Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 13 de 26

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Estarás Sempre Comigo

12 Passou um ano

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Passou um ano

 

E eis que estávamos novamente em Março. Acordei na manhã em que o John faria anos sem ter realmente dormido. Às nove da manhã, a minha mãe ligou. Sabia que era ela e por isso a chamada foi recebida pelo atendedor.

– Emma, é a tua mãe. Atende o telefone. Sei que estás acordada. Emma! – Silêncio. – O teu pai disse que não tencionas ir à missa em memória do John. O que irão os pais dele pensar? Sei que sofres muito, meu amor, mas és adulta e não podes… Olha, todos vão estar à tua espera. Anima-te, querida. Eu ligo-te daqui a uma hora. – Desligou.

Sabia que ela tinha razão, mas convencera-me de que estava doente. Doía-me a cabeça. Não queria ir, mas ela tinha razão: Eu era adulta. Não me sentia como tal. Já antes disse que a dor é egoísta pela sua própria natureza. Nos funerais, choramos por nós próprios, pela nossa dor, a nossa perda, pelo nosso sofrimento e este não desaparece após uma semana, um mês, ou até mesmo um ano.

O problema é que, passado um certo tempo, é inaceitável ser-se egoísta e, portanto, é inaceitável lamentarmo-nos. Sentia falta de me permitir esse luxo, mas novamente ela tinha razão. Eu tinha responsabilidades. Fui à casa de banho e vomitei. Vomitei as minhas tripas e jurei nunca mais beber uma garrafa de vodca sozinha. Tomei duche e vestia-me quando Seán apareceu. Já entrara em casa, visto ter perguntado a Noel pelo paradeiro da minha chave de reserva. Desci as escadas e ele estava a fazer café.

– Noite difícil? – perguntou ele.

Aparentemente eu parecia um farrapo.

– Pode dizer-se que sim – respondi, e sentei-me à espera que me servisse.

– Eu disse-te que não ia à missa – declarei passados uns minutos, irritada por ninguém parecer ter dado conta da minha decisão.

– Sim, disseste – concordou ele, enquanto eu observava Leonard a perseguir a cauda, questionando-me como poderia aquilo ainda ter tanto interesse depois daquele tempo todo. – Eu sabia que irias mudar de opinião – acrescentou, limpando o balcão onde tinha entornado algum leite.

– Lá por eu estar vestida não quer dizer que tenha mudado de ideias – respondi, num tom zombeteiro.

Ele sorriu e olhou para a minha cara inchada, que eu tentava esconder entre as mãos.

– Quer sim. Além disso, a tua mãe disse-me para eu vir cá. Na verdade, ela ameaçou-me com umas traulitadas se eu aparecesse sem ti. Uma velhota dura de roer, a tua mãe.

Sorri. Ele tinha razão: Ela era uma velhota dura de roer, e, eu sabia que ambos tinham razão. Eu devia ir. Não havia escolha possível. Os pais de John compreenderam a minha decisão de não comparecer ao inquérito, mas isto era algo completamente diferente.

– Suponho que deva ir pôr alguma maquilhagem, então.

Ele concordou.

– Não se perde nada.

Dirigi-me ao quarto e sentei-me ao toucador. Peguei numa fotografia minha e de John. Estávamos a rir. Ele tinha o braço à minha volta e sussurrava-me ao ouvido. Quem me dera lembrar-me do quê. É claro que iria à missa em sua memória; só estivera a ser parva. Como poderia não ir? Como poderia não me lembrar dele naquele dia? Fiz a minha maquilhagem e beijei a foto.

Não posso acreditar que já passou um ano.

Desci as escadas e Seán estava à espera com o meu casaco. Ele aplaudiu-me.

– Vamos – disse eu, e ele estava mesmo ali atrás de mim.

* * *

Noel celebrou a missa. Depois, reunimo-nos todos na casa dos pais de John. Havia música; as pessoas beberam e recordaram-no. Rimo-nos e convivemos. A minha mãe cantou uma canção e o pai de John acompanhou-a ao seu piano desafinado. A mãe de John e eu falámos durante bastante tempo. Ela contou-me as coisas que ele costumava fazer e dizer em bebé e eu falei-lhe sobre como eu e John nos sentíamos tão bem juntos. Seán e Richard cantaram Willy McBride e Clo contou anedotas, enquanto Anne e Noel debatiam a lei do divórcio.

Nessa noite, deitei-me relembrando o dia que tanto temera. Fora agradável porque, pela primeira vez num ano, todos os que haviam perdido John o relembraram juntos, calorosamente e com humor, e isso era justo e correcto.

* * *

Andava perdida num vasto jardim rodeada por flores exóticas que brotavam de areia macia e verde. Observei o ambiente surreal em que me encontrava, com atenção especial para um arbusto ardente que brilhava à distância. Sem ter a certeza de onde me encontrava ou do que estava a fazer, dirigi-me para um sol púrpura a pairar acima de uma árvore com muitos troncos que, por alguma razão, me parecia familiar. Enquanto andava, as folhas pareciam crescer nos ramos da árvore. Não tinha medo; estava muito calor para ter medo. De repente, encontrava-me a subir um monte – com os olhos ainda firmemente fixos no sol púrpura que naquela altura parecia girar à minha volta. O monte nivelou-se debaixo dos meus pés e, quando me aproximei da árvore entretanto florida, uma brisa suave trouxe-a à vida. Papoilas azuis dançaram por entre a folhagem espessa, que continuava a enredar-se ao longo dos ramos da cerejeira. O sol púrpura saltou como se fosse uma bola atirada por uma mão invisível, mas poderosa. De repente, começou a voar na minha direcção. Não me baixei. Em vez disso, apanhei-o e atirei-o de volta.

John apanhou-o e sorriu.

– E pensei eu que tinhas medo de bolas voadoras.

Ele sorria e, enquanto se dirigia até mim, atirou o sol para trás do ombro. Este saltitou uma vez mais antes de regressar ao sítio onde estivera pendurado.

Estávamos juntos, olhando um para o outro sob a brilhante luz púrpura, e tudo parecia perfeitamente normal.

– Onde tens estado? – perguntei, como se ele tivesse regressado de uma noitada.

– Por aí – respondeu, sorrindo.

– Senti a tua falta.

– Eu sei. Acreditas que já passou um ano?

Ele que sorria da maneira que costumava sorrir quando éramos miúdos e ele achava que sabia tudo.

– Está um dia lindo – disse eu, sem nenhuma razão de especial.

Ele olhou em volta e acenou com a cabeça, concordando.

– Sim, pois está.

– Ainda te amo – disse eu casualmente.

Ele riu-se e os seus olhos pareceram iluminar-se.

– Irás amar-me sempre.

Ri-me. Ele fora sempre um grande arrogante.

– Fiz sexo com outra pessoa – confessei, um pouco envergonhada.

– Como foi? – perguntou, imperturbável.

Continuávamos a caminhar juntos, mas eu estava sempre a parar para olhar para a sua familiaridade.

– Bom… No fundo, foi uma grande treta.

Ele assentiu, aceitando que não tínhamos de falar sobre aquilo. Estávamos tão próximos, mas não nos tocámos.

– Pensei que nunca mais te iria ver – disse eu.

– Estou sempre aqui.

Olhei em volta.

– Onde?

– Onde quiseres que eu esteja.

– Tretas, estás morto.

– Sabes o que quis dizer.

Então foi-se embora, deixando-me para trás. Chamei-o. Não respondeu. Determinada, apanhei-o e vi a estranha folhagem a desaparecer à nossa volta. A areia verde levou-nos a uma árvore de papoilas azuis. Ele sentou-se e fez-me sinal para que me juntasse a ele. Olhámos para a paisagem arroxeada que se estava a tornar num painel de fundo do jogo virtual Pacman, tal como o que costumávamos jogar horas a fio.

– Desculpa – disse eu.

John parou e olhou para mim seriamente.

– A culpa não foi tua – disse ele, mas lá está, era claro que ele diria isso.

– Se… – sussurrei, timidamente.

Ele estava a rir de novo e ver o seu sorriso largo e os grandes olhos lembrou-me de como costumávamos ser.

– Se, se era um burrinho que nós todos já montámos. – Ele riu-se de si mesmo e consegui senti-lo pegar na minha mão.

Estava surpreendida por conseguir sentir a sua forma, a sua força e o seu pulso. Apertei com força e ele devolveu-me o aperto.

– Vamos aonde agora?

– Basta bateres com os calcanhares um no outro – disse-me. Sorriu e senti o coração despedaçar-se.

– Estou a sonhar – observei, apanhando a lágrima solitária que caiu e se espalhou na minha mão aberta.

John olhou à volta e sorriu.

– Sempre tiveste uma grande imaginação.

– Mas parece tão real. És tu. Eu sei que és tu.

Empurrei-o suavemente e ele caiu contra uma árvore.

– Tenho de te confessar uma coisa – disse-lhe, após algum tempo.

– Estás a apaixonar-te por outra pessoa – disse ele, sorrindo.

– O quê? – gritei, devastada. A minha confissão tinha a ver com a sua mãe e a nossa falta de contacto. – Não estou! – gritei-lhe. – Mas quem pensas que és para me dizeres o que eu estou a sentir?

– Só tu é que poderias ter uma discussão com um morto. – Ele riu-se.

– Só tu podias estar morto e, mesmo assim, ser tão irritante – respondi, e, de repente, tudo se tornou muito engraçado e ambos nos rimos, mas eu continuava triste por ele pensar que eu pudesse amar outra pessoa. Ele devia saber que eu não estava preparada para ele saber isso, então, distraiu-me ao segurar-me na mão enquanto me sussurrava recordações e, depois, sentámo-nos em silêncio e confortavelmente por muito tempo. Eu sentia o tempo passar e, no fundo do meu coração, sabia que era altura de me ir embora.

– Tenho de ir – suspirei.

– Eu apanho-te pela estrada – disse ele, levantando-se. Estendeu a mão e agarrei-me a ela enquanto ele me puxava para cima. Eu puxei-o com força até mim e abraçámo-nos como velhos amigos ou familiares fariam num aeroporto. Conseguia sentir o bater do seu coração e a sua respiração no meu ombro.

– Vai – sussurrei eu sem lágrimas, ou medo, ou tristeza, ou arrependimento, ou remorso.

Afastei-me, acenei-lhe um adeus final e depois ele partiu. Eu apaixonada por outra pessoa! Como se fosse possível! Que parvalhão! E além disso é ainda por minha culpa, sim, diga ele o que disser.