Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 24 de 26

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Estarás Sempre Comigo

24 Em nome do pai

24

Em nome do pai

 

E ra sábado e, sentindo-me invulgarmente bem-disposta, decidi ir até ao centro da cidade ver roupa de bebé. Não tinha intenções de comprar nada, pois a minha mãe e Doreen haviam sido inflexíveis ao avisar-me de que comprar roupa para um bebé que ainda não nascera traria imenso azar. Embora habitualmente não fosse supersticiosa, não estava mesmo para correr risco algum, e ambas haviam concordado em que ver não faria mal. Andei a ver montes de vestidinhos, tops amarelinhos e cor-de-rosa, calçõezinhos azuis e malhinhas ornamentadas com toda a espécie de animais. Vi sapatinhos, botinhas, sandalitas, tudo muito pequenino e amoroso, luvinhas, chapelinhos, coletes e meias tão pequeninas que dificilmente o meu polegar lá entrava. Confesso que, apesar de não saber se iria ter um menino ou uma menina, passei a maior parte do tempo na secção das meninas. Isso devia-se principalmente ao facto de tudo ser tão bonito e à minha recente descoberta de ter um fraquinho por todas as coisas lindas. Acabei por deixar de bisbilhotar a secção cor-de-rosa e dirigia-me à secção azul quando vi um rosto familiar por entre a secção das calças de menino. Não consegui identificar bem quem era, interroguei-me se não seria algum dos pais que deveria evitar encontrar. Ela não reparou em mim, visto estar tão entretida a medir os tamanhos das calças no corpo do filho que lutava por sair do carrinho. Continuei a ver camisinhas, esperando que a mulher me ignorasse tanto quanto eu a ela.

Encontrava-se ao balcão a pagar o que comprara quando o rapazito virou a cabeça e olhou para mim. Abri a boca, espantada, e soltei um «ah!» de modo tão audível que a mulher perto de mim, vendo a condição em que me encontrava, e talvez a forma como empalideci, me perguntou educadamente se eu estava bem. Respondi que sim, mentindo.

A criança era a cara de Noel – tinha os olhos dele, o mesmo rosto, o mesmo cabelo encaracolado – e a mulher era a que encontrara no bar dois anos antes. Era Laura, a amante de Noel. Fiquei imóvel, como uma baleia encalhada à espera que me tirassem dali. Ela olhou para cima ao sair e viu-me. O nosso olhar encontrou-se e, enquanto a minha indiferença se transformava em horror, percebi que ela me reconhecera. Quase correu para a porta e, de forma impulsiva, fui atrás dela, chamando-a pelo nome. Parou a meio caminho da saída do centro comercial. Não se voltou; em vez disso, manteve-se ali e esperou que eu a alcançasse. Quando cheguei ao pé dela, vi que tinha o mesmo rosto ruborizado com que eu muitas vezes ficava. Embalava o carrinho e olhava a direito, como se estivesse em frente de um pelotão de fuzilamento invisível. Ambas sabíamos que o jogo acabara, mas, infelizmente, nenhuma sabia o que fazer dali em diante.

O filho de Noel estava inquieto, perguntando-se porque empurrariam o carrinho de trás para a frente em vez de prosseguir para um destino novo e mais interessante. Ficámos uma ao lado da outra apenas durante alguns instantes, mas que pareceram três eternidades.

Por fim, proferi o seu nome.

– Laura.

– Emma.

– Acho que devíamos ir tomar um café – sugeri.

– Olha, Emma, acho que não temos nada a dizer uma à outra – balbuciou.

– Pois eu acho que temos – insisti, sabendo pelo tom da sua voz que, lá no fundo, ela concordava com a minha sugestão.

* * *

Mais tarde, no café, o filho dela, meu sobrinho, acabou por sossegar, mas nós, adultas, parecíamos bombas prestes a explodir com sobrecarga de informação. Pedimos os cafés e sentámo-nos.

– Como se chama o menino? – perguntei, olhando para o meu sobrinho.

– Noel – respondeu, suspirando e possivelmente censurando-se a si própria por ter tido a veleidade de dar ao filho o nome do homem que a abandonara.

– É tão lindo! – exclamei, com sinceridade.

O meu irmão era um homem bonito e o filho era adorável.

– Obrigada – respondeu, apesar de eu duvidar que o elogio significasse muito à luz da situação em que ela se encontrara.

– O Noel sabe? – perguntei.

– Não – respondeu simplesmente.

– Porque não? – Tive de perguntar.

– Vais dizer-lhe? – perguntou ela, sem medo de ir directa ao assunto.

– Sim. Não. Não sei. – Sentia o espírito num turbilhão. – Porque não lhe disseste nada? – arrisquei perguntar de novo, esperando que me respondesse.

Ela ficou com os olhos rasos de lágrimas, que ameaçavam começar a correr-lhe pelo rosto rosado abaixo. Senti imensa pena dela. Talvez por estar grávida, ou por ela ser mãe e eu em breve também vir a ser. De qualquer modo, ao vê-la chorar, qualquer animosidade que tivesse sentido dissipou-se. Apertei-lhe a mão com força e isso contribuiu para libertar as lágrimas. Começou a chorar e aguardei até se acalmar. Noel Júnior estava muito entretido a comer uma cenoura para notar a angústia da mãe. Ela explicou então que só descobrira que estava grávida depois de o meu irmão ter decidido acabar a relação. Pensara muitas vezes em dizer-lhe, mas ele optara pela Igreja, e não por ela; Noel amava-a, mas sentira que não tinha alternativa a não ser seguir um caminho que não a incluiria a ela nem ao filho. Achara que seria cruel complicar-lhe ainda mais a vida, depois de ter testemunhado tantas noites de sofrimento e tormentos que ele suportara durante a relação. Estava feliz por ter tido um filho, visto que, tendo já trinta e oito anos, o tempo escasseara. Sempre quisera ser mãe e havia muito que pensara que, se Deus lhe tirara quem amava, a compensara com um filho de ambos. Eu não estava assim tão certa e, embora fosse evidente que ela amara Noel, e sentisse que ela fazia o melhor para todos, não podia esconder o facto de o meu irmão ter um filho e, se eu o sabia, como poderia ocultar aquilo dele? Apesar de os argumentos de Laura serem convincentes, apesar da dor que pudesse provocar, não teria ele o direito a saber?

Encaminhámo-nos juntas para o parque de estacionamento. Ela perguntou como eu estava e pareceu encantada por eu viver com Seán e ir ter um bebé. Parece que Noel lhe falara no nosso amor não revelado. No carro, implorou-me que falasse com ela primeiro antes de dizer alguma coisa a Noel. Deu-me o número de telefone e, embora a minha descoberta se devesse a um encontro fortuito, ela parecia sentir-se responsável pela posição ingrata em que eu me encontrava. Era fácil ver a razão de o meu irmão se ter apaixonado por ela. Era calma, gentil, muito meiga e simpática, mesmo quando aterrorizada com a situação e com o seu mundo virado do avesso. Embora o nosso encontro tivesse sido breve, abraçámo-nos à despedida.

Pobre rapariga.

* * *

Seán encontrava-se no quarto de hóspedes que havia muito se transformara no seu escritório. Subi pesadamente as escadas tão depressa quanto as minhas pernas mo permitiam. Refastelei-me no cadeirão à frente da secretária dele. Ele ergueu o olhar com um sorriso e interrogando-se mentalmente sobre quanto dinheiro eu teria gastado em compras.

– O Noel é pai.

Ele levantou-se da cadeira como se subitamente tivesse percebido que estava sentado em algo que o picara.

– Desculpa? – proferiu, olhando para mim, estatelada no cadeirão.

– Dei de caras com a Laura e o filho dela, de um ano, o Noel Júnior, no centro.

Sentou-se.

– Noel Júnior – repetiu, e eu fiz um gesto de assentimento com a cabeça.

Contei-lhe tudo enquanto ele permanecia sentado a olhar para o vazio e coçava a cabeça de forma intermitente.

– Caramba, mas que notícia! – repetiu várias vezes até lhe pedir que parasse.

Perguntei-lhe o que achava que eu devia fazer, tendo em conta que Laura tinha razão ao dizer que contar a Noel que ele era pai seria o equivalente a apontar-lhe uma arma à cabeça. Seán argumentou que não lhe dizer seria negar ao meu irmão a oportunidade de conhecer o único filho. Tinha razão, mas Laura também. Sentia a cabeça a ferver. Queria falar com a minha mãe, mas então ficaria ela aflita, e só serviria para complicar ainda mais a situação. Seán e eu debatemos durante horas seguidas os prós e os contras de revelar o segredo de Laura. Estávamos ambos cientes de que lidávamos com um tema difícil. Não consegui dormir, incapaz de fechar o botão tanto do meu cérebro como o da minha bexiga. Senti-me adoentada a noite inteira, sempre com tonturas, mesmo quando me encontrava deitada, e tão fraca que tinha dificuldade até em levar a mão à cara.

* * *

O jantar de domingo foi um pesadelo. Nem eu nem Seán conseguíamos manter uma conversa banal com os meus pais. A minha mãe atribuiu isso ao meu cansaço.

– É perfeitamente natural. Quando estive grávida do Noel mal conseguia abrir os olhos.

Fiz um gesto de assentimento.

– E porque estás tu assim, Seán?

– Muito trabalho.

– Ah! – fez a minha mãe antes de observar que também ela andava cansada.

O meu pai estava muito concentrado a ver a equipa do Dublin perder um jogo na televisão para se questionar sobre o nosso silêncio, provavelmente por cauda da situação desesperada que se desenrolava no campo de futebol.

Nessa noite, quando Clodagh telefonou, nada lhe disse, não que não estivesse desejosa de o fazer, mas porque já era injusto o suficiente eu e Seán sabermos antes de Noel. Seán e eu falámos e andámos às voltas com o assunto. Num momento, ele dava uma boa razão a favor de contar a Noel, e no seguinte arranjava outra razão para nada lhe dizer. Eu fazia a mesma coisa. Nenhum sabia como agir. Noel estava verdadeiramente feliz, pela primeira vez desde há muito tempo. Era difícil não ver as mudanças nele operadas. Encontrara o seu lugar entre o sacerdócio e entre as pessoas que mais precisavam dele. Redescobrira o seu caminho e o seu destino. Encontrava-se em paz consigo próprio e o mundo. Quem éramos nós para lhe retirar isso? Contudo, como não poderia eu contar-lhe tal coisa?

Estávamos a meio da semana e o padre Rafferty dava a confissão às cinco da tarde. Eu ficara a corrigir testes que deveriam ter sido corrigidos no fim-de-semana. Pouco passava das cinco horas. Não pensei muito porque isso iria incentivar-me a interrogar-me a mim própria e já fizera muito disso na minha vida. Encaminhei-me pesadamente para a igreja, esperando sem razão que não estivesse ninguém. Tive sorte. Entrei, comprimindo-me no confessionário e ajoelhei-me na madeira implacável. Tal como o meu espírito, os meus joelhos sentiram-se como se estivessem entalados. Com sete meses, o meu ventre crescera de um modo que eu nunca julgara possível. Arqueei as costas, que me doíam imenso, mas apenas consegui esmagar a barriga contra o confessionário, que não fora de certeza construído a pensar em futuras mamãs, mas, enfim, a Igreja Católica é assim em toda a parte. Prometi silenciosamente não debater os males que via na Igreja, visto me trazerem ali outros assuntos.

Pouco depois a portinhola abriu-se, revelando o padre Rafferty, de olhos fechados a assentir com a cabeça, a mão erguida numa bênção.

– Padre Rafferty – cumprimentei.

Ele permaneceu em silêncio, com a cabeça baixa, esperando que eu usasse a fórmula habitual.

– Padre Rafferty – repeti, ligeiramente com mais ênfase, mas ainda assim com respeito. Ele parou por momentos, abrindo os olhos.

– Emma? – perguntou.

– Sim – respondi, feliz por captar a sua atenção sem ter de bater na grade, que teria sido o passo seguinte.

– O que posso fazer por ti? – perguntou ele, apercebendo-se de que eu não estava lá à procura de perdão.

– Preciso do seu conselho – inclinei-me e sussurrei, embora a igreja estivesse vazia.

– O que foi, Emma? – perguntou ele, aproximando-se da grelha.

– É o Noel. Ele tem um filho.

O padre Rafferty empalideceu.

– A Laura – disse ele passado um tempo.

– Sim – respondi, sem estar surpreendida por Noel lhe ter confessado. Embora fossem muito diferentes e de gerações distintas, os dois homens tinham um grande respeito e compreensão mútuos.

– Ele não sabe – disse o padre Rafferty, percebendo imediatamente porque eu ali fora.

– Não – confirmei. – Ela descobriu depois de se separarem. Não lhe contou porque sabia que o meu irmão era um padre de coração.

– Ela é uma mulher bondosa – disse ele, com os olhos postos no chão, para que não pudesse ler a sua expressão, embora o seu tom sugerisse tristeza. – E agora? – perguntou, devolvendo o meu olhar.

– Não sei. Esbarrei com ela e com o Noel Júnior. Ele é tal qual o meu irmão… até tem um caracolinho na testa.

O padre Rafferty abanou a sua cabeça tristemente, mas eu conseguia ver a sugestão de um sorriso.

– Não sei o que fazer – desabafei, implorando pela resposta. O ligeiro sorriso esmoreceu e ele apoiou a cabeça na mão, apertando as têmporas. Lutando contra a minha dor de cabeça, mudei o peso de um joelho para o outro, pedindo a Deus que ele arranjasse rapidamente uma solução.

– Não o podes esconder dele. Fazê-lo não seria apenas um pecado contra Deus, mas também contra a natureza. – Ele abanou a cabeça entre as mãos como se as suas palavras o magoassem.

– O Noel vai deixar o sacerdócio. Ela não vai manchar a reputação da Igreja – disse eu, reflectindo os pensamentos do padre Rafferty.

– Vai sim – disse ele, tristemente. – É uma pena… não para ele, mas para nós. Ele é um dos bons padres.

Conseguia ver a sua mão a tremer ligeiramente, mas não conseguia dizer se isso se devia à emoção ou apenas a uma idade avançada.

– Lamento – disse eu.

– Eu também lamento – respondeu o padre Rafferty.

Olhou para mim e tentou sorrir, mas, no fundo dos seus olhos escuros, vi Noel a olhar para mim. O padre Rafferty podia ser velho e estar muito preocupado com o dia Dia do Juízo Final, mas já fora jovem e enfrentara todos os perigos, desejos e anseios que o meu irmão enfrentara. Compreendia o impacte, as implicações para Noel melhor do que qualquer outra pessoa. Compreendia também que fora dada a Noel a oportunidade de ser um verdadeiro pai e eu não sabia se ele lamentava isso ou se se regozijava pelas suas escolhas de vida, mas, naquele momento, pareceu-me perdido. Senti vontade de chorar, já me apetecera chorar antes ao pedir um cappuccino e mo terem trazido sem chocolate.

– Padre.

– Sim.

– Pode rezar comigo? – Mal podia acreditar no que acabara de dizer. Disse-o, pronto. Nem sequer sabia se me lembraria de alguma velha oração.

– Sim – respondeu, e o rosto iluminou-se-lhe.

Assim, comecei com o «Pai nosso», esperando que ele se juntasse a mim a meio da prece, que eu definitivamente esquecera.

– Pai nosso, que Estais no céu, santificado seja o Vosso nome… – Por favor, reze comigo…

– Venha a nós o Vosso Reino…

Por favor, junte-se à oração!

– …assim na Terra como no Céu.

Ele está a rezar comigo, graças a Deus! Muito bem, agora baixarei a voz para assim murmurar a parte do meio.

– Nan, na, na, terr, nanana, mas livrai-nos do mal. Ámen.

O padre Rafferty tinha a cabeça baixa.

Eu fiz figas, esperando que ele não se lançasse noutra oração.

Não o fez. Benzeu-se e sorriu.

– Obrigado, Emma.

– De nada, padre – respondi, aliviada, ainda sem fazer ideia sequer da razão por que lhe sugerira rezar, mas enfim, eu andava a agir de modo tão estranho que começava a preocupar-me se não seria algo mais do que a mera questão hormonal.

– Tenho de ir – disse, tentando levantar-me.

– Espero voltar a ver-te – respondeu-me.

– Pois, sim – concordei, educadamente, enquanto me esforçava por me mexer.

Ele fechou a portinhola e fiquei sozinha, ainda ajoelhada. Parecia que estava ali pregada. Ai que mer…

– Padre Rafferty! – chamei, batendo na portinha. A portinhola abriu-se, e ele apareceu.

– Emma?

– Estou entalada – gemi, mortificada.

Ele riu-se e a seguir vi-o com um pé contra a porta do confessionário enquanto tentava puxar-me para fora.

* * *

Seán e eu decidimos que contar a Noel sobre o filho pelo telefone não era modo de fazer as coisas, e como ele ainda se encontrava nos Estados Unidos a fazer o curso de ajuda humanitária, achámos que o justo seria dar-lhe a notícia pessoalmente. Claro que, quando digo «decidimos», o que quero dizer é «decidi». Como não podia andar de avião e mais ninguém sabia da situação, isso colocava Seán na indesejável posição de mensageiro.

Muito mais tarde, Seán acabou por confidenciar que não fora Noel e os seus problemas ou o facto de o avião parecer voar demasiado baixo que realmente o aborreceram ao atravessar o Atlântico, embora nem uma coisa nem outra ajudassem. Em vez disso, passou a maior parte desse tempo solitário a pensar na própria vida e nas novas exigências que esta lhe trazia.

Quando mais tarde me descreveu a angústia por que passara durante esse período da nossa vida em comum, tenho de admitir que me senti um pouco egoísta. Eu nem sequer reparara que ele andava tenso. Mas também raramente capto os medos mais terríveis dos outros. Contou-me que após o entusiasmo inicial com o anúncio da minha gravidez, se lhe deparara a realidade do que significava a paternidade, e que isso o deitara abaixo e que se vira na posição nada invejável de estar completamente aterrorizado. Talvez não fosse invulgar os homens sentirem tal pânico. Afinal de contas, ser pai não é brincadeira nenhuma. Contudo, no caso de Seán, havia ainda algo mais.

Seán passara a maior parte da vida a evitar a questão do seu abandono e até àquela data essa técnica resultara. No entanto, perante o nascimento do próprio filho, o medo e as questões nele inculcadas no dia em que a mãe abandonara a família surgiram das profundezas do seu ser, e os muros que ele levara anos a construir desmoronaram-se lentamente. Quanto mais o meu ventre crescia, mais os seus medos aumentavam. Seria ele como a mãe? Acharia criar uma criança demasiado difícil? Falharia como pai, tal como ela falhara como mãe? O pai dissera-lhe muitas vezes que eram parecidos; tinha o sorriso e os olhos dela. Teria ele em comum a incapacidade para ser um pai decente? Ele não me falara dessas preocupações; em vez disso, tentara enganar os seus óbvios receios, mas estes recusavam-se a ser ignorados, resultando que qualquer tentativa para os evitar servia apenas para os intensificar. Tentara ser razoável, afinal de contas era filho do seu pai, mas as questões com que nunca se ocupara começavam a causar-lhe uma sensação de asfixia. Por que razão se fora a mãe embora? Sabia porque ela deixara o pai. Haviam-se casado por dever e não por amor. Ela ficara grávida de Seán e o casamento fora a única solução possível naquela altura. O pai jurava que ela amara os filhos, mas, se os amava, porque não tinha ficado com eles? O pai explicara-lhe que a vida era muito mais difícil para uma mãe solteira nos anos setenta, mas, se fora esse o caso, porque não fizera ela um esforço agora que ele era adulto? Antes nunca se importara muito com isso. De início, claro que ficara desolado com o desaparecimento da mãe, como qualquer criança ficaria, mas habituara-se à situação, compreendendo rapidamente que a partida dela coincidira com uma época mais feliz em casa. Já não havia as longas discussões nem os gritos intermináveis, e, passado um tempo, sentiu-se mais contente e seguro, percebendo que o regresso dela significaria mais ansiedade e raiva do que uma felicidade de braços abertos. Sentira-se tão bem na ausência dela durante muito tempo, mas, quase a ser pai, interrogava-se se a sua capacidade para se afastar da mãe como ela se afastara dele não seria um sinal de que ele era capaz de isolar os que lhe eram próximos tal como ela fizera.

Estes medos avolumavam-se pela sua história pessoal com mulheres. Até àquela data as suas relações tinham-se resumido a romances passageiros, excitantes, mas sem nenhuma profundidade. Amava-me – isso ele sabia. Amara-me já muito antes, antes de isso poder ser decente. Inicialmente interrogara-se se não estaria apenas a sentir uma espécie de inveja do tipo de relação que o melhor amigo tinha. Porém, no fundo, sabia que não se tratava disso. Fora muito difícil e depois o amigo morrera e ele mergulhara no sentimento de culpa, sabendo que com o desaparecimento de John tinha o caminho livre e lamentando cada instante de esperança que saber isso lhe trazia. Tentara manter-se afastado, mas fora demasiado difícil. Agora, tinha, pela primeira vez, tudo o que queria, mas ele não era John: não era o homem constante; não devia ser o primeiro do grupo a ser pai. Ele era o que armava mais confusão, aquele que não conseguia aguentar uma relação.

Rezou: Oh, meu Deus, não me deixes estragar isto!

Assim, na viagem para visitar Noel, todos aqueles pensamentos e recordações o atormentaram e quando serviram a refeição a bordo estava um farrapo. A hospedeira que lhe servira bebidas alcoólicas perguntou-lhe gentilmente como se sentia. Disse que estava bem, mas lá no fundo lutava por conter as lágrimas que ocultara desde criança. Tentou dormir, mas não conseguiu. O homem a seu lado ressonava, de cabeça encostada à janela, com o braço demasiado perto dos genitais de Seán. Cambaleou pelo corredor, arrependido do último gim tónico que tomara. Esperou na fila para a casa de banho com a esperança de que o estômago aguentasse, apesar de a mente se recusar a isso.

Preocupou-se. E se eu acabo com tudo? E se eu fujo?

Ao regressar ao banco tinha o rabo dorido. Sentiu pena do senhor que estivera atrás dele na fila para a casa de banho. O espírito voltou a ocupar-se do problema que tinha em mãos. O que iria dizer a Noel? Como daria a notícia que abalaria tanto o amigo? A luz do cinto de segurança piscou por cima da sua cabeça e o comandante anunciou que haviam entrado numa zona de turbulência. Ele e os outros passageiros começaram aos saltos nos assentos, até ele sentir a comida a querer sair pela boca. Foi por essa altura que começou a pensar por que diabo concordara em envolver-se na vida do meu irmão, quando era cada vez mais óbvio que ele estava a perder o controlo da sua. Se me tivesse revelado os seus receios, dir-lhe-ia que nada tinha a recear, que era uma das pessoas que eu conhecia em quem mais se podia confiar, e que ele era tal qual o pai, em qualquer aspecto. Dir-lhe-ia que tínhamos algo que os pais dele nunca haviam tido e que um filho reforçaria a nossa relação. Ou, devido às minhas hormonas descontroladas, talvez lhe tivesse dito para ir à merda. Apesar disso, e talvez por ser ingénua, eu sabia no fundo que iríamos ser uma família e que teríamos um final feliz como muita gente neste mundo tem. Ele ou era demasiado bondoso, ou tinha demasiado medo de descarregar as suas mágoas em mim. Oxalá o tivesse feito. Magoava-me pensar que ele se roeu de medo, sozinho, num avião, a caminho de Nova Iorque e de um novo conjunto de problemas.

Conseguiu por fim adormecer, mas não dormiu muito tempo. Algures, sobre o Atlântico, fez os possíveis para pôr as suas próprias preocupações para trás das costas a fim de se concentrar na sua missão.

A aterragem não foi tão suave como gostaria, mas apesar de tudo sentiu-se grato por se encontrar em terra firme, independentemente da vaga de calor que o envolveu assim que saiu do avião. Era Maio e Nova Iorque estava invulgarmente quente. Sentiu-se desfalecer, mas aguentou. Levara apenas bagagem de mão e sentiu-se grato por não ter de esperar uma hora pelas malas como os outros passageiros.

Dirigiu-se aos táxis e deu uma morada ao velho taxista com um fato desmazelado. Felizmente o taxista falava inglês e vivia na cidade havia mais de seis meses. O homem falou-lhe num engarrafamento na Amsterdam e gritou a um ciclista que se lhe atravessara no caminho. O rádio estava alto e o ar condicionado não funcionava. Talvez fosse do calor, ou da trepidação do carro ou por se sentir exausto, mas, em breve, adormeceu. O taxista acordou-o, rindo-se do descontraído irlandês. Apontou para um edifício impressionante de quatro andares, antigo pelos padrões americanos.

Seán pagou-lhe e saiu do carro. Ficou a observar o taxista ir-se embora antes de se dirigir para a porta.

Claro que eu não estava lá, mas Seán tem uma maneira de contar histórias que nos faz sentir quase como se lá tivéssemos estado. Por isso, tendo em conta que não presenciei a situação, as coisas correram mais ou menos assim.

Entrou num átrio vazio, tocou a uma campainha e aguardou resposta, endireitando a roupa como se fosse sair pela primeira vez com uma mulher.

Apareceu então uma senhora de meia-idade, sorridente.

– Que calor – disse ela.

– É verdade. Queria ver o Noel…

– O padre Noel?

– Isso mesmo – respondeu Seán, sorrindo pela primeira vez naquele dia. Pelo menos, encontrava-se no sítio certo.

– Ele está no café da esquina – explicou a mulher, apontando nessa direcção.

Ele agradeceu e voltou a sair para o calor, tirando o casaco e arregaçando as mangas.

Viu Noel através do vidro do café, antes de atravessar a rua. Parecia óptimo, vestia de modo informal. Tinha o cabelo um pouco mais comprido e ria-se, com o homem sentado à sua frente, sem fazer ideia da bomba que iria cair sobre ele. Seán perguntou-se se não se deveria ir embora. Talvez fosse melhor ir ver primeiro o hotel, tomar um duche e mudar de roupa. Talvez pudesse comer qualquer coisa a fim de ganhar forças. Quanto mais se aproximava do vidro, mais calor lhe parecia estar. Tinha o estômago a incomodá-lo novamente.

Credo, espero que não seja uma úlcera.

Entrou sem fazer barulho, mas a campainha na porta assinalou a sua entrada. Noel ergueu o olhar automaticamente e depois desviou-o antes de compreender, estupefacto, a situação e voltar a olhar para o velho amigo que entrara. Deu um salto da cadeira e Seán arranjou coragem para sorrir.

– Mas que diabo? – perguntou Noel, confuso e encantado ao mesmo tempo.

Seán limitou-se a sorrir, esperando sem esperança que Noel não se preocupasse até ser necessário. Noel semicerrou os olhos, interrogador.

Tarde de mais.

– Que fazes tu aqui? – perguntou, abraçando um Seán quase sem forças.

– Vim visitar-te.

– O que se passa? – perguntou Noel, preocupado com a possibilidade de ter acontecido alguma coisa a um membro da família.

– Não se passa nada – replicou Seán, mentindo, enquanto sorria ao amigo de Noel.

O homem retribuiu o sorriso.

– Vieste em negócios? – inquiriu Noel, levando-o até à mesa.

– Pois – deu por si Seán a dizer. Sentou-se.

O amigo de Noel debruçou-se na mesa para lhe apertar a mão.

– Sou o Matt. Prazer em conhecê-lo Seán apertou a mão a Matt.

– O prazer é meu – sorriu, infeliz por ter mentido, mas no entanto aliviado por conseguir adiar o assunto.

– O Matt é médico… tem trabalhado por todo o mundo. Seán sorriu-lhe.

– Já pensou em ir à Irlanda? Bem falta nos faz mais médicos.

– Creio que fazem talvez mais falta no Terceiro Mundo – respondeu Matt, com uma risada.

– Vá até ao serviço de urgências do St. James, numa noite qualquer, e depois volte a falar comigo – retorquiu Seán, agarrando na ementa.

Noel soltou uma gargalhada, feliz por lhe fazerem lembrar o seu país, mesmo que fosse através do miserável sistema de saúde que tinha.

– Como está a minha irmã? – perguntou, por fim.

– Está óptima. – Seán esboçou um sorriso franco, talvez pela primeira vez naquele dia. – Está a ficar gordinha.

– Já não falta muito – disse Noel.

– Não. – Seán suspirou e pousou a ementa. Não conseguiria comer nada.

– Parabéns – disse o médico.

– Obrigado – respondeu Seán, pensando que talvez Matt tivesse em breve de dizer o mesmo a Noel.

Conversaram durante um bocado com Matt. Seán recordou o Verão em que todos tinham estado a trabalhar em Nova Iorque. Matt falou sobre o 11 de Setembro e a devastação que ocorrera em algumas das zonas que Seán recordava com tanto carinho. Noel estava entusiasmado com uma viagem que faria a terras distantes a fim de lá melhorar as condições de vida das pessoas, antecipando o que o futuro lhe reservaria. Deus o abençoasse.

Então Matt saiu para ir encontrar-se com uma mulher. Não ficaram muito mais tempo no café. Noel estava desejoso de lhe mostrar a cidade. Seán insistiu que já lá estivera, que já visitara a cidade e perguntou-lhe se não poderiam ir para o quarto de Noel. Desculpou-se com o calor que fazia e Noel pareceu morder o isco completamente.

Voltaram ao hotel. Noel entretinha-se a apontar para os edifícios interessantes e os belos carros. Seán ia pensando em como haveria de lhe dar a notícia. Ao chegarem ao hotel, Noel conversou um pouco com o porteiro enquanto Seán saboreava o átrio com ar condicionado.

– Em Dublin está a chover – balbuciou Seán no elevador.

– Em Dublin chove sempre. – Noel riu-se.

Entraram no quarto e Seán atirou-se para uma cadeira. Noel arranjou as almofadas e sentou-se na cama.

– Então, de que precisas falar? – perguntou, descalçando os sapatos.

– O quê? – perguntou Seán, surpreendido.

– Estás em Nova Iorque por vinte e quatro horas e queres passá-las no meu quarto? – Noel riu-se. – Não creio. Qual é o problema?

Seán suspirou. Claro que Noel sabia que havia um problema, mas imaginava que fosse com outra pessoa. Por que razão pensaria de outro modo? Tratava-se sempre do problema de alguém, só que daquela vez não era assim. Noel fitava Seán com curiosidade. Estava na altura.

– É a Laura.

O Noel empalideceu de imediato.

– O que aconteceu? – inquiriu num tom de súplica, obviamente abalado e receando o pior.

– Ela tem um filho – proferiu Seán.

Noel ficou estarrecido. Eis um problema que não contara ter de resolver.

– O filho é teu.

Seán não conseguia olhar para o amigo. Noel não tirava o olhar de Seán.

– O quê? – inquiriu, apesar de não querer repetir a pergunta desesperada que fizera.

Seán percebeu.

– Fez um ano no mês passado. A Emma diz que o menino é a tua cara chapada.

Os lábios de Noel começaram a tremer, assim como as mãos. Não perguntou se Seán estaria a brincar. Sabia que ninguém faria milhares de quilómetros de avião para gozar com ele. Em vez disso, irritou-se, ficou tão furioso que o rosto enrubesceu e o olhar se tornou duro. Depois levantou-se e dirigiu-se a Seán, que instintivamente se levantou da cadeira e levou um murro na cara. Tombou, levando a mão ao olho esquerdo, sem conseguir acreditar no que se passara. Noel estava de pé junto dele.

– O que estás aqui a fazer? – resmungou rangendo os dentes. Seán ficou confuso, pois acreditava firmemente que acabara de declarar a razão da sua visita.

– Preferias que não tivesse vindo? – gritou, ainda no chão.

– Isto não é assunto teu! – bradou Noel enquanto se afastava.

– Tens razão – retorquiu Seán, levantando-se e sacudindo a roupa. – Isto não é assunto meu. Já tenho preocupações que me cheguem. – Fartara-se.

Saiu batendo com a porta, mas ainda ouviu o baque de Noel a cair de joelhos no chão.

Noel contou-me mais tarde que permaneceu horas e horas a balançar-se para trás e para a frente, a chorar em silêncio. A raiva que se apossara dele desapareceu tão depressa como surgira e ele ficou sozinho, perdido e arrependendo-se amargamente da explosão que tivera. Seán não merecia aquilo, mas suponho que, naquele dia, ele próprio se interrogava sobre o que merecia. Seria um castigo? Seria aquela a maneira de Deus o expulsar? Quebrara o seu juramento. Quem era ele para pensar que se poderia safar com isso? Sei que se sentiu enganado e desesperado. Era já noite quando se levantou do chão. Pegou num casaco leve e saiu para a rua. Andou a direito, seguindo pela rua que o afastava do hotel e da sua nova vida, sem saber para onde ia, mas ansioso por empreender a viagem necessária.

O meu irmão era o Forrest Gump.

* * *

Entretanto Seán estava na frescura do bar do seu hotel, cheio comida de bar e a beber cerveja gelada. Doía-lhe o olho, que começava a ficar negro, e viu a empregada a observá-lo. Ficara confuso com a reacção do meu irmão, mas lá no fundo parte dele entendia. Descobrir que se é pai é um choque tremendo. Se tivesse sido a Laura a dar-lhe a notícia, como devia ter sido, teria tido o mesmo tratamento? Achava que não. Lá se ia a gratidão. Talvez Noel tivesse preferido nada saber por enquanto, e até Seán e o seu olho negro admitiam que talvez tivesse sido melhor ser outra pessoa a dar a notícia. Afinal de contas, ele era apenas o tipo que engravidara a irmã de Noel. Não era grande qualificação para ser o mensageiro de uma notícia tão séria. Porém, também considerava Noel um amigo e esperara que Noel sentisse o mesmo por ele.

Após uma hora a remoer tudo aquilo na cabeça, chegou à conclusão de que estava desiludido. Desiludido por Noel ter reagido com ele daquela forma bem como à noticia de que era pai. Claro que fora um choque, e que lhe iria estragar os planos, mas no fundo não se tratava de Noel.

Seán bebera já metade da segunda cerveja quando compreendeu a verdadeira razão de estar tão desapontado com Noel e a sua amarga reacção. Recordou como reagira ao saber que ia ser pai. Recordou a alegria imensa, o sentimento maravilhoso de plenitude. Sentado num bar de hotel, com um olho negro e um estômago doente, concluiu que nunca seria como a mãe. Assim, naquele momento sentiu-se aliviado de um peso enorme e, pela primeira vez em semanas, e talvez pela primeira vez desde sempre, estava livre.

* * *

Noel caminhou pelas ruas de Nova Iorque quase toda a noite. Disse-me que chegara a Christopher Street por volta das quatro da manhã e aí ajoelhou-se no passeio e rezou. Disse para si próprio que tivera imensa sorte em não ser atacado, roubado, ou até assediado sexualmente. Talvez porque o que é estranho e assustador tenha tendência a manter-se afastado do que é estranho e assustador. Passada cerca de uma hora levantou-se e fez o caminho de volta. Passava das duas horas da tarde quando Noel foi bater à porta do quarto de Seán.

Seán arrumava a sua bagagem de mão, feliz por o check-out do hotel ser tarde. Abriu a porta ao meu contrito e desmazelado irmão. Noel entrou no quarto enquanto Seán continuava ocupado com a bagagem.

– Desculpa.

Seán virou-se para ele.

– Lamento ter sido eu a dar-te a notícia.

– Eu sei. – O meu irmão sentou-se numa cadeira parecida com a do seu quarto de hotel. – Como está o teu olho? – perguntou, apontando para a face inchada.

– Podia estar melhor – retorquiu Seán, com um meio sorriso.

– Lamento imenso, mesmo – disse Noel, com a cabeça entre as mãos.

– Não é o fim do mundo – afirmou Seán com autoridade.

– Poderá até ser um novo começo – acrescentou simplesmente, esperando não receber outro murro na cara.

– Não achas que estou a ser castigado? – perguntou Noel, abanando a cabeça.

– E tu, achas? – Seán sentou-se à beira da cama.

– Talvez. Não. Sim. Não sei – disse, resignado ao facto de que se tratava de um problema que não poderia ser resolvido numa noite de preces.

– Eu chamar-lhe-ia uma oportunidade – arriscou Seán.

– Uma oportunidade?

– Tens um filho, homem! – exclamou Seán, sorrindo, apesar de lhe doer todo o rosto.

– Então porque não me disse a Laura? Porquê tu? – perguntou, por fim, Noel.

– Tive sorte, apenas. – Seán tentou brincar um pouco. Noel não pareceu impressionado, por isso ele prosseguiu. – Escolheste o sacerdócio. Ela escolheu ter o bebé. Não queria sobrecarregar-te.

– Mas tu, sim? – perguntou Noel, erguendo os olhos para fitar os de Seán.

– A Emma descobriu. Não podia deixar de te contar. Se pudesse, teria vindo ela – explicou Seán.

– Lamento imenso – repetiu o meu irmão.

– Não te preocupes com isso. Na verdade, tinha algumas coisas em que pensar e é bom saber que não és perfeito. Começava a ficar realmente com um peso em cima. – Riu-se.

Noel sorriu.

– Com certeza não sou.

– E aqui a minha cara não te deixa mentir!

O meu irmão acompanhou Seán ao aeroporto. Esperou até ele embarcar. No respectivo portão abraçaram-se. Seán retirou do bolso uma fotografia do filho de Noel e deu-lha. Ele guardou-a no bolso para mais tarde. Era algo que queria ver sozinho. Noel entregou a Seán uma carta para Laura. Seán fez-lhe adeus e quando estava fora de vista o fantasma que costumava ser o meu irmão virou-se e foi-se embora.