Encontros no Parque

Hilary Boyd · Capítulo 21 de 24

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Encontros no Parque

Capítulo 21

 

Com o avançar do outono, Jeanie concluiu que preferia o distanciamento que a doença de George provocara entre eles. À medida que se recuperava, ele começou a exigir mais da esposa, a cobrar atitudes com as quais ela teria concordado alegremente um ano atrás — nada além de trocas normais entre marido e mulher. Mas Jeanie não queria fazer sexo com George, nem dormir na mesma cama que ele, não queria desistir da loja (ele agora insistia nisso diariamente), não queria se relacionar com a população local nem acompanhá-lo aos inúmeros centros de jardinagem para escolher plantas e estátuas de pedra. Sabia que não estava sendo razoável (afinal, não era uma vida tão ruim assim) e não perdia as esperanças de que seus sentimentos mudassem com o passar do tempo.

Enquanto isso não acontecia, Jeanie se reprimia e tentava se convencer de que sua vida podia continuar mesmo sem ter a esperança de uma relação com Ray. No entanto, a imagem dele com a jovem ainda a atormentava, como se estivesse alojada em uma enorme moldura na parede de sua mente.

— Quer que eu prepare o quarto de hóspedes? — perguntou Sally.

— Eles vão preferir o quarto dos fundos, que é maior — disse George, entrando na conversa.

— Mas aquele não tem vista — ponderou Jeanie, embora pouco lhe importasse onde Rita e Bill dormiriam. Tudo o que lhe era solicitado parecia uma imposição. Fazia suas tarefas diárias com tédio, sonhando com a chegada da manhã de quarta-feira, quando podia fugir para a loja, embora agora só passasse uma noite por semana em Londres, não duas — George insistira, e Jeanie cedera, querendo evitar ao máximo a pressão para que a loja fosse vendida.

— Mas é um quarto muito melhor. — George acenou para Sally como se a questão estivesse decidida, e Sally aceitou o resultado sem mais interferências por parte de Jeanie.

O casal chegou tarde, em meio a um temporal, na noite de sexta-feira.

— Caramba, querida! Isso é mesmo o fim do mundo... — sussurrou Rita para a amiga quando se abraçaram.

Jeanie tinha feito uma torta de peixe, mas o forno demorara a esquentar. Eram quase dez horas quando se sentaram à mesa da cozinha para comer, sendo que, a essa altura, já tinham consumido uma boa quantidade de Rioja.

— Jeanie detesta isso aqui. — A voz de George parecia suave, quase bem-humorada, mas Jeanie detectou um sarcasmo hostil.

— Eu não detesto — reagiu ela.

— É claro que ela detesta. — Rita, já bastante alcoolizada, falou em tom mais alto. — Quem não detestaria? É o campo. — Ela riu quando Bill balançou a cabeça em sua direção.

— Lamentavelmente, não é o campo que ela odeia. — George triturou uma quantidade generosa de pimenta sobre sua torta, mantendo o tom agradável e informal. — Sou eu. — Ele parecia esperar que todos reagissem com uma risada, mas o comentário foi tomado ao pé da letra e fez-se um silêncio mortal. O choque os tirou do estado de embriaguez.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Jeanie, com o coração acelerado. Rita lançou-lhe um olhar enquanto Bill descobriu algo fascinante ao lado das ervilhas em seu prato.

— Eu quero dizer, minha velha, que você se cansou de mim. — Ele ergueu as sobrancelhas para ela. — Não posso culpá-la. Faz tempo que não sou o mesmo.

O silêncio se estendeu. Apenas George ainda comia, calmamente, como se tivesse falado sobre o tempo.

— Você está bêbado — murmurou Jeanie.

— Eu posso estar bêbado, mas amanhã vou estar sóbrio, e você ainda me odiará — retorquiu ele, parodiando a famosa frase de Churchill.

Mas ninguém riu.

— Não seja ridículo. É claro que não odeio você.

— Para com isso, George. Jeanie tem razão. Você está falando porque bebeu demais — interferiu Bill, sempre a voz da razão.

George virou-se para ele, que estava sentado à sua esquerda.

— Não posso dizer essas coisas a ela. É muito difícil. — Ele começava a misturar as palavras.

Jeanie se retraiu. George parecia patético e vulnerável.

— Agora — disse Rita —, podemos conversar sobre a feira dos agricultores que visitaremos amanhã ou ir para a cama e esperar que tudo melhore depois de uma boa noite de sono. — A opção de Rita era evidente, pois, enquanto falava, levantou-se e rapidamente começou a tirar os pratos.

George continuou sentado à cabeceira da mesa sem dizer nada. Somente quando Rita e Bill subiram, ele voltou a falar.

— Lamento ter estragado o jantar.

Jeanie, que estava em frente à pia, virou-se e apoiou as costas na bancada enquanto tirava as luvas amarelas de borracha.

— Acha mesmo que odeio você? — perguntou ela com a voz suave.

George a fitou com seus olhos de coruja.

— Talvez odiar seja uma palavra forte demais, mas você não parece ter nenhum prazer no nosso casamento.

Jeanie não retrucou.

— É verdade, não é? Você não quer fazer amor comigo. Continua presa à loja como se ela fosse sua tábua de salvação. Vi seu rosto numa manhã de quarta-feira; você parecia estar naquele filme Fugindo do inferno. Nós mal nos falamos hoje em dia. Tenho a sensação de que você não quer estar aqui comigo. — A fala dele já não era confusa.

— Não tem sido fácil — replicou Jeanie, devagar e medindo as palavras. — Como você sabe, eu não queria me mudar. E não quero desistir da loja. Você achou que eu mudaria de opinião. Pois bem, isso ainda não aconteceu.

George saiu da mesa, aproximou-se e abraçou-a.

— Mas e o sexo? Você fica deitada como se estivesse morta. Não sente mais atração por mim?

Jeanie estava tensa com o abraço de George.

— George, tem sido uma adaptação muito grande. Não sei o que sinto, ainda mais com tudo o que aconteceu. Na verdade, estou sem forças. Estou simplesmente exausta.

— Então você precisa de tempo? É isso que está querendo dizer?

Jeanie confirmou, em silêncio, fazendo tudo para conter as malditas lágrimas ao menos dessa vez.

— Não tem nada a ver com aquele outro cara, não é? — perguntou George. — Você se encontra com ele quando vai a Londres?

— É isso o que você acha? Não, claro que não. Não o vejo há meses.

— Então aquilo acabou?

— Totalmente.

— Está bem. — George recuou quando ela o afastou, irritada. — É que você parece sempre tão ansiosa para ir a Londres que supus que talvez houvesse mais do que só a loja.

— Não é “só” a loja, George. É meu trabalho, minha paixão.

— Mas você não pode achar aqui uma loja para se apaixonar? É um absurdo ir todas as semanas para tão longe quando podia fazer a mesma coisa em Axminster ou Honiton. Eu posso ajudar a procurar.

Jeanie colocou as mãos na cabeça.

— Por favor, por favor, pare de implicar com a loja. Eu vou resolver isso em breve, mas agora dá para você esquecer esse assunto?

George assentiu.

— Só mais uma coisa. O sexo. Você...

Jeanie esperou, segurando a respiração.

— É por causa do que contei? O assunto Acland?

— Não é assim que você deve falar, George. Chame pelo nome certo: abuso — repreendeu ela, sem querer ser má com o marido, mas odiando a eterna recusa dele a lidar com a questão. — Claro que não é por causa do que você contou. Como pode imaginar uma coisa dessas?

George deu de ombros.

— Eu não sei. É tão asqueroso que imaginei que talvez você estivesse com nojo de mim.

Foi a vez de Jeanie oferecer-lhe um abraço. George aconchegou-se nos braços da esposa e relaxou junto ao seu corpo.

— Não tem nada a ver com isso. Desculpe. Não tenho sido eu mesma ultimamente, mas, para ser justa, você também não.

— Mas você ainda me ama, não é?

— Sim — assegurou-lhe Jeanie como se falasse com uma criança. — Sim, eu ainda amo você, George.

Todas as noites, Jeanie temia ir para a cama porque George também estaria lá. Logo que se mudaram, ela permitira a ele partilhar sua cama. Afinal, ele estava doente, e ela ficava preocupada, mas logo George deixou claro que estava gostando.

— É mais aconchegante — explicara ele. — Eu detestava dormir sozinho.

— Mas você dormiu sozinho durante dez anos. Não podia detestar tanto assim — retorquira Jeanie.

— Somos marido e mulher, Jeanie. É isso que as pessoas casadas fazem: dormem juntas.

— Dizer que é isso que as pessoas casadas fazem é um péssimo argumento.

— É porque eu ronco?

— Em parte — mentira Jeanie. Ainda que o ronco a incomodasse, não era o motivo para ela querer ter sua própria cama. Porém George, teimoso como era, recusava-se a se mudar para outro quarto.

Naquela noite, Jeanie estava tensa quando foi se deitar, pois achava que George poderia interpretar seu abraço na cozinha como um sinal verde. Quando ele se deitou, ela virou para o outro lado.

— Não se preocupe — disse George, com a voz subitamente fria. — Não vou tocá-la.

Jeanie não respondeu, mas aquela noite representou uma virada para ela.

Na manhã seguinte, ela e Rita saíram para comprar os jornais e pão.

— Não posso mais fazer isso — contou Jeanie à amiga. Parecia surpreendentemente tranquila, apesar de ter passado a noite em claro.

— Do que você está falando, querida? Dirija mais devagar; essas ruas são assustadoras.

— Não posso mais ficar com George. Vou deixá-lo.

Dessa vez, Rita ficou sem fala.

— Eu amo George, claro, da maneira como se ama alguém com quem se conviveu a maior parte da vida — continuou Jeanie. — Mas não o amo. Não como deveria, não como sua mulher. E simplesmente não consigo mais ficar nesse casamento de mentira e sem sentido.

— Que casamento de mentira? Do que está falando? Encoste o carro. Não dá para ter esse tipo de conversa nessas estradas ou vamos morrer.

Jeanie riu, ouvindo o tom de histeria na voz de Rita. Era um alívio finalmente ter certeza do que fazer. Ela encostou o carro ao lado do portão de uma casa e ouviu a lama batida, congelada durante a noite, sendo triturada pelos pneus do carro. O sol do inverno entrava pelo vidro dianteiro. Ela desligou o motor e ficou ali, sentada, com as mãos apoiadas no volante.

— Jeanie, o que aconteceu? — perguntou Rita. — Não pode ser por causa daquela conversa absurda ontem à noite. George estava bêbado, querida. Todos dizemos tolices quando bebemos.

— O que ele disse é verdade: eu deixei de gostar dele. — Jeanie olhou para a amiga. — Eu simplesmente não quero estar com ele.

— Mas todo mundo passa por períodos assim num casamento longo! Às vezes, fico farta do Bill.

— Não estou farta de George. Só não quero fazer amor com ele; tenho horror só de pensar. Não o acho interessante e estou cansada do seu jeito controlador. Ultimamente, só fico feliz quando vou a Londres.

Rita semicerrou os olhos, desconfiada.

— Isso não tem nada a ver com Ray, tem?

Jeanie suspirou.

— Você sabe que acabou. Tem a ver comigo. Sei que estou parecendo uma das convidadas da Oprah Winfrey, aquelas mulheres obcecadas consigo mesmas, mas preciso ir embora. Se não fizer isso, vou acabar apunhalando George, e ele não merece isso.

— Por que tão de repente? Achei que você estava conseguindo conduzir bem a situação.

— Eu tentei, acredite, mas ontem à noite, depois que vocês foram dormir, percebi, pelo que George disse, que ele sabe exatamente o quanto estou infeliz. Não estou conseguindo nos enganar e vi que o jogo tinha chegado ao fim.

— Hum... E quanto a ficar velha e sozinha? E como George vai viver sozinho em Somerset?

— George é um sobrevivente. Já chegamos a essa conclusão. Você mesma disse que ele sempre consegue o que quer.

Rita balançou a cabeça.

— Ele quer você, querida. Você sabe disso.

— Não como eu sou agora. Ele não é masoquista.

— Então você vai mesmo deixá-lo?

Jeanie confirmou com um aceno de cabeça e inspirou o ar frio, calma e profundamente.

— Estou impressionada. Você me surpreendeu. — Rita mantinha os olhos na amiga. — Você parece estar tão segura!

— E estou mesmo — confirmou Jeanie, sorrindo. Ela havia tirado um peso dos ombros; um peso que, agora entendia, esteve ali, fazendo-a afundar por muitos, muitos anos.

— Pobre George. Quando vai contar a ele?

— Depois que você e Bill forem embora. — Jeanie não se sentia ansiosa diante dessa perspectiva, apenas muito triste.

— Uau, que fim de semana! E aqui estava eu pensando que o campo era enfadonho. Querida, não posso ficar aqui enquanto vocês brincam de família feliz. Isso não vai acontecer mesmo. É melhor eu telefonar para Bill e pedir que ele invente que o CEO da empresa teve uma overdose.

— Sua covarde. — Jeanie sorriu com tristeza.

No caminho para casa, ficaram em silêncio.

— Não é melhor você esperar Chanty ter o bebê? — perguntou Rita subitamente.

A euforia começava a desaparecer. Jeanie já pensava no que precisava ser feito e no que precisava ser dito antes que pudesse ser livre. Não se esquecera de Chanty, do bebê que nasceria dentro de poucas semanas e de como o abandono de Alex durante a gravidez de Ellie causara um parto prematuro e perigoso. Porém, embora não quisesse fazer a família sofrer, os detalhes sobre como e quando abandonaria George não a impediriam de buscar seu objetivo.

— Tem razão, eu deveria. É claro que vou.

— Querida, por favor, pense bem em tudo isso.

Jeanie balançou a cabeça.

— Eu sei que parece repentino para você, mas não é. Essa decisão está tomando corpo há meses, talvez anos.

— Mas você não parecia infeliz antes de Ray.

— Se eu não tivesse conhecido Ray, talvez agisse com mais cautela, e minha decisão fosse mais bem-pensada. Mas faz muito tempo que não posso dizer que sou feliz com George.

— Quem é feliz? Casamentos longos não podem ser emocionantes o tempo inteiro. Em muitos casos, nunca são.

— Conheço todos os argumentos, mas o fato é que você e Bill, por exemplo, têm uma relação verdadeira. Qualquer um percebe. Estar com ele é estimulante para você. Vocês são amigos e amantes, mesmo que às vezes um irrite o outro.

Rita assentiu.

— Tem razão. Acho que temos sorte.

Jeanie parou em frente à casa. Por um instante, não se moveram.

— Como posso ficar com um homem com quem tenho pavor de fazer sexo? — perguntou ela, quase que para si mesma.

“Os melhores planos de homens e ratos, em geral, dão errado” sempre esteve entre as frases preferidas de George, normalmente repetida com um suspiro de sabedoria e um terrível sotaque escocês. Certa noite, duas semanas depois do fim de semana que Rita e Bill passaram com eles, Jeanie esqueceu seu dever para com a filha e contou toda a verdade a George.

Ela voltou de Londres na quinta-feira, pouco depois das oito da noite. George a esperava na cozinha, com uma palavra-cruzada ainda em branco e um copo de uísque, tendo como única iluminação a luz fraca sobre o fogão. Quando Jeanie entrou, ele a fitou como se fosse descobrir o segredo do universo em seu rosto. Esse monitoramento semanal já era esperado sempre que ela voltava para casa. Os olhares eram sempre acompanhados de perguntas cansativas, intermináveis, sobre o que ela tinha feito a cada minuto do tempo em que estivera longe. Jeanie detestava esse momento.

— Não me encare — repreendeu ela naquela noite.

— Não estou encarando você.

— Está sim. Você sempre faz isso.

George demonstrou indiferença e continuou encarando Jeanie.

— A viagem foi boa? — Seu tom de voz era cheio de sarcasmo.

— Muito trabalho, mas, sim, foi boa. — Jeanie notara que não podia mais ser sincera com ele sobre o trabalho, porque, se demonstrasse o menor sinal de cansaço ou reclamasse de um problema na loja, ele viria com mais uma alfinetada para ela largar tudo.

— Hoje falei com Alan. — George continuava sentado enquanto Jeanie começava a preparar o jantar. — Ele explicou que é improvável que você consiga vender a loja enquanto um negócio no atual cenário econômico, porque o dinheiro está sendo aplicado apenas nos imóveis.

— Ele falou isso? — Alan era o contador de George, um homem esperto e subserviente de quem Jeanie não gostava.

— Ele nos aconselhou a encerrar as atividades da loja e vender o imóvel. Segundo ele, o apartamento em cima é uma grande vantagem, porque pode ser vendido separado. — George rabiscou a margem da palavra-cruzada com o lápis, fazendo grandes espirais confusas que diminuíam até se tornarem um ponto definido e nervoso.

Jeanie não respondeu e continuou preparando o jantar. Derramou a sopa de agrião numa panela e levou-a ao fogão; depois, desembrulhou o queijo cheddar e o dispôs sobre uma tábua, ao lado do pão de forma integral. Enquanto fazia isso, George se levantou, sem pressa, e pegou os pratos fundos e rasos no armário.

— Quer um drinque? — Ele pegou uma garrafa em que ainda havia um pouquinho de vinho tinto e fez um gesto para Jeanie, que aceitou.

— Ele disse que vai cuidar disso para nós.

À medida que George falava, a pressão de Jeanie subia. Ela não se sentia confiante para falar. Diferentemente da casa em Highgate, que sempre fora de George, a loja estava no seu nome. Ele a presenteara quando achou que ela precisava ter “algo em que se interessar”. No início, ele a ajudava muito, contribuindo financeiramente, mas, nos últimos cinco anos, a loja começou a dar um pequeno lucro.

— Você não pode vendê-la. A loja não é sua. — Jeanie serviu a sopa para ambos e jogou a panela na pia.

George ficou em silêncio, imóvel, com a boca contorcida, batendo um dos dedos ameaçadoramente no tampo da mesa de madeira. Não havia uma forma de dominá-la, e Jeanie notou que a falta de controle o destruía aos poucos.

— Se você insistir nesse jogo comigo, fingindo que vai vender quando não tem essa intenção, vou interpretar como uma atitude muito hostil.

Jeanie quase deu uma gargalhada diante da pompa de George.

— Uma atitude hostil? O que você quer dizer com isso?

O rosto de George, normalmente muito tranquilo, ficou vermelho.

— Não me ridicularize, Jeanie. Não sou o tolo que você imagina.

— Nunca achei que você fosse um tolo, George — replicou ela, serena.

— Nós viemos para cá para nos aposentarmos. Você venderia a loja e nós faríamos a nossa vida aqui.

— Você faria. Você faria, George. Por que insiste em fingir que foi uma decisão conjunta? Você me coagiu. Eu nunca, jamais, quis vir para o campo. Entendeu? E não vou me aposentar. Não sou velha. — Ela quase gritava de frustração.

George olhou para Jeanie com pena.

— Você está sendo ridícula. Pare de gritar comigo.

— Por que você não me ouve?

— O que você está dizendo? Que vai manter aquela loja absurda e se cansar, viajando pelo campo todas as semanas, apenas para não ceder? Você é muito teimosa.

— Não se critica uma pessoa quando se tem o mesmo defeito.

— Então é isso? Você vai continuar com essa vida dupla? Eu já me ofereci para comprar outra loja para você aqui. Por que a loja de Highgate é tão especial? A não ser que você tenha outros compromissos por lá, certo? — A respiração de George era pesada; seus olhos a perscrutavam quando ele lançou esse golpe de misericórdia.

Jeanie finalmente entendeu.

— Se você desconfia de mim, e eu entendo, não há nada que eu possa fazer.

— Então você ainda está se encontrando com aquele homem?

Jeanie balançou a cabeça.

— Eu disse isso? — perguntou ela.

— Não precisava dizer. Posso ver pelo modo como está agindo comigo — afirmou George com tristeza.

— Minha forma de tratar você não tem nada a ver com ninguém além de nós.

— Sim, claro, é isso que elas sempre dizem — zombou George, com ar de desprezo.

— “Elas” quem? De quem você está falando?

— Pare de brincar comigo, Jeanie. — O tom de voz de George mudara de repente. Agora, ele implorava. — Por favor, isso é horrível. Eu tenho ciúmes, admito. Você sempre parece tão feliz nas manhãs de quarta-feira e tão triste quando volta para casa. — Ele segurava a mão dela. — Isso está acabando comigo. Não consigo dormir quando você está longe, imaginando o que está fazendo. É um inferno. — Jeanie viu as lágrimas nos olhos de George. — Eu a amo muito, Jeanie. Diga que não está se encontrando com ele.

— Sinto muito, George — disse Jeanie finalmente, com o coração aquietado pela verdade. — Não posso mais continuar.

George ficou branco.

— Não faça isso, Jeanie. Não faça uma tolice. — Sua voz era tão fraca que ela teve medo de ele ter outro colapso.

— Garanto que não estou traindo você, mas não quero esta vida. Não quero... — Jeanie não sabia como dizer aquilo a George, mas não foi preciso.

— Você não pode me deixar — disse ele, angustiado. — Não depois de todo esse tempo. É uma loucura.

Jeanie permaneceu calada.

— Eu sei que você foi feliz comigo até aquele maldito homem aparecer e seduzi-la — continuou ele. — Nós nos divertimos, não foi? Sempre achei que tínhamos um casamento melhor do que a maioria das pessoas que conhecemos. — George falava principalmente para si mesmo, tentando entender o que estava acontecendo. Ele a encarou. — Se for o sexo, podemos parar; eu posso me mudar para outro quarto. Sei que você não gosta e não posso culpá-la. Nesse aspecto, a culpa foi minha.

Jeanie começou a chorar. Sentiu uma grande tristeza, pois, pela primeira vez, de fato confrontava a ideia de abandonar George. Pensou se não estaria sendo tola ao jogar tudo fora. Talvez ainda não tivesse esquecido Ray. Será que importava mesmo não amar George o suficiente ou não o amar da forma como deveria? Estava pronta para viver sozinha? Por um instante, ficou indecisa.

— Você não pode fazer isso comigo. — George tirou os óculos antes de abaixar a cabeça, apoiá-la nas mãos, chorar e soluçar.

Naquela noite, Jeanie dormiu sozinha; George não foi para a cama dela. Mesmo assim, ela estava tensa, com o estômago revirado pela náusea.

George queria respostas. E como as respostas dadas por Jeanie não eram satisfatórias, ele começou a atribuir a culpa aos outros: “aquele canalha arruinou nosso casamento”, “você não consegue aceitar que está velha”, “você não quer admitir que sente repugnância por causa do abuso”, “Rita encoraja você a me largar; ela nunca gostou de mim”, “você está me punindo por insistir em mudarmos para o campo”, “minha doença a desgastou”.

— Não faz sentido querer colocar a culpa em alguma coisa — dizia ela. — Nós somos responsáveis pelo nosso casamento.

— Ah, por favor, você fala como um terapeuta de casais presunçoso. Então agora a culpa é minha? — replicou ele certa vez.

O desespero transformou-se em raiva. Ao longo do fim de semana, as discussões cansativas continuaram, e George ficou mais agressivo.

— Não estou culpando você. Eu disse que não faz sentido querer responsabilizar alguém.

— Pois eu me sinto “responsável”, se essa é a palavra que você quer usar, por dar a você um ótimo casamento. Não sei o que fiz para ser tratado assim. Eu sempre dei tudo o que você quis. Foi você, você, Jeanie... — George apontou o dedo para ela. — Foi você que me enganou, que me decepcionou, não o contrário. É claro que você não quer falar sobre culpa.

Tentando manter a calma, Jeanie esperou um pouco antes de responder. Viu que não fazia sentido querer que George entendesse, pois qualquer coisa que ela dissesse só pioraria a situação. Mesmo assim, sua frustração era tanta que ela estava a ponto de descrever nos mínimos detalhes a parte que cabia a ele na felicidade do casal.

— E então? Você não tem nada a dizer sobre esse assunto, não é?

Jeanie se levantou para sair da cozinha, que se tornara um campo de batalha. Quando chegou à porta, sentiu a mão de George segurando seu braço e girando-a para que ficasse de frente para ele. Ele a imobilizou; seus olhos brilhavam, cheios de ódio.

— Não se afaste de mim. Não vou deixar você ir embora enquanto não me der uma explicação satisfatória. Você me deve isso, Jeanie. Depois de todo esse tempo, você me deve isso. — Ele apertou mais os braços dela. — É aquele canalha, eu sei que é. Você ainda está se encontrando com ele. Toda essa conversa fiada de responsabilidade conjunta é só um truque para me enganar. Admita! Admita logo! — George começou a sacudi-la.

— Me solta!

— Diga. — A voz de George já não passava de um murmúrio desesperado quando ele a soltou e afundou na cadeira mais próxima.

Na terça-feira à noite, Jeanie arrumou uma mala com a maior parte de suas roupas.

— Vou ficar no apartamento por algum tempo — informou ela.

— Algum tempo? — perguntou George.

Ambos estavam emocionalmente exaustos e haviam optado por conviver em um silêncio pesado. Quando falava, George a importunava repetidamente para que explicasse a situação. Ela não o fazia porque não tinha coragem de ser cruel.

Mas talvez devesse ter lhe dito a verdade nua e crua: “Encontrei em Ray o que nunca encontrei em você, e, embora ele não esteja mais livre para mim, agora percebo a diferença.” George sentia que ela não estava sendo sincera, o que só piorou a situação. Ele ficou cada vez mais na defensiva, firme em sua própria inocência. Repetia constantemente que jamais, jamais, fizera qualquer coisa para contribuir para esse horrível impasse.

— Nós só estamos nos destruindo, George.

— O que vou fazer sem você? — Jeanie viu o pânico nos olhos dele. — Não posso viver aqui sozinho. Você sabe que vou ficar deprimido. E Chanty? O que vai dizer a ela? Jeanie, por favor... — implorou ele. — Você sabe que isso vai destruir nossa família.

Mas, apesar dos poderosos laços que a amarravam a esse homem, Jeanie sabia que não podia ceder mais uma vez às suas manipulações.

No dia seguinte, ela colocou no carro duas grandes malas e deixou a casa pouco depois das seis horas da manhã. Normalmente, George estaria acordado, andando pela cozinha e preparando um chá. Mas permaneceu em seu quarto, e eles sequer se despediram.