concorda que o plano é brilhante — acrescentou ele, para reforçar sua ideia.
— George, não estamos falando da vida de Chanty.
— Apenas concorde, sim? Confie em mim. Vamos ver algumas propriedades e depois decidimos, está bem?
Jeanie desistiu. Por um instante, teve uma visão terrível de si mesma, rodeada do que Rita denominava “lama e pessoas que julgam os outros pelas roupas”, sem saber como fora parar ali. E de George, claro.