Estarás Sempre Comigo
4 Sem adeus
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Sem adeus
O funeral foi poucos dias depois. A mãe de John pediu que fosse Noel a realizar cerimónia. É estranho não me lembrar muito disso, mas todos disseram que ele fez um belo trabalho. A igreja encontrava-se cheia. Estavam lá pessoas da nossa antiga escola, do liceu e, claro, colegas do trabalho, todos para darem um aperto de mão e partilharem o sofrimento. Proferiram palavras de simpatia; alguns choravam. Eu estava entorpecida. Junto à sepultura, as pessoas deram as mãos umas às outras e formaram um círculo. O coro de Noel cantou o Aleluia enquanto desciam o caixão de John à terra. Conseguia sentir a força do meu pai a agarrar-me, a sua presença reservada e omnipresente. O seu coração batia contra as minhas costas enquanto o caixão era descido. Segurou na minha mão quando atirei terra para a placa de bronze brilhante com o nome de John inscrito. Ouvi a sua mãe, angustiada, e senti a sua agonia à medida que as pessoas passavam e se benziam. Lembro-me de ser levada pelas mãos firmes dos meus pais, passando pelos coveiros que lá estavam, ansiosos por taparem a cova a fim de poderem ir para casa, como abutres pousados numa árvore à espera que um bezerro desse o seu último suspiro.
Recordo-me de estar sentada na sala dos pais de John em frente deles, rodeada pelos meus amigos, e de ver mãe de John a chorar enquanto distribuía sandes. A minha mãe e Doreen iam distribuindo bebidas e sussurravam uma com a outra, preocupadas a ver se todos tinham um prato de comida na mão. Doreen era a nossa vizinha, de cinquenta anos – chegara com um pão-de-ló no primeiro dia em que nos mudámos e depois tornara-se parte da mobília. John costumava dizer que ela viera incluída na casa. Doreen era amável, engraçada e perspicaz, forte, apaixonada e, sobretudo, uma adversária mortal. Era uma dublinense das antigas, sempre franca e muito directa, e uma segunda mãe para mim e para Noel. Muitas vezes íamos ter com ela quando surgia algum problema, porém, estávamos perante uma situação que nem a poderosa Doreen conseguiria resolver, e ela sabia disso, portanto, ia servindo a comida.
O pai de John sentou-se no jardim numa cadeira de plástico, sozinho e a beber uísque. O meu pai juntou-se a ele e permaneceram em silêncio, ambos com lágrimas nos olhos. Nada havia a dizer. Anne agarrava-se a Richard com todas as forças, com medo de o deixar ir, e eu sabia como ela se sentia. Seán instalou-se junto da janela da frente, a fumar cigarro atrás de cigarro e a olhar cegamente os carros que passavam. A solidão e culpa nos seus olhos eram impossíveis de ignorar e, para mim, era como se estivesse a olhar para o meu reflexo. Ele captou o meu olhar e virei-lhe as costas.
A culpa é minha.
Fiquei em casa dos meus pais duas semanas depois do funeral, mas já não me sentia em casa. Era uma visita. Noel também ficou e foi agradável, mas éramos todos adultos e todos os dias pareciam um almoço alargado de domingo.
Todos tentavam dizer-me as coisas certas, mas ninguém sabia quais eram, nem sequer Noel. Eu só queria ir para casa, mas estavam preocupados com as muitas recordações que o regresso me traria. Ninguém parecia perceber que não havia como lhes fugir e que as estimava. Queria andar pela casa e arrumar as camisolas dele. Queria cheirar a sua loção de barbear e deitar-me no seu lado da cama. Queria ouvir a nossa música e encostar as suas camisas ao rosto. Precisava de estar tão próxima de John quanto possível, para lhe poder pedir desculpa.
A culpa é minha.
Por fim, foi Noel que conseguiu convencer os nossos pais a deixarem-me ir embora. Foi ele que explicou os sentimentos que eu tinha dificuldade em partilhar. Ele sabia que estava certo querer regressar a casa, para que pudesse começar a apanhar o que caíra por terra. Assim foi. A minha mãe chorou muito quando saí e o meu pai amparou-a e sorriu-me corajosamente. Quando me abraçaram, foi difícil partir.
O meu pai agarrou-me com força e debruçou-se sobre mim, sussurrando ao meu ouvido:
– Ele era como um filho. Perdemos o nosso rapaz, mas vamos sobreviver.
As lágrimas que tinham secado em mim dias atrás caíram uma vez mais e fiquei grata pela libertação que me causavam. A minha mãe acenou com a cabeça, concordando com alguém invisível. Sentei-me no carro e olhei para a frente. Quando partimos, virei-me para ver o meu pai, amparando a minha mãe, que tremia.
A culpa é minha.
A casa encontrava-se vazia e gelada. Noel ligou o aquecimento. A cozinha ainda estava na confusão em que a deixáramos. Ele começou a limpá-la, mas eu impedi-o. Havia um CD do Nick Cave no leitor. John estivera a ouvir o seu novo álbum naquele dia. Eu queria ficar sozinha, mas o meu irmão foi fazer chá. Esperei que ele me falasse sobre os caminhos de Deus e de como tudo aquilo fazia parte do plano divino, e que John estava muito melhor agora, mas ele não o fez, e fiquei-lhe grata. Ficou para um café e, quando se apercebeu de que eu precisava de ficar sozinha, foi-se embora. Acenei-lhe um adeus e disse-lhe que iria ficar bem.
Mentirosa.
Sentei-me na sala a ouvir Nick Cave a cantar durante horas, a chorar, a rir, a falar com John, a falar comigo mesma, mas, principalmente, a chorar. Pus o atendedor de chamadas a tocar uma mensagem que ele gravara e ouvi-a vezes e vezes sem conta.
– Olá, ligou para o seis, quatro, zero, cinco, dois, seis, um. Estamos num lugar exótico, por isso deixe uma mensagem e, se gostarmos de si, ligaremos de volta.
A nossa casa tornou-se um museu e o meu presente era agora o passado. Sentei-me na cozinha e olhei para a sua caneca de café personalizada, o post-it que deixara no frigorífico a lembrar-me para arranjar a luz de stop no carro, o papel que trouxera da faculdade sobre o seu estúpido teste psicológico. Olhei para tudo o que lhe pertencera e chorei durante horas porque ele partira e por a culpa ser minha.