Encontros no Parque
Capítulo 11
— Olá, querida, o que aconteceu? — Quando atendeu o telefonema da filha, Jeanie estava equilibrada em uma escada, guardando parte do estoque nas prateleiras sobre a geladeira da loja. Depois de seu aniversário, a semana na loja foi uma loucura. Jola estava convencida de que o inesperado clima quente fazia com que todos deixassem o corpo mais à mostra e, por isso, houve uma grande demanda por suco de goji, suplementos anticelulite, ameixas, alfafa, farelo de trigo e vegetais para saladas.
— Você pode ir à minha casa quando sair do trabalho?
Chanty parecia tensa. Jeanie se perguntou se Alex estava causando problemas de novo.
— Aconteceu alguma coisa? Ellie está bem?
— Não posso falar agora.
— Está bem. Vejo você mais tarde. Ah, Chanty, devo levar seu pai?
— Não. — Ela parecia quase em pânico. — Não. Venha sozinha.
Jeanie desligou e examinou o relógio. Só faltavam dez minutos para fechar a loja.
— Boa tarde, Jean. — Uma mulher gorda de meia-idade, usando um grande chapéu de sol, a espreitava.
— Olá, Margot, em que posso ajudá-la? — Jeanie suspirou baixinho ao descer a escada, sabendo que a cliente esperava que ela ouvisse uma ladainha sobre suas indisposições, joelhos rijos, sinais doloridos na pele e inchaços. Ao longo dos anos, a cliente experimentara todos os suplementos existentes, mas nunca por tempo suficiente para ver qualquer benefício, e agora certamente queria conversar sobre a última cura milagrosa publicada nos jornais.
Margot meneava a cabeça com o jornal local na mão.
— Descobri esta nova pesquisa — começou ela.
— Parece que não estou com muito tempo, Margot. Preciso fechar a loja e encerrar o caixa.
Margot pareceu desapontada e fitou o relógio na parede atrás do balcão.
— É a minha neta. Eu preciso ir. Pode voltar amanhã?
Margot fingiu analisar a sugestão.
— Acho que sim... Pode ir. Eu sei como é com os pequenos.
Chanty e Alex pareciam nervosos.
— Onde está Ellie? — perguntou Jeanie, notando que eram só seis e meia.
— Nós a colocamos na cama mais cedo. Não queríamos que ela ouvisse a conversa — respondeu Chanty, dando a entender que o assunto seria difícil.
Os três continuaram ali, desconfortáveis, na sala de estar.
— O que está acontecendo? — perguntou Jeanie, com o coração acelerado.
Ela viu Chanty contorcer os lábios.
— Mãe, isso é difícil... — Ela olhou para o marido, mas Alex tinha o olhar perdido, apoiado, como sempre, na prateleira sobre a lareira, sustentando-se numa perna e esfregando um pé na panturrilha da outra.
— É sobre Ellie. Ela tem falado sobre um homem...
“Não”, pensou Jeanie, olhando imediatamente para Alex, que se recusava a encará-la. Ela esperou.
— Ellie disse que esse homem, a quem chama de “Way”, segura ela no colo e a acaricia.
Jeanie achou que explodiria. Ela caiu, sentada, no sofá.
— Eu não acredito — afirmou, com frieza.
Jeanie viu a expressão abalada da filha.
— Mãe?
— São mentiras — afirmou Jeanie, sem rodeios.
— Mãe, foi Ellie quem disse. Você está dizendo que não acredita na sua neta?
— Ela contou isso a você? — perguntou Jeanie com muita calma.
— Não, ela contou a Alex.
— Certo. — Ela respirou fundo algumas vezes, ciente de que estava a ponto de dizer coisas que nunca seriam esquecidas.
— Obviamente ficamos muito preocupados. Alex disse que você e esse homem, Ray, marcam encontros no parquinho.
— Você ouviu isso de Ellie? — interrompeu-a Jeanie. Ela percebeu que Chanty entendeu o que ela queria dizer e observou o rosto da filha enrijecer.
— Não vou pedir a uma criança de 2 anos para repetir algo tão angustiante. Está sugerindo que Alex inventou essas coisas?
— Estou sugerindo que ele está errado. — Suas palavras eram lentas e controladas. — Alex?
Alex se afastou. Jeanie concluiu que ele achara sua posição proeminente demais, pois se sentou no braço da cadeira de Chanty, posicionando-se atrás dela.
— Eu sei o que ela disse.
— E o que ela disse? Conte exatamente o que Ellie disse. — Jeanie sabia que sua voz era ameaçadora, mas não se importou.
Alex pigarreou.
— O que Chant acabou de dizer: que Ray estava sentado e segurou-a no colo.
— Ellie disse isso? Você está absolutamente certo de que ela disse isso?
Alex confirmou com um aceno de cabeça e afastou o olhar.
— Não com essas palavras exatamente. Não me lembro com precisão, mas essa era a essência.
Jeanie virou-se para a filha, perguntando-se como ela não percebia que o marido estava mentindo.
— Vou dizer isso apenas uma vez. — Ela encarou Chanty, sabendo que seus olhos brilhavam, intensos, na sua necessidade de contar a verdade. — Eu nunca, nem uma vez, em nenhuma ocasião, perdi Ellie de vista quando ela estava sob meus cuidados. E nem uma vez Ray encostou sequer um dedo nela. Ele nunca segurou a mão dela, pegou-a no colo ou colocou-a no balanço. Ele mal fala com ela, exceto para dizer “olá” e “até logo” ou para entregar a ela seu suco de maçã. Nunca, nada. — Jeanie inspirou fundo. — E tem mais... — Ela se virou para a filha, cujo rosto era inexpressivo enquanto a mãe falava. — Vocês devem saber que cada célula do meu corpo é dedicada a Ellie, que eu daria minha vida para protegê-la de qualquer mal, por menor que fosse. Portanto, não vejo como vocês podem acreditar que eu permitiria algo assim, que um estranho pudesse molestar minha neta na minha presença.
Chanty respirou fundo.
— Não dissemos “molestar”. — O olhar que ela lançava para o marido era duvidoso, confuso.
— Sim, vocês disseram “molestar”. Foi exatamente isso que vocês disseram.
— Mãe, você precisa admitir que é preocupante. Eu fiquei furiosa quando Alex me contou. Essas coisas acontecem sem as pessoas verem.
— Nada aconteceu. E não sou uma “pessoa” qualquer. Sou sua mãe, e Ellie é minha neta.
— Eu sei, mãe, e confio em você. Não confio nas outras pessoas. E é fácil acontecer alguma coisa se, digamos, você for ao banheiro, for comprar algo para beber ou virar as costas mesmo por um instante. Você pode não ter consciência. — Chanty fitou Jeanie, séria.
— Não estou senil, pelo amor de Deus! Ainda tenho domínio sobre o que faço e sobre meus próprios movimentos. — “Então é isso”, pensou Jeanie. “Eles acham que sou uma velha caduca e incompetente.” — Nenhuma dessas coisas aconteceu. Repito: nunca deixei e nunca deixaria Ellie com ninguém, nem por um instante. Eu simplesmente não faria isso. Sou muito mais paranoica que você.
Chanty parecia querer acreditar nela.
— Talvez Alex tenha entendido mal.
— Eu ouvi o que ouvi — repetiu ele com tristeza, mas suas palavras não traziam nenhuma convicção.
— Simplesmente não sei por que Ellie diria algo que não aconteceu — continuou Chanty.
— Nem eu. — Jeanie olhou fixamente para Alex e suspirou. — Veja bem, eu entendo que você esteja preocupada, querida, mas o que quer que Ellie tenha dito não aconteceu sob minha guarda.
— De qualquer modo, quem é esse homem? — perguntou Chanty.
— Ele tem uma escola de aikido em Archway. E cuida do neto nas tardes de quinta-feira para a filha. Pelo que vejo, é uma pessoa muito decente. As crianças brincam juntas.
Jeanie não disse mais nada, esperando que fosse o suficiente. Sua relação com Ray podia ser errada, mas isso era outra questão. Seu rosto ardia, mas era de raiva, não de culpa.
— De qualquer modo — retrucou Chanty —, prefiro que você não encontre com ele quando estiver com Ellie. — Pelo tom de voz, ela parecia dar um sermão na mãe, como uma diretora de escola repreendendo um aluno desobediente.
Jeanie sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
— Chanty, se você não confia em mim, não vou mais cuidar de Ellie. Não quero que se preocupe sempre que eu sair com ela.
Jeanie observou Alex, esperando que ele a fitasse. Por que ele está fazendo isso? Não vê que seria ruim perder até mesmo uma tarde livre?
— Alex? — Chanty finalmente decidiu que seu marido deveria compartilhar a responsabilidade com ela.
— Tenho certeza de que Jean só pensa no melhor para Ellie, mas me sentirei melhor se souber que esse homem, Ray, está longe da minha filha — declarou ele, de forma presunçosa.
— Ele não tocou nela! Vocês não ouviram uma palavra do que eu disse? — Jeanie elevou o tom de voz e soube que chegara ao seu limite. Ela se levantou para ir embora.
— Mesmo assim — acrescentou Alex —, você não sabe muito sobre ele.
Chanty também se levantou.
— Tenho certeza de que você compreende, mãe.
Jeanie deu um beijo formal na filha.
— Se não confia em mim, você não deveria me deixar solta com a sua filha por aí — repetiu.
— Mãe, eu já disse que é claro que confiamos em você. Não é, Alex?
Jeanie o viu acenar com a cabeça, confirmando.
— Por favor, não deixe essa questão atrapalhar nossa relação. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo.
Jeanie fitou-os com um olhar duro.
— E vocês acreditam quando digo que Ray nunca tocou em Ellie, nem mesmo de maneira apropriada? Digam que não estão pensando em levar essa história adiante.
Ambos concordaram, mas de maneira duvidosa. Jeanie percebeu que Chanty não sabia o que pensar.
— Por favor, não conte ao papai. Isso só vai preocupá-lo. — Chanty baixou a voz ao levar Jeanie até a porta, dando-lhe a certeza de que a filha tinha dúvidas sobre o relato de Alex.
Naquela quinta-feira, Jeanie levou a neta a outro parquinho, que ficava no lado oposto de Crouch End. Não contou a Ray; não sabia o que dizer. “Não podemos nos encontrar. Minha família pensa que você é um pedófilo.” Como dizer isso a alguém? Sabia, contudo, que o breve romance precisaria terminar. Se isso ameaçava seu relacionamento com sua filha, impedia que Jeanie visse a adorada neta e colocava em risco a vida e a carreira de Ray, não podia valer a pena. Jeanie ainda tremia de raiva quando imaginava o rosto culpado de Alex, preocupada por não ter conseguido convencê-los. Queria conversar com Ray, mas, além de estar muito envergonhada pelo comportamento de sua filha e de seu genro, sabia que, se falasse com ele, se ouvisse sua voz, enfraqueceria. A família precisava ser sua prioridade.
— Três ratinhos, três ratinhos — cantava Jeanie enquanto elas desciam Hornsey Lane sob o calor do sol de maio, esperando que Ellie a acompanhasse na cantoria.
— Osa, azul, caamelo — cantou a menina, com o chapéu de sol balançando de um lado para outro. — Osa, azul, caamelo… — Jeanie limitou-se a sorrir com prazer, sem nenhuma intenção de trocar “caramelo” por “amarelo”.
Quando elas chegaram ao portão do parque Priory, o celular de Jeanie tocou. Era uma mensagem de Ray.
Você vem? Eu trouxe morangos.
Morangos de aniversário. Resoluta, ela guardou o celular no bolso da calça de algodão.
— Gin, olha! Olha, Gin! — Jeanie seguiu a direção do dedo da neta.
— Uma caixa de areia. Quer ficar na caixa de areia? — perguntou a avó.
Ellie respondeu que sim.
— Balde... — Ela apontou para um balde. — Balde laanja... Areia cai... — Ela começou a colocar areia no balde e a jogar tudo fora outra vez. Isso a ocupou durante algum tempo, até um menino se aproximar e pegar o balde.
— Meu — declarou ele, mas Ellie não soltou a alça azul.
— Nããão, Gin! Balde não é do minino, é meu, meu. — Seu grito ficou mais forte quando o menino conseguiu pegar o balde laranja. Ellie levou horas para se acalmar, e, quando finalmente conseguiu, seu rosto estava vermelho e suado, com os cachos grudados na cabeça. Havia areia entre os dedos das mãos e dos pés e nas perninhas nuas.
— Sorvete! — anunciou Jeanie alegremente, mas seu coração não estava ali. Ela olhava ao redor, com a esperança ridícula de ver Ray surgir pela grama na sua direção.
— Minino feio. — Ellie não parava de dizer, queixosa, com os olhos castanhos ainda cheios de sofrimento. — O menino feio levou meu balde.
— O balde era dele — repetiu Jeanie. — Vamos trazer o seu balde da próxima vez — prometeu ela, sabendo que isso não fazia sentido para uma menina de 2 anos.
Elas se sentaram num banco enquanto Ellie tomava sorvete de chocolate em um copinho de papel, usando uma colher de plástico e fazendo com que a tarefa durasse horas. Quando chegou ao fim, seu rostinho estava coberto com uma barba de chocolate.
— Mais? — pediu ela, esperançosa, estendendo o braço com o copinho para Jeanie.
Jeanie riu.
— Não, querida, um é suficiente.
— Cadê Din? — perguntou a menina, que começou a soluçar. — Soluço — anunciou, sorrindo.
— Ele não pôde vir hoje.
— Tá bem... Din bincar comigo — disse ela. Quando Jeanie não respondeu, ela repetiu: — Gin, Gin, Din binca comigo. Perna faz dodói quando a bola bate.
— Sim, querida, mas agora sua perna está boa, não é?
Ellie parecia em dúvida e levantou a bainha da saia para mostrar um machucado invisível.
— Perna está dodói igual papai quando ele era mininapiquena.
— Menino pequeno — corrigiu Jeanie, sorrindo para si mesma.
Ela pegou a neta no colo e, com muita delicadeza, limpou o sorvete no seu rosto com um lenço umedecido. Ellie lutou e gritou, mas Jeanie não cedeu. Depois, segurou a neta nos braços e afastou o cabelo úmido colado na testa. A ideia de que alguém pudesse fazer algum mal a ela deixou Jeanie quase enojada. O que Alex fez foi uma maldade. Ou ele realmente achou que a filha estava sendo abusada?
— Eu amo você — sussurrou ela entre os cabelos de Ellie.
— Encontrei uma casa! — Exultante, George pulou da cadeira na varanda ao ouvir Jeanie chegar e correu para a cozinha com seus braços e pernas compridos, balançando uma folha em frente ao rosto dela.
Jeanie pegou os óculos para ler. A casa era linda, uma antiga residência paroquial ao pé das montanhas Blackdown, com cinco quartos, uma sala íntima etc.
— É perfeita. Satisfaz a todas as nossas necessidades e está sendo vendida por um preço ótimo.
— Que bom. — Naquele momento, Jeanie não se importava se ia morar nas ilhas Hébridas. Pelo menos uma mudança a levaria para longe de Ray. Ele lhe enviara mais duas mensagens — Como vão as coisas? Bjs e Diga alguma coisa! Bj —, mas ela não respondera.
— Pense em como vai ser maravilhoso morar no campo quando o tempo estiver quente como hoje! — disse George, balançando diante do rosto um monte de papéis impressos como se fosse um leque.
— Só fica quente assim no começo de maio a cada dez anos. E dura dois dias. Não vale a pena nos mudarmos para Dorset por esse motivo.
— Somerset... Essa casa fica na divisa entre Somerset e Devon. Você parece exausta. Vou pegar uma bebida para você. — George a examinou até Jeanie desviar os olhos. — Vou preparar um chá gelado.
Jeanie aceitou.
— Vá para a varanda, minha velha. Já, já eu levo o chá.
A atenção de George fazia Jeanie sofrer. Ela conhecia o motivo desse comportamento. Desde a noite da festa, ele a tratava como se ela fosse feita de vidro.
— Acrescentei um pouco de menta. E Ellie? Como está?
— Bem. Adorável como sempre. — Jeanie contou sobre o menino e o balde. Eles riram juntos.
“É assim que vai ser”, pensou Jeanie enquanto bebia seu chá. “Só isso, só nós.”
— Jeanie... — George estava sério. — Você já está aceitando essa mudança, não é?
Ela deu de ombros.
— Acho que essa mudança pode ser uma nova chance para nós — prosseguiu ele. — Você sabe... Sair daqui, começar uma nova vida.
— Não há nada errado com a nossa vida, George.
Ele pareceu aliviado.
— Que bom que você pensa assim. Mas imagine como seria melhor viver aqui — sugeriu, apontando para a fotografia.
— Você nem viu ainda. A casa deve ficar na beira de um penhasco.
— Se não for essa, então que seja outra. — George sorriu, encorajador, e Jeanie lamentou não se entusiasmar como ele. Não queria ser uma estraga-prazeres, queria... O que ela queria?
— Vou visitar a casa no sábado. Você me acompanha?
— Sábado é meu dia mais cheio.
George murchou.
— Então domingo. Vou transferir para domingo.
— Está bem. Agora vou subir e tomar um banho para me refrescar. — O sol estava se pondo e o calor finalmente começava a diminuir. Quando se virou para subir, Jeanie viu o olhar de súplica do marido, mas não havia nada, ao menos nada sincero, que ela pudesse dizer para ajudar.
Na manhã seguinte, Jeanie chegou à loja cedo. Tinha um encontro com Tony, seu contador, no centro da cidade e precisava pegar uns documentos. Enquanto guardava os papéis em sua pasta, desviou os olhos e levou um susto. O rosto de Ray estava encostado no vidro da porta da loja.
— Que diabos, você me assustou! — disse ela, ofegante, ao abrir a porta.
Ray riu.
— Pelo menos você ainda está viva.
Fez-se silêncio entre eles.
— Jeanie?
— Estou atrasada. Preciso ir.
Ray ficou intrigado.
— O que foi? Está acontecendo alguma coisa?
— Não posso mais vê-lo — disse Jeanie, rapidamente, sem conseguir encará-lo.
— Está bem... — As sílabas pareceram se prolongar. — Vai me contar o porquê?
Ray estava absolutamente imóvel no centro da loja, com os braços cruzados, observando-a reunir o resto dos papéis espalhados sobre o balcão.
— Já disse que estou atrasada — insistiu Jeanie. — Preciso ir.
Sem dizer nada, Ray encaminhou-se para a porta e abriu-a para Jeanie. Ela procurou as chaves no bolso do terninho, mas não as encontrou. Procurou na bolsa, que era enorme, atirou a pasta de documentos no balcão e procurou nos cantos. Nada.
— Jesus! — Ela começou novamente a procurar na bolsa. Suas mãos tremiam, mas ela se mantinha nessa busca obstinada, uma busca que parecia um fim em si mesmo, que continuaria para sempre, mesmo depois que as chaves fossem encontradas.
— São estas? — Ray segurava-as na mão direita.
Jeanie limitou-se a olhar para ele, sem confiar em si mesma para falar, com o coração batendo forte e constrangida diante de tanta proximidade.
Ray não se moveu, apenas estendeu as chaves para ela.
— Estavam na prateleira — explicou numa voz suave.
Como Jeanie não as pegou e limitou-se a fitá-lo, Ray depositou-as sobre a pasta de documentos.
— É melhor eu ir embora — disse ele.
Tudo pareceu desacelerar quando ele se dirigiu para a porta. Foi como se cem anos tivessem passado até Jeanie ouvir uma voz fraca, que reconheceu como sua.
— Ray... Eu tenho de ir. Estou atrasada para um encontro com meu contador.
Ray acenou com a cabeça e sorriu.
— Eu acredito em você.
— Pode me encontrar mais tarde? Na cidade? Em algum lugar longe daqui?
— Não está furioso? — perguntou Jeanie.
Eles estavam sentados em um restaurante japonês na esquina da Lisle Street e tomavam uma sopa de missô. O local estava lotado devido ao movimento do almoço, mas eles encontraram um lugar apertado em um canto, junto aos casacos, que lhes pareceu bom. Ray analisou por algum tempo o que Jeanie havia contado.
— Você acha mesmo que ele inventou isso?
— Ora, não aconteceu, portanto ele deve ter inventado.
— Parece uma coisa tão perversa! Imagino que Ellie tenha dito alguma coisa... Você sabe como as crianças falam nessa idade... E ele entendeu mal.
— Chanty disse o mesmo, mas não acredito. Você não viu... Ele se recusava a me encarar.
— Mas, Jeanie, a não ser que ele seja um imbecil, é estúpido dizer que você deixou um homem abusar da filha dele. Por que ele faria isso? — Apesar da voz firme, Jeanie percebeu que Ray estava preocupado. — Eles não vão levar isso adiante, não é?
— Segundo eles, não. Creio que convenci Chanty. — Jeanie meneou a cabeça, exasperada. — Ainda não consigo acreditar que ele falou isso, assim, do nada.
Ray tomou um gole de cerveja enquanto ambos permaneciam em silêncio.
— Um rumor desses arruinaria minha vida — comentou ele após algum tempo, passando a mão pelo cabelo grisalho, em um gesto que Jeanie aprendera a amar. — Natalie não me permitiria ver Dylan, e isso acabaria com minha escola. Ninguém precisa provar nada. Um boato seria suficiente para me destruir.
Jeanie concordou.
— Eu sinto muito.
Ray respondeu com um sorriso amargo.
— Como se fosse culpa sua.
— É minha família.
— Então você não acredita que Ellie tenha falado alguma coisa?
A garçonete estava ao lado da mesa, trazendo os pedidos, mas ambos olharam para a comida com a mesma indiferença.
— Ela pode ter mencionado você. Ellie adora você e Dylan. Vocês a fazem rir. Mas as histórias que ela conta envolvem todas as pessoas que conhece e não fazem sentido. Ela é pequena demais para saber que sentar no colo de alguém pode ser um problema. De qualquer modo, isso é irrelevante. Ela nunca esteve no seu colo. — Jeanie tirou a jaqueta, subitamente com muito calor.
Ray parecia obviamente perplexo.
— Você acha que outra pessoa, outro homem, pode estar envolvido? Que ela tenha confundido as pessoas?
Jeanie não tinha pensado nisso e examinou as possibilidades.
— Ela só sai comigo, George e Alex. — Jeanie pegou arroz e frango com o hashi. — É claro que eles a pegam no colo.
Ray dirigiu-lhe um olhar questionador, e ela riu.
— Não, realmente não acho que meu marido possa ser um molestador de crianças, nem meu genro.
— Só um mentiroso.
— Mas a verdade nem sempre é relevante, não é?
As palavras ficaram no ar. Ambos sabiam o que ela queria dizer. O prazer momentâneo que Jeanie sentira ao se sentar em frente a Ray se perdera.
— Nunca fui chantageado na minha vida — declarou Ray. Ele estava desnorteado e não sabia o que fazer. Sua calma estudada o abandonara temporariamente. Jeanie observou quando ele inspirou lentamente e pareceu refugiar-se em si mesmo por um instante. — No aikido, somos ensinados a ver nosso atacante como alguém que perdeu contato com sua natureza, não como uma pessoa perversa. Não tem a ver com combate, mas com autodefesa. Nós usamos o peso do corpo do atacante para desviar o ataque.
— Parece admirável, mas não vejo como isso poderia ajudar se Alex não está vindo para cima de você com um facão.
Ray deu de ombros.
— Eventualmente, ele vai revelar suas intenções.
Ray fez menção de segurar a mão de Jeanie, mas ela a recolheu sob a mesa.
— Você sabe que não podemos nos encontrar. — Ela percebeu que suas palavras soavam tolas.
Ray não disse nada, baixando a cabeça.
— Mais chá? — A garçonete balançava uma grande chaleira de cerâmica. Ambos aceitaram, embora não tivessem terminado a xícara anterior.
— Ray, essa história me assusta. Sua vida e meu casamento estão em jogo. Deus sabe como Chanty reagiria se descobrisse que estou traindo o pai dela. Eu não suportaria perder Ellie novamente. Não pode valer a pena.
Ela o fitou de modo suplicante, mas encontrou nos olhos verdes um ar divertido.
— O que nós somos? Dois velhos rabugentos agindo como adolescentes num namoro destinado ao fracasso.
Jeanie achou graça e, por um instante, nada mais importou.
— Sem o “velhos rabugentos”, por favor — pediu ela.
— Jeanie, é nossa vez de viver, não acha? Nós já fizemos nossa parte, tanto em relacionamentos como para a família, sendo que, no meu caso, talvez sem muito sucesso. Mas você fez a coisa certa, sempre esteve presente. E, então, de repente, surge esta ligação poderosa, que não esperávamos. — Ray baixou a voz. — Penso em você o tempo todo, Jeanie. Talvez não seja bom dizer isso a você, mas...
Jeanie sentiu-se corar.
— Sei que não sabemos tudo sobre o outro, mas isso não parece importar — continuou ele. — O que vou falar é um clichê, mas você faz com que eu me sinta novo, como se todos os dias fossem ótimos. Isso é amor? Não faço ideia, mas definir o que é não parece importante.
Por um momento, não falaram. A palavra “amor” ficou entre eles, delicada demais para ser mencionada.
Depois de um instante, Ray acrescentou:
— Só estou dizendo que... — Ele fez uma pausa e lançou os braços para o ar em sinal de frustração. — É simples: não ver você é uma opção muito triste para mim.
— O que eu posso fazer? — perguntou Jeanie, a voz frágil.
Ray tomou-lhe as mãos. Eles esqueceram a comida; os outros clientes transformaram-se em ruídos ao fundo.
— Jeanie, não podemos fazer nada. Não há um plano que possa resolver tudo. Nós simplesmente temos de viver com isso, lidar com os fatos quando eles surgirem. Se você precisar se afastar, então será assim, e terei de me conformar com a situação. — Ele fez uma pausa e apertou as mãos dela. — Mas isso é tão precioso...
Ray gentilmente enxugou a única lágrima que escapou ao controle de Jeanie.
— Ultimamente, estou sempre chorando — murmurou ela, irritada.
Ray retraiu-se.
— Eu já disse que jamais vou pressioná-la. Não seria justo. Você tem um casamento a perder.
— Não podemos mais nos encontrar junto com as crianças.
— Claro que não.
Ele parecia aguardar as palavras de Jeanie, mas ela não sabia o que dizer.
— Mas eu a verei de novo? — perguntou Ray.
Jeanie balançou a cabeça.
— Num instante, digo que não posso; no seguinte, não consigo resistir a você...
Ray sorriu ao ouvi-la, mas era um sorriso nervoso.
— Mas...
— Mas o que acontecerá depois? Nós nos encontramos para um drinque, mas queremos e teremos mais. E depois?
Ray sorriu.
— Não posso responder, Jeanie.
— Não é engraçado.
— Pode não ser, mas também não parece um desastre, não é?
Jeanie parecia incapaz de pensar mais. Ela examinou o relógio.
— Preciso voltar. Podemos conversar sobre outro assunto? Alguma coisa normal como...
Eles se olharam e começaram a rir.
— Política ou o clima não são meus assuntos prediletos atualmente. A única coisa que quero é beijar você. — Ray ergueu as sobrancelhas com ar questionador.
Jeanie olhou ao redor, cheia de pânico.
— Não aqui.
— Onde, então?
— Estamos velhos demais para um beijo em público.
Ray caiu na gargalhada.
— Acho que a maioria das pessoas está, mas isso certamente limita as opções em Chinatown. — Ele fez um sinal para a garçonete trazer a conta. — Então, em teoria — sussurrou ele —, você gostaria de me dar um beijo?
Sem afastar os olhos, Jeanie sentiu uma onda de desejo que, contra sua vontade, deixou-a levemente ofegante. Pela expressão de Ray, viu que ele não precisava de uma resposta.