Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 10 de 26

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Estarás Sempre Comigo

9 O padre, a desconhecida, e a criança inesperada

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O padre, a desconhecida, e a criança inesperada

 

N ão tínhamos saído juntos desde aquela noite. Anne decidiu que estava na altura. Achou que ir jogar bólingue seria uma boa ideia. Eu não tinha tanta certeza disso. Detestava o bólingue. Tudo o que envolvesse uma bola e arremesso causava-me ansiedade, embora, pelo menos no bólingue, ninguém me fosse atirar uma bola; portanto, concordei. A Clo estava maravilhada, era perita em quase todos os desportos que tinha experimentado. Também sentiu que era uma grande oportunidade de nos apresentar a Mark.

– É perfeito – anunciou ela. – Três para três, podemos fazer um jogo. Raparigas contra rapazes.

Mark iria tomar o lugar de John, preenchendo o vazio que ficara no grupo. Senti o coração como que afundar-se, dando-me vontade de vomitar. Isto deve ter-se reflectido na minha expressão.

– Desculpa – disse ela, apercebendo-se do que dissera.

– Não sejas tonta – respondi, enquanto lutava contra a vontade de vomitar.

A vida continuava e ela tinha razão: sem Mark as equipas ficavam desequilibradas. Ela estava tão animada com a perspectiva de realmente sair com alguém o tempo suficiente para o apresentar aos amigos, quem era eu para lhe estragar o momento?

– Estou muito feliz por ti, Clo – disse eu.

– Eu sei que estás – sorriu ela.

– Não quero ser uma desmancha-prazeres.

– Eu sei que não.

– Odeio mesmo o bólingue.

– Eu sei. – Ela ria-se.

– Sou mesmo uma nódoa.

– Pois és.

– Lembras-te da vez em que o John me atirou uma bola de básquete no quinto ano?

– Acertou-te na cara e desmaiaste.

– Acabei por ficar com o lábio todo inchado durante cinco dias.

– E o teu nariz nunca mais ficou o mesmo desde aí.

– Meu Deus! – Tacteei imediatamente o nariz.

Ela ainda se ria.

– Foi a brincar, Emma.

Ri-me, embaraçada por ter sido tão facilmente enganada.

Tinha-me perguntado, com uma certa frequência, se a dor me teria deixado um bocado idiota. Essa ideia acabara agora de ser confirmada.

* * *

Clo e eu entrámos no recinto de bólingue juntas; Anne e Richard já estavam a praticar na pista dois. O Seán encontrava-se a comprar o seu jantar, que se resumia a um cachorro-quente e um pacote de batatas fritas. Clo passou o tempo a olhar para o relógio, questionando-se por onde andaria Mark. Tinham passado apenas cinco minutos da hora marcada, mas estava habituada a sofrer desapontamentos, e a preocupação estampada no seu rosto fez-me pena. Dez minutos depois, entrou um homem no recinto e ela deu um salto imediatamente, sorrindo e acenando. Ele era atraente, tinha um ar classe alta, cabelo ligeiramente comprido e pescoço grosso. Se tivesse trabalhado um pouco o corpo, poderia ter sido gladiador. Ele acenou e apontou para o café indicando que ia buscar uma bebida. Ela acenou-lhe, feliz por se poder agora concentrar no jogo.

Anne estava muito ocupada a tentar melhorar as suas capacidades de jogadora, mas, infelizmente, tinha tão pouco jeito quanto eu. Clo deu-se conta de repente de que, ao jogar com as mulheres, se encontrava na equipa perdedora, e detestava perder.

– Estava a pensar, porque não fazemos equipas mistas? – perguntou, num tom inocente.

– Nem pensar – respondeu Seán, enquanto limpava mostarda do queixo.

– Porque não?

– Porque a Em e a Anne não jogam nada – observou Richard antes de atirar uma bola num lance perfeito.

– Isto em princípio é só para nos divertirmos – disse Clo, com um tom de enjoada, mas os rapazes não ligaram nenhuma.

– Então não te importas de jogar com as raparigas.

– Bolas – murmurou, baixinho.

Mark chegou com águas para todos. Voltámo-nos para lhe apertar a mão e dar-lhe as boas-vindas ao nosso pequeno mundo. Parecia simpático.

* * *

O jogo acabou e os rapazes ganharam-nos. Clo tentou aceitar a derrota com desportivismo, especialmente porque ela fizera o melhor jogo. Mark fora o elo mais fraco na equipa dos homens. Parecia embaraçado pelo seu mau desempenho aos olhos de estranhos, mas a sua humilhação passou rapidamente quando deixei cair a bola nos pés duas vezes. Detesto mesmo bólingue.

Fomos para o pub mais próximo. Os outros comemoravam um grande jogo, enquanto Anne e eu comemorávamos o facto de o grande jogo ter terminado. Era um daqueles pubs gigantescos, com três andares, e, mesmo assim, encontrava-se cheio numa quinta-feira à noite. Abrimos caminho através de estudantes universitários que bebiam shots enquanto uma banda rock da treta tocava, ao fundo da sala. Fomos para o segundo andar, onde se ouvia a Enya cantar «Orinoco Flow». Ali havia lugares vagos e uma rapariga para servir bebidas.

– Estarmos em pé aos gritos a ouvir uma banda rock de merda enquanto bebemos shots, ou ouvirmos a Enya num confortável lugar sentados é a diferença entre os nossos primeiros e últimos anos na casa dos vinte – observou Seán, enquanto se instalava confortavelmente numa poltrona.

– Sim, é verdade – acrescentou Richard, antes de acenar para a empregada.

As mulheres ficaram caladas, sem querer discutir o processo de envelhecimento.

Clo precisava de ir à casa de banho e eu fui com ela, com receio de me perder pelo caminho se fosse sozinha. Ao regressarmos à nossa mesa, vi o meu irmão sentado a um canto a conversar com uma mulher. Acenei e aproximei-me, apercebendo-me de que ele terminava a bebida e se preparava para sair. Clo estava mesmo atrás de mim quando cheguei à mesa.

– Olá, desconhecido – cumprimentei, sorrindo, feliz por ter encontrado o meu irmão num bar gigantesco.

– Que bom encontrar-te aqui – disse ele, num tom demasiado exuberante.

– Estivemos a jogar bólingue – contei, esperando uma apresentação à mulher, que mantinha os olhos fixos no chão.

– Tu, a jogar bólingue?

– Sim – respondi.

– Olá, sou a Clo.

A Clo estendeu a mão à desconhecida; estávamos agora as duas curiosas.

– Olá. Prazer em conhecê-la – disse a bonita desconhecida, olhando momentaneamente para cima. Era óbvio que interrompíamos qualquer coisa.

– Estávamos já de saída – explicou Noel.

Levantou-se e a desconhecida seguiu-lhe o exemplo.

– O Seán e o Richard estão além – disse eu, apontando. – Porque não se juntam a nós para um copo?

– Não posso. Tenho trabalho para fazer – retorquiu o meu irmão sem me olhar nos olhos.

– Certo.

A desconhecida vestiu o casaco.

– Bem, então vejo-te em casa dos pais, no domingo – disse eu.

– Sim. Está bem. Até domingo.

A desconhecida disse adeus e encaminharam-se rapidamente para a porta, deixando-nos paradas a observá-los.

– Mas o que se passou? – perguntou Clo, desconfiada.

– Provavelmente, uma paroquiana que precisava de conselhos – aventei.

– O Noel encontra-se com muitos paroquianos no pub?

– É um local tão bom como outro qualquer – respondi, convencida.

– Está bem – disse ela, desconfiada.

Ri-me.

– Ele é padre, Clo.

– Ele é homem, Em.

– Tens uma mente distorcida.

– Suponho que sim.

– Sim, bem, não conheces o Noel. Ele não teve nenhuma namorada antes de se tornar padre, não é agora que vai arranjar uma. – Ri-me com o absurdo da situação.

Ela sorriu.

– Ela parecia mesmo muito atrapalhada.

– Sim – concordei. – Provavelmente, estará a passar por uma separação ou tem um cancro ou algo parecido.

– Uma desgraça – disse ela, assentindo. – Eu não sei como lida ele com isso.

– É verdade...

* * *

Seán andava concentrado em tornar-se o novo rosto no mundo das revistas masculinas. Escrevia com humor artigos sobre assuntos que não lhe interessavam muito, e isso pagava-lhe as contas. O seu tempo livre, um pouco limitado, era passado a escrever sobre coisas que lhe interessavam realmente, e que ninguém iria ler. Eu trabalhava arduamente para as minhas aulas e, de vez em quando, até me dava ao luxo de sair, mas, sinceramente, a vida parecia-me algo vazia. Eu e os meus amigos mantínhamo-nos unidos, agarrados uns aos outros mais do que nunca, a perda que sofrêramos fazia-mos valorizar mais a nossa amizade.

Anoitecia, era uma sexta-feira e haviam passado cinco meses desde a morte de John. Estava deitada no sofá, a ver televisão. A campainha tocou, era Clodagh. Percebi imediatamente que qualquer coisa estava mal, porque por norma andava sempre muito bem arranjada e chegou a minha casa como se tivesse sido arrastada por uma sebe, e muito transtornada.

Saudou-me com as palavras «grande parvalhão» e trazia a maquilhagem toda esborratada. Presumi que tivera uma discussão com Mark, mas estava apenas parcialmente correcta. Dirigiu-se, a coxear, para a cozinha e foi então que notei que um dos seu saltos estava partido. Pediu-me um café e atirou-se para o banco junto à bancada, descalçando um sapato de cada vez enquanto segurava a cabeça entre as mãos.

– Tiveste uma discussão com Mark?

– Pode dizer-se que sim.

– Bom, tenho a certeza de que não é o fim do mundo.

Gostaria de dizer em minha defesa que, antes da morte de John, eu nunca teria demonstrado tanta sabedoria, mas, depois de passarmos por tanto, é difícil evitar falar deste modo. De qualquer forma, a resposta dela foi um olhar reprovador.

– Desculpa. Foi uma parvoíce dizer isto. Dizes-me o que se passa?

Ela tinha os olhos postos no tapete, que podia estar mais limpo.

– O Mark e eu acabámos.

Não conseguia acreditar – eles pareciam dar-se tão bem...

– Porquê? – perguntei.

– Tivemos uma discussão.

Ela interrompeu-se. Era como arrancar um dente.

– E?

– Tivemos uma discussão por eu estar grávida.

Ela desviou o olhar do meu tapete sujo e quase caí da cadeira.

– Estás grávida? – espantei-me.

– Surpresa! – exclamou, num tom sarcástico. Havia lágrimas nos seus olhos.

Eu não sabia como reagir à novidade, por isso, concentrei-me em atacar o seu ex-namorado.

– E esse sacana, o que disse?

Ela suspirou.

– Disse que, se eu estava grávida, ele não tinha nada que ver com isso.

Fiquei indignada. Ela parecia apenas cansada.

– Porque escolherei eu sempre uns grandes imbecis? – inquiriu.

Eu perguntava-me exactamente o mesmo.

– Não sei, Clo – foi tudo o que consegui responder.

– Ele que vá à merda, Emma! Está bem? Ele que vá à merda! Já não é um problema meu. Isto – disse, apontando para o ventre – é.

Abracei-a, recordando o dia em que temi a linha azul, recordando que, horas mais tarde, John morrera e eu estava sozinha. Podia ser muito pior. Sabia-o agora. Nada disse. Nunca falei com ninguém sobre o dia em que o meu namorado morreu. Era demasiado doloroso. Algures, no meu espírito, apercebi-me de que, se estivesse grávida naquela altura, estaria entretanto no fim do tempo. Ainda teria uma parte dele. Porém, isto não tinha que ver comigo.

– Vou fazer um aborto – disse ela.

– Por causa do Mark? – Tive de perguntar.

– Não – respondeu ela categoricamente. – Soube disto há mais de uma semana. Pensei bastante e, se este imbecil me tivesse deixado terminar antes de lançar o seu discurso de não-estou-preparado-para-um-compromisso, dir-lhe-ia isso mesmo.

Tem graça. Um ano antes, se Clo tivesse sabido que estava grávida uma semana antes de me contar, eu ficaria danada, mas agora compreendia.

– Tens a certeza?

Ela sorriu sem convicção.

– Claro que terei de ir a Londres. Vens comigo?

Claro que iria.

– Há muito que quero ir às compras a Londres. – Olhei para ela, aguardando por uma resposta.

– Sabia que podia contar contigo – retorquiu, aliviada.

Fomos para a sala de estar e tagarelámos sobre coisas supérfluas e, passado algum tempo, estávamos ambas às gargalhadas. O nosso desespero em conjunto uniu-nos; a inquietação que sentíamos em relação ao futuro, a nossa busca por respostas e os nossos receios tornaram-nos nas crianças que um dia fôramos. Fomos forçadas a confrontar a nossa dor e, juntas, rimo-nos dela.

Clo tinha a boca cheia de tarte de maçã quando desatou a rir.

– Qual é a piada? – perguntei.

– O Mark – riu-se ela.

Começava a rir-me de novo.

– O que tem ele?

Ela olhou para mim, ainda a rir.

– Quando lhe contei, e ele começou a agir como um parvalhão sobre o assunto, fiquei mesmo furiosa e disse… – riu-se de novo e tapou a boca. – Oh não! É demasiado mau!

Ela despertara a minha atenção.

– O quê? O que lhe disseste?

– Bem – recomeçou –, ele perguntou-me o que estava eu a planear fazer para resolver o meu pequeno problema.

Desejei ir à procura dele e dar-lhe um murro na cara.

Ela continuou.

– Disse-lhe então: «O que queres que faça? Que me agache e grite “sai cá para fora”?»

Desatámos às gargalhadas e continuámos assim até ela começar a chorar. Chorou durante muito tempo, nessa noite, mas sabia que estava a fazer o que era certo e eu sabia que, acontecesse o que acontecesse, permaneceria ao seu lado. Ela passou a noite lá em casa e planeámos a viagem a Londres. Aquela noite tornou-se um ponto de viragem. Foi a primeira vez que consegui esquecer-me de mim própria durante uma noite inteira – bom, quase uma noite inteira.