Estarás Sempre Comigo
26 No presente
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No presente
M al posso acreditar que já passaram cinco anos desde que nasceste e é estranho pensar no mundo sem ti. Muita coisa mudou nos últimos anos e mais ainda continuou na mesma. Mudámo-nos da nossa pequena casinha um ano depois de teres nascido. Seán foi promovido e publicou o seu segundo livro, por isso tínhamos dinheiro para ir viver perto do mar. Eu nunca vivera ao pé do mar, e não conseguiria viver sem ele agora. Há qualquer coisa no mar. Não tenho a certeza do que será. Talvez seja a sua vastidão ou profundidade, ou por estar sempre a mudar de cor e o som reconfortante das ondas a baterem na praia, constantes, quer seja numa manhã fria melancólica ou num dia agitado de Verão. Creio que o mar é o que de mais aproximado temos de um outro mundo aqui na Terra, e gosto disso.
Continuo a dar aulas, e, de vez em quando, tenho o prazer de ensinar alunos como Declan. Por falar nele, há quatro anos que não o via e de repente, assim sem mais nem menos, na semana passada ele apareceu como apresentador da MTV. Mal conseguia acreditar, e, ao mesmo tempo, parecia-me que ele ali estava por fim a cumprir o seu destino. Faz-me sorrir pensar naquele rapaz com tão bom coração a percorrer o seu caminho na vida. Também me faz sentir velha e, aos trinta e três anos, isso não é justo.
* * *
Anne e Richard têm uma propriedade quase do tamanho de um pequeno país, muito perto de nos. É bom ter Anne tão perto. Ela estraga-te com mimos para lá de tudo o que é razoável. Richard descobriu as corridas de carros há alguns anos, para grande desgosto da Anne, mas, sabes como é o Richard, ninguém o conseguiu dissuadir. No próximo Verão, irá tentar fazer a travessia de um deserto qualquer. Coitada da Anne. As boas notícias são que após cinco anos numa lista de espera receberam por fim a confirmação de que em menos de um mês terão o bebé com que sonharam. É chinesa, tem três meses e chama-se Ming. Houve discussões bastante intensas sobre se deveriam ou não manter o nome ou mudá-lo. Richard debatera-se firmemente por mudar, devido ao receio de virem a dar à filha a alcunha de «Minger», malcheirosa, na escola. Anne receia que lhe estejam a retirar a sua identidade. Clo está do lado de Richard; melhor será perder a nossa herança do que ter a alcunha de Minger. Tenho tendência a concordar com ela, mas veremos. Seja como for, a pequenita Ming terá de se haver com muita coisa mais neste mundo, mas será amada, e isso é o que mais importa. Devias ver Richard – parece um miúdo. Tem andado a trabalhar no quartinho de Ming há mais de um ano e faz grande alarido disso. Anne parece desesperar, mas, no fundo, não consegue esconder o sorriso. Já a fizeste prometer que o seu bebé não irá afectar a vossa relação. Nada irá mudar isso.
* * *
Clodagh e Tom passaram por grandes dificuldades há alguns anos. O trabalho obrigava-o a estar muito tempo longe de casa, o que era demasiado difícil até para uma mulher como Clo, dedicada à carreira. Os longos períodos de tempo que Tom passava afastado significavam que ele e a mulher seriam em breve dois estranhos. Para complicar ainda mais as coisas, o trabalho que ele fazia não compensava o esforço. Havia muita concorrência na sua área, tinha enormes custos com pessoal e os impostos davam cabo dele. Cada vez discutiam mais e faziam menos sexo. Ele andava sempre cansado e ela passava a maior parte do tempo sozinha. Foram tempos difíceis, a tal ponto que Clo chegou a pensar separar-se. Andava destroçada, mas após muitas conversas achavam-se num impasse. Ele precisava de tempo para manter o negócio a funcionar e ela precisava do marido que ele não tinha tempo para ser. Na noite em que Clo fez as malas, ele chegou a casa a tempo de a impedir de partir. A atitude drástica de Clo assustou-o e ele admitiu que o casamento o tornara demasiado complacente. Conversaram sobre o assunto durante toda a noite. Tom desistiu do negócio que tinha e, um mês depois, uma oferta de emprego que ele não podia recusar levou-os a Londres. O que ofereciam compensava mudarem-se e Clo sempre quisera viver numa grande cidade. Mudou-se para lá sem ter ainda emprego, mas os seus dias como dona de casa não duraram muito. Quatro meses depois já ela trabalhava como relações públicas numa companhia londrina. Ainda lá está e adora Londres. Diz que prefere Dublin para se divertir, mas que Londres a serve de sapatos, e os sapatos ganharam. Tenho saudades dela. Claro que falamos muito ao telefone ou por correio electrónico, mas a distância custa a suportar. No entanto, consigo estar com ela mais do que poderias imaginar. Graças a Deus, pelas companhias low-cost. Anne e eu visitamo-la praticamente de dois em dois meses e ela também nos visita. Continua a ser uma mulher dedicada à carreira e não faz tenção nenhuma de ter filhos ou «diabinhos», como ela costuma chamar-lhes.
Não conheces bem Clo – ela não passa de uma adulta, algo bizarra, que aparece por cá de vez em quando, mas espero que um dia a venhas conhecer e, então, irás gostar dela tanto quanto eu.
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Doreen morreu na passada Primavera. Sofreu um ataque do coração no primeiro andar do autocarro 16 A. Ia a caminho de uma marcha pela paz com o marido. Estava a ver o percurso num mapa, com uma bússola, enquanto o marido se ria da trabalheira a que ela se dava. Ela deu-lhe uma cotovelada e ele contou que ela sorriu como se soubesse de alguma coisa de que mais ninguém sabia. Depois, tombou sobre o ombro dele. Foi um dia antes de ela fazer sessenta e cinco anos. Hoje em dia, alguém com sessenta e cinco anos considera-se uma pessoa nova ainda, mas Doreen sentia-se velha. Envelhecera nos últimos anos. Talvez eu tenha reparado nisso porque desde que mudámos de casa não a via tantas vezes ou talvez fosse só a altura de ela envelhecer. Tivera uma boa vida e, na sua própria opinião, uma longa vida que já lhe bastava. Gosto de pensar que ela sabia que ia morrer. Gosto de pensar que um anjo lhe murmurou ao ouvido e lhe pediu que voltasse para casa. Tenho saudades da voz dela e anseio por voltar a ouvi-la. O seu velório foi inacreditável. A família planeara uma festa-surpresa de aniversário e, apesar da morte dela, a festa manteve-se tal como planeado. Houve recordações, muita música, risos, danças e canções. Celebrámos a vida que tivera e encaminhámo-la na sua nova senda. Aquilo era pura Doreen e exactamente o que ela teria querido, nós, ali, a viver, a divertirmo-nos, e ela sentada, atrás, desfrutando da vista.
Noel, bem, que te poderei contar sobre o tio Noel? Voltou para casa uma semana após o teu nascimento e, seis meses depois, abandonou o sacerdócio. A primeira vez que se encontrou com o filho foi num domingo, no parque. Laura levara lá o menino com o pretexto de dar comida aos patinhos. Iriam encontrar-se como que por acaso. Não queriam forçar nada. Noel entraria na vida do filho devagar e cuidadosamente. Claro, a tua avó caiu de cama quando lhe contaram que Noel era pai e que iria mudar de carreira. Lá recuperou após uma semana de mau humor e descobriu que, apesar do que os vizinhos iriam dizer, a nova situação de Noel era aquela com que sempre sonhara. O meu pai manteve-se calmo com a mudança, mas ele é mesmo assim – o teu avô é uma pessoa muito calma. Perguntei um dia a Noel como se sentira ao ver o filho pela primeira vez. Ele recordou-se do lago, dos patinhos e de Laura inclinada sobre um rapazinho sorridente e, à medida que se aproximava, o menino olhou em volta e Noel viu-lhe o rosto e algo dentro dele se abriu. Sorriu ao recordar-se e eu sabia o que ele queria dizer.
Claro que nem tudo foram rosas – ter de admitir que comera o fruto proibido ao bispo e a uma sala cheia de padres não era caso para rir. Deixar para trás a vida que tinha e a sua vocação não foi tarefa fácil. Ele andara perdido durante muito tempo. Foi forçado a voltar para casa e a mãe dizia que lidava com um adolescente. Ele e Laura andaram algo hesitantes durante algum tempo, mas passarem dias no parque ou a ver filmes, ou no jardim com o filho compensava quase tudo. Acabaram por se reconciliar há poucos anos e a Noel Júnior juntou-se pouco depois Gina, que, com dois anos, se tornou a tua arqui-inimiga, e Jamie, o seu irmão gémeo, se tornou o teu escravo incondicional.
Noel também voltou à universidade e agora é assistente social. Não ganha muito, mas também o dinheiro nunca foi importante para o meu irmão.
* * *
Na noite passada, Sean estava a pegar na minha mão e virei-me para observar o seu rosto familiar. Envelheceu nos últimos anos. As feições de rapazinho desapareceram. Em vez disso, olhava para um lindo homem maduro. Pequenas linhas começam a aparecer à volta dos seus olhos e cada uma com uma história para contar. A sua barba de dois dias fá-lo parecer perigoso, mas os seus olhos permanecem os mesmos. Por vezes, perco-me nele, na sua força, na sua calma e no seu humor.
Ele sorriu para mim e desviou-me o cabelo do rosto.
– A primeira vez que te vi apaixonei-me por ti – disse ele.
– A primeira vez que me viste nem deste por mim. – Sorri, ao lembrar-me de John a tentar captar a sua atenção no bar, desesperado para apresentar a namorada ao seu novo melhor amigo. – Estava demasiado ocupado a falar com uma estudante loura de medicina. – Eu lembrava-me claramente dela.
– Essa não foi a primeira vez – sussurrou ele, o que me fez calar imediatamente. – Foi no Pavilhão das Artes, uns dias antes dessa noite.
Virei-me e olhei para ele, tentei apoiar-me no cotovelo, desequilibrei-me e bati em mim mesma na cara.
Ele riu-se enquanto me recompunha.
– Estava a beber café junto à parede voltada para a biblioteca. Vi-te a subir os degraus. Trazias uma pilha de livros. O teu cabelo estava à frente da tua cara, mas juro que a luz atrás de ti fazia os teus olhos verdes brilharem. Estavas deslumbrante e era óbvio que não tinhas ideia alguma sobre isso. Percebia-o pela forma como caminhavas. As mulheres bonitas normalmente têm um pouco de arrogância, mas tu não tinhas. É claro que dois segundos mais tarde tropeçaste e espalhaste os livros por todo o lado. Quis ajudar-te, mas não me consegui mexer. Tu apanhaste-os e levantaste-te, lentamente, murmurando qualquer coisa. Estavas de pé quando eles caíram de novo. Coraste até ficares roxa. – Ele ria-se.
Dei-lhe uma palmada com força, incentivando-o a continuar.
– Desististe depois disso. Sentaste-te apenas entre os livros e acendeste um cigarro. Depois ligaste o teu walkman e começaste a cantarolar sozinha, totalmente inconsciente de qualquer pessoa ou de qualquer coisa à tua volta, e eu apaixonei-me completamente.
– Uau! Não sabia disso – admiti, lembrando-me da terrível humilhação de que ele falou e de em ter esquecido que lá porque o público em geral não conseguia ouvir o meu walkman não queria dizer que não me conseguissem ouvir.
– Não sou nenhuma trapalhona – argumentei.
– Emma, deste um murro na tua cara há menos de dois minutos.
Não voltei a argumentar.
– Detestei todas as raparigas com quem namoraste. Até cheguei a odiar a Clo por um segundo ou dois – admiti, sem me sentir culpada.
– Eu sei. – Ele sorriu.
– Amo-te.
– Não tinhas outra hipótese – disse ele, e eu, lembrando-me de John, anuí.
– Pois não.
– Até que a morte nos separe! – observou ele, triunfante.
– E mais além – murmurei.
* * *
Ias aparecer na tua primeira peça de teatro ao início da noite. Com cinco anos e já pensavas que eras Halle Berry. Estavas tão amorosa no papel de Virgem Maria. Seán filmou tudo e sem dúvida vou ter de ouvir falar muito de técnicas recentes de edição este fim-de-semana. Esqueceste-te da tua deixa, o meu coração parou, mas desataste a entoar o refrão de «Caroline», dos Outkast. Não sei se a Virgem Maria alguma vez cantou sobre o cocó bem cheiroso de alguém, mas tu fizeste com que aquilo resultasse. Fizeste uma vénia e recebeste uma ovação de pé. Foi a melhor peça de escola a que assisti, e assisti a todas. Talvez sejas a próxima Halle Berry, afinal de contas. Foste para a cama cheia de sumo de laranja e bolachas.
Retirei-me para o meu quarto para acabar este diário. Comecei a escrevê-lo quando fizeste dois anos porque foi nesse dia, à luz do sol, rodeada de amigos, balões, brinquedos, que te vi, com dois aninhos, a rodopiar de alegria até ficares tonta e com vontade de vomitar, que me apercebi de que poderia ter perdido tudo isso. Poderia ter perdido a oportunidade de te conhecer e estar contigo, e não existe nada que eu ou qualquer pessoa possa fazer quanto a isso. Foi nessa altura que decidi contar-te algo sobre o passado e sobre o que aprendi nesta vida, para o caso de não estar cá no futuro. Poderás usar este livro como uma espécie de manual de referência. Muitas vezes servir-te-á como uma referência nas coisas que não deves fazer, mas tudo bem. Mostrei-o a Clo, para ver o que ela pensava, porque talvez algumas das coisas fossem demasiado picantes para uma mãe dizer a uma filha. Ela não pensou que fosse demasiado picante, mas Clo acha que eu sou tão sexual como um feijão verde ou uma velha a comer uvas. Disse-me que deveria publicar isto, como se alguém se fosse interessar. Disse-lhe que era doida.
– Tu é que és doida! – retorquiu.
– Tu é que és! – insisti.
– Tu é que és! – respondeu-me.
– Tu! – reiterei.
– Tu! – teimou ela.
Continuámos assim por um bocado. Apenas digo isto para mostrar que os adultos podem muitas vezes parecer crianças quando pensam que ninguém está a ver.
Anne já o lera. Esteve durante um ano a lê-lo aos bochechos. De tentos em tantos meses, eu dava-lhe os últimos capítulos e ela lia-os com um café e umas bolachas, rindo ou chorando, e depois juntas relembrávamo-nos de como éramos e de como somos. Embora ela tivesse gostado de percorrer os caminhos da memória, preocupava-a a ideia de que eu estaria a escrever uma espécie de obituário, mas não é disso que se trata. Talvez eu viva até uma idade avançada e, se viver, estarei lá e tu não irás precisar destas palavras, mas talvez eu já não esteja presente e, se assim for, este diário é uma espécie de pequeno seguro de vida, e é com esse fim que quero transmitir nele o pouco que aprendi na vida.
Já tenho idade suficiente e já vi demasiadas séries televisivas para saber que não sei tudo. Não posso viver a tua vida por ti. Nem posso proteger-te mais do que aquilo que desejo. Terás de ir por ti própria ver o mundo e viver a tua vida. Terás de seguir o teu coração e cometer os teus próprios erros, e irás cometer muitos, porque toda a gente os comete e ninguém é perfeito. Nem aquela miúda com o cabelo dourado e olhos perfeitos que se sentará à tua frente no autocarro quando te estiveres a sentir como um cão velho abandonado à chuva ou aquele rapaz que todos os rapazes querem ser e com quem todas as raparigas querem estar ou mesmo o génio que poderá ser o próximo Bill Gates. Todos irão conhecer a dor e a rejeição, mas também conhecerão o amor e os risos e a alegria, tal como tu. A minha vida é uma lição apenas para mim. Por isso, este livro realça unicamente as quatro coisas mais importantes que a vida até agora me ensinou.
Após a noite, vem o dia. Após a morte, vem a vida.
Mesmo nos momentos mais sombrios, olha em volta, pois nunca estás realmente só.
És amada.
Você terminou Estarás Sempre Comigo
Anna McPartlin
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