Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 14 de 26

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Estarás Sempre Comigo

13 Sexo, mentiras e vídeo

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Sexo, mentiras e vídeo

 

P ouco tempo após o aniversário de John, ocorreu-me, enquanto estava a pôr roupa a lavar, que Noel era o único de nós que aparentava ter mudado radicalmente desde a morte de John. Não tinha a certeza até que ponto ele mudara, mas também nunca afirmei ser sensível a ponto de perceber tudo. Não sabia que a mulher que eu conhecera todos aqueles meses antes era a razão da sua mudança; de facto, andava mesmo muito fechada no meu mundo. Enquanto eu ia cambaleando de um dia para o outro, o meu irmão também o fazia. O seu novo mundo era tão estimulante e agradável quanto assustador e cheio de sentimentos de culpa.

Após essa noite, eles encontraram-se novamente e foi durante esse encontro que reconheceram os sentimentos que nutriam um pelo outro. Também se aperceberam de que uma relação estava fora de questão. Concordaram que eram adultos e, embora ambos admitissem a sua solidão, decidiram que a amizade era a única solução.

Isso dera resultado durante alguns meses, o único problema era que quanto mais conheciam um do outro, mais confiavam um no outro, e quanto mais se viam, mais difícil se tornava negar o sentimento que acalentavam. Noel nunca sentira aquilo. Em adolescente, era demasiado tímido para se importar com raparigas. Quando jovem adulto, estava tão desesperado por se tornar padre que não tinha tempo para mulheres, mas, agora, era como nós todos, trabalhava para viver e ia para casa ao fim do dia para nada encontrar. Tinha a confiança que se adquire como homem e tempo para pensar em mais nada.

Logo no início, fora visitar o bispo para procurar a orientação de um homem que pudesse compreender a sua agonia e aconselhá-lo. Não resultou como ele tinha esperado. O bispo fora amável, mas rígido. Pouco adiantou e nem compreendeu Noel.

– Você fez um voto – argumentou. – Tal como no casamento, para os bons e maus momentos. Você é um padre.

Noel concordou. Sabia o que era, mas precisava desesperadamente de ouvir outra coisa, embora não tivesse a certeza do quê.

– Que posso eu fazer? Como posso voltar a ser o padre que era? – perguntou, rezando para que o velho homem tivesse uma resposta.

– Não a veja mais.

Era isso. Essa era a grande solução para o desespero de Noel. Noel meditou nisso.

– Não posso. Amo-a.

Saiu da casa do bispo apercebendo-se de que, pela primeira vez, estava apaixonado e, quando telefonou mais tarde para casa dela, não foi para lhe dizer adeus.

Andavam a dormir juntos havia seis meses. Ele nunca sentira tantos altos e baixos no seu mundo protegido antes de encontrar o amor. Rezou durante muito tempo e tentou escutar a palavra de Deus, mas as palavras não vieram. Ele agora tinha uma vida, uma vida fora da Igreja e de Deus, e era real. Aquela mulher era real. Ela envolvia-o nos braços e mantinha-o a salvo, seguro, neste mundo pouco seguro. Ela beijava-o com ternura quando ele chorava e dava-lhe o género de prazer que ele nunca antes conhecera. Ele estava mais feliz do que alguma vez fora na sua vida e isso destroçava-o.

Como pude eu não ver nada?

* * *

Richard estava desesperado por se mudar para a sua nova casa de campo em Kerry. Anne não queria mesmo ir. No seu íntimo era uma rapariga da cidade. Como sempre, Richard iria levar a sua avante. O plano já estava delineado. Infelizmente para Anne, o nosso amigo Richard não estava habituado a dar tanto como a receber. Clo, Seán e eu fomos a casa deles ajudá-los a empacotar as coisas. Seán levou cerveja, mas havia pouco tempo para beber. Os homens das mudanças iam a caminho e faltava muita coisa para arrumar. Anne estava a transformar-se na mãe, gritando ordens para o marido enquanto limpava cada superfície livre, aterrorizada com a possibilidade de que estranhos se lembrassem algum dia dela como uma pessoa suja. Clo preparou-lhe uma chávena de chá. Tínhamos de trabalhar, empacotar, etiquetar, fazer perguntas estúpidas como: «Para onde é que isto vai?» Às quais Anne ou Richard gritavam: «Para a porcaria de uma caixa!» Andei às voltas pela casa vazia com uma sensação de estranheza.

Na verdade, não conseguíamos acreditar que eles iriam levar aquilo avante. Quando estava tudo empacotado, Anne fez o almoço e comemos em silêncio na cozinha deles, agora vazia. Parecia um funeral.

– Não acredito que vocês se vão mesmo embora – disse eu, pela quinta vez.

– Nem eu – respondeu Richard entusiasticamente.

Anne permaneceu em silêncio. Mantivera-se calada o dia todo, e todos, excepto o marido, estávamos cientes de que ela não queria mudar-se para Kerry. Acabámos de almoçar. Os homens das mudanças ainda não tinham chegado.

– Sacanas – observou Anne, agitada.

Sentámo-nos em silêncio à espera deles. Richard estava distante, no seu pequeno mundo, a sonhar com golfe e pesca. Anne parecia rígida como um veado ofuscado por faróis. Clo e eu estávamos mergulhadas num grande pesar com a partida dos nossos amigos.

Seán acabou por se irritar.

– Olá, será que alguém pode dizer qualquer coisa, por favor?

Ninguém o ouvia.

– Olá? – repetiu ele. – Muito bem, já chega! Vou beber uma cerveja.

Levantou-se e foi buscar o seu saco com cervejas quentes enquanto murmurava que não podia acreditar que tinham despachado as coisas importantes como cadeiras e o raio do frigorífico em primeiro lugar. Começou a beber. Clo saiu do coma em que estivera.

– Ei, e nós? – perguntou ela, aborrecida.

– Ah, agora há alguém que fala!

Ela sorriu.

– Ficarias surpreendido com o que eu faria por uma bebida.

Ele pensou nisso por uns segundos.

– Não, provavelmente não ficaria.

Sorriu.

– Ah sim, provavelmente tens razão.

Eu detestava quando começavam com aquele género de namorisco, sobretudo quando isso incluía uma menção da sua pequena aventura. Pedi uma cerveja para mudar o tema de conversa. Anne e Richard decidiram juntar-se a nós. Então, lá estávamos a beber cervejas numa casa vazia, enquanto esperávamos que os homens das mudanças chegassem e levassem os pertences dos nossos amigos, e, com estes, os nossos próprios amigos. Clo animou-se após beber a segunda cerveja.

– Conheci uma pessoa esta semana – disse-me então.

Isto despertou considerável interesse porque desde a perda do bebé ela havia decidido que todos os homens tinham pilas, e, portanto, não passavam de uns pilas. Isto significava que deveriam ser evitados a todo o custo.

– Quem? – perguntei.

Ela contou-nos então que era um designer gráfico que trabalhara na sua última campanha. Tinham ido almoçar algumas vezes, e as coisas correram realmente bem. Não dormira com ele, mas estava de facto bastante interessada. Contou que ele a fazia rir e que era simpático. Gostava especialmente da maneira como ele lhe oferecia sempre comida do seu prato. Era giro, parecido com o Mulder dos Ficheiros Secretos. Além disso, tinha uns dentes impecáveis e ambos gostavam dos mesmos filmes. Todos concordámos que ele parecia muito bem para ela, mas desconfiámos que estaria a mentir ao dizer que gostava dos mesmos filmes, porque o gosto de Clo em filmes era muito esquisito.

Eu recordei-a de que ela se tinha declarado lésbica na semana anterior. Ela concordou, observando que isso lhe parecera uma boa ideia. No entanto, após ter pensado melhor, chegara à conclusão de que os homens podiam ser uns sacanas, mas as mulheres eram umas cabras, e as fotografias de raparigas nuas não a excitavam.

O novo interesse amoroso de Clo chamava-se Tom Ellis. Ia encontrar-se com ele, para uma bebida, um pouco mais tarde, e estava muito entusiasmada com isso. Por instantes, invejei-a, mas depois lembrei-me de que a maioria dos encontros implicava conversas de longas horas, baseadas em signos astrológicos, e fiquei feliz por ir a caminho de casa ter com o gatito Leonard.

Os homens das mudanças chegaram e nós ajudámos a transportar as posses mundanas de Anne e Richard para a carrinha e, a seguir, estavam prontos para partir. Tínhamos ido todos para o jardim. Anne entrara mais uma vez em casa para dar uma última vista de olhos. Richard explicava o caminho aos homens. Ao fim de algum tempo, fui atrás dela. Encontrei-a na cozinha.

– Olá – anunciei-me.

– Olá – ela sorriu. Parecia prestes a chorar.

– Vai ser bom em Kerry, vais ver. A casa é fantástica; fica ao pé do mar, imagina, por amor de Deus. Além disso, o sítio parece óptimo, e, se quiseres, vais encontrar lá um trabalho, sem problema. Estás apenas a oitenta quilómetros de Cork, e lá há tudo o que há em Dublin. – Eu ia embalada na história, mas ela interrompeu-me.

– Não há os meus amigos – retorquiu calmamente.

Compreendia como ela se sentia.

– Podemos sempre falar ao telefone e o Richard ainda tem o seu trabalho em Dublin. Podes aparecer e visitar-nos quando quiseres, e nós iremos visitar-vos. Vai ser bom – disse eu, tentando confortar-me tanto a mim quanto a ela.

O rosto dela iluminou-se.

– Eu sei, eu sei e tens razão. Kerry é lindo, e a casa é linda e as pessoas parecem simpáticas, e é mesmo uma pequena vila pitoresca e o Richard adora aquilo. É um óptimo local para criar filhos e eu sei que somos uns sortudos, mas só espero que não estejamos a cometer um erro.

Eu também esperava que não. No fundo, queria dizer-lhe que não fossem. Iria até oferecer-me como voluntária para esvaziar todos os caixotes. Porém, limitei-me apenas a colocar o meu braço à volta dela.

– Vai correr tudo bem – disse eu.

Ela sorriu.

– Promete-me que só porque vou viver noutro sítio não me vais esquecer. Está bem?

Ri-me.

– Por Deus, Anne, tu passas imenso tempo ao telefone! Não te conseguia esquecer nem que quisesse.

Rimo-nos e Richard entrou para nos chamar. Deu uma vista de olhos à casa.

– Adeus, espelunca! – proferiu, em despedida.

Anne murmurou «homens» e trancámos a porta atrás de nós. Abraçámo-nos ao pé do carro deles. Richard disse-nos para os visitarmos no Natal. Concordámos. Seán e Richard planearam uma ida ao Reino Unido para um jogo de futebol, no mês seguinte. Anne e eu desfizemo-nos em lágrimas. Clo andava atarefada a tirar fotografias, que era agora o seu novo passatempo. Arrancaram, e Seán, Clo e eu ficámos no portão deles a dizer adeus.

– E então ficaram três – sussurrou Clo, e tive vontade de chorar novamente.

Seán esfregou as mãos.

– Quem vem beber uma cerveja?

Clo recusou, dizendo que tinha de ir para casa, tomar um duche e embelezar-se para o adorável Tom Ellis. Eu aceitei. Leonard podia esperar; comera três latas de comida ao pequeno-almoço. Não podia ser saudável.

Sentámo-nos no pub habitual de Seán e falámos sobre o encontro iminente de Clo, o que nos levou a discutir o nosso triste e deprimente estado de solteiros. Eu não tentara sequer um encontro desde que estivera com Ron e o último encontro de Seán fora um fracasso total, com uma caçadora de homens.

Ali estávamos com as cervejas na mão, conformados.

– Então voltaste a saber alguma coisa da Carrie? – perguntei. Carrie fora o nome com que baptizáramos a sua caçadora, sendo o seu verdadeiro nome Janet.

– Não, graças a Deus. Ouvi dizer que anda a sair com o Pete, da contabilidade – disse ele.

Não podia acreditar naquilo. Carrie era doida.

– Então presumo que o Pete saiba que ela é maluca?

– Bom, se anda com ela, deve saber – respondeu ele, e sorriu para si mesmo, satisfeito com a sua esperteza.

– Não te faças de esperto, não é nada atraente – disse eu e continuei, aborrecida: – Não acredito que ainda não o avisaste.

– Tu farias a mesma coisa – observou ele.

Fiquei indignada.

– Claro que não faria!

– Farias, sim. Se tivesses um maluco a bater à tua porta de cinco em cinco minutos e ele arranjasse outro entretém, não ias desperdiçar isso.

Abanei a cabeça.

– Alguma coisa se passa contigo.

– Tu farias a mesma coisa.

Mudei de assunto porque ele sabia que eu sabia que ele tinha razão. Após mais algumas cervejas, comecei a falar sobre o futuro. Sentia-me preocupada porque, da maneira como eu via as coisas, Clo tinha estado com muitos rapazes, todos eles uns parvalhões. Eu encontrara uma pessoa, o rapaz perfeito, aos dezasseis anos. Ele era o Tal, mas partira para sempre. Pela lógica, eu estaria destinada a viver anos de relações com grandes imbecis antes de encontrar, se é que iria encontrar, a pessoa certa outra vez. E se nunca encontrasse a pessoa certa? E se eu ficasse tão chateada de partilhar o meu pequeno e solitário mundo com o gato Leonard e o seu problema com a comida e decidisse casar-me com um parvo qualquer, só para ter alguém? Começava a sentir-me invadida por pânico.

Seán riu-se.

– Isso não vai acontecer.

– Mas pode acontecer – argumentei.

– Nem pensar – afirmou ele.

– Porquê? Porquê nem pensar?

– Porque – ele sorriu.

– Porque o quê? – insisti.

– Porque nunca te contentarias com isso.

Sorri.

Aquilo fora simpático da parte dele, até me dizer a seguir:

– Tu és de manutenção muito cara.

Porém, decidi ignorar a observação.

Ficámos em silêncio novamente. Pareceu-me, apesar de toda a nossa conversa, que Seán estava preocupado. Olhava taciturno para a bebida e ia brincando com a orelha esquerda.

– Pareces um pouco em baixo – disse eu.

– Pareço?

– Sim.

– Porque dizes isso? – perguntou, intrigado.

– Sabes como tiro o cotão invisível da roupa quando estou nervosa? – retorqui, e ele assentiu. – Bom, tu estás a mexer na orelha esquerda.

Ele sorriu e tirou a mão da orelha.

– Queres saber o que se passa?

– Sim.

– Porquê?

– Em parte para ajudar e em parte para sentir que não sou a única com preocupações.

Ele riu-se.

– É um assunto delicado.

– Delicado? Delicado como?

– Bem, sabes que trabalho num escritório com dez mulheres e vinte homens.

Assenti. Sabia.

– Muito bem, então dorme-se com algumas dessas mulheres e é bom, mas depois dorme-se com mais algumas e, bem, as mulheres falam.

A conversa tinha tomado um rumo interessante e a minha curiosidade gritava: Vai directo ao assunto!

– Acontece que algumas delas andaram a comparar apontamentos e está algo escrito sobre mim na parede da casa de banho das mulheres.

– O quê? – perguntei, interrogando-me silenciosamente se quereria mesmo saber.

Ele desembuchou.

– O Seán Brogan é bom a fazer sexo oral.

Quase me engasguei com a bebida.

– Agora, quando estão juntas, assobiam sempre que eu passo. Sinto-me violado – continuou ele, tendo voltado a mexer na orelha esquerda.

Eu não sabia mesmo o que dizer. Parte de mim queria rir e outra parte queria apanhar fios invisíveis das minhas calças, por isso cruzei os braços.

– Eh pá! Isso é terrível – disse eu, esperando não corar.

Senti pena dele. Devia estar a falar com um homem. Eu não servia de nada.

– É um grande pesadelo. A Carrie está envolvida nisso e a cabra tem fotos!

– Meu Deus! – exclamei, agora a sentir-me muito desconfortável.

– O que farias tu? – perguntou ele, muito sério.

– Mantinha a cabeça baixa – retorqui.

De repente, ele estava a rir e apercebi-me do que tinha dito e fiquei sem jeito.

Mantinha a cabeça baixa. Não acredito que acabei de dizer aquilo.

Depois dei por mim a rir também.

Após mais algumas cervejas, Seán decidiu nunca mais dormir com colegas de trabalho, e bebemos à sua sensata decisão.

Cheguei a casa por volta das dez; Seán foi encontrar-se com uma rapariga com quem não trabalhava. A televisão estava ligada e ouvi a chaleira a ferver na cozinha. Como vivia sozinha, isso era estranho.

– Noel? – chamei, erguendo alto o meu guarda-chuva enquanto decidia tentar acertar nos testículos. – Noel? És tu?

Eu estava virada de costas para as escadas e apontei o guarda-chuva para a porta entreaberta da sala.

– Ei! – ouvi atrás de mim, e virei-me, executando alguns movimentos violentos com o guarda-chuva.

– Sou eu… o Noel! Não me mates, por favor! – exclamou, sorrindo, enquanto punha as mãos no ar.

– Meu Deus, Noel, assustaste-me! – disse, abalada.

– Desculpa, não era minha intenção. Estava na casa de banho e, por favor, não uses o nome do Senhor em vão. – Ele sempre tivera cá um descaramento!

– É a minha casa! Digo o que me der na veneta. – Deixei cair o chapéu-de-chuva no pé enquanto falava. – Meu Deus, o meu pé! – Ele ia a falar, mas eu fui muito rápida. – Cala-te! É a minha casa!

Ele disse-me que eu iria sobreviver àquilo e depois segui-o até à cozinha. Fez café e contou-me que receava que eu pudesse sentir-me mais sozinha, agora que Anne e Richard se haviam mudado para Kerry. Ele tinha mesmo um grande descaramento, mas também era muito simpático. Jurei que estava bem e, após as bebidas com Seán, contava a verdade. Contei-lhe o que estava escrito na casa de banho das mulheres e rimo-nos à custa do Seán.

Depois, sem mais nem menos, Noel observou, pensativo:

– Creio que essa é uma das razões pelas quais os padres devem permanecer em celibato. O padre Noel faz bom sexo oral não soa nada bem.

Ri-me.

– Não sei… parece que existem muitos padres que o fazem! – Ri-me de novo com a minha piada.

Ele pareceu pouco à vontade.

Pedi-lhe desculpa, percebendo de repente que o comentário não era de bom tom.

– Desculpa, Noel, foi uma piada foleira.

– Tudo bem. – Sorriu-me, mas o ambiente mudara.

Perguntei-lhe o que se passava.

– Nada – respondeu.

– Vá lá – insisti. – É óbvio que se passa qualquer coisa, até para mim, e todos sabem que sou uma egocêntrica.

Ele sorriu.

– Isso é verdade.

Encorajei-o a desabafar e ele explicou-me o que se passava. Contou-me que estivera sozinho demasiado tempo. Havia passado tantos anos a defender o seu celibato que se recusara a questionar a necessidade deste, até àquele momento. Conhecera uma pessoa. Ela era assistente social, andava na casa dos trinta e separara-se do marido; tinham simpatizado imediatamente um com o outro. Disse-me que ela era bonita e engraçada. Era inteligente e dizia-lhe o que pensava quando ele a aborrecia, e ninguém o fazia excepto a família. Disse que ela o fazia sentir-se um homem. Permaneci em silêncio a ouvi-lo falar-me da cor do seu cabelo, e vi-o sorrir ao lembrar-se disso. Falou sobre a sua ternura e o modo franco como sorria.

Contou-me que um olhar dela o fazia questionar tudo o que ele era e tudo o que ambicionava da vida. Pela descrição, percebi que falava da mulher que eu vira com ele no pub, meses antes. Fiquei sem palavras. Normalmente era muito boa a dar conselhos, mas permaneci muda, ocupada a tentar habituar-me à ideia do meu irmão como um ser sexual. Contudo, era mais do que isso. Todos aqueles anos eu julgara que aquilo em que o meu irmão acreditava lhe bastava para o manter quente à noite, para o fazer sentir-se acompanhado nas manhãs de Inverno, para o compensar por ele viver sozinho, mas, afinal de contas, estava enganada. Ninguém fora feito para ficar sozinho, especialmente aqueles que dedicam a vida a cuidar dos outros.

A minha vontade era dizer-lhe que desistisse de tudo e fugisse com ela para a Jamaica, mas reconheci que não tinha ideia do que ele estava a passar e que, na maioria das situações, não existe uma resposta fácil.

– Meu Deus! – exclamei, antes de me desculpar rapidamente. Era o mínimo que podia fazer, dadas as circunstâncias.

Permanecemos calados durante algum tempo.

Pouco depois, aventurei-me a perguntar:

– Já a beijaste?

– Temos estado juntos, Em – respondeu ele, sem conseguir encarar-me.

– Oh – disse eu, apercebendo-me de repente da razão por que o meu irmão parecia tão desesperado. E então?, quis gritar, mas, sabendo que não iria ajudar, engoli as palavras. – Estás apaixonado?

– Sim – murmurou ele.

– O que queres fazer? – perguntei, gentilmente, com medo de que a minha pergunta o destroçasse.

– Só queria poder ser um padre sem ter de sacrificar nada. Não é justo. Passei a minha vida a casar pessoas e a baptizar bebés, e nunca terei nada disso, mas, quando olho para ela, desejo isso. Quero acordar junto dela pela manhã. Quero ter filhos a correr para a nossa cama às seis da manhã de um sábado. Quero ir a reuniões de pais à noite e pedir desculpa pelos meus filhos não serem capazes de se calar na sala de aula, mas o problema é que preciso de ser padre. Não consigo imaginar a minha vida a fazer outra coisa. Sei que estou cá para isso. – Afundou a cabeça nas mãos e chorou como uma criança. – Estou tão sozinho, Emma.

Abracei-o e disse-lhe que tudo iria correr bem, esperando que assim fosse. Ele pediu desculpa, embaraçado por estar a partilhar os seus problemas como nunca o fizera. Permanecemos em silêncio um momento.

– A vida é ingrata – disse eu.

– É mesmo – concordou ele.

Rimo-nos.

– As coisas têm de ser melhores do que isto – declarei.

– Sim. – Ele suspirou.

– Serão com certeza. Só tens de lutar por isso. Não é?

– É – respondeu tristemente.

Disse que se devia ir embora, mas eu queria que ele ficasse. Ele não discutiu.

Mais tarde, estava deitada na cama a pensar nas revelações do meu irmão. Ele passou à porta, voltando da casa de banho.

– Boa noite, Noel!

– Boa noite!

Sorri.

Meu Deus, mal posso esperar para contar à Clo.