Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 19 de 26

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Estarás Sempre Comigo

18 Música no coração, peitos de silicone e Bruce Willis

18

Música no coração,

peitos de silicone e Bruce Willis

 

O Natal estava a chegar e eu andava um bocado agitada. Tinha de ir pelo menos a três festas de Natal, às quais era obrigada a assistir, e entrei numa batalha para comprar presentes para toda a gente, por entre as multidões, os embrulhos, ultrapassando o crédito do meu Visa, «Jingle Bells», a fila nos correios durante quatro horas, a correcção dos testes de Natal e, por todo o lado, a chata da música dos Wham «Last Christmas» a ouvir-se na rádio de cinco em cinco minutos, culminando com o dia de Natal passado com os meus pais a lutar pelo comando da televisão. Pelo menos, Noel vinha a casa. O resto quase não valeu a pena. Encontrava-me atarefada a embrulhar presentes quando o telefone tocou.

– Estou?

– Emma… crrrr, crrrr…

– Estou? – crrrr, crrrr…

Abanei o telefone, como fazia sempre que tinha problemas com a linha. Nunca ajudara em nada, mas parecia pelo menos que eu estava a fazer alguma coisa para resolver a situação.

– Emma… crrrr, crrrr. Sou eu, o Noel.

– Noel, és tu? – crrrr, zzzzz, crrrr.

– A linha está muito… crrrr, crrrr, crrrr…

– Noel, meu Deus! De onde estás a ligar? É tão bom ouvir a tua voz! – Zzzzz. – Raios partam a linha.

– Goa bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

– Estás bem? Crrrr, crrrr, crrrr. Quando vens para casa?

– Em, não vou. Crrrr, crrrr, crrrr… Diz… crrrr, crrrr … que… crrrr, crrrr… Desculpa. Gostava… crrrr… mas ligo depois… crrrr… dia.

– O quê? Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Não vens a casa?

– Senti-me desfalecer.

– Eu… crrrr… tempo… crrrr… amo-te… crrrr… estou crrrr.

– Tu o quê?

– Bem!

– Eu também te amo! – gritei.

A chamada interrompeu-se.

– Porra!

Como é que eu iria contar aquilo aos nossos pais?

Oh Noel, por favor vem para casa!

Senti-me aborrecida e depois irritada, e, a seguir, muito zangada. Ele tinha-me telefonado a dar as más notícias, por isso seria eu quem teria de as transmitir aos nossos pais. Sabe Deus o que ele andaria a fazer em Goa e eu estava completamente abandonada à fúria dos meus pais quando soubessem.

Isso é algo que eu faria.

Decidi resolver o assunto o mais depressa possível. Enchi um copo com vinho do Porto e telefonei para casa.

Maldito Natal.

* * *

Pelo menos havia algo de positivo na época. Clo, Tom, Seán e eu íamos a Kerry passar o ano com Anne e Richard, e eu estava ansiosa por isso. Tinha imensas saudades deles e mal podia esperar para ver a casa onde moravam e sair de Dublin. Estava entusiasmada com a ideia, por isso planeei sorrir e aguentar o resto. Esse era o plano – a realidade seria algo de muito diferente.

Tom abrira a sua própria empresa de design gráfico, o que significava que também organizara uma festa de Natal da empresa. Clodagh tentou aliciar-nos a participar.

– Vai ser bom – disse ela.

Eu não queria ir e queixei-me em voz alta. Ela mandou-me calar. Tinha passado mais de um mês desde Paris e, assim que regressáramos a Dublin, o meu antigo eu anti-social voltara ao de cima. Ela estava farta disso.

Seán não se queixou – andava com uma disposição festiva. Conhecera alguém de Nova Iorque que estivera a trabalhar na revista durante dois meses. Ela era do tipo de mulher executiva, loura, alta e com peito grande. No fundo, o pior pesadelo da maioria das mulheres.

Apesar do seu voto de nunca mais voltar a sair com uma colega de trabalho, ele aparentava estar embeiçado e precisava de uma desculpa para a convidar a sair. A festa de Natal de Tom era a desculpa perfeita.

Eu estava a preparar-me. A campainha da porta tocou. Desci a correr as escadas amaldiçoando o homem da piza. Era Seán. Estava adiantado.

– Estás adiantado – disse, enquanto tentava secar o cabelo com uma toalha.

– Sim – concordou. – Tive uma reunião ao final da tarde na cidade.

– Como correu? – perguntei, correndo escadas acima, sem esperar pela resposta.

Ele pôs-se à vontade. O homem da piza veio e ele pagou-lhe. Cheguei lá abaixo quinze minutos e meia piza depois. Ele levantou o olhar da caixa quase vazia.

– Estava com fome – disse.

Sentei-me e comecei a comer o restante.

– Então como correu? – insisti, desta vez à espera de resposta.

– Correu bem. – Mas não parecia contente.

– O que se passa?

– Nada.

Aquilo era irritante. Eu sabia que ele tinha algo para me contar. Sabia sempre quando ele começava com hesitações.

– Então?

– Então… – repetiu ele.

Caraças, é como falar com a minha mãe. Olhei para ele com um ar severo.

– Está bem – rendeu-se. – O meu chefe chamou-me ao seu gabinete e perguntou-me se eu gostaria de uma promoção.

Fiquei encantada.

– Oh, meu Deus! Isso é óptimo. Parabéns. Qual é o trabalho?

Ele não sorriu.

– Editor – respondeu, com ar infeliz.

– Uau – disse eu, cautelosamente. – Espantoso.

– Sim – retorquiu. – O mal é que serei editor de uma das revistas do grupo. Terei de ir viver para Londres.

Deixei de sorrir.

– Londres – repeti.

– Sim – disse ele, enquanto olhava para o meu chão limpo.

– Londres, Inglaterra? – Saiu-me.

– Não, Londres, Espanha. – Quase se riu.

– Uau. – Depois repeti a palavra «Londres» porque estava a ter dificuldade em aceitar o facto. Senti um nó na garganta. Oh meu Deus, vou começar a chorar. Para me ocupar com qualquer coisa, peguei na caixa da piza e pu-la no caixote do lixo, depois voltei-me para fazer café. Ele estava em silêncio.

– Isso é óptimo – disse-lhe.

– Achas? – perguntou, a medo.

– Que tal é o ordenado? – continuei, adiando uma resposta.

O que deveria eu dizer? Não vás?

– É bastante dinheiro – respondeu.

Seán adorava Dublin. Ao contrário da maioria de nós, nunca se queixara da sujidade nem dos autocarros atrasados. Vivia na Dublin de Joyce. Reconhecia a beleza daquela cidade tão antiga, o velho, o novo, as tradições, o seu povo e, claro, os bons prazeres irlandeses, o nosso craic. Até se entusiasmava quando aguardava na praça de táxis em Dame Street. Olhava em volta, observando a glória do Banco Central e do Trinity College, as duas obras de arte de betão que estavam mais próximas dele.

– Foi aqui que o Stoker pensou pela primeira vez na ideia do Drácula – contara-me ele uma vez.

Recordava-me de ter rido numa noite fria em que ele apontara para o Central Bank iluminado em toda a sua glória.

– Consegues perceber como estes edifícios o inspiraram, não consegues? – perguntara, vendo algo que eu nunca veria.

Ele iria ter imensas saudades de Dublin e eu iria ter saudades dele. Não me queria virar porque os meus olhos começavam a ficar marejados.

– É uma boa oportunidade – disse ele.

Enfiei a cabeça no frigorífico, fingindo dificuldade em chegar ao leite.

Não chores. Sê uma boa amiga. Isto não tem que ver contigo.

Virei-me com o leite na mão.

– Que grandes novidades. Devias estar muito orgulhoso. Fico muito feliz por ti. – Sorri, esperando ser convincente.

Ele olhou para baixo.

– Óptimo.

Tentei animar-me.

– Então quando vais partir? – perguntei, receando a resposta.

– No fim de Janeiro.

– Tão cedo?

– Tão cedo – concordou ele.

Senti o coração partir-se enquanto sorria abertamente.

– Olha que bom.

Ele queria ir-se embora, então chamou um táxi enquanto eu fingia procurar um batom. Sentei-me na cama e quis chorar. A minha cabeça parecia pesada como chumbo por isso agarrei-a entre as mãos.

– Porra! – desabafei para a parede.

Que posso fazer? Não posso pedir-lhe que fique. Isso seria egoísta da minha parte. Não posso dizer-lhe que perdê-lo seria insuportável, porque não sou a sua namorada. Somos apenas amigos.

Já tinha saudades dele e sentia-me adoentada, mas tínhamos de ir a uma festa. Pus mais batom. O táxi chegou e fomo-nos embora.

Chegámos depois das nove. A festa estava animada. Clo já bebera uns copos a mais.

– Bebi demasiado ao jantar – confessou ela. – E não comi o suficiente. A galinha sabia mal. – Riu-se. Conseguiu perceber que eu não lhe achara piada. – Porra! Quem te enfiou um garfo pelo…

Interrompi-a.

– O Seán vai-se embora.

– Ele acabou de chegar – observou ela.

– Vai mudar-se para Londres em finais de Janeiro.

Ela ficou sóbria momentaneamente.

– Estás a gozar.

– Achas que estou a gozar contigo?

– Pediste-lhe que ficasse? – perguntou ela.

Fiquei surpreendida.

– Claro que não. Não tenho nada que ver com isso. – Estava irritada com a pergunta e perguntei-me se ela estaria a acompanhar a nossa conversa ou a ter uma conversa muito própria na sua cabeça. – Por que raio iria eu pedir-lhe que ficasse?

Ela pôs as mãos no ar.

– Por nenhuma razão, Emma. Nenhuma razão de todo. Vou ao bar – disse, e foi-se embora.

Que raio fora aquilo?

* * *

Tom entretinha-se a falar com um elemento feminino da sua equipa. Ele sorria enquanto ia fazendo conversa fiada e eu não tinha interesse algum naquilo.

Clo desaparecera e, por instantes, questionei-me se ela já se teria retirado para o vestiário para dormir uma soneca. Olhei em volta e tomei um gole da minha vodca. Seán estava no bar a falar com a colega loura.

Cabra.

Ele apanhou-me a olhar para eles. Sorri, embaraçada, e depois olhei em volta fingindo que procurava Clo. Acabei a bebida. Tom deu conta e apareceu outra como que por magia. Clo voltou.

– Onde foste? – perguntei.

– Precisei de ir fazer chichi. Há quanto tempo está o Tom a falar com ela?

– Não há muito.

– Cabra! – sussurrou.

– O que fiz eu agora? – perguntei, incomodada por me ter dado ao trabalho de sair.

– Não és tu. Ela! – apontou para a mulher com quem Tom falava.

Perguntei qual era o problema e ela contou-me que Tom costumava sair com aquela rapariga.

O que importa isso? O Seán vai mudar-se para Londres.

– Então?

– Então. Ela é uma cabra – respondeu.

Tom voltou à mesa com as mãos no ar.

– Só estava a falar com ela.

Clo fingiu não saber do que ele falava.

Tom sorriu-nos.

– É uma festa de Natal e eu já me dava com ela há muito tempo antes de te conhecer. É uma rapariga simpática que está noiva de um mediador de seguros – disse ele, com doçura.

Ela sorriu, encantada.

– Tenho a certeza de que ela é muito simpática. No entanto, para mim vai ser sempre uma cabra – disse ela com sinceridade.

– E porquê? – perguntou ele.

– Meteu a língua na tua boca.

Ele assentiu e pareceu arrumar o assunto. Sorriu. E depois pôs a língua na boca dela. Ela soltou uma risada e começaram aos beijos. Clo possuía a capacidade espantosa de estar aos beijos e contudo conseguir aviar mais quatro bebidas. Eu ainda ia na minha segunda. Observar Seán e a loura a namoriscarem estava a deixar-me indisposta. Não conseguia desviar os olhos deles. Ele tinha as costas voltadas para mim, por isso pareceu-me suficientemente seguro, isto até a cabra loura dar conta e o avisar. Ele voltou-se para dar de caras com a sua audiência e eu sorri, levantei-me e fui ter com eles, mortificada.

– Olá – disse eu. Apertei a mão dela. – Sou a Emma. Estive à espera de uma apresentação, mas sabes como é o Seán! – Sorri, mas era um sorriso estúpido.

– Julia – respondeu ela de chofre e apertámos a mão.

Perguntei-lhes se queriam uma bebida. Disseram que não.

– Fixe – respondi.

Fixe – o quê, tenho catorze anos? Depois disse a mim mesma que era uma idiota.

Precisava de ir à casa de banho.

Clo agarrou-me pelo caminho.

– Vais à casa de banho?

– Sim.

– Graças a Deus. Os meus dentes de trás estão a flutuar

– admitiu, apoiando-se na minha manga. A meio caminho dobrou-se, então amparei-a durante o resto do caminho. Segurei-a enquanto esperava na fila interminável. Ela perguntou-me o que pensava sobre a loura de Seán. Disse-lhe que não sabia.

– Acho que ela é óptima – observou.

Larguei-a e ela caiu no chão.

– Não é justo! – Abanou o dedo enquanto se levantava.

– Desculpa – murmurei, e voltei a segurá-la. – De qualquer forma, como sabes?

Endireitou-se e percebi que via quatro de mim.

– Nunca falaste com ela.

Ela discordou. Aparentemente, Julia chegara à festa uma hora antes de Seán e de mim.

– As americanas são tão independentes, não são? – observou.

– Estás a gozar comigo? – perguntei, irritada.

Ela riu-se.

– Não percebes mesmo. – Atirou a cabeça para trás, batendo na parede. – Ai! – Massajou a cabeça. – Oh, meu Deus! Estou tão bêbeda. Porque não comi eu a galinha?

Éramos a seguir na fila, por isso puxei-a para o cubículo e sentei-a na sanita.

– Não quis dizer aquilo antes. Ela é mesmo uma merda – murmurou, enquanto fazia chichi sonoramente.

Sorri. Ela tinha imensa piada quando estava bêbeda.

– Ainda assim, gostaria de saber onde comprou ela aquelas mamas – disse eu, algo melancólica.

Clo começou a rir-se e caiu para um dos lados. Fi-la endireitar-se.

– Foi dinheiro bem gasto – sublinhou ela.

Consegui rir, pela primeira vez naquela noite.

– Olha, Em?

– Sim?

Achas que as pessoas se vão importar por estar a fazer chichi no lavatório?

– Tu não estás a fazer chichi no lavatório.

– Oh, ainda bem. – Assentiu com a cabeça e passei-lhe o papel higiénico.

Comprei-lhe uma garrafa de água na volta. Ela sentou-se a bebê-la e a fazer-me OK com os dedos a toda a hora. Acabou por recuperar o suficiente para Tom pegar nela e levá-la para a pista de dança, onde começaram a dançar Lady in Red.

Bebi a minha vodca com Coca-Cola. Devo ter parecido uma coitadinha abandonada porque se aproximou um homem bêbedo e gordo, num fato vermelho, e perguntou-me se eu queria beijar o Pai Natal. Recusei educadamente o convite.

– Vá lá. Como pode resistir a isto? – perguntou ele enquanto empurrava as virilhas para a frente. – Quer dançar? – insistiu.

Respondi que não novamente e tentei virar-lhe as costas, mas a mesa cheia de bebidas tornava isso difícil.

– Venha lá. Parece tão triste aqui sentada.

Agora começava a irritar-me.

– Não estou triste – disse eu entre dentes, mas ele não se ia embora.

– Vá lá! É Natal. Solte-se, por amor de Deus!

Foi a gota de água. Rebentei pelas costuras.

– Escute, meu amigo, um não não significa está bem, não significa talvez, e muito menos perguntar-me tal coisa novamente. Prefiro parecer a maior falhada do mundo a dançar consigo e sentir vómitos. Por isso, faça um favor aos dois e desapareça!

Ele absorveu o meu pequeno discurso.

– Fufa – disse antes de se ir embora.

Retomei a compostura e olhei em volta à procura de Seán. Ele estava a um canto a beijar a cabra loura. Senti-me mal. Procurei Clo, que abanava o capacete com a música dos Europe

«The Final Countdown».

Peguei no casaco e dirigi-me a ela.

– Clo, vou para casa.

Ela olhou para mim, aparvalhada.

– Para casa?

– Sim. O sítio onde vivo. Está a ficar tarde.

Ela ficou alerta.

– Chamaste um táxi? – Pegou na minha mão.

– Apanho um na rua – respondi, tentando escapar.

– Espera – disse ela. – Não vais conseguir apanhar um táxi na rua a esta hora.

Ela tinha razão, mas eu precisava de sair dali.

– Fico à espera na praça. Preciso de ar fresco. Eu fico bem – respondi.

Ela abraçou-me.

– Eu estou bêbeda e tu és uma parva, às vezes, mas adoro-te – disse ela, sorrindo.

– Obrigada! – respondi, afastando-me.

Tom fez-me adeus com a mão. Não me despedi de Seán. A fila na praça de táxis era interminável. Fazia imenso frio e eu só queria chegar a casa. Era apenas uma caminhada de vinte minutos por isso pensei «que se lixe», e fui pela rua fora. George’s Street estava agitada, repleta de gente a tentar apanhar táxi e a rogar-lhes pragas quando passavam sem parar. Estuguei o passo e, à medida que ia andando, as ruas tornaram-se mais escuras e as pessoas desapareceram. De repente, encontrava-me completamente por minha conta.

Era a história da minha vida.

Acelerei ainda mais o passo e ia a passar por um beco quando ouvi um grito. Virei-me. Escutei outro grito abafado e depois um baque. Parei e retive a respiração, esforçando-me por perceber o que se passava.

– Cala-te, sua cabra de merda! – rugiu a voz de um homem.

Ouvi uma rapariga a chorar.

– Por favor – implorava ela.

Ouvi uma pancada seca e depois a rapariga novamente a chorar. Não pensei. Apenas tirei as mãos dos bolsos e fui até ao beco. Ele encontrava-se deitado em cima dela. Ela tinha a blusa rasgada, o rosto ferido e os braços presos. Ela olhou para mim com os olhos bem abertos, implorando com as suas lágrimas. Ele tentava abrir a braguilha e ela gritou. O homem então tapou-lhe a boca com a mão enquanto eu assistia à cena. Era como se estivesse no pesadelo de outra pessoa. Aproximei-me. Não consegui evitar. Parecia arrastada por uma força qualquer. Ele não me deve ter ouvido aproximar. Estava demasiado ocupado a puxar as cuecas dela e a grunhir. Odiei-o com todo o meu ser. Quis desesperadamente magoá-lo. Ele baixou o fecho com a mão livre e proferiu alguns palavrões em voz baixa. Observei o beco e os meus olhos pousaram no cabo de uma vassoura. Dei três passos e apanhei-o. Ele ouviu-me e olhou em volta. Corri até ele e comecei a bater-lhe, dura e cegamente. Ele saiu de cima dela e ergueu as mãos para se proteger. Continuei a bater-lhe com o cabo da vassoura. A rapariga tentou arrastar-se para longe e deitou-se no chão junto da parede, agarrada às costelas e a gemer.

– Levanta-te! – gritei para ela. – Levanta-te já!

Eu continuava a bater no homem.

Ela estava petrificada, mas começou a levantar-se lentamente, cheia de dores. Ele rebolou e deu um salto. Continuei a bater-lhe desalmadamente, mas ele agora defendia-se. Os nossos olhares cruzaram-se. Ele sentia-se inseguro. Eu não tinha medo – na verdade, estava empolgada com a perspectiva de o deixar inconsciente.

– Anda cá, monte de merda!

De súbito, eu era o Bruce Willis de vestido.

– Vais arrepender-te! – ameaçou ele, num tom venenoso.

Enganava-se redondamente. Não me arrependi de nada.

Bati-lhe num lado da cabeça com o cabo da vassoura. Ele caiu contra a parede. Bati-lhe outra vez. Ele tropeçou. Depois fiz a coisa mais estúpida e inacreditável. Larguei o cabo e corri até ele. Agarrei-o pelos testículos e apertei-os com quanta força pude. Ele caiu e eu aproveitei. Esmurrei-o na cara, não uma, não duas, mas três vezes. Ele gemia e não iria levantar-se por algum tempo. A rapariga estava apoiada contra a parede, chorando. Peguei-lhe na mão e fugimos do beco para a rua principal. Vi um homem e a namorada a andar na nossa direcção de mãos dadas e comecei a gritar, até não poder mais.

– Socorro! Socorro! Socorro! – gritei vezes sem conta.

A rapariga caiu ao chão.

– Ajudem-nos! – berrei.

Assim o fizeram. Chamaram a polícia. Nós fomos levadas para o hospital. Ela fora espancada. Os lábios sangravam, tinha as costelas partidas e a cara ferida. O meu punho doía-me imenso e a cabeça também. Encontrava-me em estado de choque, mas, à parte isso, estava bem. Fiquei na sala de exames, atordoada e desorientada, enquanto um médico estagiário ligava o meu punho inchado.

O que se passa?

O médico saiu e um polícia entrou com um bloco de notas.

– Olá, lembra-se de mim? Jerry? – perguntou.

– Olá, Jerry – respondi eu automaticamente.

Ele sorriu-me.

– Bom, Emma, a sua amiga está a recuperar muito bem. Vai ficar boa.

– Não a conheço – murmurei. – Encontraram-no?

– Não, querida – respondeu –, ele desapareceu.

Perguntei-me como teria ele conseguido andar com os testículos quase na boca, mas não partilhei a minha preocupação.

– Aquela rapariga tem muito que lhe agradecer – disse o polícia. – Mas, para que conste, nunca é boa ideia enfrentar um maníaco sozinha. Devia ter pedido ajuda.

Ele tinha razão. Não discuti. Não acreditava no que fizera. Começava a ficar com um galo na minha cabeça. Não conseguia perceber.

– Ele não chegou a tocar-me – disse eu.

– Provavelmente você agrediu-se sem querer com o cabo da vassoura.

– Não lhe disse que tinha o cabo da vassoura – retorqui, desconfiada.

– Sim, disse, ali no corredor, há cinco minutos.

Não me lembrava.

– Está em choque.

– Ah – respondi, desejando estar em casa e na cama.

– Quer que chame um médico? – perguntou ele.

Eu devia estar com péssimo aspecto.

– Onde é que ela está? – perguntei.

– Encontra-se no raio X. A mãe está com ela.

– Óptimo – respondi.

– Lembra-se de algum pormenor sobre o homem? – perguntou ele, provavelmente não pela primeira vez.

Não me recordava. Lembrava-me apenas da rapariga. Não sabia se era alto ou baixo, velho ou novo, louro ou moreno, preto ou branco. Não me recordava de uma única coisa sobre ele. Sentia-me embaraçada e frustrada com a minha incapacidade para ajudar.

– Tudo bem – disse ele. – Foi uma longa noite. Quem podemos chamar para a vir buscar?

– Seán. – O seu nome foi o único que me veio à cabeça.

* * *

Seán chegou pouco depois das cinco da manhã. Jerry fê-lo entrar. Percebi logo que não lhe tinham contado o que sucedera. Olhou para a minha mão ligada e para o inchaço na minha testa.

– Meu Deus! O que te aconteceu?

– Estou bem – disse-lhe, profundamente aliviada por vê-lo. – Desculpa tê-los feito chamarem-te. Não consegui pensar em mais ninguém. – Sentia-me embaraçada. Jerry ainda estava ali. Seán apercebeu-se disso.

– Eles contaram-te o que aconteceu? – perguntei.

Ele estava a ter dificuldade em perceber aquilo tudo.

– Não – respondeu, olhando para Jerry. – Disseram-me apenas que te viesse buscar. Foste atacada? – Parecia estar com receio de ouvir a resposta.

– Não – sorri. – Eu é que ataquei.

Ficou espantado. Voltou-se para Jerry.

– Meu Deus! Ela está presa?

Jerry sorriu. Tentei interromper, mas Seán estava muito sério.

– Emma, eu resolvo já isto. – Voltou-se para Jerr y. – Lamento imenso, ela nunca fez nada disto antes, e o ano passado foi muito complicado para ela.

Jerry começou a rir.

– A sua amiga não está presa. Na verdade, alguns diriam que ela é um herói, ou será antes uma heroína? – Piscou-me o olho.

Sorri, grata por ele encarar a minha estupidez com tanto apreço.

Seán interrompeu-nos.

– Desculpem, alguém pode explicar-me o que se passa aqui?

Jerry decidiu dar-nos algum tempo.

– Dei uma sova a um violador – expliquei. Ele parecia não perceber o que eu dizia, por isso, continuei: – Ia a passar ao pé de um beco, ouvi um grito… o homem estava a tentar violar uma rapariga, então peguei no cabo de uma vassoura e …

– Vassoura? Cabo?

– Sim, e bati-lhe com isso. Depois peguei nele pelos tomates e esmurrei-o na cara até ele cair no chão e nós fugirmos.

Tudo aquilo naquele momento parecia surreal, até para mim. Doía-me imenso a cabeça, sentia o meu punho a arder e, por alguma razão, as lágrimas começaram a escorrer-me pela cara.

– Meu Deus, Emma – disse ele, baixinho. – Podias ter morrido.

Sentou-se na cadeira e lembrou-me do quão louca eu era.

– Eu não a podia abandonar – choraminguei.

– Eu sei – disse ele, mas a sua voz tinha um tom fatigado.

Comecei a soluçar. Ele puxou-me e abraçou-me com muita força, enquanto eu chorei durante o que me pareceu uma eternidade.

* * *

O médico examinou a minha cabeça e deu-me alta. Eu queria ver a rapariga, então Seán levou-me ao segundo piso onde ela ficara internada e a dormir num quarto privado. Olhei através do vidro para a mãe, que se encontrava sentada a olhar para a filha. A senhora tremia e parecia destroçada. Lembrei-me do que era estar assim. A rapariga estava num sono induzido por drogas. Não fazíamos falta ali, por isso fomo-nos embora.

Sentámo-nos nos degraus da sala das urgências à espera de um táxi e partilhámos um cigarro.

– O que é feito da Irlanda, terra dos santos e eruditos? – perguntou Seán.

– Eles bazaram e construíram a América – respondi.

O táxi encostou.

– Vamos para casa.

Ele levantou-me. No táxi, perguntei para onde tinha ido Julia. Ele disse-me que ela não fazia o seu género, e ficámo-nos por ali.