Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 25 de 26

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Estarás Sempre Comigo

25 Ansiosa por te ver

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Ansiosa por te ver

 

F ui eu que entreguei pessoalmente a carta. Era o mínimo que poderia fazer, dadas as circunstâncias. Laura foi amável e ofereceu-me um chá, mas não abriu a carta durante a minha curta visita. Expliquei-lhe o choque do meu irmão sem referir que fora algo desagradável para com o amigo. Seán defendera-o. Contudo, eu não era tão tolerante. No que me dizia respeito, Seán gastara trezentas libras no voo. O mínimo que o meu irmão podia ter feito era refrear o impulso de o esmurrar na cara. Laura manteve-se notavelmente calma tendo em conta a situação difícil em que se encontrava. Era uma hippy, no íntimo, e pensei que fosse por isso, embora não soubesse exactamente porquê. Foi muito meiga comigo em relação à minha gravidez, deu-me alguns chás e alguns conselhos para aguentar o parto. Noel Júnior nascera de parto natural, e ela insistia que a posição de cócoras era a melhor para dar à luz. Tentei sorrir com o seu relato vivaz sobre a beleza de trazer uma criança ao mundo, enquanto ia pensando em pedir uma epidural na visita seguinte ao hospital. Noel Júnior brincava entretido com uma caixa de cartão a um canto da cozinha enquanto repetia um som que se parecia com qualquer coisa como «estúpido».

– Não lhe ligues – prevenira ela.

– Está bem.

Sorri, sorvendo o chá que sabia a casca de árvore.

– Ele é muito desenvolvido – observei.

Com um ano e ser já capaz de pronunciar a palavra «estúpido» não era feito de somenos importância, mesmo que não fosse a melhor palavra para começar.

Ela riu, concordando, e observou que ela própria começara a andar aos oito meses.

– Então ele deve sair a ti, o Noel não levantou o rabinho do chão até aos dois anos.

Laura riu-se novamente.

– É de admirar que não se pusesse de joelhos – disse, com um sorriso.

Gostava realmente dela. Tinha grande sentido de humor e uma calma interior que eu não possuía. Era fácil entender por que razão o meu irmão se apaixonara por ela. Com excepção dos seus chás de sabor horrível e de ter admitido ser fã do Neil Diamond, era uma verdadeira jóia.

Tive vontade de lhe confidenciar que não me andava a sentir muito bem. O médico não ligara importância aos meus infindáveis enjoos matinais ao início da gravidez e agora ignorava tudo o que eu dizia. Laura parecia tão compreensiva, mas, enfim, aquilo não tinha que ver comigo. Decidi não lhe pedir conselho e fui-me embora percebendo que ela aguardava apenas que eu saísse para mergulhar na resposta do meu irmão à notícia de ter um filho.

* * *

Nessa noite, Clodagh e Anne foram a minha casa ver televisão e, depois de ter sucumbido a várias tonturas, era de facto a única coisa que me apetecia. Seán, Richard, Tom e mais uns amigos tinham ido ver um jogo amigável da Irlanda. Notara que Seán andava muito mais bem-disposto desde a viagem e falei nisso a Clo. Porém, ela não ligou nenhuma a Seán e ao seu humor. Queria era saber o segredo que eu guardava.

– Não tenho segredo algum – neguei, corando.

– Emma – disse ela –, olha-te ao espelho.

Não era preciso. Olhei para Anne à procura de apoio, mas ela, em vez de me encarar, começou arrancar cotão da almofada. Fraquejei. Muito bem, admito que não demorei muito. Estava desejosa de me aliviar do meu fardo. Quase jurava que a informação guardada me tornava ainda mais gorda.

– O Noel é pai.

Clodagh quase caiu da cadeira. Anne olhou para mim com se eu fosse doida.

– Estás a gozar connosco! – retorquiu Clodagh, mais por hábito do que por pensar que o facto de Noel ser pai era motivo para riso. – A Laura? – perguntou, com aquela extraordinária capacidade que tinha para se recordar dos ínfimos pormenores da vida privada de alguém.

– Quem é a Laura? – quis saber Anne, confusa e já um bocadinho irritada.

Foi só nessa altura que me lembrei que nem sequer falara com Anne sobre Noel e o seu caso amoroso. Partilhara esse segredo só com uma pessoa e não com várias, mas, à fria luz daquela nova informação, a minha atitude era vista como tudo menos justa. Clodagh, percebendo de imediato que metêramos o pé na poça, ficou infelizmente sem conseguir articular palavra.

– Eu não devia ter dito a ninguém, por isso só disse à Clo – expliquei, esperançosa.

– Ah! – fez Anne, assentindo. – Muito bem. – Continuou. Aquilo nunca era bom sinal.

Clo acrescentou de repente:

– E só me contou a mim por acaso.

– Por acaso? – repetiu Anne, não acreditando numa palavra. – Como é que isso funciona? Será que a Emma te começou a falar do seu dia e, de repente, surgiram as palavras «o Noel anda embrulhado com alguém» na boca dela?

Clo ficou encurralada.

Então saltei com esta:

– Anne, ele fez-me jurar que não dizia nada a ninguém.

– Pois, já disseste. Então só contaste à Clo.

– Pois – respondi, cansada. Estava demasiado grávida para aguentar aquilo.

– À tua melhor amiga Clodagh. Claro, porque não lhe contarias a ela? Mas a mim, bem, quem sou eu? Eu limito-me aos bastidores, a apoiar o Espectáculo Clo e Emma! – começou a levantar-se.

Aquela explosão apanhara-me tanto a mim como à Clo de surpresa e nenhuma de nós estava preparada para responder. Percebi que ela se ia embora.

– Anne, não se trata disso.

Clodagh concordou, mas Anne não via as coisas assim. Agarrou no casaco.

– Sabem, estou farta de ser o pneu sobresselente. – Chegou à porta antes de Clo poder impedi-la.

Eu continuava enfiada no sofá, a tentar pôr-me de pé.

– Mas o que se passa contigo? – Clo agarrou a porta e atirou-lhe as palavras à cara, da maneira como sempre confrontava as pessoas.

– Estou farta de vocês! – rugiu Anne. – Estou farta de vocês e do vosso clubezinho privado!

– Anne, não sejas ridícula, não existe nenhum clubezinho privado – declarou Clo, calmamente e talvez um pouco de forma depreciativa, segurando na porta.

A Anne tivera que baste. Tentou puxar a porta, mas Clo não a deixava sair, por isso sucumbiu. Irrompeu em lágrimas, soluçando com toda a mágoa que lhe ia no coração. Todo o agravo anterior desapareceu e Clo ficou profundamente confundida com a desolação da amiga. Por fim, eu conseguira levantar-me do sofá. Abracei Anne, imaginando que por vezes mais vale o toque do que mil palavras. Encaminhei-a para o sofá e assegurei-me de que se sentava antes de mim. Clo foi atrás de nós. Aguardámos então que Anne nos dissesse o que realmente se passava.

– A inseminação artificial não deu resultado. O esperma do Richard não é apenas fraco, possui também graves problemas de mobilidade.

– E ele não pode fazer nada para melhorar isso? – perguntei, chocada.

– E dizes tu que não te contamos nada – proferiu Clo antes sequer de pensar.

Lancei-lhe um olhar furioso.

– Desculpa, foi estúpido dizer aquilo – observou a Clo.

– Não. Tens razão. Lamento imenso. Estou apenas desapontada com tudo e nem sequer posso desafogar com o Richard, porque ele já se sente demasiado mal com a situação. Ando a dar em doida. – Parara de chorar, embora a dor estampada no seu rosto me causasse arrepios.

– Tenho tanta pena, Anne – disse eu, cruzando os braços numa tentativa patética de esconder a minha barriga de grávida.

– Não se pode ter tudo – retorquiu ela, esforçando-se por sorrir, mas não conseguindo.

– Claro que podes ter tudo! – retorquiu Clo, nada realista. Anne e eu olhámos para ela, aguardando resposta.

– Vocês são ricos. Existem imensas crianças por aí que precisam de pais. Preencham alguma papelada, sabes, adoptem uma criança.

Sorriu-nos. Anne olhou para mim e fiz um gesto de assentimento, concordando em silêncio que Clo tinha tendência para tornar as coisas demasiado simples.

– O que foi? – perguntou ela, olhando para ambas.

Anne confessou que, apesar de ter dito que adoptaria uma criança se não pudesse ter filhos, lá no fundo acreditara sempre que poderia e teria. Desejara tão desesperadamente ter um filho seu, dá-lo à luz, criá-lo… Eu compreendia-a. Apesar de a gravidez estar longe de ser um mar de rosas, eu não trocaria a minha condição por nada no mundo. A primeira ecografia, o primeiro pontapé, o sentimento de ter um ser humano a crescer perto do meu coração. Compreendia-a. Clo também. Recordava o sentimento de vazio quando perdera o bebé. Deixámo-nos ficar sentadas no sofá, Anne ao meio e Clo e eu de cada lado, abraçando-a, e a Anne chorou até já não ter mais lágrimas para chorar.

* * *

Passara um mês desde a viagem de Seán a Nova Iorque e ainda não havia notícias de Noel. Eu ia com oito meses e meio de gravidez e andava exausta. Na minha última consulta, o médico revelara que estava perigosamente anémica e, apesar de as palavras «perigosamente» e «anémica» terem sido bastante chocantes, grande parte de mim sentia-se justificada. O médico não pareceu preocupado por aí além. Receitou-me um medicamento com ferro que sabia a chulé e deu-me uma lista de alimentos à base de ferro. Tinham passado duas semanas desde a consulta e embora estivesse a sofrer de uma desagradável flatulência, sentia-me bastante melhor.

Eram oito e meia e precisava de ir para a escola.

– Seán! – gritei lá para cima.

Ouvi-o debandar à pressa da casa de banho.

– Tenho de ir – lembrei.

No meu estado, não podia conduzir, por isso dependia de Seán para me levar aonde precisasse, sendo que chegava atrasada a todo o lado.

– Desce-me essas escadas antes que te mate! – gritei-lhe, parecendo a minha mãe quando eu era adolescente.

– Está bem – disse ele, obedecendo. – Não há problema, gorducha!

Ameacei dar-lhe um pontapé. Ele observou que eu estava demasiado gorda para levantar a perna, e dirigimo-nos para o carro. Eu andava indisposta, maldormida, sempre a fazer chichi e sentia dores em zonas antes desconhecidas do meu corpo.

– São as contracções de Braxton-Hicks – explicara Doreen no dia anterior ao tomar chá em minha casa comigo e com a minha mãe.

A minha mãe concordou.

– Sem dúvida, são as contracções de Braxton-Hicks.

– É apenas o corpo a preparar-se para o parto – acrescentara Doreen.

A minha mãe concordou e prosseguiu:

– Não te preocupes, querida. Provavelmente vais passar o fim do tempo. Eu passei duas semanas, contigo e com o Noel.

– Estremeceu e virou-se para Doreen. – Tiveram de me induzir o parto das duas vezes.

Doreen abanou a cabeça tristemente.

– Quando foi do Damian, também tiveram de me induzir. Foi um pesadelo – disse.

A minha mãe anuiu.

– Porque pensas que só tive dois filhos?

Doreen assentiu e bebeu um gole de chá.

Vão-se lixar as duas!

Ficaram caladas durante um momento abençoado até Doreen se lembrar que tinha algo a partilhar connosco.

– No meu último parto, a epidural não resultou – disse. – Só fez foi atrasá-lo. Estive dezanove horas a tentar expelir aquela criança. Tinha mais de quatro quilos e, sabem uma coisa, trinta e cinco anos depois é um magricelas e um preguiçoso.

A minha mãe desatou a rir, apesar de eu não ver onde estava a graça.

– A Emma foi difícil – informou ela a Doreen. – Nada de epidural, vinte e uma horas em trabalho de parto e tirada a ferros. Tive de me sentar sobre numa almofada de borracha durante um mês. – Sorriu por alguma razão que só ela sabia.

– E dizem eles que esquecemos! – Doreen riu-se.

Para mim bastava.

– Muito bem, está na altura de as senhoras irem para casa.

Ambas olharam para a chávena de chá meio bebida e para a fatia de tarte de maçã meio comida.

– O que se passa? – perguntou a minha mãe, sinceramente confusa.

– Não quero ouvir as vossas historiazinhas de treta. Está bem? Não quero ouvir dizer que me vão meter a mão na passarinha. Não quero ouvir falar sobre mulheres cheias de dores. Nem sobre epidurais que não funcionam, almofadas de borracha, bebés de quatro quilos e sobre o pesadelo que é induzir o parto. Prefiro não saber.

Sorriram uma para a outra com ar sabedor e Doreen foi a primeira a falar.

– Querida, no nosso tempo ninguém nos dizia nada. A primeira vez que se fazia amor era mais uma espécie de experiência do que verdadeiro sexo. Na segunda vez a maioria de nos engravidava e quando entrávamos na sala de parto era um terror. A ignorância nem sempre é uma bênção.

Nem o conhecimento é.

Claro que a minha mãe concordou com Doreen e acrescentou ainda que a minha geração tinha muita sorte, com o que em parte concordei e, assim que acabaram o chá e a tarte, lamentei o que ia acontecer às minhas partes íntimas.

* * *

Íamos no carro e eu estava invulgarmente calada.

– Ooooh – gemi.

– O que foi? – perguntou Seán, abrandando.

– Não é nada. São apenas as contracções de Braxton-Hicks – expliquei, esfregando o flanco.

– Braxton quê?

– É só o corpo a preparar-se para o parto – expliquei.

– Muito bem – disse ele.

– Aaaah! – gritei.

– Credo! Tens a certeza de que estás bem? – perguntou, receoso.

Eu devia ter gostado da sua preocupação, contudo, tinha dificuldade em conter a vontade de o magoar.

– Emma, estás bem? – Estalou os dedos junto à minha cara por qualquer razão desconhecida.

– Tirando o facto de ser uma baleia com tornozelos inchados, mãos gordas, dores nas costas e uma bexiga com o tamanho de uma ervilha, estou óptima. Não podia estar melhor!

Ele riu-se.

– Ah, linda menina!

Sorri, contrariada.

Sacaninha sexy!

* * *

Era a minha primeira aula depois do almoço. A manhã passara como habitualmente. As dores das contracções de Braxton-Hicks iam ficando cada vez mais próximas, e cada vez mais dolorosas. Começava a pensar que não me tinham informado bem.

– Peguem no Silas Marner e abram na página cento e quinze – anunciei para um queixume geral. Precisava de me sentar.

– Muito bem, ontem pedi-vos que lessem o capítulo dezassete. Preciso que alguém se levante e nos conte o que leu, o conteúdo da história, o que pensa sobre a história. – Sentia dores, verdadeiras dores que queimavam como fogo. – Aaaai! – foi tudo o que consegui dizer.

Declan levantou-se lá ao fundo da sala.

– Está bem, stora? – perguntou.

– Estou sim, Declan. Oooooh! – Dobrei-me.

Subitamente precisei de me levantar. Declan aproximou-se a correr e ajudou-me.

– Estou bem. – Tentei sorrir mas senti uma vaga de dores, fiz uma careta e praguejei. – Ai com um caraças! Porra!

A turma riu-se. Declan mandou-os calar e pediu a Mary Murphy que chamasse o director e uma ambulância. Queria andar, mas era-me extremamente difícil. Declan aguentou o meu peso a cada contracção e começou a esfregar-me o fundo das costas. Eu estava cheia de dores, mas ainda consciente para me sentir mortificada pelo facto de um aluno me estar a massajar o cimo do rabo, mas, por estranho que pareça, aquilo ajudava-me. Os outros alunos rodearam-me; as raparigas pálidas e os rapazes mais brancos ainda. Alguns tiveram de se sentar.

Então, aconteceu, quando Declan tentava ajudar-me a sair da sala. Rebentaram-me as águas. Senti um jorro sair de mim e depois ouvi um jorro cair no chão e por fim olhei para o chão e vi o jorro espalhar-se como uma minitorrente. Patrick Hogan desmaiou.

O director entrou afogueado e seguido por uma excitadíssima Mary Murphy.

– Entrei em trabalho de parto – confirmei, antes de sucumbir a outra vaga de dores insanas.

Declan assumiu o comando.

– Senhor director, as águas da stora acabaram de rebentar. Está a ter contracções de cinco em cinco minutos. Acho que vai ter o bebé.

Eu recuperara o suficiente para o ouvir.

Ai, meu Deus, que é agora!

– Sim, obrigado, Declan – respondeu o director, num tom arrogante. – Daqui em diante tomo conta do assunto – disse, peremptório.

dar.

Outra pontada.

– Ai, meu Deus – gritei quando o director me tentou ajudar.

– Tem de lhe massajar as costas, senhor director! – gritou Declan.

– Sim, pois – respondeu o director, e então começou a dar-me palmadas nas costas como se estivesse a pôr um bebé a arrotar.

Nem pensar, não me ia entregar às mãos daquele homem. Parei e ele continuou a tentar arrastar-me.

– Declan! – gritei. Depois virei-me para o director e pedi-lhe que se fosse embora. Ele olhou-me, sem ter a certeza. – Quero o Declan. Ele sabe do assunto. O senhor não.

Foi um pouco duro, mas havia um bebé a tentar sair do meu corpo, por isso senti que não era altura para paninhos quentes.

A ambulância chegou e foi Declan que entrou comigo. Dei ao director a lista de pessoas a contactar, avisando-o de que estava a encarregá-lo de um trabalho de grande responsabilidade. Assim, enquanto Declan me ajudava com a respiração, o meu chefe ficou com a tarefa de ligar a Seán, Anne e Clo, aos meus pais, aos pais de Seán, a Doreen e, para ser justa, o homem até conseguiu localizar Noel e eu nem tinha bem a certeza de onde ele estaria.

Na sala de parto, as dores começaram a ser cada vez mais fortes. Nada as acalmava. Pedi uma epidural, mas estava já com demasiada dilatação. Declan agarrou-me na mão. Eu chorava, com medo de que Seán perdesse aquilo.

Declan tentou consolar-me.

– Ele não vai faltar, stora! – disse.

– Ele chega sempre atrasado! – gemi.

Declan ignorou-me, ergueu o olhar e sorriu. Segui-lhe o olhar e vi Seán, desgrenhado e orgulhoso.

– Nem sempre! – disse Seán, já com a bata e preparado para ajudar ao parto.

Senti-me como se fosse aparecer sem querer num mau programa ou talvez tivesse inalado gás a mais ou ar. Declan disse que agora era connosco, mas perguntou se podia dar uma olhadela antes de sair.

– Não! – gritámos eu e Seán ao mesmo tempo.

Ele sorriu.

– Então boa sorte!

Foi-se embora e ninguém disse: «Corta!»

Ai, meu bom Jesus, vou ter um bebé!

* * *

Uma hora mais tarde, a parteira fazia pressão sobre a minha barriga e o obstetra gritava: «Força!» Na verdade, nem precisava, pois o maldito anestesista ainda não aparecera com a minha epidural e o instinto fazia-me fazer força.

– Já vejo a cabeça, Emma! – exclamou o médico.

– Ai, meu Deus! – gritei.

Seán estava como que hipnotizado.

– Meu Deus! – repetia ele vezes sem conta. – Estou a ver a cabecinha! Vejo a cabecinha, Em!

Ele ria. Eu queria gritar até a minha cabeça tombar para o lado, como nos filmes, mas descobri que nem tinha vontade nem energia.

– Agora faça mais uma vez força. Vamos lá, Emma! – Ouvi, por entre as minhas pernas.

– Ai, meu Deus! – rugi.

E, subitamente, lá estavas tu deitadinha na minha barriga, toda coberta de uma substância gelatinosa, com muito cabelinho, três quilos e meio – cinco dedinhos em cada mão e cinco em cada pezinho. Choravas e vi um sol púrpura como o que aparecia nos meus sonhos. Seán chorava e anunciava a tua chegada enviando mensagens. O médico sorria e a parteira sorria para ti e não consigo descrever o que sentia. Levaram-te para te examinarem e te lavarem e eu senti a tua falta.

Adoro-te.

E a seguir devíamos ver no ecrã: E viveram felizes para sempre.

Seán foi atrás de ti pelo corredor para o médico poder acabar e eu fiquei para ali, em choque, a pensar uau! vezes sem conta, mas, então, aconteceu a coisa mais estranha desta vida. Senti as pernas molhadas e algo jorrou de dentro de mim, em poucos segundos, e então comecei a ver muitos pontinhos à minha frente. Pestanejei e os pontos tornaram-se maiores. Senti os ouvidos como que tapados, como se acabasse de submergir. O meu médico gritou para a enfermeira. Pensei ouvir a palavra

«rasgar». Houve uma grande barafunda e muito barulho à minha volta, e, apesar de me encontrar numa espécie de bolha, sentia que a sala se enchia. Uma enfermeira ao meu lado ajustou a cama. A minha cabeça foi descida, as pernas levantadas, o meu sangue e o meu coração abrandaram de ritmo.

O que está a acontecer?

Depois disso, todos os que se encontravam à minha volta foram ficando cada vez mais distantes, até tudo acabar por se desvanecer num negrume imenso. Acontecera que a placenta se rasgara, a perda de sangue era grande e isso complicou-se ainda mais devido à minha anemia – fácil para o médico diagnosticar, mas difícil de controlar.

Seán pegava em ti ao colo quando a enfermeira lhe foi dizer o que se passava comigo. Ele quase te deixou cair. Ela agarrou-te com força e ele correu atrás da enfermeira até onde me deixara minutos antes. A sala agora parecia diferente, fora invadida por máquinas enquanto ele se ausentara, e eu estava envolta em tubos. Vários monitores iam fazendo bip-bip ao som do ritmo dos meus órgãos a abrandar. Ele mostrou-se estóico, incrédulo, abanou a cabeça de um lado para o outro; não era possível, aquilo não estava a acontecer.

Os meus pais chegaram, tendo saído de casa a correr mal leram a mensagem «É uma menina!» Tinham feito a viagem no tempo recorde de vinte minutos, e o meu pai corria atrás da minha mãe corredor fora. Uma enfermeira fê-los parar e subitamente o balão que a minha mãe levava na mão elevou-se até ao tecto, solto, quando ela perdeu a força nas pernas.

Era tão estranho. O quarto desvanecera-se e, contudo, eu via tudo o que se passava. Vi a enfermeira enrolar-te num cobertor, com o teu pai a olhar para ti, a cinco portas de distância da sala onde eu estava. Vi quando ele quase te deixou cair e, se eu não estivesse quase a morrer, o susto ter-me-ia matado. Vi-os entubarem-me e Seán a observar, sem conseguir respirar, e senti o coração dele apertado, e ouvi-o a bater. Vi os meus pais discutirem sobre quanto dinheiro porem no parquímetro do hospital.

Não era apenas o hospital. Vi Clo encantada com a notícia e a enviar-me uma mensagem do carro a dizer-me que já ia a caminho. Anne chorava, na cozinha, enquanto Richard a consolava dizendo: «O nosso dia há-de chegar.» Noel, algures, rodeado de deserto, parou para se virar e fitar o espaço.

– Emma? – disse ele antes de atravessar o meu corpo sem consistência.

Então, compreendi. Oh, não, algo de terrível está a acontecer.

Depois, o nada.

* * *

Andava perdida num vasto jardim rodeada por flores exóticas que despontavam de uma areia verde e macia. Olhei para o ambiente surreal em que me encontrava e ri-me. Já passara algum tempo desde a última visita. O bom e velho arbusto ardente brilhava com o fulgor de sempre. Dirigi-me a direito para o sol púrpura a pairar sobre uma árvore de mil ramos que lhe captava o brilho. Fazia calor e eu estava feliz. Então, lá ia subindo a colina e aguardando que me atirassem o sol giratório. O monte tornou-se plano sob os meus pés e ao aproximar-me da árvore florida começou a soprar uma brisa suave que a trouxe à vida. As familiares papoilas azuis dançavam entre a folhagem espessa que continuava a enrolar-se nos ramos cor de cereja. Esperei por John.

– Olá, gorducha! – chamou, sorrindo, fazendo o sol saltitar como se fosse Magic Johnson.

Ri-me. Só havia duas pessoas que me podiam chamar «Gorducha». Ele estava na mesma. Apenas eu mudara. Ele caminhou até mim e abraçámo-nos.

– Estás linda! – Ele sabia sempre o que dizer.

– Seán diz que sou como um bom vinho.

– Hum, frutado!

– És um fantasma, deixa de namoriscar! – ri-me.

– Nunca é tarde de mais. – Sorriu.

– Acabei de ter um bebé – lembrei-me.

– Eu sei. É lindo.

– Pois é, é mesmo.

– Já tens algum nome?

– Tenho muitos, mas ela não se parece com nenhum deles. Ele atirou a cabeça para trás e riu alto.

– Mulheres. As mulheres dão cabo de mim. Como pode uma pessoa parecer-se com um nome?

– Parece-se, pronto. – Olhei-o com maus modos, mas ele não deu importância.

Estávamos de novo a caminhar, de mãos dadas. Ele ia à frente e eu deixava-me levar como uma criança curiosa.

– Tu viste-a. Como achas que se deve chamar? – perguntei.

– Deborah.

– Por favor, não me faças dar à minha filha o nome da primeira estrela de rock que te fez ter vontade de te masturbares.

Ele sorriu.

– Ah, a Debbie Harry.

– Animal! – resmunguei. – Doíam-me as virilhas e sentia as pernas pegajosas. Ignorei isto, preferindo olhar em volta à espera de ver aparecer a estrada amarela.

– Qual é a versão feminina de John? – perguntei.

– Joan.

– Oh, não lhe vou chamar isso.

– Eu não chamaria.

– E que tal Joanne? – sugeri.

– Joanne… – Repetiu. – Pois, gosto de Joanne.

– Eu também.

– Qual é o nome que o Seán lhe quer dar?

Sorrio.

– Ele queria chamar-lhe Bindy, por isso não tem voto na matéria. – Rimo-nos enquanto seguíamos até à estrada amarela.

– Tenho de arranjar O Feiticeiro de Oz para a Joanne – disse eu, com um sorriso.

John estacou e olhou para mim com ar sério.

– Queres sapatinhos de rubi?

– Vá lá, então, visto que é uma ocasião especial.

Ele sorriu e os sapatos apareceram nos meus pés, brilhantes e muito mais vermelhos do que eu me lembrava. Deslizei ao seu lado e ele riu-se novamente, com aquele sorriso franco e os olhos a recordarem-me como costumava ser.

– Aonde vamos? – perguntei, imaginando se não haveria também um Espantalho no assunto.

Ele sorriu como resposta e súbita e espantosamente lembrei-me de que não deveria ali estar. Parei.

– Morri?

– Ainda há tempo – respondeu.

– Ainda bem. – Suspirei. – Vou morrer?

– Não sei.

– Oh, meu Deus, não quero morrer!

Surgiram muros à nossa volta e em breve estavam cobertos com imagens do nosso passado. Dei por mim concentrada na noite em que nos beijáramos pela primeira vez. John apertou-me a mão enquanto víamos os nossos eus mais jovens, entretidos num beijo desajeitado.

– Não fazíamos mesmo ideia – disse John, sorrindo.

Hoje não. Não posso morrer hoje.

Fiz um gesto de assentimento, distraída, e prosseguimos caminho para ver novas fases da nossa vida, parando para as apreciar como se fôssemos críticos numa exposição de arte, interessados num quadro qualquer. Era o dia em que recebêramos o diploma de formatura. Encontrávamo-nos debaixo de uma árvore perto do campo de basquetebol. Ríamos e eu saltava de entusiasmo. Depois começámos aos beijos e já o fazíamos melhor. À nossa volta havia colegas de um lado para o outro, mas nós estávamos sozinhos no nosso mundo, entregues um ao outro.

Virei-me para ver John concentrado no muro atrás de mim. Voltei a olhar para a imagem em que nos beijávamos sob a árvore, perto do campo de basquetebol, e John voltou para o meu lado.

– Esse demora um bocado. – Sorriu e pegou-me na mão.

– Não posso morrer – disse eu, muito calma.

– Ainda tens tempo – repetiu ele.

– Tu tiveste tempo? – perguntei.

– Não – confessou, e depois fez-me virar para o muro.

Vi-me a mim própria alagada em sangue enquanto o médico tentava reanimar-me com choques no coração. Vi o rosto de Seán, a envelhecer, e senti o coração dele a arder de dor, sentado de cabeça baixa, como na noite em que perdêramos John. Vi os meus pais desolados, em desespero. Vi Clo apoiada em Tom, calada, mas implorando-me em silêncio que voltasse à vida.

Eu quero voltar.

Vi-te a ti, com menos de uma hora de vida, sozinha num berço, já esquecida.

– Não a posso abandonar – disse, e John pareceu triste. Então, ouvi a voz do meu irmão, algures, a rezar de joelhos no meio de um deserto:

Pai nosso que Estais no Céu,

Santificado seja o Vosso nome,

Venha a nós o Vosso reino,

Seja feita a Vossa vontade,

Assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje;

Perdoai-nos as nossas ofensas,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,

E não nos deixeis cair em tentação,

Mas livrai-nos do mal. Ámen.

– Noel! – chamei, mas não o via.

Via o médico a recarregar as almofadas do desfibrilhador.

Virei-me e John desaparecera.

– John! – chamei, em pânico.

Ele apareceu à distância.

– Aonde vais?

Piscou-me um olho e apontou para o horizonte longínquo.

– Para a Cidade Esmeralda! – riu-se.

– Mas eu preciso de ti! – gritei, com um olho no muro. As malditas almofadas pareciam levar uma eternidade para recarregarem.

– Já não – disse ele.

– Amo-te! – gritei.

– Amar-me-ás sempre – riu-se e desapareceu.

– Agora! – gritou o médico e ouvi o bip-bip, bip-bip e depois, mais nada.

* * *

Quando acordei, já tinhas vinte e quatro horas de vida. Perdera o teu primeiro dia. Chorei por muitas razões, mas principalmente por causa disso. Prometi que nunca mais perderia nada de ti, mas, enfim, essas promessas são impossíveis de manter. Seán, o teu pai, achava impossível largar uma de nós. Pegava em ti ao colo enquanto agarrava na minha mão.

– Não podia perder-te – não parava ele de dizer.

– Não estaria perdida – respondi.

A verdade é que poderia ter morrido e quem sabe porque não morri. Talvez não fosse a minha hora; talvez John tivesse dado uma palavrinha ao Feiticeiro, ou Deus tivesse escutado as preces mais sinceras de Noel. Talvez tenha sido apenas sorte. Fosse o que fosse, ainda cá estou. Por vezes, penso em John e sorrio. Fico feliz por ele te ter dado o nome e até o teu pai admite que Joanne é um nome muito melhor do que Bindy.